terça-feira, 20 de outubro de 2026

Jorge Folena: A utopia tomou as ruas do Brasil

Este texto é uma reflexão decorrente dos acontecimentos que tomaram as ruas do Brasil, depois das eleições de 4 de outubro, na qual os fascistas conseguiram o seu primeiro objetivo, que é controlar o parlamento brasileiro com posse prevista para 01/02/2027, havendo o risco de também passarem a controlar o governo federal.

Se porventura isso acontecer, será extremamente prejudicial ao equilíbrio das forças políticas e sociais no Brasil, principalmente diante do risco de pessoas com viés autoritário e abertamente defensores da violência armada tornarem-se a voz dominante nas instituições públicas do país, sendo que eles já anunciaram que farão mudanças profundas no que ainda restou de democrático na Constituição de 1988.

Entre as reformas constitucionais pretendidas por eles, muitas estão relacionadas à retirada de direitos sociais, conquistados na constituinte de 1987/1988 (como o SUS e a previdência social pública), para favorecer os interesses do mercado financeiro. Outras têm cunho revanchista, em razão das condenações do 08/01/2023, pois pretendem realizar mudanças autoritárias na estrutura do poder judiciário, impondo o fim das justiças eleitorais e do trabalho e ampliando as competências da justiça militar, a exemplo do que fez a ditadura de 1964, por meio do ato institucional número 02/1966. 

Porém, na noite do dia 5 de outubro, 24 horas após o anúncio do resultado do primeiro turno, os estudantes reagiram de modo surpreendente. Por força do destino, naquela segunda-feira comemoravam-se os trinta e oito anos da promulgação da Constituição de 1988, essa mesma em que os fascistas pretendem fazer mudanças profundas, segundo eles para estabelecer a sua “democracia”.

Naquela noite, milhares de jovens saíram debaixo de chuva pelas ruas do bairro de Icaraí, na Zona Sul da Cidade de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. O fato ganhou imediatamente as redes sociais e, em seguida, as ruas do Brasil começaram a ser ocupadas pela defesa da democracia, da Constituição e pela reeleição de Lula contra o filho do ex-presidente fascista, que foi condenado por tentativas de golpe de estado e de violação do estado democrático de direito.

Dois dias depois, em 7 de outubro, os estudantes secundaristas, universitários e pós-graduados tomaram o Centro da cidade do Rio de Janeiro, numa movimentação há décadas não vista. Eram jovens de todas as raças e classes sociais, entoando cantos e palavras de ordem em defesa da democracia e do acesso à educação pública para os filhos dos trabalhadores. Foi emocionante vivenciar, como homem maduro, o poder “da nossa linda juventude”, tanto em Niterói quanto no Centro do Rio de Janeiro, que empurrou com toda força a onda pró-reeleição de Lula da Silva.

Contudo, independentemente da reação da candidatura do presidente Lula, o fato mais importante e que tem tudo para ultrapassar o opositor representante do fascismo, foi ver a juventude lutar pela democracia no Brasil, sob a liderança de um homem com mais de 80 anos. Muitos analistas, desinformados e pessimistas de plantão afirmavam que a esquerda tinha envelhecido com a geração de 1968, que os jovens estavam desinteressados da política e, diante do mundo digital, não existiria mais a utopia; e que muitos outros teriam aderido à sedução e mentiras promovidas pelo fascismo.

Na verdade, tais analistas projetaram em seus pensamentos a falsidade da quimera, promovida pela classe dominante concentradora de capital, que usa todos os recursos para apagar os sonhos das pessoas por dias melhores, retirando principalmente dos mais jovens a esperança de um futuro de tranquilidade e bem-estar, pois se encontram subjugados pelas baixas remunerações salariais pagas em troca de escalas de trabalho exorbitantes (como a extinta escala 6×1).

A classe dominante investe na indução de um mundo sem esperança, pois, não havendo sonhos possíveis de serem realizados, o ser humano torna-se presa fácil para as manipulações que produzem homens e mulheres incapazes de promover qualquer mudança política, econômica e social.

Assim, abre-se espaço para o fascismo, como ideologia liberal capitalista. E, para manter o status quo e retirar das pessoas a capacidade de sonhar por dias melhores, introjeta-se na massa trabalhadora o ressentimento, o ódio e a infelicidade, sentimentos que engrossam os valores atrasados e entreguistas defendidos pelo bolsonarismo no Brasil.

Contudo, na contramão do investimento massivo em mentiras promovidas habilmente pelos meios de comunicação social e redes sociais, controlados pela classe dominante financista, estamos constatando o belíssimo fenômeno de resistência promovido pelos jovens, que, pelo visto, ainda sonham com dias melhores para si e seu país; e, assim, seguraram nas mãos do presidente Lula para conduzi-lo para mais um mandato à frente da República Federativa do Brasil.

Independentemente do resultado do segundo turno, é possível afirmar que a utopia ainda faz parte da vida de grande parte da nossa juventude, que alimenta a expectativa de dias melhores, mesmo diante das dificuldades impostas por uma classe dominante liberal/capitalista, que, em em mais de quinhentos anos de domínio no chamado mundo “Ocidental Cristão”, não conseguiu gerar bem estar e paz; ao contrário, semeou apenas violência, saque, guerras e mortes.

Sendo assim, o dever de todo brasileiro que ama verdadeiramente o Brasil é lutar contra o fascismo, que insiste em impor sua virulência, alinhada à subserviência a um projeto colonialista. E votar para que a juventude e todos nós possamos resgatar a esperança em um futuro com dias muito melhores.

•        A força encantadora das ruas. Por Carlos Carvalho

São poucos os espaços que ainda não foram ocupados pelo povo. Não há uma rua, um parque ou praça que não esteja recebendo manifestações em defesa da democracia brasileira. De Norte a Sul, do sertão ao litoral, lá estamos nós na luta cotidiana pela manutenção da soberania nacional, pois sabemos que um país que tanto avançou em políticas públicas de inclusão social não pode ser tomado na “mão grande” por uma quadrilha de “homens de bem”, cujas mãos estão manchadas com o sangue das mais de 700 mil mortes durante a pandemia, assim como a responsabilidade por terem obrigado o povo pobre brasileiro a mendigar um pedaço de osso, para “alimentar” a família, ou ainda, pelas perseguições contra vozes dissonantes e minorias.

Definitivamente, não é esse o país que queremos! mas a luta não é fácil (e quem disse que seria?), uma vez que a disputa não se dá apenas entre os dois candidatos. Trata-se, na verdade, de uma batalha desigual, pois lutamos contra os interesses políticos e econômicos de um poderoso império, a ingerência criminosa das big techs e parte de um judiciário e um parlamento carcomidos por denúncias de corrupção, tentando salvar a própria pele. Neste contexto, alguns dos homens que teriam por obrigação constitucional zelar pela imparcialidade do processo eleitoral já demonstraram, por várias vezes, não estarem à altura da função, deixando seus interesses pessoais e sua parcialidade política moldarem suas decisões em claro prejuízo ao candidato progressista.

Como nada acontece por acaso, é sabido que é interesse de muito “peixe graúdo”, nas mais variadas instâncias da República, que o candidato extremista vença o pleito, pois somente assim o tsunami de imundice que ameaça arrastá-los para o pântano será jogado para debaixo do tapete, em nome de uma pseudo governabilidade, como se aquele famoso banqueiro, e tudo aquilo que o conecta aos poderosos grupos de comunicação, políticos, artistas, jornalistas, atletas, apresentadores de TV, empresários e magistrados, jamais tivesse existido. A questão é que no meio do caminho do fascismo tem uma “pedra”. Na verdade, o que há no caminho são milhares e milhares de pessoas mostrando que a força encantadora das ruas cresce a cada minuto, avançando em direção àqueles que tramam dia e noite contra nossa pátria-mãe, esfaqueada, traída, subtraída, mas já não tão distraída.

O povo está nas ruas, que já começam a ficar pequenas para acomodar a alma encantadora da nossa brava gente brasileira. Os extremistas estão recuando, pois já não estão mais tão confortáveis, e sabem que também não podem cantar vitória. O “boca a boca”, a mão no ombro e a conversa de pé de ouvido já surtem efeitos. A bola está em jogo. O candidato progressista joga futebol. Com a bola no pé, nada impede um gol de virada.

•        O ressentimento de classe. Por William Gómez

O ódio a Lula exerce, neste momento crucial para o futuro do país, uma forte influência na vida política brasileira. No ódio a Lula convergem grupos com interesses distintos, ocultando as profundas contradições da sociedade brasileira, como a concentração de renda e as desigualdades sociais. O nome do Lula vem antes do fato, se perde a objetividade, e o fato só é aceito quando confirma o pré-julgamento. Com a objetividade também se perde a capacidade de diferenciar o que é crítica válida e preconceito. A crítica é necessária diante qualquer poder, mas o ódio é outra coisa. O ódio precisa de um culpado, antes que do fato.

Sem dúvida há razões para criticar Lula e os governos do PT. Mas o ódio a Lula pertence a outra dimensão, nela o preconceito se combina com posturas ideológicas de extrema direita que estiveram latentes na sociedade, e que agora emergiram contaminando o debate político.

A origem social de Lula ocupa um lugar importante nessa hostilidade. Ela aparece no deboche da fala, no desprezo pela escolaridade, na referência pejorativa ao Nordeste. A biografia dele é um defeito para quem o odeia. E parece que ele precisa explicar permanentemente como ele chegou até aqui. Mas ele é, antes de tudo, um democrata que respeita as instituições.

Claro que a origem social não é o único fator que explicaria esse ódio a Lula. Há outros tipos de ressentimentos, decepções talvez, interesses e divergências reais. Mas o preconceito é muito forte. Para certos grupos é muito difícil aceitar que alguém vindo da pobreza, que um imigrante nordestino ocupe a presidência do Brasil.

Lula nasceu em Caetés, no então município de Garanhuns, migrou ainda criança para São Paulo, trabalhou como metalúrgico e chegou à presidência sem ter concluído o ensino fundamental. A sua trajetória e vitória eleitoral em 2002 foi vista por muitos como uma perturbação da ordem social vigente e das hierarquias existentes. Lula chegou ao cargo mais alto do País, historicamente ocupado por representantes das elites políticas e econômicas. Para esses setores acostumados a concentrar o poder a chegada de Lula à presidência significou uma ameaça aos seus interesses.

O trabalho na fábrica, a migração, a origem nordestina, a pobreza, a fome e as lutas sociais passaram a formar parte da biografia de quem ocupava o cargo mais alto do país. E isso alguns grupos não perdoam. Porém, parcelas da população com ele se identificam.

O ressentimento de classe pode ser compreendido desse modo. A ampliação do acesso a espaços antes restritos altera a experiência da posição social. Uma viagem de avião ou o ingresso numa universidade têm um valor concreto. Quando esse acesso se amplia, quem fazia da exclusividade um valor pode sentir que perdeu alguma coisa. Lula expressa as mudanças sociais num país de história lenta, como disse José de Souza Martins.

Lula representa, para a extrema direita, um incômodo que deve ser eliminado. A hostilidade dirigida a ele alcança, por vezes, aqueles que reconheceram em sua ascensão uma possibilidade de participação. O desprezo pelo Lula estende-se aos eleitores. Suas escolhas são atribuídas à ignorância, à dependência ou à incapacidade de compreender os próprios interesses. E estou falando dos mais de 53 milhões que votaram nele no primeiro turno.

A imprensa seleciona fontes, diminui fatos inconvenientes. O jornalista passa a procurar a confirmação de uma certeza e perde a objetividade dos fatos. Uma frase como “acabou a era lulista” deve ser entendida nesse contexto. Essa frase tem circulado com euforia nas redes sociais. O entusiasmo com que às vezes é anunciada mostra o desejo de destruir a presença política do Lula, porém ele conta com um apoio social relevante. Trata-se de um desejo, mais que uma previsão.

É no bolsonarismo que se manifesta esse ódio a Lula. A derrota de Lula tornou-se, para certos setores, um objetivo capaz de justificar ataques às instituições. A contestação das urnas, os pedidos de intervenção militar e a violência do 8 de janeiro expuseram o alcance dessa tolerância. O presidente Jair Bolsonaro atacou repetidamente a confiabilidade das urnas eletrônicas, sem apresentar provas de fraude.

Em 2022, depois da derrota eleitoral, não reconheceu publicamente o resultado de modo claro e imediato. Seus apoiadores bloquearam rodovias e instalaram acampamentos diante de quartéis, pedindo intervenção militar. Em 8 de janeiro de 2023, milhares de pessoas invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Os prédios, as obras de arte e os símbolos da República foram vandalizados em nome de uma ruptura que pretendia anular o voto. Esses fatos n]ao significam a condenação dos eleitores de Bolsonaro, nem significam que toda crítica ao governo Lula é extremismo. A Constituição de 1988, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, a Justiça Eleitoral podem ser criticados, mas não destruídos.

Muitos continuam a relativizar o significado desses ataques à democracia e às instituições. Eram tratados como simples retórica. A ameaça, era apenas um exagero. A ruptura institucional para esses grupos, permanecia aceitável enquanto pudesse afastar o adversário Lula. Essa indulgência ajudou a ampliar o espaço de ação do autoritarismo.

Uma democracia depende de limites ao exercício do poder e à disputa por ele. Esses limites precisam valer quando o resultado desagrada. Aceitar a vitória de Lula faz parte dessa exigência. Fiscalizar seu governo também.

O ódio corrói a capacidade de análise e transforma a disputa política em uma lógica de eliminação do adversário. Para a extrema-direita derrotar Lula torna-se um objetivo acima de qualquer compromisso democrático, como se todos os meios fossem aceitáveis. Quando a rejeição a Lula passou a justificar ataques às instituições é a própria democracia que está em risco.

 

Fonte: Brasil 247

 

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