João
Alfredo Nyegray: Kim Jong Un ficou mais perigoso em 2026 e ninguém falou sobre
isso
Enquanto
o mundo debatia o Estreito de Ormuz, o Pacto de Meca, a Doutrina Monroe e as tarifas
americanas sobre o Brasil, um país na ponta leste da Ásia ficou silenciosamente
mais perigoso do que havia sido em qualquer momento recente.
A
Coreia do Norte não realizou cúpulas de crise. Não emitiu comunicados
dramáticos que dominassem o noticiário global. Simplesmente testou mísseis,
comissionou navios de guerra, mandou soldados para uma guerra europeia e
recebeu de volta tecnologia de armamentos que nenhum acordo de não-proliferação
poderia ter autorizado.
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O país que ficou mais armado enquanto ninguém olhava
A Coreia do Norte já testou mais
mísseis balísticos em 2026 do que em todo o ano de 2025. Os testes incluem
diferentes tipos: mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro de ataque terrestre e
mísseis de cruzeiro antinavio.
Em 25
de junho de 2026, Kim Jong Un supervisionou testes de uma ogiva balística de
“missão especial”, um lançador de foguetes aprimorado com alcance estendido e
um canhão-obuseiro autopropulsado, chamando o exército a adotar uma “postura
ofensiva mortal e destrutiva”.
Na
mesma semana, Kim afirmou que seus inimigos devem “sentir constante desconforto
e medo” — não como retórica vazia, mas como objetivo declarado de política de
segurança.
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Mais testes em 2026 do que em todo o 2025
O ritmo
acelerado tem uma lógica: a Coreia do Norte está num período de modernização
militar acelerada que se beneficia de dois fatores simultâneos — tecnologia
recebida da Rússia e recursos financeiros obtidos pela exportação de munições
para a guerra na Ucrânia.
Quando
esses dois insumos chegam ao mesmo tempo, o resultado é exatamente o que
estamos vendo: testes mais frequentes, sistemas mais avançados, postura mais
agressiva.
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O negócio mais perigoso do mundo
Aqui
está o elemento que transforma a Coreia do Norte de 2026 numa ameaça
qualitativamente diferente de qualquer ponto anterior da sua história: a
natureza do acordo com a Rússia.
Durante
décadas, a Coreia do Norte exportou tecnologia e armamentos — para o Irã, para
o Hezbollah, para países africanos. Era um vendedor. Agora é, simultaneamente,
vendedor e comprador. E o que está comprando é mais valioso do que qualquer
coisa que vendeu.
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A Rússia melhorou os mísseis norte-coreanos e devolveu o conhecimento
Em
abril de 2026, Kim Jong Un e sua filha Kim Ju Ae observaram um teste de cinco
mísseis com cargas de munições de fragmentação — uma versão aprimorada do
KN-23, o míssil balístico de curto alcance que a Coreia do Norte enviou à
Rússia e que Moscou melhorou em múltiplos aspectos antes de enviar de volta o
conhecimento de como produzir a versão aprimorada.
Leia
essa frase com atenção: a Rússia recebeu o míssil norte-coreano, melhorou sua
survivabilidade e precisão em condições de guerra real na Ucrânia, e então
mandou de volta à Coreia do Norte o conhecimento de como fabricar a versão
melhorada.
É uma
transferência de tecnologia reversa que nenhum regime de sanções conseguiu
prever nem bloquear.
Moscou
forneceu a Pyongyang sistemas de guerra eletrônica, sistemas de defesa aérea
com aplicações terrestres e marítimas, apoio para lançamento de satélites e
ajuda com seu programa de mísseis. Em troca, a Coreia do Norte forneceu
munições, mísseis e, crucialmente, soldados.
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15 mil soldados foram para a Ucrânia. Os que voltaram trouxeram algo
Kim
Jong Un realizou uma cerimônia em Pyongyang para homenagear soldados
norte-coreanos que lutaram na Ucrânia, concedendo títulos de “herói do Estado”
aos que retornaram e colocando medalhas ao lado de 101 retratos dos que
morreram em combate, elogiando-os como “grandes homens, grandes heróis e
grandes patriotas”.
Segundo
avaliações sul-coreanas, a Coreia do Norte enviou aproximadamente 15 mil
soldados à Rússia. Cerca de 600 morreram em combate. Os que sobreviveram e
voltaram trouxeram algo que dinheiro nenhum pode comprar: experiência real de
guerra moderna.
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A guerra como escola de modernização militar
O
exército norte-coreano é imenso — mais de 1,2 milhão de soldados ativos — mas
notoriamente desatualizado. A doutrina militar herdada da era soviética, o
equipamento envelhecido, a falta de exposição a combate moderno eram suas
principais fraquezas.
Os
veteranos de Kursk carregam de volta para Pyongyang algo que nenhum treinamento
simulado pode ensinar: como travar uma guerra com drones, como usar guerra
eletrônica no campo, como coordenar infantaria com artilharia de precisão, como
sobreviver a contramedidas modernas de defesa aérea.
A
Ucrânia, involuntariamente, treinou o próximo escalão de liderança militar da
Coreia do Norte.
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A marinha nuclear que está se formando em silêncio
Em 23
de junho, Kim comissionou o novo navio de guerra Choe Hyon, afirmando que o
armamento nuclear da marinha norte-coreana está “progredindo conforme o
planejado” e garantindo que o país está pronto para operações “multifacetadas e
eficientes”.
A
nuclearização da marinha norte-coreana é um desenvolvimento que raramente
aparece nas manchetes — porque é gradual, técnico e não produz imagens
dramáticas.
Mas
suas implicações são profundas: uma marinha com capacidade nuclear tem alcance
que uma força terrestre jamais terá. Ela pode ameaçar rotas marítimas, pode
posicionar capacidade de segundo ataque em águas profundas, pode projetar poder
além da península coreana.
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A filha que acompanha os testes e o que isso sinaliza
Há um
detalhe nos relatórios de testes de 2026 que analistas observam com atenção
crescente: Kim Ju Ae, filha adolescente de Kim Jong Un, continua aparecendo ao
lado do pai nas cerimônias militares de alto perfil. Ela estava presente no
teste de mísseis de abril com munições de fragmentação.
A
exposição deliberada de uma criança a eventos militares classificados, num
regime onde nada é acidental, sugere que Kim está construindo sua legitimidade
política para uma eventual sucessão — ou sinalizando ao establishment militar
que a próxima geração da família já está sendo integrada à estrutura de poder.
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O que Kim quer e quando pode conseguir
A
Agência de Inteligência de Defesa dos EUA avaliou em 2025 que Kim estava “cada
vez mais confiante em sua legitimidade política internacional e segurança do
regime.”
O
objetivo de Kim não é invadir a Coreia do Sul amanhã. É construir um arsenal
tão intimidador, tão diversificado e tão bem testado que os EUA aceitem a
Coreia do Norte como potência nuclear e negociem concessões econômicas e de
segurança a partir dessa posição.
É a
estratégia que funcionou para o Paquistão, que funcionou para a Índia, que
funcionou para Israel. Kim está tentando tornar sua nuclearização um fato
irreversível que o mundo aceite como dado.
Em
2026, ele está mais perto disso do que em qualquer momento anterior.
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O que isso significa para o mundo e para o Brasil
A
Coreia do Norte é o país que mais claramente demonstra como crises simultâneas
em outras regiões criam espaço para que atores menores avancem. Enquanto o
mundo discutia o Estreito de Ormuz, Kim testava mísseis.
Enquanto
a OTAN debatia o flanco leste, veteranos norte-coreanos aprendiam guerra
moderna em Kursk. Enquanto o Brasil negociava tarifas com os EUA, a marinha de
Pyongyang comissionava navios de guerra com capacidade nuclear.
Para o
Brasil, isso importa não por razão de segurança direta — Pyongyang não tem
nenhum interesse no Atlântico Sul — mas por dois motivos indiretos. Primeiro:
qualquer escalada na península coreana afeta a Coreia do Sul, que é um dos
principais parceiros comerciais do Brasil na Ásia.
Segundo:
o avanço tecnológico da Coreia do Norte, especialmente em mísseis balísticos,
alimenta a proliferação global — o mesmo mercado que fornece tecnologia para
regimes que têm interesses no Oriente Médio e em outras regiões onde o Brasil
tem relações comerciais.
O mundo
esqueceu de olhar para a Coreia do Norte. A Coreia do Norte aproveitou o
descuido para se tornar um problema maior do que era.
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Imagens de satélite revelam o centro de lazer secreto de
Kim Jong Un
Um iate
de luxo de 80 metros de comprimento foi identificado repetidas vezes em imagens
de satélite do litoral de Wonsan, na Coreia do Norte, entre julho e
meados de outubro deste ano.
O que
mais se destaca na embarcação é sua piscina de 50 metros ao longo do convés,
com um conjunto de toboáguas em uma das extremidades.
Depois
de passar meses atracado em um estaleiro de manutenção, o iate se moveu no
início do julho, até uma faixa de litoral a leste, conhecida como a península
de Kalma.
O local
fica próximo a Wonsan, um resort no litoral onde existe uma
extensa casa de praia usada pelo líder norte-coreano Kim Jong Un e sua família.
Esta
não é a única embarcação de grandes dimensões que vem se movimentando na
região. Diversas outras também foram vistas repetidamente perto da casa de
praia de Kim, em imagens de satélite analisadas pela BBC.
Acredita-se
que os iates sejam usados por Kim e sua família. Ex-autoridades, desertores e
especialistas norte-coreanos afirmam que seria difícil para alguém sem conexões
com a liderança do regime ser o dono ou usar livremente embarcações deste
tamanho.
"No
inverno, os iates eram mantidos no estaleiro. Quando chegava o verão, eles os
retiravam e os levavam até a casa de praia de Kim Jong Un ou em direção a
Kalma, para serem usados para nadar e como recreação", explica Ri Jong Ho.
Ri foi
funcionário do Escritório 39 do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte.
Acredita-se que este escritório esteja envolvido na obtenção e gestão de moeda
estrangeira dos líderes do país.
A
riqueza das pessoas nos cargos mais altos da sigilosa ditadura norte-coreana é
algo tão difícil de determinar quanto os números da economia do país.
As
Nações Unidas e outros organismos se valem de estimativas para classificar a
Coreia do Norte como um dos países mais pobres do mundo, mas com um orçamento
militar particularmente grande, que financia um programa nuclear objeto de
sanções.
A maior
parte dos norte-coreanos, segundo um relatório da ONU de 2025, vive sob
"violações graves, disseminadas e sistemáticas dos direitos humanos",
com total controle do Estado, trabalhos forçados generalizados e escassez
crônica de alimentos. Estima-se que 40% da população sofra de desnutrição.
Mas o
regime norte-coreano é conhecido por viver no luxo há muito tempo.
O custo
dos navios observados nas imagens de satélite é desconhecido. Mas iates de luxo
comparáveis custam de dezenas de milhões até mais de 100 milhões de dólares
(cerca de R$ 507 milhões). E o valor do iate de Kim chamado Princess, que é
muito menor que o das imagens (ele tem 29 metros de comprimento), já foi
estimado em cerca de US$ 7 milhões (R$ 35,5 milhões).
A
localização das embarcações, por si só, não permite determinar com clareza o
paradeiro da família Kim em um dado momento. Mas as movimentações dos iates,
que coincidem com ausências do líder em aparições públicas, sugerem atividades
que, de outra forma, permaneceriam fora da visão do público.
Kim
Jong Un passou parte da sua infância em Wonsan com sua mãe, segundo biógrafos e
relatórios de inteligência. Um especialista contou à BBC que a cidade é
associada à família desde o governo do seu pai, Kim Jong Il (1941-2011).
Um
desertor que serviu por 13 anos (durante a década de 1990 até o início dos anos
2000) na chamada Unidade 974, protegendo residências usadas pelo então líder
Kim Jong Il, contou à BBC que a elite do país usava as casas de praia perto de
Wonsan como retiro. Ele se lembra de ver dezenas de crianças e adolescentes
praticando esqui aquático durante o verão.
A
imprensa estatal norte-coreana raramente publica reportagens mostrando Kim em
férias. Essas visitas são noticiadas como inspeções oficiais ou viagens de
orientação.
Mas
desertores entrevistados no passado pela BBC aparentemente sabem que a família
passa férias em Wonsan, o que sugere que pelo menos alguns norte-coreanos têm
conhecimento a respeito.
A
imprensa estatal norte-coreana também afirma que Wonsan abriga grandes hotéis,
restaurantes, lojas, instalações esportivas e parques aquáticos, e pode
acomodar cerca de 20 mil visitantes.
A
imprensa estatal e portais de notícias da Rússia publicaram imagens de pequenos
grupos de turistas russos visitando o resort
de Wonsan Kalma, aberto em julho de 2025. Construído para atrair visitantes do
exterior, o resort também está aberto para turistas locais.
Uma
reportagem publicada na Coreia do Sul, citando uma fonte não identificada,
afirma que moradores locais receberam ofertas de pacotes turísticos de quatro
noites por cerca de US$ 100 (cerca de R$ 507), um valor substancial para a
maioria dos cidadãos norte-coreanos.
O PIB
per capita do país em 2024 era de cerca de US$ 667 (R$ 3,4 mil), segundo as
Nações Unidas. Este valor é uma fração do PIB per capita da Coreia do Sul, de
US$ 36.227 (cerca de R$ 184 mil).
Por
isso, para a maior parte dos norte-coreanos, as férias estão fora de cogitação.
Existe uma classe média em crescimento no país, mas eles talvez não tenham
muito tempo de lazer.
Os
desertores contaram à BBC que trabalhadores, funcionários de escritórios e
agricultores cooperativos têm direito legal a 14 dias de férias anuais, o que
raramente é respeitado.
Tirar
dias consecutivos de folga para viajar é incomum. As pessoas, normalmente,
fazem viagens de fim de semana ou nos feriados nacionais, não durante os
períodos designados de "férias de verão"
Mesmo
quando é concedida a licença, as viagens são restritas. As pessoas precisam ter
permissão oficial para viajar para fora da sua cidade ou região. E a livre
movimentação, às vezes, é um luxo tão grande quanto as férias em si.
A BBC
acompanhou quatro grandes navios perto de Wonsan, medindo cerca de 50 metros,
55 m, 60 m e 80 m de comprimento. Todos eles apareceram repetidamente perto da
casa de praia de Kim em Wonsan este ano.
O navio
maior mostrou a atividade mais clara, movendo-se das docas para as águas perto
da península de Kalma, onde permanece desde julho.
Dois
outros navios, de 50 m e 55 m, foram observados repetidamente até o final de
agosto, no entorno das ilhas Tae e Sin, perto de Wonsan.
As
imagens de satélite também mostraram quatro barcos menores, ao lado do navio de
50 metros de comprimento.
O
especialista em imagens de satélite Jeong Seong-hak declarou que os navios
menores transportavam pessoas, combustível e suprimentos para o navio maior.
Ele destaca que as ilhas pequenas, como Tae e Sin, oferecem "retiros
marítimos isolados, onde é possível manter a privacidade, fora dos olhares do
público".
O navio
de 60 metros foi observado repetidamente perto da casa de praia de Kim em
Wonsan até a semana passada.
A
Coreia do Norte nunca revelou ao público a propriedade oficial dos navios. Mas
a análise de imagens históricas de satélite feita pela BBC encontrou em Wonsan
uma grande embarcação com as mesmas características no ano de 2002, quando Kim
Jong Il era o governante da Coreia do Norte.
O
antigo astro da NBA Dennis Rodman visitou a Coreia do Norte em 2013. Ele
declarou ao jornal britânico The Sun ter passado grande parte da sua visita de
sete dias com Kim Jong Un perto de Wonsan, onde eles cavalgaram e praticaram
esqui aquático.
O
ex-jogador de basquete também descreveu uma embarcação de 60 metros usada por
eles como cruzamento entre uma balsa e um barco da Disney. Não se sabe ao certo
se este seria o mesmo navio de 60 metros registrado nas imagens de satélite
acima.
Para a
maioria dos norte-coreanos, o estilo de vida dos Kim (e de outros apoiadores do
regime) pareceria não apenas extravagante, mas inimaginável — especialmente
considerando que a propaganda estatal da Coreia do Norte se dedica a apresentar
o "líder supremo" como um homem abnegado, que sempre coloca a nação
em primeiro lugar.
"Kim
Jong Un é considerado um 'líder do povo'", segundo Ri Jong Ho. "Mas
ele tem quatro navios de luxo como estes, enquanto as pessoas comuns lutam para
conseguir apenas uma refeição por dia."
Fonte:
BBC News Coreia

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