quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Mundo avança para aquecimento de 2,8 °C ainda neste século, alerta ONU

Se não houver mudança no atual curso, relatório das Nações Unidas prevê cenário de extremos climáticos catastróficos. Estados Unidos registraram o maior aumento de emissões neste ano...

Há mais de uma década, cientistas alertam que o mundo precisa limitar o aquecimento global a 1,5 °C para evitar as consequências mais graves das mudanças climáticas. Essa meta já não está mais ao alcance.

Décadas de ações "insuficientes" para reduzir as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis – que aquecem o planeta – fazem com que a superação do limite de 1,5 °C seja, agora, algo "iminente e inevitável", segundo o Relatório sobre a Lacuna de Emissões, publicado anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Se não houver nenhuma mudança no atual curso de emissões, as temperaturas subirão, em média, 2,8 °C acima dos níveis pré-industriais ainda neste século. Mas, mesmo que os países cumpram seus novos compromissos climáticos, a projeção é de que o aquecimento global ainda atinja 2,6 °C. Ambos os cenários levariam o mundo a um período de extremos climáticos catastróficos.

As projeções refletem uma lacuna entre o que os governos prometem fazer e as ações que estão, de fato, tomando para conter as emissões. Cerca de 167 países apresentaram planos de ação climática à ONU. Juntos eles emitem 83% do total de gases de efeito estufa. Contudo, essas promessas de redução estão muito aquém do necessário para limitar o aquecimento.

Entre os maiores emissores do mundo, Indonésia, China e Estados Unidos registraram um aumento nas emissões em 2025, segundo estimativas preliminares. O crescimento nos EUA "superou, de longe, o de todos os outros países", impulsionado por um ressurgimento do carvão – a fonte de combustível fóssil mais poluente – e pelo aumento da demanda por eletricidade, em parte devido à expansão massiva de centros de dados para inteligência artificial.

O cenário piorou, em parte, devido à decisão do presidente americano, Donald Trump, de retirar os Estados Unidos do histórico Acordo de Paris, pacto pelo qual o mundo se uniu, em 2015, para conter as mudanças climáticas. Os EUA são o segundo maior emissor anual de gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global.

Desde que Trump assumiu a presidência pela segunda vez, sua administração desmantelou a política climática, eliminando regulamentações ambientais e ampliando a produção de petróleo e gás. "A principal conclusão é simples: os governos precisam avançar, o quanto antes, na implementação de políticas que reduzam o uso de combustíveis fósseis", comentou Bill Hare, CEO do instituto global de ciência e políticas Climate Analytics.

<><> Quais as consequências da superação desse limite?

Ultrapassar 1,5 °C, ainda que temporariamente, coloca a humanidade em uma trajetória perigosa, pois aumenta o risco de desencadear "pontos de não retorno" – mudanças potencialmente irreversíveis ou de difícil reversão –, como a perda de recifes de corais, o recuo a longo prazo de camadas de gelo e a transformação da Floresta Amazônica em uma savana tropical.

À medida que ecossistemas desaparecem e o nível do mar sobe, essas alterações podem desencadear uma reação em cadeia letal, liberando mais gases de efeito estufa e acelerando o aquecimento, o que aumenta drasticamente a probabilidade de eventos climáticos extremos e fatais.

Somente neste verão no Hemisfério Norte, a Europa registrou mais de 32 mil mortes em excesso relacionadas ao calor. Além disso, quase 1,5 mil pessoas morreram em inundações repentinas no Nepal e no Tibete, após as mudanças climáticas criarem as condições para o colapso de uma geleira.

No entanto, os cientistas ressaltam que 1,5 °C não é um número mágico e que cada fração de grau de aquecimento traz riscos crescentes. Para reduzir a probabilidade de danos futuros, os países devem manter o foco em eliminar o uso de combustíveis fósseis – principal fator das mudanças climáticas globais – e investir em fontes de energia renováveis, como a solar e a eólica.

Atualmente, o melhor cenário possível envolve ultrapassar o limite de 1,5 °C por um curto período, para, em seguida, reduzir as temperaturas rapidamente.

"Ultrapassar o limite não significa desistir", declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em um comunicado à imprensa. "Ainda podemos fazer com que esse excedente seja o menor e o mais breve possível – e trazer as temperaturas de volta para um patamar abaixo de 1,5 °C antes do fim do século."

Como o mundo pode limitar esse excedente? O Pnuma apresenta um cenário no qual o aquecimento global atinge um pico de 1,7 a 1,8 °C por volta de meados do século, antes de recuar para 1,5 °C até 2100. Para chegar a esse patamar, seriam necessárias reduções drásticas nas emissões – de 69% até 2040, em relação aos níveis de 2025.

Isso também exigiria a remoção de 330 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono da atmosfera e seu armazenamento no subsolo. No entanto, estudos recentes levantaram dúvidas sobre a viabilidade e os custos dessa tecnologia, bem como sobre a capacidade do incipiente setor de remoção de carbono de ganhar escala com a rapidez necessária para cumprir as metas climáticas.

A ONU alerta que qualquer atraso tornará o desafio ainda maior, ressaltando que, a cada cinco anos em que as emissões permanecem nos níveis atuais, acrescentam-se cerca de 0,1 °C ao pico de aquecimento projetado.

"Precisamos mobilizar todos os esforços possíveis para minimizar o pico de aquecimento e retornar a 1,5 °C até o final do século", afirmou Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma, em um comunicado à imprensa. "É possível."

<><> Políticas climáticas funcionam

As políticas climáticas têm se mostrado eficazes na redução de emissões. O relatório do Pnuma baseia-se em mais de 200 estudos que analisam o funcionamento de medidas como impostos sobre o carbono, metas climáticas governamentais, normas de construção e subsídios para tecnologias de baixo carbono.

Os mecanismos de precificação de carbono foram os mais estudados até o momento. Os projetos-piloto da China reduziram as emissões em cerca de 11%, enquanto o sistema de comércio de emissões da União Europeia registrou uma redução de 8%, em comparação com os níveis projetados caso essas políticas não tivessem sido implementadas.

"Há mais oportunidades do que nunca para acelerar a ação", afirma o relatório, destacando o crescimento expressivo das energias renováveis ​​desde a adoção do Acordo de Paris, há uma década.

A capacidade global de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis ​​cresceu três vezes mais rápido do que o previsto, e a expansão da energia solar foi sete vezes mais acelerada. Em 2024, mais de 90% dos projetos de energia renovável apresentaram custos inferiores aos das alternativas baseadas em combustíveis fósseis.

Embora a oferta total de energia proveniente de carvão, petróleo e gás continue a aumentar, esse crescimento tem ocorrido a um ritmo mais lento do que o projetado em 2015. Além disso, a tendência é que o uso do carvão atinja seu pico e comece a diminuir até o final desta década.

"Temos uma vasta gama de histórias de sucesso que demonstram que é possível reduzir as emissões rapidamente", afirmou Andersen. "Agora, cabe às nações implementar, com urgência, políticas que promovam reduções rápidas, profundas e sustentadas das emissões, colocando o mundo no caminho para um clima mais estável, bem como para economias e sociedades mais resilientes."

¨      Como a União Europeia quer se proteger de ameaças no Ártico

A União Europeia (UE) apresentou nesta terça-feira (20/10) uma nova estratégia para ampliar sua presença no Ártico, em meio às transformações provocadas pelas mudanças climáticas, ao acirramento de tensões geopolíticas e às disputas por fontes de energia e minerais estratégicos.

O rápido derretimento do gelo no Ártico — que aquece cerca de quatro vezes mais rápido do que a média global — tem tornado a região rica em recursos naturais cada vez mais acessível. Novas rotas marítimas estão se abrindo, enquanto a China amplia seu comércio por meio da região e o fortalecimento militar da Rússia intensifica preocupações de segurança entre europeus.

"Com a Rússia e a China ampliando sua presença e suas ambições, o Ártico se tornou uma linha de frente da competição global por poder", afirmou a chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, ressaltando ainda o valor estratégico do acesso a recursos naturais. 

"Para defender nossos interesses, estamos reforçando os esforços em vigilância, infraestrutura, mobilidade militar e tecnologias de defesa capazes de resistir às duras condições climáticas," acrescentou.

Também o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já ameaçou repetidamente neste ano assumir o controle da Groenlândia, território autônomo do reino da Dinamarca no Ártico. 

"Quando vemos que a soberania, a integridade territorial e as regras que sustentaram a estabilidade da região já não podem mais ser consideradas garantidas, precisamos agir e mudar nossa postura estratégica", disse, por sua vez, Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, braço executivo da UE.

<><> Medidas contra a Rússia

O documento propõe a criação de um novo Centro de Segurança Marítima para rastrear a chamada "frota fantasma" da Rússia. O termo se refere a embarcações velhas usadas para contornar as sanções do Ocidente ao petróleo russo que financia a guerra contra a Ucrânia.

A estratégia também apoia mais esforços para monitorar, proteger e auxiliar na reparação de cabos submarinos. Há suspeitas de que submarinos russos planejem sabotar parte dessa infraestrutura marítima.

Segundo autoridades da UE, Moscou reativou e modernizou, nos últimos anos, bases militares da era soviética no Ártico. A Rússia também manteria uma grande concentração de armas nucleares na Península de Kola, no Círculo Polar Ártico.

A Rússia, por sua vez, acusa a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)de promover a militarização da região. O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, afirmou em agosto que Moscou busca preservar a paz e a estabilidade no Ártico e reduzir ameaças à segurança nacional do país.

Paralelamente, a UE deseja ampliar sua frota de quebra-gelos — embarcações projetadas para abrir caminhos em águas cobertas de gelo —, a fim de operar de maneira mais eficiente no Ártico e expandir atividades de pesquisa. Autoridades estimam que a Europa disponha de cerca de dez quebra-gelos, a maioria deles na Finlândia, contra aproximadamente 40 da Rússia.

De forma mais ampla, as conexões de transporte entre o Ártico e a Europa deverão ser fortalecidas para usos civis e militares. Outra parte central da estratégia europeia é integrar infraestruturas como portos, ferrovias, terminais de energia e sistemas digitais e de satélites às redes de transporte e comércio do Ártico, com o objetivo de conectar melhor a região aos mercados europeus.

<><> Guerra dificulta cooperação

À DW, o comissário europeu responsável pela nova estratégia, Jozef Síkela, classificou as ações da Rússia no Ártico como "sem precedentes" e chamou o nível de perfuração pelo país na região de "catastrófico", contribuindo para a aceleração das mudanças climáticas.

Segundo ele, a UE está hoje sem acesso a informações provenientes da maior parte do território ártico. "Temos que ser francos. A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia mudou completamente o cenário. A colaboração entre os Estados do Ártico é muito difícil."

Apesar das recentes investidas de Trump sobre a Groenlândia, o comissário descreveu os EUA como "um ator estratégico muito importante no Ártico". No entanto, evitou dizer se a Casa Branca continua sendo um parceiro alinhado à UE em todas as questões relacionadas à região.

A Comissão Europeia, ao mesmo tempo, ressalta que a proposta não pretende competir com a Otan, da qual 23 países da UE também fazem parte. Segundo Síkela, "a Otan continuará sendo essencialmente o centro da defesa e da dissuasão".

Do ponto de vista geográfico, as áreas mais ao norte da Finlândia e da Suécia, ambos membros da UE, estão situadas na região ártica. Mais de meio milhão de cidadãos do bloco vivem na região. Dinamarca, Finlândia e Suécia são Estados-membros, enquanto Islândia e Noruega fazem parte do mercado único europeu.

¨      Brasil reduz emissões de gases do efeito estufa por 3° ano consecutivo

Pelo terceiro ano consecutivo, as emissões brutas de gases do efeito estufa caíram no Brasil. Em 2025, as atividades de todos os brasileiros resultaram na liberação de 2,06 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (GtCO2e) na atmosfera, cerca de 6% menos do que em 2024, quando foram emitidos 2,19 bilhões de toneladas.

As informações são do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg) do Observatório do Clima. Publicado nesta quarta-feira (21/10), o relatório monitora há 14 anos o que acontece em todos os setores da economia.

"Isso é uma ótima notícia. Nos últimos anos vimos reduções de mais de 5%, ano a ano, o que não víamos desde os anos 2000 ", comenta David Tsai, coordenador do Seeg.

Os gases de efeito estufa geram o aquecimento global. Eles são liberados pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento, agropecuária e outras atividades humanas. A redução dessas emissões é fundamental para diminuir os efeitos das mudanças climáticas, que podem intensificar eventos climáticos extremos, elevar o nível do mar, causar a extinção de ecossistemas e criar áreas inabitáveis no planeta.

O recuo apontado em 2025 no Brasil é um espelho do que se passou nas florestas do país. No ano passado, todos os biomas nacionais foram menos desmatados – só na Amazônia, a queda no desmatamento foi de 23,5% em comparação com o período anterior. E toda vez que o desmatamento diminui, as emissões respondem da mesma forma.

As emissões líquidas, descontando o crescimento de vegetação secundária e a remoção de carbono por áreas protegidas, foram de 1,41 bilhão de toneladas. Com isso, o Brasil se aproximou da meta estabelecida no Acordo de Paris, que é reduzir a emissão desses gases a 1,20 bilhão de toneladas até 2030.

<><> Desmatamento em queda

No Seeg, os gases de efeito estufa liberados pelo corte da vegetação nativa são contabilizados na componente mudança de uso da terra e floresta. Quando árvores são cortadas, todo o carbono que elas armazenaram para crescer escapa para a atmosfera – e vira uma fonte poderosa de emissão.

A queda nos últimos três anos do desmatamento, reflexo direto da fiscalização rigorosa, é apontada pelos especialistas como uma grande vitória. Após uma explosão na derrubada de florestas durante o governo de Jair Bolsonaro, foi registrada em 2026 a menor área desmatada da série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No último ano do governo de Bolsonaro, em 2022, as emissões brutas por mudança de uso da terra chegaram a 1,5 bilhão. Luiz Inácio Lula da Silva fecha seu terceiro mandato com a marca de 814 milhões, uma redução de 46% neste quesito.

Quando se consideram as emissões líquidas, a diminuição foi de 81% neste intervalo – de 860 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente (MtCO2e) para 162 MtCO2e em 2025.

No total de gases de efeito estufa, as mudanças de uso da terra responderam por 39% das emissões, ocupando a primeira posição entre os setores analisados. A destruição na Amazônia e no Cerrado teve o maior peso nessa componente.

"Falar em emissões talvez pareça abstrato, mas elas afetam diretamente a vida das pessoas. Quando protegemos as paisagens naturais e evitamos emissões, protegemos toda uma infraestrutura ambiental que rege o ciclo da água e garante o recurso para a produção de alimentos, para gerar energia elétrica. E também evitamos eventos climáticos extremos, que dão prejuízos agudos e repentinos para os brasileiros e ainda podem causar mortes", argumenta Tsai.

<><> Agro mais produtivo e estabilidade nos demais setores

O segundo setor que mais emite no país é o agropecuário, responsável por 29% das emissões no ano passado. As emissões brutas do setor somaram 626 MtCO2e em 2025, mantendo praticamente o patamar de 2024. Esse número pode ser resultado de um aumento de eficiência no setor, segundo Gabriel Quintana, coordenador de Ciência do Clima no Imaflora.

Na pecuária, o número do rebanho bovino caiu, enquanto indicadores de produção, como abate, leite e produção de carcaça, avançaram. "Isso significa produzir mais com um rebanho menor, contribuindo para reduzir a intensidade das emissões", resume Quintana.

Na agricultura, a adoção de práticas de baixo carbono também contribuiu e pode aumentar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas. O desafio, segundo Quintana, é identificar melhor onde estão essas iniciativas e levá-las em escala para o resto do país.

Os setores de energia (427 MtCO2e) e processos industriais (94 MtCO2e) também mantiveram índices parecidos com os do ano anterior. Já o setor de resíduos registrou alta de 3,6% (foi de 92 MtCO2e para 96 MtCO2e). De acordo com o relatório, o crescimento das emissões no setor de resíduos, responsável por 5% do total, se deve ao aumento da população.

Quando verificadas as emissões por atividades específicas, os maiores poluentes são a pecuária (35%), seguida da agricultura (34%), do transportes de cargas (6%) e do transporte de passageiros (5%).

 

Fonte: DW Brasil

 

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