Paulo
Kliass: Lula e o aprendizado da campanha
O
processo de discussão política e mobilização social que acontece por todo o
Brasil em direção ao segundo turno das eleições apresenta para a nossa
sociedade duas alternativas que se opõem de forma bastante radical. De um lado,
temos o caminho em direção ao precipício, que aponta para os riscos de um
enorme retrocesso de natureza mesmo civilizatória. De outro lado, temos a
possibilidade de resistir ao avanço do autoritarismo e da destruição do pouco
que ainda nos resta das bases de uma sociedade democrática e de um Estado de
Bem-Estar Social.
A
candidatura de Flávio Bolsonaro representa as forças da extrema-direita; se
manifesta de forma saudosista com relação à época da ditadura militar e promete
um ajuste econômico inspirado no desastre social que atravessa de forma muito
trágica os nossos vizinhos argentinos. A família do condenado pela Justiça Jair
Bolsonaro nunca deixou de manifestar sua admiração por líderes políticos da
extrema direita global, e agora a campanha apresenta o projeto de Javier Milei
como exemplo a ser seguido em nossas terras.
A
continuidade do presidente Lula rumo a um novo mandato oferece uma alternativa
para barrar a ascensão do neofascismo. Apesar das dificuldades vividas pela
maioria das famílias brasileiras em seu cotidiano, existe a percepção de que a
volta do bolsonarismo é uma opção ainda muito mais grave para o povo. Além do
potencial recuo político e institucional na linha daqueles que tentaram
patrocinar um golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, o retorno de um
Bolsonaro ao Palácio do Planalto abre o espaço para a implementação de uma
política econômica de terra arrasada, a exemplo do que está acontecendo
atualmente na Argentina. Esse é o caminho inequívoco para a recessão a pleno
vapor, para as demissões em massa e para o fechamento de milhares de empresas.
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É a economia, estúpido!
Mas o
problema é que a estratégia oferecida pela equipe do Ministério da Fazenda de
Lula para sua própria reeleição se assenta sobre a falácia de um pseudo-sucesso
na economia. Ao vender ilusões a respeito de um crescimento pífio do Produto
Interno Bruto (PIB) e de um patamar mínimo dos índices de desemprego na série
histórica, seus assessores garantiam ao presidente Lula que o candidato Lula
não teria problema algum em sua caminhada rumo à reeleição. Ocorre que os
tecnocratas de planilha que cercam o chefe do Executivo apenas deixaram de
avisá-lo de que as pesquisas de opinião seguiam desaprovando fortemente o
governo.
O fato
concreto é que a situação vivida pela maioria da população não era em nada
semelhante aos indicadores bem comportados apresentados pelos puxa-sacos de
sempre. O PIB realmente cresceu no ano passado, mas muito abaixo das
necessidades do País e da média de países da América Latina e do mundo de forma
geral. Em 2025, crescemos apenas 2,3%, uma queda em relação aos 3,4% de 2024.
Esse número se revela mais baixo do que o crescimento médio do PIB no mundo,
que ficou em 3,3% no ano passado. Caso consideremos apenas os chamados países
integrantes dos BRICS, a diferença é ainda maior, uma vez que esse bloco foi
puxado pelo crescimento da China e apresentou uma média de 5,0%. O quadro é
agravado pela redução da atividade econômica imposta pela área econômica para o
ano que se encerra em breve. O PIB de 2026 pode fechar abaixo de 2% e estamos
no olho de tal queda.
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Basta dessa babaquice de austeridade fiscal!
Por
outro lado, o dado de desemprego estar no menor nível da série histórica
esconde o fato de que os empregos gerados estão regidos pelas duas reformas
trabalhistas levadas a cabo por Temer e Bolsonaro. Lula havia prometido durante
a campanha de 2022 revogá-las, mas nada fez a este respeito. Assim, as pessoas
podem até estar empregadas, mas os postos de trabalho são instáveis e
precários, com salários muitas vezes inferiores até mesmo a um salário-mínimo.
Some-se a esse quadro o aumento extraordinário do endividamento das famílias e
a chegada do fenômeno desastroso das apostas esportivas, as bets. A realidade
objetiva que os vendilhões das planilhas não demonstram é que as condições de
vida estão em clara involução.
Assim,
de nada adiantou o governo tentar vender a imagem de que as coisas melhoraram
para conquistar o voto dos eleitores. Mais uma vez, no atual processo
eleitoral, cabe como uma luva aquela famosa frase do assessor de campanha do
Bob Clinton, James Carville, dita em 1992, na disputa pela Casa Branca: “É a
economia, estúpido!”. À época, o candidato democrata derrotou o republicano
George Bush em sua tentativa de reeleição. Apesar desta declaração ter sido
utilizada a torto e a direito ao longo destas três décadas e meia nos mais
variados contextos e países, o fato é que as dificuldades enfrentadas
atualmente por Lula para sua reeleição residem justamente nos equívocos da
política econômica a ele sugerida pelo ex ministro Fernando Haddad e sua
equipe.
Ao
optar pela continuidade da austeridade fiscal a todo o custo, Lula incorporou o
Novo Arcabouço Fiscal (NAF) para substituir o Teto de Gastos de Temer de 2016.
Com isso, contratou uma severa auto-restrição nas despesas públicas de natureza
social e nos investimentos do Estado para seu próprio governo. Dessa forma, as
promessas de “fazer mais e melhor do que nos dois primeiros mandatos de 2003 a
2010” e “promover um crescimento de 40 anos em 4” ficaram letras mortas na
execução do terceiro mandato. O governo passou o tempo todo preocupado em
cumprir as metas restritivas da austeridade fiscal e muito pouco implementou de
políticas públicas efetivas e voltadas às necessidades do futuro do Brasil e do
presente da maioria da população.
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A vitória depende da liberação das despesas públicas
Lula
seguia reverberando as bobagens a respeito de como os ensinamentos de sua mãe,
Dona Lindu, seriam importantes para a condução da política econômica de seu
governo. A síntese do equívoco é o mantra falacioso do “não podemos gastar mais
do que arrecadamos”. Ocorre que a lógica de operação e funcionamento do Estado
é muito mais complexa do que a contabilidade rudimentar de entradas e saídas na
conta bancária de um indivíduo ou de uma família. Lula jamais perde a
oportunidade de se vangloriar de ter sido o único presidente de países do G7 a
ter apresentado superávit fiscal primário durante seus dois primeiros mandatos.
Mas não menciona os volumes trilionários de pagamento de juros da dívida
pública — as despesas financeiras do governo que não são controladas e não
possuem teto nem limite, pois não recebem a etiqueta de “primárias”.
Ao fim
do primeiro turno, com a colocação de Bolsonarinho à frente do candidato à
reeleição, é bem provável que Lula tenha se dado conta da armadilha em que
havia sido colocado por conta da obediência cega às regras da austeridade
fiscal. Ao que tudo indica, ele mandou às favas o NAF sugerido por Haddad logo
no início deste terceiro mandato e percebeu que a vitória no segundo turno
dependeria basicamente de voltar a atender às pautas do povo. O atual movimento
de vira-voto tem início com decisões que ficaram engavetadas ou foram negadas
pela área econômica há quase quatro anos. Esse foi o caso do reajuste do Bolsa
Família, da inclusão das canetas emagrecedoras no protocolo de atendimento do
Sistema Único de Saúde (SUS), da proibição das bets, do pacote de apoio aos
microempreendedores individuais (MEIs), a definição do programa de Tarifa Zero
no transporte urbano nos finais de semana, dentre outros.
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Lição da campanha: a austeridade fiscal atrapalha o país, o povo, o presidente
e o candidato
São
todas elas medidas justas e necessárias, mas que vinham sendo boicotadas pela
área econômica em razão da dominância da lógica de funcionamento da Esplanada
com base na política de austeridade fiscal primária. Ou seja, era economia
(estúpida) impedindo Lula de realizar um governo voltado ao atendimento das
necessidades da maioria do povo. E agora, de novo, é a economia (estúpida) se
liberando das amarras austericidas e neoliberais impostas pela tecnocracia a
serviço do atendimento dos interesses do financismo.
Lula
tem pouco menos de uma semana para anunciar outras medidas ainda necessárias, a
exemplo de um reajuste maior do salário-mínimo, uma forma tardia de compensar
as perdas provocadas pelo quadriênio de Jair Bolsonaro à frente do governo.
Caso consiga vencer o pleito, ele vai ter de desfazer a ampla teia de equívocos
em que se viu enredado pela sua equipe econômica. É urgente que Lula incorpore,
de forma definitiva, como filosofia de governo, aquela frase que proferiu antes
do primeiro turno em comício realizado em Curitiba:
(…) “E
para o governo ter que investir, é preciso parar com essa babaquice de que tem
que fazer superávit, fazer superávit, de que tem que ter controle fiscal”.
Isso
significa que, na segunda-feira, dia 26 de outubro, logo após conhecido o
resultado das eleições, ele deveria enviar um novo texto para o Projeto de Lei
de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), que já está em tramitação no Congresso
Nacional. Afinal, ali está expresso um outro compromisso de paralisia do
governo ainda maior para o próximo quadriênio. Sua equipe econômica lhe
apresentou um documento para que ele enviasse ao legislativo, contendo o
absurdo de uma armadilha de perseguir meta de superávits primários crescentes a
cada ano:
2027:
0,5% do PIB
2028:
1,0% do PIB
2029:
1,25% do PIB
2030:
1,5% do PIB
Essa
verdadeira obsessão com o austericídio, que está embutida em diversos
documentos oficiais da área da economia (estúpido), pode comprometer ainda mais
a necessária flexibilidade na condução da política econômica no eventual quarto
mandato. Ele já deve ter se dado conta de que foi uma visão atrasada e obtusa
da economia (estúpido) a principal responsável pelas dificuldades enfrentadas
atualmente para consolidar apoios e votos. Assim, espera-se que sua vitória
venha acompanhada daquilo que deveria ter sido sua opção estratégica desde o
início de 2023: abandonar a austeridade fiscal e todos os resquícios de desvio
neoliberal que foram a ele sugeridos pelos responsáveis pela economia.
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Bora virar: Lula lá!
O
Brasil está com Lula para barrar a barbárie. Mas, se a maioria da população
conceder a ele os votos necessários para encerrar sua trajetória política à
frente do Estado brasileiro, está aberta a possibilidade e a necessidade de
superar os impedimentos e os obstáculos que a sua própria equipe econômica lhe
impôs desde 2023. Seu último mandato deverá ser de realizações, e isso implica
que a economia (estúpido) não seja uma amarra como tem sido até agora. Ela deve
ser, pelo contrário, uma ferramenta de libertação para construir um país mais
desenvolvido, mais justo, mais soberano e menos desigual.
Fonte:
Outras Palavras

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