As
três faces da interferência externa nas eleições brasileiras
Após o
resultado do primeiro turno das eleições de 2026, a maior parte dos jornalistas
comentou sobre os erros da campanha de Lula e inúmeros influencers sugeriram
uma melhor estratégia para amplificar a voz da esquerda nas redes sociais.
Embora esses pontos sejam importantes e devam ser considerados pela equipe de
campanha do PT, eles não consideram que as eleições aconteceram em um ambiente
de anormalidade institucional. Isso porque, pela primeira vez desde o final da
Guerra Fria, os Estados Unidos têm uma estratégia explícita para interferir nas
eleições da América Latina, baseada na Doutrina Donroe.
Essa
linha de política externa tem por base o uso de táticas comuns utilizadas em
esquemas de guerra híbrida. A primeira tática é sempre mais visível e utiliza
de diferentes formas de coerção, inclusive para desviar atenção do que está de
fato ocorrendo. A segunda é de menor visibilidade e se vale de meios
intermediários de desinformação. Já a terceira tática é quase invisível ao
direcionar a desinformação àqueles suscetíveis a uma mudança de comportamento
no pleito eleitoral, hoje em grande parte realizado por meios digitais.
1. A pressão explícita
A
primeira tática teve sua mais clara demonstração quando da imposição de novas
tarifas alfandegárias em julho de 2025, como forma de retaliação à condenação
de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Segundo a narrativa que os
Estados Unidos tentaram impor, o “governo do Brasil acusou injustamente
Bolsonaro de múltiplos crimes relacionados ao segundo turno das eleições de
2022, e a Suprema Corte do Brasil decidiu, de forma equivocada, que ele deve
ser julgado por acusações criminais infundadas” (The White House, 2025).
O
resultado dessa primeira ação da Casa Branca foi diferente daquele esperado,
pois, nesse momento, o governo Lula conseguiu reverter o processo internamente,
demonstrando que os Estados Unidos estavam atacando a soberania brasileira. E
assim, o Departamento de Estado teve que repensar sua estratégia e desenvolver
novas táticas dentro dessa linha, indo da esfera econômica para a esfera
política, com foco explícito no Supremo Tribunal Federal, em especial por meio
da aplicação da lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes.
Em
seguida, o governo de Donald Trump aprofundou essa linha de ataque por meio da
denominação, por parte do Departamento de Estado, de organizações criminosas,
como o PCC e o Comando Vermelho, como grupos terroristas capazes de ameaçar os
Estados Unidos. Tal ação foi certamente mais inteligente já que não afrontava
abertamente a política econômica, nem questionava a autonomia do Judiciário
nacional, inclusive, com apelo direto na opinião pública brasileira, que
considera a violência e a segurança pública o maior problema do Brasil (G1,
2026). Embora não de forma declarada, essa decisão sinalizava um apoio à
campanha de Flávio Bolsonaro sob a justificativa de que a Casa Branca se
colocava assim à disposição de um eventual governo do mesmo para combater a criminalidade
no Brasil, mascarando o caráter claro de uma ingerência externa.
Além
disso, os Estados Unidos têm atacado a maior processadora de pagamentos do
Brasil, o Pix, lançado pelo Banco Central do Brasil em 2020 (DOMINGUEZ, 2026).
Desde então, o Pix se tornou o método de pagamento mais popular do país,
inclusive em relação ao dinheiro em espécie. O governo norte-americano alega
que o Pix está envolvido em práticas comerciais desleais, argumentando que as
processadoras de pagamento dos Estados Unidos estão sofrendo perdas financeiras
devido à popularidade da plataforma.
Mais
recentemente, o Departamento de Estado norte-americano reforçou a ideia de uma
ameaça terrorista desenfreada no Brasil ao decidir fechar sua embaixada e
consulados nas vésperas do primeiro turno. Tal medida, sem qualquer embasamento
com a realidade, recebeu apoio da Austrália, e criou um terror psicológico,
fortalecendo a possibilidade de um rompimento dos Estados Unidos, caso Lula se
reeleja. Embora sem precedente, um eventual desdobramento, por mais dramático
que seja, faria coro à revogação do visto da embaixadora brasileira em
Washington Maria Luiza Viotti, em agosto de 2026. Ou seja, os Estados Unidos
parecem hoje realmente dispostos a se valer de diferentes medidas a fim de
garantir que um governo automaticamente alinhado com seus interesses na América
Latina venha a ser eleito no Brasil.
2. Medidas com um grau menor de visibilidade
A
segunda tática que os Estados Unidos têm utilizado para impor seus interesses
nas eleições brasileiras apresenta um menor grau de visibilidade e acontece por
canais indiretos a partir do financiamento de organizações não governamentais
para desestabilizar o país. Nessa abordagem, há dois tipos de vazamentos
relevantes, conforme detalhado recentemente pela Folha de S.Paulo (SALOMÃO,
2026) e pelo jornal inglês The Guardian (ROTH; GEDEON, 2026).
A
primeira reportagem trata da alocação de recursos financeiros para a ONG
conservadora Rockbridge Network, cofundada pelo vice-presidente JD Vance e pelo
empresário Chris Buskirk. Segundo a matéria, a Rockbridge tinha a missão de
abrir operações no Brasil para treinar jovens lideranças de extrema direita,
meios de comunicação e ações no Legislativo. A segunda matéria aborda outro
caso tradicional de guerra híbrida, que é o direcionamento de recursos
financeiros para uma organização não identificada que conseguisse
desestabilizar o STF. Sem ainda termos conhecimento mais preciso sobre essa
informação, sabemos que o escândalo do Banco Master se voltou contra os
principais membros do Supremo Tribunal Federal durante o mês eleitoral de
setembro, colocando de lado qualquer envolvimento de Flávio Bolsonaro no maior
caso de corrupção do país.
O
resultado da política de desestabilização institucional do STF foi efetivo,
apesar da rapidez em se estancar o processo quando ele atingiu diretamente os
aliados à Bolsonaro, que hoje estão no exercício da presidência e
vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE): Kassio Nunes e André
Mendonça. Questionamentos sobre o TSE nas mudanças de seções no primeiro e
segundo turno e na lentidão da fiscalização de notícias falsas foram
devidamente silenciados dentro da Corte após esse desgaste político, afrouxando
até mesmo o ministro Alexandre de Moraes, que teve sua família diretamente
envolvida no escândalo.
3. A invisível, previsível e eficaz tática
dos algoritmos
A
terceira e última tática se refere ao direcionamento de notícias falsas
produzidas especificamente para perfis mapeados pelos algoritmos com o objetivo
de reverter o posicionamento daqueles sujeitos que estão indecisos na escolha
do candidato ou até mesmo no comparecimento no dia da eleição. Com o
cancelamento injustificado de contas de mídias e influencers de esquerda, o
bloqueio temporário da página do presidente Lula e de aliados, a derrubada de
postagens verídicas e o uso de técnicas shadowban, que reduzem a visibilidade
de uma conta ou publicação sem informar claramente seu responsável, a
plataforma Meta foi denunciada pela campanha de Lula à OEA após o primeiro
turno.
Reportagens
da Agência Pública (RUDNITZKI, 2026) indicaram diversos casos de bloqueios
realizados pela Meta, sem um motivo legítimo, além de mostrarem que um número
significativo de anúncios foi pago à Meta em dólar, descumprindo as regras
eleitorais brasileiras. Outra matéria publicada pela BBC mostrou que o grupo de
dança de crianças de Uganda, Hypers Kids Africa, que participou da Copa do
Mundo, fez promoção a favor da campanha de Bolsonaro em troca de 120 milhões de
$B22, ativos digitais que podem ser transferidos e trocados por dinheiro, sem
ter qualquer conhecimento sobre o que isso representava (PINA, 2026)
Por
fim, matérias na imprensa identificaram como a Inteligência Artificial da Meta
foi treinada para criar folders de campanha para Flávio Bolsonaro, negando-se a
realizar as mesmas tarefas para a campanha do presidente Lula (BERGAMO, 2026).
O termômetro publicado pela Agência Pública, com base no levantamento da ONG
CTRL+Z, indica o impulsionamento da campanha de Flávio Bolsonaro, com um maior
número de seguidores e um engajamento muito maior do que Lula às vésperas das
eleições (MELO, 2026).
No
mesmo sentido, como informou o site PanAmerican Dispatch (GARCIA,2026), pelo
menos 1.069 anúncios mencionando o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva
ou o opositor Flávio Bolsonaro no Facebook, Instagram e Threads foram pagos em
dólares. Dados da Biblioteca de Anúncios da Meta, analisados pela jornalista
Aline Melo (2026) da Agência Pública, revelam que os anúncios custaram pelo
menos US$ 120.800. Além disso, segundo informações do mesmo site, criptomoedas
foram oferecidas para usuários que compartilham conteúdo nas redes sociais
incentivando o voto no candidato presidencial Flávio Bolsonaro.
A
iniciativa se chama B22, uma referência ao sobrenome e ao número da cédula do
senador. Segundo o site, a moeda digital é distribuída para pessoas que
promovem o projeto nas redes sociais. Alguns dos conteúdos promocionais incluem
vídeos que vinculam diretamente a compra ou o compartilhamento do token ao
apoio a Flávio Bolsonaro nas urnas. (GARCIA, 2026)
Cabe
ressaltar, por fim, embora o foco deste artigo seja na ingerência dos Estados
Unidos, que a campanha de Flavio Bolsonaro, certamente inspirada nas ações de
atores norte-americanos, lançou uma operação clandestina para mapear eleitores,
criar contas falsas, espalhar mentiras junto a uma a empresa que vende nos
Estados Unidos sistema de IA para manipular eleições no exterior.
Nunca
existiu poder hegemônico sem sofisticação nas formas de impor suas vontades ao
redor do mundo. Mesmo que em acelerada crise, a hegemonia norte-americana
continua a valer-se de instrumentos cada vez mais diversificados, indo da
coerção econômica à influência política e à manipulação digital, para manter
zonas de influência sob seu poder. Em nenhum lugar no mundo isso fica tão claro
quanto na América Latina, seja do ponto de vista histórico, seja nos dias de
hoje, pela reinstauração de uma política externa nos moldes da Doutrina
Monroe.
É por
isso que a eleição do próximo fim de semana se torna tão importante e
dramática. Mais do que uma disputa entre dois projetos políticos, ela
representa um teste para a soberania brasileira e para a capacidade de nossa
democracia resistir às pressões de uma potência estrangeira. Afinal, o que está
em jogo não será somente a manutenção da nossa democracia, mas também os
limites da ingerência norte-americana sob os destinos da América Latina e,
assim, de todo o Sul Global.
Fonte:
Por Natalia Fingermann e Rafael Ioris, em A Terra é Redonda

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