Mundo
avança para aquecimento de 2,8 °C ainda neste século, alerta ONU
Se
não houver mudança no atual curso, relatório das Nações Unidas prevê cenário de
extremos climáticos catastróficos. Estados Unidos registraram o maior aumento
de emissões neste ano...
Há mais
de uma década, cientistas alertam que o mundo precisa limitar o aquecimento
global a 1,5 °C para evitar as consequências mais graves das mudanças climáticas. Essa meta já não
está mais ao alcance.
Décadas
de ações "insuficientes" para reduzir as emissões provenientes da
queima de combustíveis fósseis – que aquecem o
planeta – fazem com que a superação do limite de 1,5 °C seja, agora, algo
"iminente e inevitável", segundo o Relatório sobre a Lacuna de
Emissões, publicado anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Se não
houver nenhuma mudança no atual curso de emissões, as temperaturas subirão, em
média, 2,8 °C acima dos níveis pré-industriais ainda neste século. Mas, mesmo
que os países cumpram seus novos compromissos climáticos, a projeção é de que o
aquecimento global ainda atinja 2,6 °C. Ambos os cenários levariam o mundo a um
período de extremos climáticos catastróficos.
As
projeções refletem uma lacuna entre o que os governos prometem fazer e as ações
que estão, de fato, tomando para conter as emissões. Cerca de 167 países
apresentaram planos de ação climática à ONU. Juntos eles emitem 83% do total de
gases de efeito estufa. Contudo, essas promessas de redução estão muito aquém
do necessário para limitar o aquecimento.
Entre
os maiores emissores do mundo, Indonésia, China e Estados Unidos registraram um
aumento nas emissões em 2025, segundo estimativas preliminares. O crescimento
nos EUA "superou, de longe, o de todos os outros países",
impulsionado por um ressurgimento do carvão – a fonte de combustível fóssil
mais poluente – e pelo aumento da demanda por eletricidade, em parte devido à
expansão massiva de centros de dados para inteligência artificial.
O
cenário piorou, em parte, devido à decisão do presidente
americano, Donald Trump, de retirar os Estados Unidos do histórico Acordo de Paris, pacto pelo qual o
mundo se uniu, em 2015, para conter as mudanças climáticas. Os EUA são o
segundo maior emissor anual de gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global.
Desde
que Trump assumiu a presidência pela segunda vez, sua administração desmantelou
a política climática, eliminando regulamentações ambientais e ampliando a
produção de petróleo e gás. "A principal conclusão é simples: os governos
precisam avançar, o quanto antes, na implementação de políticas que reduzam o
uso de combustíveis fósseis", comentou Bill Hare, CEO do instituto global
de ciência e políticas Climate Analytics.
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Quais as consequências da superação desse limite?
Ultrapassar
1,5 °C, ainda que temporariamente, coloca a humanidade em uma trajetória
perigosa, pois aumenta o risco de desencadear "pontos de não retorno" – mudanças
potencialmente irreversíveis ou de difícil reversão –, como a perda de recifes de corais, o recuo a longo
prazo de camadas de gelo e a transformação da Floresta Amazônica em uma savana tropical.
À
medida que ecossistemas desaparecem e o nível do mar sobe, essas alterações
podem desencadear uma reação em cadeia letal, liberando mais gases de efeito
estufa e acelerando o aquecimento, o que aumenta drasticamente a probabilidade
de eventos climáticos extremos e fatais.
Somente
neste verão no Hemisfério Norte, a Europa registrou mais de 32 mil
mortes em excesso relacionadas ao calor. Além disso, quase
1,5 mil pessoas morreram em inundações repentinas no Nepal e no Tibete, após as mudanças
climáticas criarem as condições para o colapso de uma geleira.
No
entanto, os cientistas ressaltam que 1,5 °C não é um número mágico e que cada
fração de grau de aquecimento traz riscos crescentes. Para reduzir a
probabilidade de danos futuros, os países devem manter o foco em eliminar o uso
de combustíveis fósseis – principal fator das mudanças climáticas globais – e
investir em fontes de energia renováveis, como a solar e a eólica.
Atualmente,
o melhor cenário possível envolve ultrapassar o limite de 1,5 °C por um curto
período, para, em seguida, reduzir as temperaturas rapidamente.
"Ultrapassar
o limite não significa desistir", declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em um comunicado à
imprensa. "Ainda podemos fazer com que esse excedente seja o menor e o
mais breve possível – e trazer as temperaturas de volta para um patamar abaixo
de 1,5 °C antes do fim do século."
Como o
mundo pode limitar esse excedente? O Pnuma apresenta um cenário no qual o
aquecimento global atinge um pico de 1,7 a 1,8 °C por volta de meados do
século, antes de recuar para 1,5 °C até 2100. Para chegar a esse patamar,
seriam necessárias reduções drásticas nas emissões – de 69% até 2040, em
relação aos níveis de 2025.
Isso
também exigiria a remoção de 330 bilhões de toneladas métricas de dióxido de
carbono da atmosfera e seu armazenamento no subsolo. No entanto, estudos
recentes levantaram dúvidas sobre a viabilidade e os custos dessa tecnologia,
bem como sobre a capacidade do incipiente setor de remoção de carbono de ganhar
escala com a rapidez necessária para cumprir as metas climáticas.
A ONU
alerta que qualquer atraso tornará o desafio ainda maior, ressaltando que, a
cada cinco anos em que as emissões permanecem nos níveis atuais, acrescentam-se
cerca de 0,1 °C ao pico de aquecimento projetado.
"Precisamos
mobilizar todos os esforços possíveis para minimizar o pico de aquecimento e
retornar a 1,5 °C até o final do século", afirmou Inger Andersen, diretora
executiva do Pnuma, em um comunicado à imprensa. "É possível."
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Políticas climáticas funcionam
As
políticas climáticas têm se mostrado eficazes na redução de emissões. O
relatório do Pnuma baseia-se em mais de 200 estudos que analisam o
funcionamento de medidas como impostos sobre o carbono, metas climáticas
governamentais, normas de construção e subsídios para tecnologias de baixo
carbono.
Os
mecanismos de precificação de carbono foram os mais estudados até o momento. Os
projetos-piloto da China reduziram as emissões em cerca de 11%, enquanto o
sistema de comércio de emissões da União Europeia registrou uma redução de 8%,
em comparação com os níveis projetados caso essas políticas não tivessem sido
implementadas.
"Há
mais oportunidades do que nunca para acelerar a ação", afirma o relatório,
destacando o crescimento expressivo das energias renováveis desde a adoção
do Acordo de Paris, há uma década.
A
capacidade global de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis cresceu três
vezes mais rápido do que o previsto, e a expansão
da energia solar foi sete vezes mais acelerada. Em 2024, mais de 90% dos
projetos de energia renovável apresentaram custos inferiores aos das alternativas
baseadas em combustíveis fósseis.
Embora
a oferta total de energia proveniente de carvão, petróleo e gás continue a
aumentar, esse crescimento tem ocorrido a um ritmo mais lento do que o
projetado em 2015. Além disso, a tendência é que o uso do carvão atinja seu
pico e comece a diminuir até o final desta década.
"Temos
uma vasta gama de histórias de sucesso que demonstram que é possível reduzir as
emissões rapidamente", afirmou Andersen. "Agora, cabe às nações
implementar, com urgência, políticas que promovam reduções rápidas, profundas e
sustentadas das emissões, colocando o mundo no caminho para um clima mais
estável, bem como para economias e sociedades mais resilientes."
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Como a União Europeia quer se proteger de ameaças no
Ártico
A União Europeia (UE) apresentou nesta
terça-feira (20/10) uma nova estratégia para ampliar sua presença no Ártico, em meio às
transformações provocadas pelas mudanças climáticas, ao acirramento de
tensões geopolíticas e às disputas por fontes de energia e minerais
estratégicos.
O
rápido derretimento do gelo no Ártico — que aquece cerca de quatro vezes mais
rápido do que a média global — tem tornado a região rica em recursos naturais
cada vez mais acessível. Novas rotas marítimas estão se abrindo, enquanto a China amplia seu comércio por meio da região e o
fortalecimento militar da Rússia intensifica preocupações de segurança entre europeus.
"Com
a Rússia e a China ampliando sua presença e suas ambições, o Ártico se tornou
uma linha de frente da competição global por poder", afirmou a chefe da
diplomacia do bloco, Kaja Kallas, ressaltando ainda o valor estratégico do
acesso a recursos naturais.
"Para
defender nossos interesses, estamos reforçando os esforços em vigilância,
infraestrutura, mobilidade militar e tecnologias de defesa capazes de resistir
às duras condições climáticas," acrescentou.
Também
o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já ameaçou repetidamente neste ano assumir
o controle da Groenlândia, território autônomo
do reino da Dinamarca no Ártico.
"Quando
vemos que a soberania, a integridade territorial e as regras que sustentaram a
estabilidade da região já não podem mais ser consideradas garantidas,
precisamos agir e mudar nossa postura estratégica", disse, por sua
vez, Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, braço executivo da
UE.
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Medidas contra a Rússia
O
documento propõe a criação de um novo Centro de Segurança Marítima para
rastrear a chamada "frota fantasma" da Rússia. O
termo se refere a embarcações velhas usadas para contornar as sanções do
Ocidente ao petróleo russo que financia a guerra contra a Ucrânia.
A
estratégia também apoia mais esforços para monitorar, proteger e auxiliar na
reparação de cabos submarinos. Há suspeitas de que
submarinos russos planejem sabotar parte dessa
infraestrutura marítima.
Segundo
autoridades da UE, Moscou reativou e modernizou, nos últimos anos, bases
militares da era soviética no Ártico. A Rússia também manteria uma grande
concentração de armas nucleares na Península de Kola, no Círculo Polar Ártico.
A
Rússia, por sua vez, acusa a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)de promover a
militarização da região. O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei
Lavrov, afirmou em agosto que Moscou busca preservar a paz e a estabilidade no
Ártico e reduzir ameaças à segurança nacional do país.
Paralelamente,
a UE deseja ampliar sua frota de quebra-gelos — embarcações projetadas para
abrir caminhos em águas cobertas de gelo —, a fim de operar de maneira mais
eficiente no Ártico e expandir atividades de pesquisa. Autoridades estimam
que a Europa disponha de cerca de dez quebra-gelos, a maioria deles na
Finlândia, contra aproximadamente 40 da Rússia.
De
forma mais ampla, as conexões de transporte entre o Ártico e a Europa deverão
ser fortalecidas para usos civis e militares. Outra parte central da estratégia
europeia é integrar infraestruturas como portos, ferrovias, terminais de
energia e sistemas digitais e de satélites às redes de transporte e comércio do
Ártico, com o objetivo de conectar melhor a região aos mercados europeus.
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Guerra dificulta cooperação
À DW, o
comissário europeu responsável pela nova estratégia, Jozef Síkela,
classificou as ações da Rússia no Ártico como "sem precedentes" e
chamou o nível de perfuração pelo país na região de "catastrófico",
contribuindo para a aceleração das mudanças climáticas.
Segundo
ele, a UE está hoje sem acesso a informações provenientes da maior parte do
território ártico. "Temos que ser francos. A guerra de agressão da Rússia
contra a Ucrânia mudou completamente o cenário. A colaboração entre os Estados
do Ártico é muito difícil."
Apesar
das recentes investidas de Trump sobre a Groenlândia, o comissário descreveu os
EUA como "um ator estratégico muito importante no Ártico". No
entanto, evitou dizer se a Casa Branca continua sendo um parceiro alinhado à UE
em todas as questões relacionadas à região.
A
Comissão Europeia, ao mesmo tempo, ressalta que a proposta não pretende
competir com a Otan, da qual 23 países da UE também fazem parte. Segundo
Síkela, "a Otan continuará sendo essencialmente o centro da defesa e da
dissuasão".
Do
ponto de vista geográfico, as áreas mais ao norte da Finlândia e da Suécia,
ambos membros da UE, estão situadas na região ártica. Mais de meio milhão de
cidadãos do bloco vivem na região. Dinamarca, Finlândia e Suécia são
Estados-membros, enquanto Islândia e Noruega fazem parte do mercado único
europeu.
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Brasil reduz emissões de gases do efeito estufa por 3°
ano consecutivo
Pelo
terceiro ano consecutivo, as emissões brutas de gases do efeito estufa caíram no Brasil. Em
2025, as atividades de todos os brasileiros resultaram na liberação de 2,06
bilhões de toneladas de CO2 equivalente (GtCO2e)
na atmosfera, cerca de 6% menos do que em 2024, quando foram emitidos 2,19
bilhões de toneladas.
As
informações são do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa
(Seeg) do Observatório do Clima. Publicado nesta quarta-feira (21/10), o
relatório monitora há 14 anos o que acontece em todos os setores da economia.
"Isso
é uma ótima notícia. Nos últimos anos vimos reduções de mais de 5%, ano a ano,
o que não víamos desde os anos 2000 ", comenta David Tsai, coordenador do
Seeg.
Os
gases de efeito estufa geram o aquecimento global. Eles são liberados pela
queima de combustíveis fósseis, desmatamento,
agropecuária e outras atividades humanas. A redução dessas emissões é
fundamental para diminuir os efeitos das mudanças climáticas, que podem
intensificar eventos climáticos extremos, elevar o nível do mar, causar a
extinção de ecossistemas e criar áreas inabitáveis no planeta.
O recuo
apontado em 2025 no Brasil é um espelho do que se passou nas florestas do país.
No ano passado, todos os biomas nacionais foram menos desmatados – só na
Amazônia, a queda no desmatamento foi de 23,5% em comparação com o período
anterior. E toda vez que o desmatamento diminui, as emissões respondem da mesma
forma.
As
emissões líquidas, descontando o crescimento de vegetação secundária e a
remoção de carbono por áreas protegidas, foram de 1,41 bilhão de toneladas. Com
isso, o Brasil se aproximou da meta estabelecida no Acordo de Paris, que é reduzir a
emissão desses gases a 1,20 bilhão de toneladas até 2030.
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Desmatamento em queda
No
Seeg, os gases de efeito estufa liberados pelo corte da vegetação nativa são
contabilizados na componente mudança de uso da terra e floresta. Quando árvores
são cortadas, todo o carbono que elas armazenaram para crescer escapa para a
atmosfera – e vira uma fonte poderosa de emissão.
A queda
nos últimos três anos do desmatamento, reflexo direto da fiscalização rigorosa,
é apontada pelos especialistas como uma grande vitória. Após uma explosão na
derrubada de florestas durante o governo de Jair Bolsonaro, foi registrada em
2026 a menor área desmatada da série histórica do Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe).
No
último ano do governo de Bolsonaro, em 2022, as emissões brutas por mudança de
uso da terra chegaram a 1,5 bilhão. Luiz Inácio Lula da Silva fecha seu
terceiro mandato com a marca de 814 milhões, uma redução de 46% neste quesito.
Quando
se consideram as emissões líquidas, a diminuição foi de 81% neste intervalo –
de 860 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente (MtCO2e) para 162
MtCO2e em 2025.
No
total de gases de efeito estufa, as mudanças de uso da terra responderam por
39% das emissões, ocupando a primeira posição entre os setores analisados. A
destruição na Amazônia e no Cerrado teve o maior peso nessa componente.
"Falar
em emissões talvez pareça abstrato, mas elas afetam diretamente a vida das
pessoas. Quando protegemos as paisagens naturais e evitamos emissões,
protegemos toda uma infraestrutura ambiental que rege o ciclo da água e garante
o recurso para a produção de alimentos, para gerar energia elétrica. E também
evitamos eventos climáticos extremos, que dão prejuízos agudos e repentinos
para os brasileiros e ainda podem causar mortes", argumenta Tsai.
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Agro mais produtivo e estabilidade nos demais setores
O
segundo setor que mais emite no país é o agropecuário, responsável por 29% das
emissões no ano passado. As emissões brutas do setor somaram 626 MtCO2e em
2025, mantendo praticamente o patamar de 2024. Esse número pode ser resultado
de um aumento de eficiência no setor, segundo Gabriel Quintana, coordenador de
Ciência do Clima no Imaflora.
Na
pecuária, o número do rebanho bovino caiu, enquanto indicadores de produção,
como abate, leite e produção de carcaça, avançaram. "Isso significa
produzir mais com um rebanho menor, contribuindo para reduzir a intensidade das
emissões", resume Quintana.
Na
agricultura, a adoção de práticas de baixo carbono também contribuiu e pode
aumentar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas. O desafio, segundo
Quintana, é identificar melhor onde estão essas iniciativas e levá-las em
escala para o resto do país.
Os
setores de energia (427 MtCO2e) e processos industriais (94 MtCO2e) também
mantiveram índices parecidos com os do ano anterior. Já o setor de resíduos
registrou alta de 3,6% (foi de 92 MtCO2e para 96 MtCO2e). De acordo com o
relatório, o crescimento das emissões no setor de resíduos, responsável por 5%
do total, se deve ao aumento da população.
Quando
verificadas as emissões por atividades específicas, os maiores poluentes são a
pecuária (35%), seguida da agricultura (34%), do transportes de cargas (6%) e
do transporte de passageiros (5%).
Fonte:
DW Brasil

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