quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Coreia do Norte: por que boatos sobre  morte de Kim Jong-um continuam surgindo?

O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, apareceu na imprensa estatal do país com aparência bastante saudável para um homem que enfrentou rumores da sua morte por hemorragia cerebral.

Fotografias publicadas pelo jornal estatal norte-coreano Rodong Sinmun mostram o ditador de 42 anos visitando o que, segundo o jornal, era uma exposição de roupas e calçados, ao lado da sua filha, Kim Ju-ae.

As imagens surgiram horas depois que um dissidente chinês, morador nos Estados Unidos, afirmou, sem provas, que Kim teria sido levado em coma para um hospital em Pequim, na China. E, ali, o líder norte-coreano teria morrido.

Para quem acompanha de perto os acontecimentos na Coreia do Norte, este tipo de rumor já se tornou quase rotineiro. Em um dos Estados mais reservados do mundo, muitas vezes é difícil verificar os fatos, o que cria um campo fértil para as especulações.

Esta última afirmação teve origem com Wanjun Xie, que se identifica como presidente do Partido Democrático Chinês, um grupo proibido pelas autoridades da China. Ele já havia divulgado afirmações não verificadas anteriormente, incluindo especulações sobre a morte do líder chinês, Xi Jinping.

Xie afirmou que Kim teria sofrido uma grave hemorragia cerebral e sido transferido para Pequim, já que a Coreia do Norte não teria os equipamentos médicos necessários para o seu tratamento.

Ele também afirmou que Kim teria morrido posteriormente. Seu corpo teria sido devolvido secretamente para a Coreia do Norte e o regime do país estaria encobrindo sua morte, segundo Xie.

Mas as fotografias contam uma história diferente. Kim é observado examinando vitrines, acompanhado de Kim Ju-ae e do seu grupo habitual de autoridades.

Não há como saber ao certo exatamente quando as imagens foram tiradas, mas existem outros motivos para duvidar da afirmação de Xie.

<><> Sem sinais de confirmação

Provavelmente haveria sinais além das fronteiras da Coreia do Norte, no caso de um súbito colapso da saúde de Kim.

A China poderia reforçar a segurança ao longo da sua fronteira, preparando-se para possíveis instabilidades ou fluxos de refugiados. Poderia também haver aumento da atividade nas missões diplomáticas norte-coreanas.

Os desertores que moram na Coreia do Sul, muitas vezes, recebem informações de redes informais ao longo da fronteira chinesa. Mas nada disso aconteceu.

Já as autoridades de inteligência da Coreia do Sul afirmaram à agência de notícias sul-coreana Yonhap não terem ouvido nada que confirmasse os relatos.

Este rumor também faz lembrar alarmes falsos anteriores.

Em 2020, um conhecido desertor norte-coreano afirmou ter "99% de certeza" de que Kim Jong-un teria morrido após uma cirurgia cardiovascular. E, não muito tempo depois, Kim apareceu em público.

Mas por que estes rumores continuam reaparecendo? O primeiro motivo é a sucessão no país.

A família Kim governa a Coreia do Norte há três gerações. Mas o que irá acontecer depois de Kim Jong-un ainda é mais incerto do que com os seus predecessores.

O primeiro líder norte-coreano, Kim Il-sung (1912-1994), passou décadas preparando seu filho, Kim Jong-il (1941-2011), para assumir o poder. Quando Kim Il-sung morreu, o plano de sucessão estava firmemente estabelecido e a transição para Kim Jong-il foi relativamente tranquila.

Já ascensão de Kim Jong-un foi mais rápida e precária. Seu pai, Kim Jong-il, sofreu um AVC em 2008 e o filho mais jovem foi rapidamente promovido na hierarquia do país.

Três anos depois, quando Kim Jong-il morreu, Kim Jong-un já havia sido identificado publicamente como o futuro líder.

Ainda assim, Kim Jong-un passou anos consolidando seu poder, eliminando seus adversários e outras ameaças que foram identificadas.

Atualmente, a agência de inteligência da Coreia do Sul acredita que ele possa estar preparando sua filha para a sucessão. Kim Ju-ae vem comparecendo cada vez mais a eventos importantes e exposições militares.

Mas acredita-se que ela tenha apenas 13 anos de idade. A Coreia do Norte nunca foi liderada por uma mulher e ela não foi indicada formalmente como herdeira. E sua pouca idade também a deixaria vulnerável em uma eventual disputa de poder.

Todas estas incertezas ajudam a explicar por que os rumores sobre a saúde de Kim atraem tanta atenção.

O segundo motivo é que os rumores não são totalmente implausíveis. Afinal, Kim está acima do peso e é fumante inveterado.

O Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Norte vem alertando repetidamente que seu estilo de vida o coloca em alto risco de doenças cardiovasculares. E já ocorreram AVCs e problemas cardíacos na família Kim.

Se algo acontecesse com Kim, haveria altos riscos para os países vizinhos e para a comunidade internacional como um todo. Uma eventual crise súbita de liderança no país traz sérias questões sobre o controle das armas nucleares da Coreia do Norte e a perspectiva de instabilidade política.

A luta pelo poder levaria os políticos linha-dura a agir agressivamente? A instabilidade poderia despertar uma crise de refugiados ao longo da fronteira com a China?

São questões que preocupam não apenas Pequim e Seul, mas também Washington, que mantém cerca de 28 mil soldados na Coreia do Sul.

As agências de inteligência observam Kim Jong-un de perto e, por isso, estão preparadas para eventuais notícias.

A Coreia do Norte permanece sendo um "buraco negro" de informação. Por isso, o país também é um alvo fácil para notícias falsas.

Apenas um minúsculo círculo tem acesso regular ao seu líder. As próprias agências de inteligência enfrentam dificuldades para obter informações confiáveis.

Grande parte das informações disponíveis trazem fortes ressalvas como sendo fatos não verificados ou altamente prováveis, mas sem confirmação.

O próprio regime também é suspeito de incentivar deliberadamente esta confusão, com o vazamento de informações enganosas para obscurecer o que realmente acontece dentro do país.

Por isso, é difícil acreditar que Wanjun Xie tenha, de alguma forma, esbarrado em alguma notícia significativa, depois de ter escapado daqueles cujo trabalho é acompanhar de perto esta situação.

Ele pode simplesmente estar buscando atenção. Ou pode ter desejado constranger Pequim, destacando seus laços com Pyongyang. Mas estes laços são bem estabelecidos à vista de todos.

Sejam quais forem seus motivos, Xie está longe de ser o primeiro a explorar as incertezas existentes em torno da liderança norte-coreana.

¨      Quem assume o poder na Coreia do Norte após suposta morte de Kim Jong un?

Se os rumores sobre a morte de Kim Jong un se confirmarem, será deflagada uma intensa disputa de poder dentro de um dos regimes mais fechados do mundo, com parentes e chefes militares disputando a cadeira principal. No centro das especulações sobre a sucessão está sua filha, Kim Ju Ae cada vez mais exposta em testes de mísseis e eventos de estado e amplamente vista como a sucessora preparada e sua poderosa irmã, Kim Yo Jong.

As especulações sobre quem sucederá o ditador norte-coreano dispararam após alegações não verificadas de que ele morreu após sofrer um hemorragia cerebral e cair em coma. O país empobrecido provavelmente permanecerá nas mãos da sanguinária família Kim, embora operadores de alto escalão do partido e figuras de segurança possam sustentar uma liderança coletiva para evitar que o estado entre em colapso.

  • Kim Ju Ae: Considerada a herdeira principal por seu treinamento de sucessão e presença constante ao lado do pai.
  • Kim Yo Jong: Irmã mais jovem e possível líder interina em um conselho de regência, conhecida por seu estilo autoritário.
  • Filho Secreto: Presumido primeiro filho do líder, mantido em segredo, serve como 'plano B' dinástico.
  • Liderança Coletiva: Generais e políticos de confiança, como Choe Ryong Hae e Pak Pong Ju, podem assumir papéis de estabilização.
  • Isolamento Externo: A Coreia do Norte pode enfrentar instabilidade diplomática, exigindo figuras experientes em relações internacionais.

<><> Kim Ju Ae: A sucessora designada

Kim Ju Ae é o segundo filho e filha mais velha de Kim Jong Un. Ela é uma figura pública de alto perfil que participa de testes militares estratégicos, grandes desfiles de estado e inspeções de formulação de políticas.

O Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul (NIS) confirmou que ela se formou no treinamento de sucessor e entrou na etapa oficial de 'sucessora designada'. Kim Ju Ae possui a legitimidade essencial da linhagem 'Paektu', e seu posicionamento constante ao lado do pai na propaganda de estado sinaliza sua seleção como herdeira primária.

<><> Kim Yo Jong: A mão de ferro

Kim Yo Jong é a poderosa irmã mais jovem de Kim Jong Un e sua confidente política mais próxima. Ela é membro do Politburo e Diretora no Partido dos Trabalhadores da Coreia (WPK). Ela atua como a voz política internacional principal e a aplicadora do regime.

Especialistas afirmam que ela é ainda mais implacável que seu irmão mais velho e provavelmente governaria com um 'punho de ferro'. O coronel da Marinha dos EUA (aposentado) David Maxwell disse: 'Não vi nenhuma evidência, nenhuma indicação de como ela poderia governar, mas minha especulação, dada a reputação e a história da família, é que ela governaria com um punho de ferro'.

Embora a estrutura profundamente patriarcal do país a torne improvável de se tornar a governante permanente solo, ela é a principal candidata a chefiar um Conselho de Regência, governando como líder interina até que Kim Ju Ae, 13 anos, esteja velha o suficiente para assumir o poder.

<><> O filho 'secreto' rumoroso

O jovem é supostamente completamente escondido da vista pública e suas ações oficiais e estilo de vida são totalmente desconhecidos. É amplamente acreditado pela inteligência global que ele é o primeiro filho de Kim Jong Un (nascido por volta de 2010).

Na sociedade estritamente patriarcal da Coreia do Norte, um primogênito masculino seria tradicionalmente o herdeiro automático. Agências de inteligência notam que ele está sendo bypassado por sua irmã, Ju Ae, possivelmente devido a desafios de saúde ou proteção estratégica.

No entanto, ele permanece uma principal 'política de seguro' para a linhagem sanguínea se o plano de sucessão pública mudar.

<><> Kim Jae Ryong: O pilar do partido

Ele é membro do Comitê Permanente do Politburo e Diretor do poderoso Departamento de Organização e Orientação do Partido dos Trabalhadores (OGD). Ryong também é um leal político de alto escalão e ex-Primeiro-Ministro (2019-2020).

Após recentes mudanças no partido, Ryong foi elevado para liderar o OGD, o órgão que controla nomeações e auditorias de lealdade em todo o estado. Se a linhagem Kim não puder governar, seu controle direto sobre o aparato interno do partido o torna um candidato principal para ancorar um modelo de Liderança Coletiva.

<><> Choe Ryong Hae: O conselheiro de confiança

Ele é Secretário da Organização do Partido e veterano pesador político. Hae é um confidente de longa data da família Kim. Seu filho é casado com Kim Yo Jong.

Por anos, ele foi considerado o insider civil definitivo e chefe nominal de estado. Embora recentes mudanças políticas tenham elevado elites mais jovens, Hae permanece um veterano da elite cuja vasta experiência institucional o torna um candidato ideal para co-liderar uma transição ou servir como uma figura de proa sem ameaça.

<><> Choe Son Hui: A diplomata-chave

Ela é a Ministra das Relações Exteriores e membro do Politburo do WPK. Além disso, Hui é uma emissária diplomática de alto nível e filha adotiva do ex-Primeiro-Ministro Choe Yong-rim.

Ela comanda profundo respeito nos círculos de segurança nacional e lidera as críticas relações estratégicas estrangeiras da Coreia do Norte incluindo diplomacia de alto nível e em tempo de guerra com a Rússia. Em um vácuo de liderança repentino, ela seria vital em um Conselho Coletivo para lidar com a estabilidade internacional e prevenir intervenção externa.

<><> Pak Pong Ju: O tecnocrata estabilizador

Ele é consultor econômico aposentado e ancião de estado. Ju é ex-Primeiro-Ministro de estado que pioneirizou reformas agrícolas e industriais de livre mercado domésticas.

Ele não possui a musculatura militar para tomar o poder individualmente. Em vez disso, sua elegibilidade repousa inteiramente em sua reputação como tecnocrata estabilizador. Ele seria trazido à frente em uma capacidade de zeladoria para manter a continuidade econômica e tranquilizar aliados estrangeiros como a China durante uma transição caótica.

<><> General Kim Yong Chol: O negociador nuclear

Ele é general sênior aposentado e ex-chefe do Bureau Geral de Reconhecimento (principal agência de espionagem militar da Coreia do Norte). Chol também é um auxiliar militar endurecido e ex-embaixador nuclear principal para os EUA.

Embora afastado de papéis operacionais diários em recentes mudanças de geração, Kim Yong Chol é um mestre espionagem veterano. Ele não governaria diretamente, mas suas profundas conexões dentro do aparato interno de segurança do estado o tornam um negociador de poder perigoso nos bastidores, capaz de orquestrar um golpe militar ou apoiar um sucessor escolhido.

<><> Kim Jong Chul: O irmão evitado

Ele é um cidadão particular e reportadamente evita a política de estado para focar em música e interesses pessoais. Além disso, Chul é o irmão inteiro sobrevivente mais velho de Kim Jong Un.

Ele carrega a linhagem 'Paektu' essencial. No entanto, ele foi explicitamente pulado para a liderança por seu pai, Kim Jong Il, por ser 'demasiado efeminado'. Ele tem zero infraestrutura política doméstica e é considerado altamente improvável de buscar poder, a menos que forçado em um papel simbólico de líder-fetiche pelo exército.

<><> Kim Pyong Il: O tio isolado

Ele é diplomata aposentado. Ele é irmão meio-irmão de Kim Jong Il e tio paterno de Kim Jong un.

Por décadas, ele foi visto como um possível desafiante, o que levou a ele ser efetivamente exilado como embaixador na Europa. Ele foi permitido a retornar a Pyongyang em 2019 para se aposentar sob pesada vigilância de estado. Ele está completamente isolado do comando militar moderno, tornando suas chances de sucessão virtualmente inexistentes.

<><> Kim Han Sol: O fugitivo reformista

Ele é um fugitivo internacional vivendo sob asilo político profundo. Sol é o filho de Kim Jong Nam, o irmão mais velho de Kim Jong un que foi assassinado.

Como descendente masculino direto da linha mais velha da família, analistas ocidentais uma vez o viram como uma alternativa reformista ideal a Kim Jong Un. No entanto, após o assassinato de seu pai com o agente nervoso VX em 2017, ele fugiu para o esconderijo. Ele não possui leais domésticos e está funcionalmente morto para o sistema político da Coreia do Norte.

 

Fonte: BBC News Coreia/BRA1

 

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