quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro faz da submissão a Trump um programa de governo

A relação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump é familiar, nos dois sentidos da palavra. Seus repertórios de atuação também. Os governos de Trump e de Jair Bolsonaro comandaram os dois países com mais mortes por Covid-19 no mundo: mais de 1,2 milhão nos Estados Unidos e mais de 700 mil no Brasil. Derrotados nas urnas, Trump e Bolsonaro não aceitaram o resultado e alimentaram as tentativas de golpe que entraram para a história como o 6 de janeiro de 2021, nos EUA, e o 8 de janeiro de 2023, no Brasil. Por elas, Jair Bolsonaro acabou condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão.

Mas a relação entre Flávio e Trump não se resume à afinidade entre projetos de extrema direita excludentes e fundamentalmente anti-igualitários, que defendem a circulação de armas e a retirada de direitos das mulheres. Ela abre caminho para a subordinação do Brasil aos interesses dos Estados Unidos. E não é de hoje que Washington, sob Trump, tenta interferir em questões nacionais.

Em 2019, Jair Bolsonaro tentou nomear o filho Eduardo embaixador nos EUA, rompendo com a tradição de indicar diplomatas de carreira do Itamaraty; diante da reação, a indicação foi abandonada. Desde 2025, Eduardo vive nos Estados Unidos, onde atua abertamente por sanções contra o Brasil; perdeu o mandato de deputado por excesso de faltas e é réu no STF por coação.

Em 2024, Elon Musk, dono do X, descumpriu decisões da Justiça brasileira, manteve no ar contas golpistas e se recusou a nomear um representante legal no país, o que levou à suspensão da rede social no Brasil. Em 2025, Trump vinculou um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros ao processo judicial de Jair Bolsonaro. Nestas eleições, a campanha de Lula denunciou restrições ao alcance de seus conteúdos nas plataformas da Meta. O TSE exigiu esclarecimentos; a empresa negou favorecimento e atribuiu os episódios a falhas técnicas.

Essa ofensiva encontra nas grandes plataformas digitais uma base de poder. Elas controlam parte decisiva da circulação de informações, mas seus critérios de distribuição permanecem opacos. Elon Musk reúne o comando do X e o financiamento da direita norte-americana: segundo dados divulgados em outubro, destinou mais de 276 milhões de dólares a grupos republicanos desde julho, às vésperas das eleições legislativas nos EUA.

O problema político já está posto: decisões capazes de afetar uma eleição ficam concentradas em sistemas privados que só as próprias empresas conseguem examinar integralmente. Soberania também é poder fiscalizar essa infraestrutura e impedir que bilionários estrangeiros definam o debate público brasileiro.

A ameaça à soberania tem conteúdo concreto. O projeto bolsonarista quer enfraquecer o Estado brasileiro como instrumento de decisão coletiva e de desenvolvimento nacional. A receita vem de fora. O “tesouraço” prometido por Flávio copia a “motosserra” de Milei, aliado de Trump, e ecoa o DOGE, o departamento com que Elon Musk, a serviço de Trump, promoveu demissões em massa de servidores federais nos EUA.

Sua face mais concreta é a “Super PEC” que, segundo a Folha de S.Paulo, a equipe econômica de Flávio estuda enviar ao Congresso logo após a eleição: acabar com os pisos constitucionais de saúde e educação e limitar o reajuste de aposentadorias e do BPC, cortando cerca de R$ 250 bilhões em gastos obrigatórios. A submissão fica ainda mais nítida na promessa de, se eleito, integrar o Brasil ao Escudo das Américas, coalizão de segurança liderada por Trump contra o crime organizado, à qual o Chile de José Antonio Kast já aderiu.

Assim, Flávio transforma seu alinhamento internacional em promessa explícita de governo: submeter o país a uma estrutura militar e política comandada por uma potência estrangeira, ampliar a dependência externa e reduzir a autonomia brasileira para decidir sobre sua segurança, sua economia e sua política externa. Cooperar com outros países no combate às facções criminosas é necessário. Aceitar que uma potência estrangeira determine como faremos isso é outra escolha.

Talvez a maior ameaça à nossa soberania esteja nas tão faladas terras raras, um grupo de 17 elementos químicos essenciais à fabricação dos ímãs usados em motores de veículos elétricos e turbinas eólicas, além de equipamentos eletrônicos e militares. Extrair e separar esses elementos exige tecnologia e investimento.

Em meio à crise climática e à transição energética, controlar essas cadeias significa disputar poder econômico. O Brasil tem a segunda maior reserva estimada do mundo, atrás apenas da China. Washington pressiona por acesso prioritário a esses minerais, enquanto o governo brasileiro exige que o processamento e a industrialização aconteçam aqui.

Isso ajuda a entender a dimensão econômica do conflito. Não por acaso, Bad Bunny autorizou a campanha de Lula a usar uma versão de “Lo Que Le Pasó a Hawaii” dedicada à soberania e aos recursos naturais. O cantor porto-riquenho sabe o que significa viver sob a pressão de um Trump que trata seu país como quintal, e a canção é um alerta: não deixemos que façam conosco o que fizeram por lá.

O Brasil que Lula reconstruiu na política externa, promotor da paz e do multilateralismo, limita a pretensão de Washington de organizar o continente e o mundo segundo seus interesses. Desde que voltou ao poder, Trump declarou guerra comercial ao mundo e levou os Estados Unidos a uma guerra de fato contra o Irã, iniciada em fevereiro. Os resultados são alarmantes. Até agora, mais de 380 crianças foram mortas e mais de 1.600 ficaram feridas nos ataques de EUA e Israel ao Irã. Como Lula se projeta internacionalmente? Condenando a guerra e defendo a cooperação e o diálogo na busca de soluções pacíficas.

Enquanto Lula se senta à mesa com o mundo, Flávio faz da submissão um programa de governo. O resultado seria um Brasil mais vulnerável e mais distante de seus próprios interesses. A experiência regional mostra o tamanho da ameaça.

Sob Milei, a Argentina tornou-se mais dependente do FMI, com quem fechou um acordo de US$ 20 bilhões em 2025, e do socorro do Tesouro norte-americano, sem resolver sua situação econômica: o país perdeu 32.290 empresas empregadoras entre dezembro de 2023 e julho de 2026. No Chile, a aprovação de Kast caiu para 27% em outubro, e 42% dos chilenos rejeitam a adesão do país ao Escudo das Américas.

Em 25 de outubro, votaremos pelo destino do Brasil e por sua contribuição ao destino da humanidade. Flávio oferece dependência, privatização da soberania e alinhamento automático com Trump. Lula representa a defesa da democracia, da autonomia nacional, da paz e de uma política externa soberana. Defender a vida contra a morte, a paz contra a guerra e a civilização contra a barbárie está em nossas mãos. A soberania é a condição para que essa escolha continue sendo nossa.

•        Debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band trocou propostas por ataques e esvaziou soluções para o país

O debate entre postulantes à Presidência de um país deveria ser um dos instrumentos fundamentais para ajudar a cidadania na hora de sua escolha. É por meio dele, em tese, que candidatas e candidatos apresentam propostas, elucidam posições e demonstram como pretendem enfrentar os problemas que afetam a população. Não deveria ser um confronto entre pessoas que disputam o poder. O espaço deveria contribuir para a formação de uma opinião pública crítica, capaz de avaliar projetos e compreender as consequências das decisões políticas.

O debate entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, realizado no dia 18 de outubro, suscita uma reflexão sobre a qualidade da comunicação política em nosso país. O encontro, marcado por provocações, acusações pessoais mútuas e momentos de tensão, evidencia que a disputa pela atenção aos candidatos ocupou o espaço que deveria ter sido destinado à discussão dos problemas nacionais. A questão central que quero levantar aqui, neste texto, é compreender o que a sociedade perde quando um espaço de debate se transforma em uma competição pela superioridade diante das câmeras.

A política é, por natureza, um espaço de conflitos. Diferentes grupos sociais possuem interesses, valores e interpretações distintas sobre os caminhos que o país deve seguir. Até aí, nenhum problema. Em uma democracia (ainda que burguesa como a nossa), essas diferenças precisam ser expressas, confrontadas e, muitas vezes, até negociadas. Por isso, a troca de ideias não deve ser confundida com agressões mútuas. Questionar o adversário e apontar contradições são práticas legítimas. Mas não foi isso que vimos no domingo à noite.

<><> Desqualificação do adversário

Li muitos artigos, vi muitos vídeos nos quais as pessoas, em geral, se concentravam em apontar um “vencedor” e um “perdedor”. Mas o confronto entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro permite que reflitamos sobre a aproximação entre política e espetáculo. Nessa lógica (e considerando o contexto comunicacional em que vivemos), a fala pública passa a ser avaliada sobretudo por sua capacidade de provocar reações, gerar repercussão e, principalmente, produzir trechos que circulem rapidamente nas redes sociais. A frase de efeito, a ironia e o ataque pessoal podem conquistar mais atenção do que uma explicação fundamentada sobre determinada política pública.

Porque visibilidade não significa elucidação. Uma acusação pode despertar indignação sem oferecer elementos suficientes para que nós, a cidadania, possamos avaliar sua veracidade. Uma resposta agressiva pode parecer convincente para quem já concorda com determinado candidato, mas não necessariamente responde à pergunta apresentada. Desse modo, a repercussão de uma fala não deve ser confundida com sua relevância para a compreensão dos problemas nacionais.

No entanto, foi essa lógica que predominou. E a cidadania foi transformada em espectadora de uma competição entre personagens. Em vez de estimular a análise das propostas, o suposto debate favoreceu a identificação emocional com um dos lados (ou a não identificação com nenhum dos dois). Porque a sociedade foi convocada a reagir, a aplaudir ou a rejeitar. E isso, definitivamente, não oferece condições para a compreensão das propostas de cada candidato.

E não estou me referindo à linguagem utilizada por ela ter sido simples (e, em alguns casos, chula). Uma linguagem simples é fundamental para aproximar os políticos profissionais da população. O problema está em simplificar questões complexas a ponto de impedir sua compreensão. Porque o empobrecimento de um debate pode ser percebido tanto no conteúdo apresentado como nas questões que deixam de receber a atenção necessária.

O Brasil enfrenta problemas sérios relacionados à desigualdade social, à segurança pública, à educação, à saúde, ao custo de vida e às condições de trabalho, entre outros. São problemas que afetam milhões de pessoas e exigem respostas fundamentadas, planejamento e compromisso com resultados. Já me referi a eles em outros textos.

E esses problemas não podem ser enfrentados por meio de acusações recíprocas. O enfrentamento dessas mazelas históricas exige diagnósticos consistentes, definição de prioridades e explicações sobre como as propostas serão executadas. A população brasileira precisa saber o que os candidatos prometem, mas, principalmente, como pretendem realizar suas promessas, quais recursos serão necessários e quais obstáculos poderão comprometer os resultados.

Mencionar a segurança pública, por exemplo, não equivale a explicar como serão articuladas a prevenção da violência, a investigação criminal e a proteção dos direitos fundamentais. Falar de economia não basta para esclarecer como serão conciliados crescimento, geração de empregos, estabilidade de preços e financiamento das políticas sociais. Defender a educação não substitui a apresentação de medidas para enfrentar as desigualdades de aprendizagem e as dificuldades estruturais das escolas.

O debate político sério precisa ir além da simples nomeação dos problemas. Deve oferecer condições para que as respostas sejam examinadas, comparadas e questionadas. E, quando a discussão se concentra em ataques pessoais, a população recebe muitas falas, mas termina sem informações suficientes para avaliar as propostas em disputa.

Quanto mais complexos são os problemas de um país, maior deveria ser o comprometimento dos seus representantes com a qualidade da discussão pública. Contudo, quando o confronto se organiza em torno da desqualificação do adversário, questões estruturais acabam reduzidas a explicações simplistas, como se as dificuldades nacionais pudessem ser compreendidas exclusivamente a partir da existência de um grupo político.

A sociedade perde, assim, a oportunidade de discutir o próprio país. A eleição, que deveria ampliar a compreensão sobre as prioridades nacionais, se transforma em uma disputa de narrativas, na qual a capacidade de mobilizar emoções se sobrepõe à responsabilidade de apresentar soluções. Quem disputa a Presidência da República assume uma responsabilidade pública que ultrapassa os interesses imediatos de uma campanha. E a maneira como os candidatos respondem às perguntas, como lidam com críticas e como tratam seus adversários oferece elementos para avaliar sua compreensão do papel que pretendem exercer.

<><> Formação crítica da cidadania

É também verdade que um único debate não permite definir integralmente a capacidade de alguém para governar. Uma avaliação responsável precisa considerar propostas, trajetórias, decisões anteriores e compromissos públicos. Ainda assim, seria inadequado considerar irrelevante o comportamento dos candidatos em um espaço de grande importância para a formação da opinião da cidadania.

Por outro lado, a qualidade de um debate eleitoral não depende exclusivamente dos candidatos. As emissoras, os responsáveis pela mediação e os ambientes digitais também participam da construção da experiência pública. O formato do encontro pode favorecer respostas mais aprofundadas ou estimular confrontos rápidos, nos quais a interrupção e a provocação se tornam estratégias de exposição.

Nesse sentido, a mediação não deveria limitar-se ao controle do tempo. Também deveria contribuir para que as perguntas fossem respondidas e as posições dos participantes pudessem ser esclarecidas. Embora não sejam responsáveis por determinar o comportamento dos participantes, as emissoras — neste caso particular, o Grupo Bandeirantes de Comunicação — têm o dever de estabelecer regras eficazes e assegurar condições para que o encontro cumpra sua finalidade pública. Porém, ao que parece, a audiência foi o único parâmetro levado em conta.

É necessário considerar, também, sua contribuição para a formação crítica da cidadania, reconhecendo que a comunicação, em uma sociedade democrática (ainda que burguesa), deve servir ao direito à informação e ao fortalecimento da participação política. Isso não significa que a comunicação política precise ser monótona ou desprovida de emoção. Um debate pode ser dinâmico e contundente, sem transformar a humilhação em método.

E ressalto, ainda, que, embora a responsabilidade seja compartilhada, isso não deve ser confundido com ausência de responsabilidades individuais. Ou seja, os dois candidatos respondem por suas falas; as emissoras, pelas condições de organização e mediação. E, por último, a cidadania pode contribuir para um ambiente informacional mais responsável ao verificar informações e evitar o compartilhamento irrefletido de acusações.

O que aconteceu no domingo, na Band, enfraquece a confiança pública, porque a cidadania percebe a política como um espaço dominado pela hostilidade e por disputas pessoais. E isso, certamente, afasta muita gente da participação política ativa ou leva muitas pessoas a considerar que todas e todos são igualmente incapazes de dialogar. E esse afastamento da cidadania reduz as possibilidades de participação e de fiscalização do poder.

Quero expressar que esta minha crítica não significa defender uma conciliação artificial entre projetos distintos ou ignorar conflitos reais de interesse. Porque existem propostas que precisam ser contestadas, decisões que devem ser questionadas e responsabilidades que precisam ser apuradas. O compromisso político exige que essas avaliações sejam fundamentadas em evidências e critérios consistentes.

Portanto, a questão que trago aqui não se resume a exigir uma política sem divergências. Reivindico uma política na qual as acusações sejam acompanhadas de evidências, as perguntas recebam respostas e os problemas da população ocupem o centro da discussão. A meu ver, o objetivo de um debate não deveria ser produzir um vencedor diante das câmeras, mas oferecer à cidadania melhores condições para decidir.

<><> Prejuízo coletivo

É preciso ter em conta que a qualidade do debate político está diretamente relacionada às condições de participação da cidadania. O voto é um instrumento fundamental da nossa democracia burguesa, mas sua força depende, entre outros fatores, do acesso à informação e da possibilidade de avaliar criticamente as alternativas disponíveis. A cidadania precisa compreender o que está em disputa, quais interesses estão envolvidos e quais consequências podem decorrer das decisões anunciadas.

Quem vai escolher nas urnas precisa separar fatos de interpretações, verificar acusações e distinguir propostas concretas de promessas genéricas, especialmente no contexto contemporâneo, em um ambiente marcado pela velocidade das redes sociais e pela circulação de conteúdos descontextualizados.

É importante reconhecer que a cidadania não é receptora passiva. As pessoas interpretam as mensagens a partir de suas experiências, de seus conhecimentos e de suas convicções. Contudo, não se pode transferir exclusivamente à população a responsabilidade por avaliar informações apresentadas em um debate que deveria contribuir para sua fundamentação. Os candidatos, as campanhas e os meios de comunicação também possuem responsabilidades nesse processo.

Quando a comunicação política procura provocar reações emocionais sem oferecer informações suficientes para sustentar a reflexão, a autonomia da cidadania fica comprometida (e o prejuízo é coletivo). Porque a precariedade de um serviço público, o custo de vida e as dificuldades de acesso à educação e à saúde atingem pessoas com diferentes preferências políticas. A sociedade precisa de uma cultura pública que reconheça as divergências sem perder de vista a existência de necessidades comuns.

Pessoas com menos recursos financeiros geralmente dispõem de menos alternativas para enfrentar a precariedade dos serviços públicos e as dificuldades econômicas. Para uma família de baixa renda, o custo de vida não representa somente um tema de campanha, mas está relacionado à possibilidade de comprar alimentos, pagar o transporte, pagar o aluguel e atender às demais necessidades. Para quem depende do sistema público de saúde, as decisões sobre atendimento e acesso a medicamentos possuem consequências concretas. Para estudantes da rede pública, as políticas educacionais podem influenciar as oportunidades de formação e inserção profissional.

Por isso, o país perde quando as experiências concretas das pessoas são colocadas em segundo plano. Perde quando as dificuldades cotidianas servem apenas como argumento para atacar o adversário. E perde, principalmente, quando os debates oferecem mais elementos para alimentar a soberba e a rivalidade política do que para expor, com fundamentos, os caminhos possíveis de enfrentamento das desigualdades.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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