Sabrina
Fernandes: ‘Flávio Bolsonaro é Jair Bolsonaro piorado’
A
situação brasileira hoje é muito similar ao que aconteceu nos Estados Unidos
dois anos atrás, argumenta a socióloga e economista Sabrina Fernandes. Na terra
do Tio Sam, Donald Trump tentou um golpe de estado e não teve sucesso, mas
voltou fortalecido e saiu empoderado da última eleição para fazer um segundo
mandato muito mais radical.
Aqui no
Brasil, o ex-presidente que tentou um golpe, Jair Messias Bolsonaro, foi
condenado. Isso não impediu seu filho, Flávio Bolsonaro, de concorrer como
representante do bolsonarismo e sair em primeiro lugar no primeiro turno das
eleições.
Com um
Congresso a seu favor e a capacidade para abrir processos de impeachment contra
ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, no Senado, Flávio Bolsonaro vai
poder fazer um governo Jair Bolsonaro 2.0, turbinado.
O risco
para a democracia é real. Sejam as promessas de mudança na Constituição ou a
defesa de anistia para todos que tentaram um golpe contra o estado democrático
de direito entre 2022 e 2023, os sinais de um segundo mandato bolsonarista mais
autoritário estão aí.
Na reta
final das eleições, o Intercept Brasil organizou uma edição especial da coluna
No Fim do Túnel, da socióloga e economista Sabrina Fernandes. No lugar dos
textos de análises, fizemos uma conversa sobre eleições.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Estamos chegando na reta final de um
segundo turno marcado por censura e interferência de big techs. Tentar explicar
racionalmente pontos de campanha e de projeto de governo é cada vez mais
difícil. Sabrina, sobre o que a gente ainda pode conversar nessa reta final?
Quais alguns temas centrais que a esquerda pode abordar?
Sabrina
Fernandes — Houve uma expectativa talvez um pouco otimista por parte do campo
democrático [que falar de corrupção funcionaria contra Flávio Bolsonaro]. E é
bom que você colocou como campo democrático, porque não é só a esquerda e o
campo progressista, são pessoas que têm preocupação com autoritarismo e o
fechamento do regime que pode vir com Flávio Bolsonaro presidente e um
Congresso muito dominado por seus aliados, principalmente pelo PL.
Saiu a
pesquisa recente do Datafolha agora, mostrando que as pessoas estão preocupadas
com segurança pública, questões de economia e questões de saúde.
Um
ponto fácil para falar de segurança pública é a questão do armamento. A gente
sabe que a maioria esmagadora dos brasileiros não quer a flexibilização
completa de armas. O governo Jair Bolsonaro fez justamente isso: facilitou que
armas fossem parar nas casas de famílias e que crianças tivessem acesso por
conta de um descuido. Você ser CAC [Caçador, Atirador e Colecionador] nem
significa que você sabe manusear uma arma. Virou uma bagunça.
Há uma
preocupação muito grande com essa violência cotidiana, especialmente das
mulheres. Quando a gente fala do aumento de feminicídio no Brasil, é importante
[ressaltar que] esses dados surgiram durante o governo Lula, quando isso não
foi empurrado para debaixo do tapete, quando trouxeram políticas públicas
relacionadas a isso.
A gente
precisa falar por que as mulheres estão morrendo. Elas estão morrendo porque
tem conservadorismo, tem homens que são muito machistas e que estão se sentindo
cada vez mais em posse das mulheres – que às vezes nem se relacionam com esses
homens, mas talvez disseram “não” uma vez ou outra. Há espaços para entrar
nesse assunto.
[No
caso da] economia, eu voltei em um vídeo meu de 2022, quando eu ainda tinha
canal no YouTube, em que eu citava algumas promessas de campanha que o Lula
estava fazendo. Ele cumpriu todas em relação à economia, tratando de
endividamento da população e de cuidado com as pessoas em relação a uma
tentativa de promover justiça tributária no Brasil. Nós temos ângulos. A gente
precisa bater nessas teclas.
• Estamos num ano em que todos os
indicadores tradicionais da economia, como inflação e desemprego, estão bons.
Falar desses números parece não ter tanto efeito. O assunto que tem dominado o
bate-papo econômico nos últimos tempos é um tema espinhoso e complicado: a
dívida pública. A grande mídia está muito preocupada e até pessoas normais
estão falando de dívida pública. Por que isso está mexendo tanto com as
pessoas?
A
palavra dívida é uma palavra ruim, negativa. As pessoas já colocam isso na
cabeça e falam: “Meu Deus, o país tá endividado”. Então, por mais que [o
Brasil] esteja melhor em termos de emprego, de valorização do salário mínimo,
com programas para lidar com as dívidas pessoais e com dívidas de pequenos
empreendedores, a ideia de uma dívida pública dá a noção geral na cabeça da
pessoa de que o estado está desgovernado.
O que
eu tenho resolvido conversar com as pessoas é: você sabia que a dívida pública
dos Estados Unidos é muito maior do que o seu PIB? Lá o comprometimento com a
dívida pública tá passando de 100%, chegando a 120% do PIB. É um PIB muito
maior e tem, sim, muito gasto desenfreado.
O
estado dos Estados Unidos não é enxuto, ele é completamente enviesado. É só
olhar para o poder militar dos Estados Unidos. Vai gastar muito ali, mas dando
isenção fiscal, cortando impostos dos mais ricos. Aqui a gente entra no ponto
sobre o Brasil.
Nós
temos planos e trabalhamos nos últimos anos para poder taxar os mais ricos.
Isso incomodou esse empresariado, e é por isso que eles estão fazendo campanha
ativa contra a reeleição de Lula e a favor de Flávio Bolsonaro, dizendo “tá
vendo, as contas não estão em dia”.
A gente
quer colocar as contas em dia. A gente precisa investir mais em saúde, educação
e segurança pública, a gente quer colocar o estado a favor das pessoas, mas
para isso a gente precisa de recursos. Não vamos tirar esses recursos dos mais
necessitados.
É claro
que o número [de comprometimento do PIB pela dívida pública] não é o que está
pegando a pessoa. O que está pegando é pensar: “Nossa, o Brasil tá endividado,
ele está desgovernado”. Então a gente tem que explicar que isso é um mecanismo
muito normal de atuação do estado, existe no mundo inteiro. Os Estados Unidos
têm uma dívida pública maior do que a do Brasil.
Quando
o estado se endivida, ele faz isso para investir em você, investir na
população, ou ele está fazendo isso para poder ajudar os mais ricos, que no
final das contas vão querer cortar esses serviços assim que possível? É o que
eles esperam com o governo do Flávio Bolsonaro.
• O Flávio dá muitos sinais diferentes.
Para o mercado [financeiro], ele fala que vai cortar tudo. Obviamente, na
campanha ele fala que não vai cortar nada, que o salário mínimo vai continuar
tendo valorização real. É viável esse plano do Flávio? Quando ele fala de [se
inspirar no plano econômico de Javier] Milei, é motivo para se preocupar?
Se a
gente estivesse falando de qualquer outro candidato do PL com outro nome, outro
sobrenome, outra família, pareceria esquisito. Mas Flávio Bolsonaro é Jair
Bolsonaro. Quando a gente fala do legado de um, é o governo do outro que está
sendo proposto. Não tem divisão aqui.
Jair
Bolsonaro promoveu isso. Flávio Bolsonaro quer continuar nessa linha. Ele não
precisa falar literalmente que vai cortar dinheiro das universidades públicas.
Seria uma péssima campanha fazer isso. Ele está fazendo campanha, então ele não
vai dizer literalmente que vai tirar dinheiro da Farmácia Popular. Mas o pai
dele tirou.
Quando
você reduz o orçamento dessa forma, falando dessa cifra de R$ 200 bilhões, vai
sair de onde? “Vamos tirar um ministério ou outro”. Não tem nenhum
ministériozinho que você arranca, ele é completamente desnecessário e o gasto
some.
Algo
que já vem do legado de Jair Bolsonaro é tirar de um lugar, como Farmácia
Popular, e facilitar as emendas parlamentares. Então você perde completamente a
noção, a ordem e a estratégia das contas do governo e entrega para indivíduos
que estão ali para se reeleger e favorecer seus aliados locais.
O que a
gente vê é que Flávio Bolsonaro vai desmontar uma lógica de investimento do
estado brasileiro, e quem sofre primeiro são aqueles mais dependentes dos
serviços públicos imediatos.
Todo
brasileiro usa o SUS, mesmo aquele que não vai no postinho de saúde, que paga
um plano de saúde ou faz atendimento particular, porque o sistema de saúde está
basicamente no ar. Se as pessoas não são vacinadas ao seu redor, isso também te
afeta. A gente está falando de algo que é sistêmico e, se você corta por aqui,
todo mundo acaba sendo afetado.
A gente
viu o efeito disso com as mortes em excesso na pandemia. O Brasil teve mortes
acima do que seria a média esperada para a nossa população. Eu sempre pergunto
para as pessoas: Se a gente tiver uma outra pandemia — e as estatísticas estão
aí, o planeta vai passar por novos riscos de epidemia e de pandemia, porque é
assim que a mudança climática e a exploração animal industrial funcionam —,
quem está preparado para lidar com isso? Alguém que quer investir na população
ou alguém que vai fazer cortes transversais para todo lado, dizendo que está
enxugando o estado?
No caso
das universidades públicas, os estudantes brasileiros estão corretíssimos em se
mobilizar desde agora. Já está havendo perseguição do Flávio Bolsonaro até para
cima da presidência da UNE [União Nacional dos Estudantes]. Cadê o aspecto
democrático de poder liderar, de poder protestar? Ele já está começando isso
agora. Imagina se esse cara é eleito.
Os
estudantes estão corretíssimos, os professores têm que se juntar nessa pauta.
Porque se você está flertando com a ideia de pegar os institutos federais e as
universidades federais e colocar no bolo do Ministério de Ciência, Tecnologia e
Inovação, que tem orçamento e infraestrutura muito menores, isso é um desmonte.
• Sabrina, você fez uma relação, que até o
próprio Flávio faz, entre ele e o pai dele. Esse é um governo de continuação,
mas muita gente não vê assim. Ele
realmente é esse Bolsonaro que não vai brigar com a imprensa e vai ser
moderado? Por que essa impressão pega tão forte para as pessoas?
Eu acho
que a impressão pega forte porque Jair Bolsonaro é completamente esdrúxulo.
Qualquer pessoa com um pouquinho mais de palavra polida, um pouquinho mais de
calma parece ser uma pessoa extremamente educada, intelectual e preparada ao
lado de Jair Bolsonaro. Mas quando a gente pensa o que é ser preparado nesse
caso, Flávio Bolsonaro acaba sendo mais perigoso.
A gente
tem que olhar muito essa situação do governo Trump. Então, quando você tenta um
golpe de estado e, mesmo que no caso de Jair Bolsonaro ele esteja condenado,
mas daí você [ou seu grupo político, com Flávio] ainda volta com força, você
fica em primeiro lugar no primeiro turno, você está muito empoderado.
A
impressão que Flávio Bolsonaro, o PL e seu campo tem é que eles podem fazer
qualquer coisa que eles ganham a eleição. Flávio Bolsonaro é Jair Bolsonaro
2.0, e Jair Bolsonaro 2.0 é muito perigoso.
Está
tudo muito mais articulado. Há um governo Trump ocorrendo no exato momento e
uma onda de autoritarismo na América Latina está realmente se espalhando pela
região. [Trump] tem mais aliados, a essa articulação, inclusive [o estrategista
digital ligado a Trump, Milei e Eduardo Bolsonaro, Fernando] Cerimedo, para
eleger Flávio Bolsonaro também parte desses setores.
Desse
ponto de vista, ele é muito mais perigoso, porque chega mais empoderado, com
mais aliados e com essa impressão de “eu falo um pouquinho menos pior do que o
meu pai, eu não sou tão esdrúxulo, eu sou inteligente”.
Isso
pega na cabeça das pessoas que já são antipetistas, que foram moldadas ao longo
de muitos anos para odiar o PT, para odiar o Lula. Embora, se você for
vasculhar ali, conversando com a pessoa, ela apoia muitas pautas que são de
esquerda. Mas ela está presa nesse sistema de despolitização.
• Quando a gente fala de campanha de qual
Brasil a gente quer, estamos falando de desejo, de vontade, de um sonho para um
futuro. Quais são os principais desejos que estão sendo mobilizados nessa
eleição? O que mexe com uma pessoa a ponto de fazer ela sair de casa para
votar, já que estamos falando de 33 milhões de abstenções pelo país?
Eu
gosto de mencionar a campanha do Zohran Mamdani lá em Nova York. É claro que a
gente está falando do âmbito municipal, então a escala é muito diferente, os
poderes são muito diferentes e é um outro país. Mas eu vi muita gente,
erroneamente e superficialmente, atribuindo o sucesso da campanha do Mamdani
simplesmente à sua tática de comunicação, com uma equipe incrível e excelente
uso de redes sociais. Aí ficam dizendo: “Tá vendo? O Lula tem que fazer
igualzinho”.
Primeiro
que copiar o outro não soa autêntico, então você não vai ter o impacto que
imagina que vai ter. Essa questão de fórmula secreta das redes sociais é muito
preocupante, na minha opinião.
Mas o
Zohran não somente conseguiu mobilizar um discurso e um debate em redes
sociais, ele também colocou voluntários na rua, gente que saía dizendo: “Eu
acredito nesse projeto de governo para Nova York e eu quero conversar com gente
em cada esquina dessa cidade para poder eleger esse cara”. O desejo estava
presente. Não foi no último minuto que ele fez isso, foi desde as primárias que
ele estava plantando esse desejo nas pessoas.
Para
fazer um bom debate, a gente tem que trabalhar com a ideia de futuro e de
qualidade de vida. Quando a gente fala em qualidade de vida, fala de várias
coisas, como sistema público, o que esse ministério faz, coisas muito
distantes, mas qualidade de vida é você poder andar na rua de noite em
segurança. É você, como mulher, pensar: “Olha, eu posso andar quatro
quarteirões tranquila em vez de ter que pagar um Uber só para andar quatro
quarteirões”.
Qualidade
de vida são ganhos muito simples na vida da pessoa. O nosso grande porém é que
ela precisa associar essa política do cotidiano com esse projeto de nação.
Então, a gente ainda tem uma grande lacuna. Mesmo quando você tem um governo
progressista no poder e ele faz coisas boas para as pessoas, aquele impacto que
diminui a sua conta do supermercado não está sendo associado diretamente com
essas políticas que foram colocadas em práticas nos últimos anos, muitas a
grande custo porque estamos lidando com um Congresso de direita.
O que
eu passei o último período escrevendo na coluna foi trazendo também as falhas
do governo Lula, falhas de articulação e de não ousar o suficiente. Nesse
momento do segundo turno, a gente está vendo, finalmente, algumas políticas que
a gente estava pedindo há dois ou três anos. Vamos ousar desde o começo, para
dar tempo para as pessoas absorverem, entenderem e associarem. Se você está
trazendo as políticas meio encavaladas, logo no final, não necessariamente elas
vão associar com o seu projeto político. Talvez elas possam entender
simplesmente como desespero eleitoral.
Por
isso que a gente sempre pede: o governo tem que chegar com pé na porta. Caso o
Lula seja reeleito, agora não tem mais desculpa. Tem que ser com o pé na porta
mesmo. Tem que ouvir a população e ousar ser muito radical. Porque não tenham
dúvidas: se Flávio Bolsonaro for eleito, ele vai chegar com o pé na porta. Ele
vai ter um Congresso a seu favor e prontinho para colocar um STF a seu favor,
também.
Fonte:
Por Eduardo Lima, em The Intercept

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