Direito
à Cidade em tempos de austeridade fiscal
Ao
insistir na centralização da gestão regional, São Paulo corre o risco de
responder à fragilidade de suas estruturas metropolitanas com ainda menos
capacidade de planejamento, cooperação e democracia territorial.
Tarcísio
de Freitas venceu as eleições para o Governo de São Paulo no primeiro turno. O
resultado das urnas, porém, não encerra e nem poderia encerrar o debate sobre
os rumos das políticas públicas do Estado. Algumas escolhas atravessam mandatos
e moldam, por décadas, a capacidade do poder público de planejar o território.
É o
caso da governança metropolitana.
Voltou
à pauta a proposta de reorganização da gestão regional paulista, materializada
no Projeto de Lei Complementar nº 14/2022. Apresentado ainda no governo
anterior, o projeto foi mantido em tramitação durante a gestão Tarcísio e, às
vésperas da eleição, estava na Ordem do Dia da Assembleia Legislativa. Entre
outras mudanças, prevê a fusão das atuais agências metropolitanas em uma
estrutura estadual de desenvolvimento regional.
É
legítimo discutir modernização administrativa e corrigir distorções. O problema
começa quando reforma passa a significar centralização da capacidade de
planejamento e enfraquecimento das instituições construídas na escala do
território.
A
questão é maior do que o destino desta ou daquela agência. O que está em
disputa é uma concepção de governança territorial em um estado profundamente
urbanizado, no qual os limites administrativos dos municípios correspondem cada
vez menos aos territórios efetivamente vividos pela população.
Quem
mora em uma cidade e trabalha em outra não organiza sua vida segundo as
fronteiras municipais. Transporte, saneamento, habitação, drenagem e meio
ambiente atravessam cidades. Rios, bacias hidrográficas, enchentes, poluição e
ilhas de calor também não reconhecem divisas.
A
metrópole existe antes mesmo de o Direito reconhecê-la.
No
Brasil, governá-la é um desafio especialmente complexo. A Constituição de 1988
transformou os municípios em entes autônomos da Federação — conquista
democrática fundamental depois de décadas de centralização. Ao mesmo tempo,
atribuiu aos estados a possibilidade de instituir regiões metropolitanas para
integrar a organização, o planejamento e a execução das funções públicas de
interesse comum.
Nasceu
daí uma tensão ainda sem solução definitiva: como preservar a autonomia
municipal e, simultaneamente, governar problemas que nenhum município consegue
resolver sozinho?
As
primeiras regiões metropolitanas brasileiras nasceram sob uma concepção
centralizada de planejamento. Com a redemocratização, os municípios recuperaram
autonomia, mas não se construíram, na mesma intensidade, instituições capazes
de organizar a cooperação entre governos autônomos. Daí resultou, muitas vezes,
um municipalismo fragmentado, cunhado na literatura brasileira como
“municipalismo autárquico”.
O
Estatuto da Metrópole, de 2015, procurou enfrentar esse problema. Introduziu a
governança interfederativa e o Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado, o
PDUI, como instrumento de articulação das políticas públicas em escala
metropolitana. Foi um avanço jurídico importante. Mas permanece enorme a
distância entre o desenho normativo e sua implementação, sobretudo após as
mudanças legislativas sofridas nos governos, que esvaziaram as sanções
previstas no caso de descumprimento da lei.
O
problema das regiões metropolitanas brasileiras nunca foi excesso de capacidade
institucional, mas sua insuficiência. Faltam equipes técnicas permanentes,
recursos previsíveis e instrumentos capazes de transformar decisões regionais
em políticas executadas. Conselhos e Planos de Desenvolvimento Urbano Integrado
(PDUIs) podem existir formalmente sem repercutir sobre orçamentos ou grandes
decisões de infraestrutura.
Há
ainda uma pergunta elementar: quem financia a metrópole?
Planejamento
sem orçamento dificilmente ultrapassa a condição de declaração de intenções.
Fundos sem receitas estáveis não sustentam políticas de longo prazo. E a
ausência de mecanismos de equalização reproduz, dentro da própria metrópole, as
desigualdades entre municípios com capacidades fiscais muito distintas.
Por
isso preocupa a postura do governo eleito em responder às fragilidades da
governança metropolitana com mais centralização.
São
Paulo já perdeu parte importante de sua capacidade técnica de planejamento
territorial com a extinção da Emplasa, em 2019. Uma instituição pública de
planejamento não é apenas um CNPJ ou uma linha de organograma. É conhecimento
acumulado, equipes especializadas e memória sobre o território. Essa capacidade
leva décadas para ser construída e pode desaparecer rapidamente.
O
caminho deveria ser inverso: reconstruir capacidade estatal, fortalecer
estruturas metropolitanas profissionalizadas, criar mecanismos estáveis de
financiamento e fazer com que o planejamento regional oriente, de fato, as
decisões de investimento do Governo do Estado.
Mas há
outra dimensão tão importante quanto a capacidade técnica: a democracia
metropolitana.
Esse é
um debate recorrente nos Congressos do Instituto Brasileiro de Direito
Urbanístico. Governança metropolitana, planejamento regional, participação
social e justiça socioterritorial vêm sendo discutidos há anos pelo IBDU. Mais
recentemente, a escala metropolitana voltou a ocupar espaço nos debates sobre
mudanças climáticas e desenvolvimento urbano sustentável.
Governar
a metrópole significa também perguntar quem participa das decisões sobre ela.
Embora
milhões de pessoas vivam cotidianamente em espaços metropolitanos, ainda não
existe uma cidadania metropolitana institucionalizada. As decisões permanecem
concentradas nos executivos estaduais e municipais, enquanto movimentos
sociais, universidades, entidades profissionais, sindicatos e organizações
comunitárias dispõem de poucos mecanismos para interferir nas escolhas
regionais.
Participação
democrática não se resume a audiências públicas. Significa integrar a sociedade
à definição das prioridades e dos investimentos e reconhecer o conhecimento de
quem vive cotidianamente o território.
A crise
climática torna essa discussão ainda mais urgente. É impossível enfrentar
enchentes, deslizamentos, escassez hídrica, ondas de calor e eventos extremos
por meio de políticas isoladas de cada município. Adaptação climática exige
planejamento de bacias hidrográficas, macrodrenagem, habitação, mobilidade e
uso do solo em escala regional.
A
desigualdade socioespacial segue a mesma lógica: empregos, infraestrutura,
moradia e oportunidades distribuem-se de modo desigual entre municípios.
Governança metropolitana é, portanto, também instrumento de justiça
territorial.
Na
recente campanha eleitoral paulista, uma alternativa a esse processo de
concentração chegou a ser colocada no debate. Fernando Haddad defendeu o
fortalecimento das estruturas metropolitanas, dos instrumentos regionais de
planejamento e da participação dos municípios e da sociedade. A sua candidatura
foi derrotada, mas a questão permanece: que arquitetura institucional São Paulo
precisa para governar territórios cada vez mais interdependentes?
Não se
trata de opor simplesmente descentralização à centralização. O Governo do
Estado tem papel indispensável: pode reduzir desigualdades de capacidade
fiscal, financiar investimentos regionais e induzir cooperação. Mas coordenação
não é subordinação.
Fortalecer
a capacidade do Estado não significa transferir para uma estrutura central
decisões que deveriam ser construídas territorialmente. O desafio é produzir
uma governança multinível na qual Estado e municípios compartilhem
responsabilidades, recursos e poder decisório, com participação efetiva da
sociedade.
Há
muito a reformar no sistema metropolitano paulista. Agências precisam ser
modernizadas, fundos precisam funcionar, conselhos precisam ganhar densidade
política e os PDUIs precisam orientar investimentos, planos diretores e
políticas setoriais. São reformas que exigem capacidade institucional,
financiamento e participação, e não seu esvaziamento. Tudo isso é reforma.
Desmontar capacidade institucional é outra coisa.
Talvez
a pergunta não seja quanto custa manter a governança metropolitana, mas quanto
custa não a ter. Quanto custam políticas de mobilidade desarticuladas, moradia
sem integração com emprego e transporte, urbanização que ignora bacias
hidrográficas e municípios enfrentando isoladamente a crise climática?
Governança
metropolitana não é burocracia excedente. É infraestrutura democrática e
institucional para governar um território que já é metropolitano.
São
Paulo não precisa escolher entre municípios isolados e um Estado centralizador.
Precisa construir uma terceira possibilidade: metrópoles fortes, cooperativas,
financiadas e democráticas.
Caso
contrário, a pergunta que dá título a este artigo deixará de ser uma provocação
e passará a descrever uma política de Estado.
Fonte:
Por Ana Maria Isar dos Santos Gomes, em Outras Palavras

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