segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro mentiu ou distorceu em 17 respostas e se referiu a Lula 45 vezes na sabatina da Globo

lávio Bolsonaro (PL) recorreu a informações falsas, distorceu dados e citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 45 vezes durante a entrevista concedida à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, nesta sexta-feira (16), a pouco mais de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais.

Em aproximadamente 43 minutos de entrevista, o candidato bolsonarista fez 28 menções nominais a Lula e outras 17 referências indiretas ao adversário, como “meu concorrente” e “atual governo”, segundo levantamento do Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum. Na prática, Flávio mencionou o presidente ou fez referência a ele, em média, uma vez a cada 57 segundos.

O expediente veio acompanhado de uma série de declarações que não resistiram à confrontação com dados oficiais.

Levantamento realizado pelo Ranking dos Políticos, confirmado pela Fórum e outros institutos de checagem, identificou cinco afirmações falsas e outras 12 imprecisas entre 26 declarações verificadas durante a sabatina. Juntas, representam 65,4% da amostra analisada pela organização.

As checagens mostram que Flávio mentiu sobre segurança pública, Polícia Federal, exploração de petróleo e integrantes do PT, além de distorcer números relativos às contas das estatais, ao Bolsa Família, aos ministérios e à política de segurança.

O candidato também foi pressionado por Renata Lo Prete a explicar suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro (PL). Nervoso, ele tentou deslocar o assunto para outros temas e a relação com Vorcaro ficou sem resposta.

<><> Cinco afirmações falsas: da Polícia Federal à criminalidade

Entre as cinco mentiras ditas está a tentativa de Flávio de atribuir a substituição de um superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, em 2019, a supostos resultados insatisfatórios. A própria PF negou que a mudança tivesse relação com o desempenho do dirigente.

Na ocasião, Renata Lo Prete confrontou o senador, dizendo que a interferência na corporação levou até mesmo à demissão de Sergio Moro, então ministro da Justiça, que rompeu com o clã Bolsonaro e só retornou ao grupo político nas eleições de 2022. Flávio gracejou e desconversou dizendo que o ex-juiz da Lava Jato, eleito governador do Paraná pelo PL, voltou a ser aliado.

O candidato também afirmou que o governo Lula seria recordista em criminalidade, embora os dados sobre mortes violentas intencionais apontem que a taxa registrada em 2025 foi a menor da série histórica iniciada em 2012.

Outra declaração falsa envolveu a visita do então ministro da Justiça Flávio Dino ao Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro sustentou que Dino teria entrado na comunidade sem segurança policial, versão contrariada pela Polícia Federal, que confirmou ter realizado a segurança do ministro.

Na área ambiental, o senador afirmou que Lula não havia conseguido iniciar a exploração de petróleo na Margem Equatorial. A declaração desconsiderou a licença concedida pelo Ibama em outubro de 2025 e o início da perfuração exploratória pela Petrobras.

Flávio também confundiu nomes e funções de integrantes do PT ao atribuir a Cândido Vaccarezza a responsabilidade pelo Instituto Lula, cuja direção é exercida por Paulo Okamotto.

<><> Master e Dark Horse: prestação de contas sob questionamento

Um dos momentos mais delicados da entrevista ocorreu quando Renata Lo Prete questionou Flávio sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro que recebeu recursos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro.

A jornalista lembrou que o senador teria solicitado aproximadamente R$ 134 milhões ao dono do Banco Master, dos quais cerca de R$ 70 milhões teriam sido repassados.

Flávio defendeu o financiamento como uma operação privada, afirmou que não havia contrapartidas e sustentou que o contrato não havia sido integralmente cumprido. Também disse que a produtora já havia prestado contas dos recursos.

“Mas já vieram a público. A produtora do filme aqui no Brasil, ela prestou conta de tudo, não tinha um centavo da produtora que não tivesse autorização do fundo. Vamos separar as coisas e é muito importante a sua pergunta e mais uma vez: eu vou esclarecer quantas vezes forem necessárias. Eu estou falando de um pedido de um patrocínio privado para um filme privado sem nenhuma contrapartida pelo fato de eu ser senador da República”, disse, demonstrando nervosismo.

A informação é mentirosa e foi distorcida pois até agora não houve uma prestação pública de contas capaz de comprovar a afirmação.

<><> Do Bolsa Família às estatais: as 12 distorções

Além das cinco afirmações falsas, outras 12 declarações foram distorcidas pelo senador, envolvendo principalmente dados econômicos, administrativos e de segurança pública.

Uma delas diz respeito ao resultado financeiro das empresas estatais. Flávio apresentou um déficit de R$ 36 bilhões atribuído ao governo Lula, enquanto a checagem do UOL apontou R$ 23,81 bilhões de déficit primário no período considerado. O candidato também se esqueceu de dizer que o ex-governo do pai inflava dados das estatais com dinheiro arrecadado na série de privatizações levadas a cabo.

O candidato também reivindicou para Jair Bolsonaro o aumento do Bolsa Família para R$ 600, sem esclarecer adequadamente que a ampliação de 2022 teve caráter temporário, em razão da pandemia, e foi viabilizada por emenda constitucional aprovada pelo Congresso Nacional.

Na estrutura administrativa, afirmou que o governo Lula possui 39 ministérios, quando a checagem contabilizou 38. Em outra resposta, sustentou que Lula havia substituído todos os 27 superintendentes da Polícia Federal, sem considerar que as mudanças ocorreram em momentos distintos.

Flávio também relacionou a queda dos homicídios em 2019 à política armamentista de Jair Bolsonaro, sem apresentar evidências que demonstrassem uma relação direta de causa e efeito.

A lista de imprecisões inclui ainda afirmações sobre o Porto de Santos e o tráfico internacional de cocaína, queimadas, imóveis da União, inelegibilidade de parentes de políticos, a faixa azul para motociclistas em São Paulo e valores relacionados a contratos envolvendo Luciano Huck e o Banco Master.

<><> Renata cobra respostas sobre golpe e ajuste fiscal

Além das declarações falsas e distorcidas, a entrevista foi marcada por momentos em que Renata Lo Prete precisou insistir para que Flávio respondesse às perguntas, enquanto o candidato frequentemente deslocava as respostas para assuntos de seu interesse.

Um dos episódios ocorreu quando foi questionado sobre a tentativa de golpe após as eleições de 2022. Na resposta, Flávio passou a falar dos motoboys de São Paulo, afastando-se do tema apresentado pela entrevistadora.

O candidato também não apresentou cálculo que permitisse verificar como pretende executar o ajuste fiscal anunciado durante a campanha. Flávio prometeu reduzir despesas, extinguir ministérios e cortar cargos comissionados, mas não detalhou a economia correspondente a cada medida nem demonstrou como as propostas seriam compatíveis com a preservação dos programas sociais.

<><> Lula, Lula e Lula: 45 referências em 43 minutos

Enquanto evitava detalhar pontos de suas propostas, Flávio Bolsonaro manteve o adversário no centro da entrevista. De acordo com o levantamento, o senador citou nominalmente Lula 28 vezes e fez outras 17 referências indiretas ao presidente.

Foram 45 referências ao adversário ao longo de aproximadamente 43 minutos de vídeo — praticamente uma por minuto. O número inclui menções diretas e expressões que, segundo o levantamento, se referiam ao presidente, como “meu concorrente” e “atual governo”.

A insistência em mencionar Lula atravessou respostas sobre economia, segurança pública, políticas sociais e a própria trajetória de Jair Bolsonaro.

•        O espetáculo de cinismo e falsidade de Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro foi ao Jornal Nacional vender uma imagem de moderação que suas próprias respostas desmentiram. O candidato tentou apresentar o bolsonarismo como um produto renovado, mas, quando as perguntas alcançaram os pontos sensíveis de sua trajetória, reapareceram a fuga, a acusação contra adversários e a proteção da família.

Flávio repetiu que trabalha com a verdade, enquanto transformava questões objetivas em ataques a Lula. O adversário funcionava como uma desculpa permanente para não explicar seus próprios atos.

O exemplo mais revelador veio na segurança pública. Renata Lo Prete perguntou por que ele havia defendido retirar a marcação das cápsulas de munição utilizadas pelas forças de segurança, um instrumento que permite rastrear sua origem e investigar desvios.

Flávio respondeu com fronteiras, facções, armas de guerra e ataques ao governo. A jornalista insistiu na pergunta, e ele continuou oferecendo discursos sobre outros assuntos, até reduzir o problema a um detalhe.

A contradição é brutal. Um candidato que promete enfrentar o crime organizado não consegue explicar por que defendeu enfraquecer um mecanismo de investigação, mas quer convencer o público de que resolverá a segurança com um milhão de câmeras e inteligência artificial.

Tecnologia não substitui prestação de contas. Quem pretende comandar a segurança do país precisa explicar as medidas que defendeu.

Esse contraste ficou ainda mais evidente quando a entrevista chegou aos aliados investigados no Rio de Janeiro. Flávio lembrou o direito de defesa e disse esperar que provassem sua inocência, uma prudência perfeitamente legítima, mas muito distante da desenvoltura com que lançou acusações contra seus adversários.

A lei deve valer para todos, inclusive na linguagem de quem disputa a Presidência. O problema é a conveniência de reservar a cautela aos próximos e distribuir condenações políticas aos demais.

<><> A família acima das respostas

No financiamento de Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro, a evasão ganhou cifras. Questionado sobre os recursos de Daniel Vorcaro e sua passagem por um fundo nos Estados Unidos, Flávio afirmou que era patrocínio privado e que a produtora havia prestado contas.

Renata perguntou por que ele solicitara R$ 134 milhões ao banqueiro se o filme havia custado R$ 75 milhões, conforme os valores apresentados por ela. Flávio disse que o contrato não fora cumprido e que outros investidores contribuíram, mas não explicou a diferença.

Em seguida, tentou arrastar Lula para a conversa com acusações relacionadas a outro filme. Renata o interrompeu para reafirmar seu critério jornalístico, baseado em “fatos estabelecidos”, e recusou tratar como confirmadas informações que não tinham essa sustentação.

O candidato também invocou os patrocínios do banco à Globo, como se contratos da emissora resolvessem as dúvidas sobre sua própria atuação. A jornalista distinguiu a compra de espaço comercial do financiamento cinematográfico, mas a manobra já expunha o método de espalhar suspeitas para escapar de explicações.

Não era necessário que ele confessasse uma irregularidade, nem a diferença entre os valores demonstra crime por si só. Era necessário explicar o destino dos recursos e a dimensão do pedido, questões que ataques a terceiros não respondem.

Na economia, a mesma disposição para oferecer tranquilidade apareceu em escala bilionária. Ele prometeu preservar a valorização do salário mínimo, a vinculação das aposentadorias e os pisos de saúde e educação, ao mesmo tempo que sustentou um ajuste de R$ 200 bilhões.

O candidato reconheceu que cortar ministérios não produziria essa economia e passou a enumerar receitas com imóveis públicos, créditos da União e petróleo. Reduzir despesas e levantar recursos são operações diferentes, mas ele não explicou quanto do ajuste viria de cada uma nem em que prazo.

Vender patrimônio ou antecipar recebimentos não equivale, por si só, a diminuir despesas que se repetem todos os anos. Faltou demonstrar como aquelas cifras sustentariam as promessas, em vez de apresentar possibilidades de arrecadação como soluções prontas.

O eleitor merece saber como o ajuste prometido será compatível com a preservação desses direitos. Essa obrigação cresce quando o candidato acrescenta novas despesas à lista de compromissos.

Na escala 6 por 1, Flávio atribuiu sua mudança de posição ao que ouviu dos trabalhadores. Mudar de opinião é legítimo, mas a conveniência eleitoral dessa descoberta merece ser cobrada.

O capítulo democrático expôs a mesma falsidade política da embalagem moderada. Ao discutir a tentativa de golpe, o candidato recorreu à caricatura de uma senhora com uma Bíblia e de prédios vazios, deslocando a conversa sobre a ruptura institucional para uma cena inofensiva de sua própria conveniência.

Ele afirmou que respeitará o resultado das urnas, compromisso que deve ser registrado e cobrado. Respeitar a votação é uma obrigação elementar de qualquer candidato, e não um favor que a família Bolsonaro concede ao país.

Flávio negou que Eduardo será chanceler, mas evitou uma negativa igualmente clara sobre um cargo para Jair, dizendo que a hipótese não estava no radar. A anunciada independência conviveu com a defesa incondicional do núcleo familiar.

O espetáculo de cinismo e falsidade consistiu nisso. Flávio pediu confiança em uma versão moderada de si mesmo, enquanto suas respostas mostravam quanto dessa moderação termina justamente onde começam as perguntas que ele prefere não responder.

 

Fonte: Fórum/O Cafezinho

 

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