quarta-feira, 21 de outubro de 2026

“Heróis nacionais”: quatro vezes em que Flávio Bolsonaro defendeu a ditadura

Em discursos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), participações em eventos dedicados à memória do período ditatorial e no livro biográfico que escreveu sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador e candidato à Presidência do Brasil Flávio Bolsonaro (PL) reiterou várias vezes sua admiração pelo que chama de “revolução militar” brasileira, o período antidemocrático que vigorou no país entre 1964 e 1985.

Segundo os registros públicos da Alerj, durante seu período como deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro proferiu pelo menos 12 discursos com elogios à ditadura, entre 2004 e 2011, frequentemente na mesma data do golpe, o dia 31 de março.

Além de homenagear militares e exaltar a história do golpe de 1964, Flávio também criticou a Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada pela Lei nº 12.528/2011 e instalada em 2012 para investigar as violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, e defendeu que integrantes da repressão recebessem reconhecimento público.

A seguir, quatro episódios em que o presidenciável defendeu o período militar com nostalgia.

<><> 1. “Avanço social”

Em 31 de março de 2004, durante pronunciamento na Alerj, Flávio Bolsonaro saiu em defesa do regime militar e criticou a “visão negativa” que se tem sobre o período.

O discurso foi feito no aniversário do golpe que derrubou o presidente João Goulart, em 1964, e deu início a uma ditadura que duraria 21 anos.

“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, declarou na ocasião.

Em 1964, um conluio entre as Forças Armadas brasileiras depôs o então presidente em exercício, João Goulart, que havia assumido o cargo após a renúncia de Jânio Quadros.

Jango, como era conhecido, queria implementar um Plano Trienal para a economia, elaborado pelo economista Celso Furtado, a fim de ajustar as contas públicas e retomar o crescimento econômico entre 1963 e 1964.

Entre as propostas defendidas pelo governo estavam as reformas de base, que incluíam mudanças estruturais em áreas como a agrária, a fiscal e a educacional. A nacionalização das refinarias de petróleo também integrava as reivindicações de setores que apoiavam o governo. Essas propostas contrariaram interesses de grupos conservadores brasileiros e dos Estados Unidos, que apoiaram a oposição a Goulart e contribuíram para criar as condições políticas para sua deposição, em 31 de março de 1964.

O regime, que durou 21 anos, restringiu direitos políticos, cassou mandatos, interveio em sindicatos e universidades, censurou a imprensa e perseguiu opositores. A repressão incluiu prisões ilegais, tortura, execuções e desaparecimentos forçados.

<><> 2. “Contrarrevolução democrática”

Cinco anos depois, em 31 de março de 2009, Flávio voltou à tribuna da Alerj para defender os militares e, na ocasião, leu um manifesto que descrevia o golpe de 1964 como uma “contrarrevolução democrática”, supostamente necessária para impedir que o Brasil adotasse um regime comunista inspirado em Cuba.

Ele disse: “Para mim, [o golpe de 64] é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”.

O Ato Institucional nº 1, editado em abril de 1964, permitiu cassações de mandatos e suspensões de direitos políticos. Em 1968, o Ato Institucional nº 5 aprofundou a repressão, autorizando medidas como o fechamento do Congresso, a suspensão de garantias políticas e a ampliação das possibilidades de intervenção do regime sobre a sociedade. A ditadura também impôs censura à imprensa, às artes e à produção cultural.

<><> 3. “Inversão de valores”

Em março de 2010, Flávio voltou a associar sua atuação parlamentar à defesa dos militares, quando compareceu a uma solenidade em memória do golpe, realizada no Clube Militar do Rio de Janeiro.

“Tomo esta postura desde o meu primeiro dia de mandato nesta Casa em defesa aos militares e faço questão de vir a mais um 31 de março do ano de 2010 fazer a minha parte — e na linguagem que hoje é muito comum — na resistência à inversão de valores que a nossa sociedade vive hoje”, disse ele na Alerj.

<><> 4. “Heróis nacionais”

Na biografia do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, intitulada Mito ou verdade (2017), Flávio faz várias outras apologias ao regime ditatorial brasileiro, com elogios ao golpe de 1964, críticas explícitas à criação da Comissão Nacional da Verdade para investigar casos de tortura e promover o reconhecimento dos mortos pelo regime, além da defesa de homenagens aos envolvidos na repressão.

Flávio escreve, no livro, que, “ao invés de marginalizados, [os militares] deveriam ser tratados como heróis nacionais”.

Entre os militares elogiados no livro está Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do Exército que comandou o DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, entre 1970 e 1974. O órgão foi um dos principais centros de repressão política durante a ditadura, responsável por interrogatórios e pela custódia de presos políticos em condições nas quais ocorreram torturas e mortes. Sob o comando de Ustra, presos políticos, incluindo mulheres e crianças, foram submetidos a práticas de tortura.

Em 2008, Ustra se tornou o primeiro militar reconhecido judicialmente como torturador durante a ditadura. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) julgou procedente uma ação declaratória movida pela família Teles, cujos integrantes foram vítimas de tortura praticada sob o comando do coronel.

Ustra é apontado como responsável direto ou indireto por mais de 50 mortes e desaparecimentos durante sua gestão no DOI-Codi, e estima-se que mais de 500 pessoas tenham sido submetidas a sessões de tortura sob seu comando.

Flávio descreveu Ustra como um “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e afirmou que ele teria sido “massacrado pela mídia”.

No livro, ele ainda questiona as circunstâncias da morte e do desaparecimento do ex-deputado federal Rubens Paiva, um dos casos emblemáticos da repressão política durante a ditadura e que ganhou projeção internacional com o filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles.

Rubens Paiva foi preso por agentes do Estado em janeiro de 1971, no Rio de Janeiro. Ele foi levado às dependências do DOI-Codi do I Exército, onde foi submetido a tortura e morreu. Seu corpo nunca foi localizado, e os agentes envolvidos ocultaram as circunstâncias de sua morte.

•        Fascismo, nazismo e a família Bolsonaro. Saiba o que está em jogo nessas eleições

A mecânica de ascensão, conquista e tentativa de perpetuação no poder da família Bolsonaro guarda pontos de semelhança com a trajetória que levou os nazistas ao governo da Alemanha. Um deles merece atenção: a derrota de uma tentativa de golpe não significa que seus responsáveis tenham abandonado o projeto autoritário.

Em novembro de 1923, Adolf Hitler participou de uma tentativa de derrubar o governo alemão, conhecida como o Putsch da Cervejaria. O golpe fracassou. Condenado por alta traição a cinco anos de prisão, foi libertado em dezembro de 1924, após cumprir menos de um ano. Depois disso, passou a buscar o poder pela participação eleitoral, mantendo o objetivo de destruir a democracia.

Em janeiro de 1933, após o crescimento do Partido Nazista e acordos com setores conservadores, Hitler foi nomeado chanceler. A partir do governo, desmontou as instituições democráticas. Em poucos meses, a Alemanha se tornou uma ditadura de partido único. O restante da história é conhecido: perseguição, guerra e um Estado organizado para o extermínio.

Auschwitz tornou-se símbolo desse desfecho. O complexo de campos de concentração e extermínio é o local onde o regime nazista assassinou cerca de 1,1 milhão de pessoas, a maioria judeus . Nas redes sociais, é crescente o número de postagens sobre essa que é uma das marcas mais cruéis da história da humanidade. Uma mensagem que circula nas redes diz: “Ninguém votou em Auschwitz, mas votaram em quem construiu”. A frase sintetiza o alerta de que o apoio que leva um movimento autoritário ao poder pode abrir caminho para consequências muito além das promessas de campanha.

No Brasil, a família Bolsonaro já demonstrou intenções de ruptura por meio de declarações e ações. A defesa da ditadura, as ameaças ao Supremo Tribunal Federal e a tentativa de impedir a transferência do poder após a derrota eleitoral de 2022 compõem uma trajetória que ajuda a compreender os alertas sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Entre essas tentativas, que serão abordadas a seguir, estão a promessa de anistiar os condenados pela tentativa de golpe, as declarações sobre mudar a Constituição e o uso de referências à propaganda fascista na campanha acrescentam elementos a esse histórico.

A comparação histórica exige reconhecer diferenças entre os dois países e movimentos. Seu propósito é examinar como forças autoritárias podem recorrer às eleições depois de fracassar pela via golpista — e usar o poder conquistado para enfraquecer os controles que deveriam limitá-las.

<><> Semelhanças com o nazismo

O fascismo, que chegou ao governo italiano sob Benito Mussolini, combina nacionalismo extremo, culto ao líder, rejeição ao pluralismo e violência contra adversários. O nazismo alemão compartilhou essas características, mas teve no racismo e no antissemitismo fundamentos de sua organização política.

A construção de inimigos é parte desse mecanismo. Problemas complexos passam a ter culpados previamente escolhidos. O chefe promete salvar a nação, enquanto quem o contesta é apresentado como ameaça. A propaganda transforma divergências em uma disputa entre os supostos defensores do país e aqueles que deveriam ser afastados da vida pública.

Críticos do bolsonarismo identificam aproximações nessa forma de mobilização: o líder tratado como “mito”, a associação de adversários ao comunismo, os ataques à imprensa e a apresentação de instituições independentes como obstáculos à vontade popular.

Também existem episódios concretos envolvendo referências à propaganda autoritária. Em janeiro de 2020, Roberto Alvim, então secretário especial da Cultura de Jair Bolsonaro, divulgou um pronunciamento com trechos semelhantes aos de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista. A repercussão levou à sua demissão.

Mais recentemente, em 8 de outubro, um canal oficial do PL no WhatsApp publicou uma imagem de Flávio com o rosto cercado pela repetição da expressão “Tropa do Flávio”. A composição remetia à fachada do Palazzo Braschi, em Roma, usada pela propaganda de Mussolini em 1934. A publicação foi apagada após as críticas. A referência, nesse caso, era ao fascismo italiano.

Slogans como “Deus, Pátria e Família”, também adotado pelo integralismo brasileiro, entram nessa discussão. A defesa da religião, da família ou do país não caracteriza, por si só, um movimento fascista. O problema aparece quando esses valores são usados para negar legitimidade a quem pensa, vive ou se organiza de outra maneira.

Símbolos e semelhanças visuais ajudam a investigar uma orientação política. O elemento de maior peso, porém, é a conduta diante das regras democráticas: aceitar a oposição, respeitar decisões institucionais e reconhecer uma derrota eleitoral.

<><> Histórias de família

A jornalista Flávia Tavares, editora do Meio, recupera uma sequência de manifestações que mostra como o autoritarismo atravessa a trajetória da família Bolsonaro.

Em entrevista à TV Bandeirantes, em 1999, Jair Bolsonaro afirmou que daria um golpe e defendeu uma guerra civil, mencionando “matando uns 30 mil”. Na declaração reproduzida pela jornalista, o então deputado dizia que o voto não produziria a mudança que desejava e defendia a passagem para uma ditadura.

Em 2016, ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador. Chamou o coronel de “o pavor de Dilma Rousseff”, vinculando seu voto à violência sofrida pela então presidenta durante o regime militar.

As manifestações dos filhos deram continuidade a essa orientação. Eduardo Bolsonaro afirmou, em 2018, que bastariam um soldado e um cabo para fechar o Supremo. Em 2019, falou na possibilidade de um novo AI-5, instrumento usado pela ditadura para ampliar a repressão e suprimir direitos.

Segundo Tavares, Flávio publicou, em 2017, uma biografia do pai em que nega o golpe de 1964, exalta a ditadura, elogia Ustra e desacredita as urnas eletrônicas.

Essa sequência importa porque permite avaliar a candidatura pelo histórico de seu principal grupo político. Uma apresentação mais moderada durante a campanha não apaga manifestações anteriores nem esclarece, sozinha, quais compromissos orientarão um eventual governo.

<><> Poder a todo custo

Em 2022, a resistência à alternância de poder ultrapassou o discurso. A tentativa de golpe buscou manter Jair Bolsonaro na Presidência e impedir a posse de Lula. O processo terminou com a condenação do ex-presidente e de outros integrantes do chamado núcleo crucial da trama pelo Supremo Tribunal Federal.

É nesse ponto que o paralelo com a história alemã se torna relevante: uma tentativa de ruptura derrotada pode ser seguida por uma reorganização eleitoral. A participação nas urnas precisa ser examinada junto aos compromissos de quem pretende retornar ao governo.

Flávio promete anistiar os condenados pela tentativa de golpe. Na análise de Tavares, a candidatura representa a continuidade do projeto do pai, incluindo a intenção de reverter sua responsabilização.

A jornalista também reproduz uma entrevista à Folha, de 2025, na qual Flávio discutiu o que poderia acontecer se o Supremo derrubasse um indulto a Jair. O senador mencionou a possibilidade de “uso da força” e de interferência entre os Poderes. Negou estar fazendo uma ameaça, mas colocou a força entre os cenários de uma disputa envolvendo a liberdade do pai.

Agora, associa a força de seus aliados no Congresso à intenção de mudar a Constituição para “redemocratizar este país”. A declaração exige esclarecimento sobre quais mudanças pretende promover e quais instituições seriam atingidas.

O apoio parlamentar pode facilitar a aprovação de propostas. Não constitui autorização para eliminar controles sobre o Executivo. O risco apontado por Tavares é que um governo bolsonarista reúna condições políticas para enfraquecer esses controles e prolongar sua permanência no poder.

<><> O discurso muda quando o voto está em disputa

As mudanças de posição de Flávio sobre políticas sociais e direitos trabalhistas também precisam ser examinadas. Elas não comprovam, por si mesmas, uma intenção golpista. Permitem, entretanto, comparar o histórico do candidato com as promessas apresentadas aos eleitores.

No caso do Bolsa Família, uma reportagem do Estadão, publicada pelo UOL, recuperou manifestações em que Flávio chamava o programa de “bolsa-farelo” e o associava à dependência eleitoral. Em junho de 2026, passou a apresentá-lo como um direito e a defender sua manutenção para quem ingressa no mercado formal. Procurado, negou mudança de posição.

Sobre aposentadorias e benefícios, a Folha informou, em 7 de outubro, que assessores econômicos estudavam desvincular os reajustes da Previdência e do BPC dos ganhos reais do salário mínimo, além de alterar os pisos de saúde e educação. A campanha contestou a reportagem e afirmou que essas propostas não constavam do plano oficial. No dia seguinte, Flávio prometeu manter aumentos das aposentadorias acima da inflação.

Na discussão sobre a escala 6×1, a mudança foi explícita. Após criticar a iniciativa, Flávio anunciou, em 13 de outubro, que votaria pelo fim da escala. Manteve ressalvas e afirmou que o governo deveria compensar os empresários. Trata-se de uma declaração de voto, que precisa ser confrontada com sua atuação na votação.

Na mesma data, o Painel da Folha informou que aliados e empresários haviam recebido a sinalização de que, se eleito, Flávio defenderia mudanças para ampliar a negociação entre empresas e trabalhadores. Segundo a coluna, a intenção seria rever pontos da proposta, sem derrubá-la integralmente.

A distância entre críticas anteriores, compromissos públicos e propostas discutidas com aliados torna necessário cobrar respostas precisas. Para quem depende de um benefício ou trabalha seis dias por semana, essa diferença pode determinar renda, descanso e proteção social.

<><> O risco de ruptura alcança a vida cotidiana

Na avaliação de Tavares e de outros críticos, o Brasil enfrenta uma ameaça que pode avançar pela concentração de poder dentro das instituições. A colunista Milly Lacombe, por exemplo, relaciona a propaganda associada a Mussolini aos riscos autoritários da candidatura. Essas são avaliações identificáveis; não permitem afirmar que exista consenso entre especialistas ou medir o que pensa a maioria da sociedade.

Também seria impreciso apresentar uma ruptura como inevitável ou um “abismo sem volta”. O alerta se sustenta em um risco concreto, com antecedentes, cujas consequências podem ser profundas e difíceis de reverter.

Para a população, democracia significa poder cobrar um governante, denunciar abusos, organizar uma greve e defender direitos sem ser tratado como inimigo. Quando essas garantias são enfraquecidas, trabalhadores, organizações sociais, jornalistas e grupos perseguidos ficam mais expostos ao poder de quem governa.

A história alemã mostra que derrotar um golpe não encerra necessariamente a ameaça. No Brasil, a tentativa de ruptura foi contida, mas seu principal dirigente continua sendo a referência de uma candidatura que promete anistia e mudanças constitucionais.

Esse histórico precisa acompanhar a leitura das promessas de campanha. O risco está em entregar novos instrumentos de poder a um grupo que já demonstrou disposição para ultrapassar os limites da democracia — e permitir que a próxima tentativa encontre menos resistência.

 

Fonte: Fórum/Condsef

 

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