Avanço
do garimpo no governo Bolsonaro inundou terra Yanomami de armas em mãos dos
“garimpeiros”
pós ser
ferido por arma de fogo, um indígena foi deixado na porta de um hospital em
Roraima. O homem de 53 anos teria sido levado por um garimpeiro até a unidade
de saúde em janeiro deste ano. Esse é um dos 30 casos de indígenas Yanomami que
deram entrada no Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista, com ferimentos por
arma de fogo entre janeiro e agosto de 2026.
Os
dados foram compilados pelo CREDHYY (Centro de Referência em Direitos Humanos
Yanomami e Ye’kwana), iniciativa vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e
da Cidadania, e obtidos com exclusividade pela Repórter Brasil. Os dados se
referem a pacientes removidos das comunidades para atendimento na capital do
estado e não à totalidade dos casos no território.
A
explosão de garimpos ilegais de ouro e cassiterita no governo de Jair Bolsonaro
(2019-2022) causou uma inundação de armas de fogo no território Yanomami. Mesmo
com a queda da atividade garimpeira desde 2023, as armas deixadas pela invasão
geraram um legado de ferimentos e mortes no território Yanomami, apontam
pesquisadores.
“As
comunidades que têm mais conflitos e impactos por arma de fogo são as mais
afetadas pelo garimpo. O garimpo deixou uma ferida que ainda não está fechada”,
explica Maria Molina, coordenadora geral do CREDHYY.
É a
primeira vez que o centro compila os feridos por armas de fogo, por isso não há
registros comparativos de anos anteriores. “Os dados revelam situação de
elevada gravidade, com risco à vida e à integridade física e psicológica das
pessoas e comunidades Yanomami”, afirma o relatório.
“Vemos
pacientes entrando no hospital todo mês”, diz Molina.
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Garimpo deixou ‘rastro das armas’
Elena*
mora no Xitei, região de fronteira com a Venezuela. “As armas aumentaram muito
onde os garimpeiros estavam”, conta. Seu sobrinho morreu após levar um tiro.
“Mataram ele usando as munições trazidas pelos garimpeiros. Eu sobrevivi e
fiquei sozinha”.
Segundo
o relatório Yanomami sob Ataque, da Hutukara Associação Yanomami, a aproximação
dos garimpeiros das comunidades do Xitei se intensificou em 2021 e ocorreu com
“aliciamento de jovens a partir de promessas de mercadorias e armas”.
Maria,
que vive em outra região afetada pelo garimpo ilegal, perdeu seis pessoas da
família durante a crise humanitária provocada pela invasão garimpeira. “Os que
os garimpeiros não mataram, a malária terminou de matar”, lamenta.
Em
janeiro de 2023, o colapso do sistema de saúde levou à declaração de situação
de emergência sanitária na TI Yanomami. Desde então, ações de combate às
atividades ilegais levaram a uma redução de 95,7% na abertura de novas áreas de
garimpo, segundo o Ministério dos Povos Indígenas.
No
entanto, a violência persiste no território. Um levantamento do Ministério da
Saúde registrou 18 mortes por armas de fogo em 2022 e 24 em 2023. Os dados
incluem óbitos ocorridos nas comunidades e em hospitais na cidade, após a
remoção dos feridos.
Um
relatório publicado neste ano pela Hutukara Associação Yanomami, pela
Associação Wanasseduume Ye’kwana e pelo ISA
(Instituto Socioambiental) registrou pelo menos dois ataques contra
indígenas Sanöma, povo que vive na porção norte da Terra Indígena Yanomami, na
fronteira com a Venezuela. Em maio, um indígena “teria sido ferido gravemente
por um garimpeiro”. Em agosto, um garimpeiro teria “assassinado com arma de
fogo” outro Sanöma.
“São
esses os rastros dos garimpeiros, os rastros das armas”, conta Elena.
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Armas aumentaram a letalidade dos conflitos
A
entrada de armas de fogo no território não é uma novidade. O antropólogo
Rogério do Pateo estuda esse fenômeno entre os Yanomami. Em sua tese de
doutorado, defendida em 2005, ele aponta que as espingardas “potencializam a
letalidade” de conflitos internos antes travados com artefatos menos letais. “O
que era pra ser uma flecha, vira um tiro no peito”, disse em entrevista à
reportagem.
A
chegada recente de armas como pistolas pode agravar esse cenário. “Quando chega
essa loucura de invasão garimpeira, vira uma barbárie”, ressalta o antropólogo.
Para o
sociólogo Rodrigo Chagas, além dos danos ambientais, o garimpo provoca divisões
entre as comunidades indígenas ao cooptar parte delas e acirrar conflitos com
as que rejeitam a atividade ilegal.
“Essas
relações conflitivas ficam também quando o garimpeiro sai. Retirar o garimpo é
o primeiro passo, mas essas relações ficam no território. As armas, os
celulares, o vício em álcool e outras drogas, tudo isso vai gerar uma série de
desdobramentos que são muito violentos”, explica Chagas, professor da Universidade Federal de Roraima
e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Manifesto
contra Flávio Bolsonaro
Mulheres
Yanomami se reuniram na comunidade de Rokori no final de setembro com outras
lideranças femininas de 30 comunidades e 9 regiões do território. Preocupadas
com a retomada do garimpo, elas lançaram um manifesto em vídeo contra a eleição
de Flávio Bolsonaro para a Presidência, que, segundo elas, carrega o “caminho
sujo” de seu pai, Jair.
“Quando
Bolsonaro era presidente, ele deixou nossa floresta ser invadida por
garimpeiros. Quando havia muitos invasores, eles nos mataram e por isso
vivíamos fugindo”, diz a carta assinada pelas 60 mulheres presentes no
encontro.
A
Repórter Brasil procurou a campanha eleitoral do candidato Flávio Bolsonaro,
mas não obteve resposta até a publicação.
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Aumento da violência agravou colapso na saúde
No auge
da invasão garimpeira entre 2021 e 2022, quando cerca de 20 mil garimpeiros
estavam no território, pelo menos seis postos de saúde foram fechados ou
destruídos, aponta um relatório do MPF (Ministério Público Federal).
Em um
dos casos apontados pelo MPF, uma missão de saúde que atenderia os indígenas no
polo Hakoma, em outubro de 2022, “teve que ser cancelada por questão de
segurança, devido a conflitos armados”.
Meses
antes, em abril de 2022, o posto na região do Xitei foi fechado após um
“dramático conflito armado” que provocou a morte de três Yanomami. No primeiro
mês após a desativação da unidade de saúde, cinco crianças morreram, segundo o
relatório.
O Xitei
foi uma das regiões mais afetadas pelo garimpo e pela violência. Ali, os
garimpeiros exploravam ouro e cassiterita – a matéria-prima do estanho, metal
estratégico para a indústria de tecnologia.
As
frentes de garimpo se instalaram ao lado das comunidades indígenas,
comprometendo o acesso à água potável e a produção de alimentos nas roças
tradicionais. Das 284 crianças atendidas no posto de saúde, 207 estavam
desnutridas, de acordo com dados de abril de 2022 compilados pelo MPF.
“Muitas
mulheres começaram a trabalhar, peneirando cassiterita e também procurando ouro
com a bateia. Tinha uma cantina muito grande. E os Yanomami compravam coisas e
pagavam com cassiterita”, relata Elena.
Sem
comida, os indígenas passaram a buscar cassiterita para trocar por ferramentas
e alimentos.
“Eles
[garimpeiros] começaram a vender frango e muitos Yanomami se alegraram à toa”,
contou Sônia, que também mora na região. “Eu não quero que meu filho cresça
para depois ser ameaçado e assassinado”.
*Os
nomes das indígenas foram alterados por questões de segurança
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Justiça eleitoral nega transporte a indígenas no Amazonas; líderes criticam
A
Justiça Eleitoral negou o pedido da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale
do Javari), do Amazonas, para oferecer transporte fluvial gratuito a moradores
de aldeias da região no dia do segundo turno das eleições, marcado para o
próximo domingo (25).
A
decisão é da juíza Dalethe Borges Messias, da 42ª Zona Eleitoral, em Atalaia do
Norte (AM), e foi publicada nesta terça-feira (20).
“A
gente recebe a decisão com muita preocupação”, diz Eliésio Marubo, advogado
indígena e procurador jurídico da Univaja. “O sufrágio é um direito
fundamental, e esse direito não está sendo garantido, uma vez que o poder
público é que deve organizar essa estrutura logística para que todos exerçam
com tranquilidade seus direitos”, complementa. A organização avalia recorrer.
Na
decisão, a juíza reconheceu o direito dos indígenas ao transporte, mas
considerou que o pedido foi apresentado fora do prazo previsto nas regras
eleitorais do “Seu Voto Importa”. Instituído neste ano pela Justiça Eleitoral,
o programa tem por objetivo ampliar o acesso ao voto e reduzir barreiras de
deslocamento no dia da votação.
A
decisão também cita falta de orçamento e de tempo hábil para organizar a
operação, além de dificuldades logísticas e ausência de informações sobre o
número de eleitores e seus locais de votação.
“Não
há, assim, como cumprir as etapas formais exigidas. Do contrário, seria
organizado um serviço sem planejamento prévio, sem quadro de percursos
publicado e sem oportunidade de impugnação e fiscalização, justamente o que a
lei procura evitar”, escreve a juíza em sua decisão.
Segundo
o TSE, o pedido de transporte deveria ter sido feito até 20 dias antes da
votação — portanto, até o dia 5 de outubro para a eleição de segundo turno.
Em 15
de outubro, porém, o TSE alterou a regra para permitir que os tribunais
regionais analisassem pedidos apresentados fora do prazo, considerando as
particularidades locais e a viabilidade operacional.
O
pedido da Univaja foi protocolado no dia 9 de outubro e recebido pela Justiça
em 13 de outubro.
A
Repórter Brasil procurou o TSE no final da tarde desta terça-feira, mas não
obteve retorno até a publicação.
“Faltou
ampla divulgação [sobre o programa ‘Seu Voto Importa’]. Estamos em uma região
onde carece de tudo, tanto investimento público quanto a comunicação também.
Isso afeta diretamente nosso direito de poder participar do exercício de
cidadania”, diz Manoel Chorimpa, assessor do OPI (Observatório dos Direitos
Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato e liderança Marubo).
O Vale
do Javari ficou internacionalmente conhecido após os assassinatos do jornalista
inglês Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira.
Marubo
afirmou que, em 2012, houve dificuldades para que moradores das comunidades
chegassem às urnas e que uma pessoa morreu na cidade em meio à situação
precária enfrentada por indígenas que se deslocavam para votar. Depois daquele
pleito, segundo ele, foram escolhidas aldeias-polo para receber urnas, com
deslocamento de moradores de comunidades vizinhas.
No
entanto, ele explica que, diferentemente das últimas eleições, em 2026 a
Justiça Eleitoral não procurou a associação para auxiliar na logística de
transporte de eleitores. A Univaja estima que a abstenção entre indígenas do
Vale do Javari tenha ficado entre 30% e 35% no primeiro turno.
“A
gente sempre aguardava as autoridades nos procurar para nos auxiliar na parte
logística. Mas dessa vez o Estado não nos procurou para auxiliar na logística e
diante da proximidade do pleito a gente resolveu fazer essa provocação”,
afirmou Marubo.
A juíza
também apontou a extensão e as condições dos trajetos fluviais, além da falta
de dados sobre eleitores e locais de votação. A decisão nega o pedido para o
segundo turno e determina que o TRE-AM (Tribunal Regional Eleitoral do
Amazonas) e órgãos internos sejam informados para subsidiar o planejamento de
eleições futuras, com consulta prévia às comunidades.
Fonte:
Reporter Brasil

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