Alfredo
Suppia: Debate e degradação
Terminado
o debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), na noite
de 18 de outubro, analistas e militantes tomaram as redes para discutir “quem
ganhou” ou “quem se saiu melhor”. Essas perguntas perdem o sentido quando se
aceita um formato como esse, que obriga um político no terceiro mandato
presidencial a se expor às investidas de um senador de 45 anos que, embora
esteja na vida pública desde os 21, não tem legado de relevo construído em
benefício do país.
Quantas
leis de impacto redigiu? Que projetos liderou? Sua biografia é marcada antes
por suspeitas. Como deputado estadual, homenageou na Alerj Adriano da Nóbrega,
apontado pelo Ministério Público do Rio como chefe da milícia de Rio das
Pedras, e Ronald Pereira, apontado como chefe da milícia da Muzema; a mãe e a
ex-mulher de Adriano trabalharam em seu gabinete. Hoje, Flávio é alvo de
investigação da Polícia Federal no caso Banco Master, depois que o Intercept
Brasil revelou que ele pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para
financiar Dark Horse, filme sobre a trajetória de seu pai.
Submeter
um chefe de Estado – fosse ele Lula, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff
ou Itamar Franco – a “debater” com um aventureiro político, aliado de Pablo
Marçal (outro aventureiro), de quem parece ter assimilado o método, não é
promover a democracia: é fomentar o caos. Lula é reconhecido internacionalmente
como uma das vozes de maior relevo nas Nações Unidas e em outros fóruns
multilaterais.
Já se
sentou à mesa de negociação com George W. Bush, Vladimir Putin, Xi Jinping,
Emmanuel Macron, Angela Merkel e Evo Morales, além de chefes de Estado de
nações amigas da África, do Oriente Médio e da Ásia. Dispor-se a “debater” com
quem condecorou chefes de milícia é um esforço que só um estadista muito
preocupado com seu povo aceitaria fazer.
O
jornalista José Roberto de Toledo fez um dos diagnósticos mais preciso do que
se viu, na análise do portal UOL logo após o programa. Em 22 eleições
acompanhadas, disse, poucas vezes assistiu a um debate tão ruim, sobretudo pela
conduta de Flávio Bolsonaro, que passou boa parte do tempo atrás de Lula,
gesticulando e fazendo caretas enquanto o presidente falava – um comportamento,
resumiu, “não de presidente da República, mas de moleque”.
Urge
mudar esse modelo, para que um mínimo de democracia e de republicanismo seja
preservado. E ainda há tempo: o último confronto do segundo turno está marcado
para esta sexta-feira (23), na TV Globo. Não apenas esta, mas também corridas
eleitorais anteriores demonstram que a televisão subordinou o velho formato do
debate político ao “moedor de carne” das redes sociais. O objetivo desses
embates passou a ser a produção dos famigerados “cortes”.
Pouco
ou nada resta de debate genuíno. Com sorte, a emissora ainda ganha audiência
com uma agressão ao vivo, como a cadeirada de José Luiz Datena em Pablo Marçal
no debate da TV Cultura para a prefeitura de São Paulo, em 2024. Proponho a
seguir algumas mudanças civilizatórias urgentes, na esperança de que sejam
adotadas já nesta semana ou, ao menos, nas próximas eleições – se é que a
democracia brasileira chegará intacta até lá.
(i)
Debate político não é programa de auditório. Na Band, as regras previam um
bloco de confronto direto de 30 minutos em que os candidatos podiam circular
livremente pelo estúdio. O formato não é novo – a emissora já o adotara em 2022
–, mas desta vez foi levado ao paroxismo. Quem tem a palavra pode se
movimentar; quem escuta deve permanecer em seu espaço, sentado ou de pé junto
ao púlpito. A câmera deve buscar quem fala, e não o contrário. O formato
“circo” beneficia candidatos dispostos a fazer palhaçadas ao fundo do
enquadramento, dispersando a atenção do espectador e a concentração do
adversário.
(ii) O
direito de resposta deve poder ser pedido pela equipe do candidato. Lula foi
alvo de inúmeras acusações falsas e, ocupado em rebatê-las, não recorreu ao
direito de resposta com a mesma desenvoltura do adversário. Se o candidato não
o fizer, sua campanha, ou alguém designado para isso, deve poder apresentar o
pedido.
(iii)
Um debate presidencial ao vivo exige checagem de fatos em tempo real. As
agências já fazem esse trabalho – Aos Fatos e Lupa checaram o debate da Band
enquanto ele acontecia –, mas suas conclusões ficam fora da transmissão. Uma
equipe independente de verificadores, talvez com observadores das duas
campanhas, deveria estar a postos para esclarecer, no calor do embate, as
falsidades ditas por qualquer dos candidatos.
Os
mediadores poderiam intervir, por exemplo, quando Flávio Bolsonaro repetiu a
informação distorcida de que 73% dos presidiários votaram em Lula: condenados
com sentença definitiva têm os direitos políticos suspensos enquanto cumprem
pena e não votam; votam apenas presos provisórios, em seções especiais. A cada
falsidade comprovada, deveria caber direito de resposta ao adversário.
(iv)
Quem não responde à pergunta deve ser exposto. Candidato que não responder de
forma minimamente satisfatória deve ter o tempo cassado ou sofrer intervenção
dos mediadores, que poderiam registrar: “o candidato optou por não responder à
pergunta”. Nos vestibulares e na redação do Enem, situações muito menos graves,
fugir do tema implica reprovação. Toledo observou que várias perguntas ficaram
sem resposta adequada – razão a mais para a regra. Numa corrida eleitoral, a
tergiversação deve ser tratada como ônus, e não como esperteza.
Se
apenas essas quatro mudanças fossem implementadas, os candidatos teriam maior
paridade de armas, e o eleitor ganharia com a elevação da qualidade do debate.
Esse tipo de programa não está obsoleto: continua necessário pela coexistência
de diferentes gerações de eleitores e pelas desigualdades de infraestrutura de
comunicação no país.
O
problema é subordinar a televisão às redes sociais e equiparar o debate
eleitoral a um programa de auditório, em que a forma prevalece sobre o
conteúdo. Nesse modelo, o eleitor tem menos acesso a ideias, projetos e
propostas, e o que ganha valor é a “performance”, a “lacração”, o domínio da
cena, o constrangimento do oponente não por argumentos, mas pelo jogo de cena
ou até pela força.
Não por
acaso, o fascismo e a extrema-direita se alimentam disso: seus líderes sempre
foram showmen, muitas vezes ridículos, grotescos ou patéticos. Mas a
Presidência da República é o cargo máximo do país. É nela que repousa o futuro
de nossa nação, de nossas crianças e idosos, da classe trabalhadora, do nosso
desenvolvimento, da nossa produtividade e da justiça social. Não voto em
performers; voto em perfis de chefe de Estado. Por isso, repudio um debate como
o organizado pela Band e faço um apelo às campanhas, às emissoras e à sociedade
para que regras protetivas e salvaguardas sejam de fato adotadas, em desfavor
do espetáculo grotesco.
O
problema maior não são os candidatos, mas o formato. De um deles, aliás, só se
poderia esperar o comportamento que teve: irresponsável, de quem não tem obra
pública a exibir e carrega um patrimônio imobiliário sob questionamento.
Segundo a checagem do Aos Fatos, Flávio Bolsonaro fez dez afirmações falsas e
nove distorcidas ao longo do debate, e apenas duas verdadeiras. Do outro lado,
viu-se um chefe de Estado, habituado a tratar dos temas mais sensíveis e
complexos de uma nação, obrigado a rebaixar o nível de seu discurso para fazer
frente a ataques calculados, cujo único objetivo era desestabilizar o oponente.
Fonte:
A Terra é Redonda

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