terça-feira, 25 de março de 2025

Com fake News sobre Débora, a pichadora de estátuas, Bolsonaro convoca igrejas a incitar revolta contra o STF

Prestes a se tornar réu por tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro resolveu empreender uma ofensiva religiosa contra sua iminente condenação e prisão. O ex-presidente, tentando criar uma narrativa que impacte seu julgamento, tem utilizado o caso de Débora Rodrigues dos Santos, cabeleireira que também é ré no Supremo Tribunal Federal (STF) por participação nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, para incitar a população contra a Justiça.

Nos últimos dias, Bolsonaro intensificou suas postagens nas redes sociais afirmando que Débora estaria sendo condenada a 14 anos de prisão apenas por pichar a estátua "A Justiça", em frente ao STF. No entanto, essa versão é falsa.

O julgamento de Débora começou na última sexta-feira (21) no plenário virtual da Primeira Turma do STF e ainda está em andamento, com os votos do relator Alexandre de Moraes e do ministro Flávio Dino já registrados pela condenação. Os ministros Cristiano Zanin, Luiz Fux e Cármen Lúcia ainda não votaram.

Débora não responde apenas pela pichação. Ela é acusada de uma série de crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e depredação do patrimônio público. Até o momento, Moraes e Dino votaram para condená-la pelos seguintes delitos:

  • Abolição violenta do Estado Democrático de Direito – 4 anos e 6 meses de reclusão
  • Golpe de Estado – 5 anos de reclusão
  • Dano qualificado – 1 ano e 6 meses de reclusão, além do pagamento de multa
  • Deterioração de patrimônio tombado – 1 ano e 6 meses de reclusão, além do pagamento de multa
  • Associação criminosa armada – 1 ano e 6 meses de reclusão

Caso o entendimento dos ministros seja mantido, a soma das penas chegaria a 14 anos de prisão, além de uma multa e de uma indenização coletiva de R$ 30 milhões, que deve ser dividida com outros réus condenados pelos atos de 8 de janeiro.

Débora já está presa desde março de 2023, quando foi detida pela Polícia Federal (PF) na oitava fase da Operação Lesa Pátria, que investiga os participantes da tentativa de golpe. Mesmo com sua prisão anterior e as múltiplas acusações, Bolsonaro ignora esses fatos e insiste em propagar a desinformação de que ela está sendo punida apenas por um ato isolado de vandalismo.

Para reforçar sua narrativa, entre inúmeras postagens sobre o caso, o ex-presidente compartilhou um editorial do jornal O Estado de S. Paulo que critica o voto de Moraes e a pena sugerida, sem mencionar a totalidade dos crimes imputados à ré.

Neste domingo (23), Bolsonaro foi além e fez um apelo direto a padres e pastores para que transformem Débora em símbolo de perseguição política, com um claro intuito de inflamar as pessoas que frequentam igrejas católicas e evangélicas contra o STF. 

"Peço aos pastores, padres e líderes espirituais de todo o Brasil que levantem um clamor sincero diante de Deus e orem pela vida de Débora Rodrigues e de tantos outros presos políticos que hoje estão privados de sua liberdade e são tratados injustamente como criminosos", escreveu o ex-presidente. 

"Sou um homem de 70 anos e se tem uma coisa que aprendi na minha vida é que Deus age quando o seu povo ora com fé e unidade. Coloquem os nomes dessas pessoas nas intenções das missas e dos cultos, lembrem deles nas reuniões de oração e de intercessão, peçam às suas congregações que orem por essas pessoas, rezem por elas nas madrugadas... Deus há de fazer justiça!", prosseguiu. 

Ao distorcer o caso Débora e mobilizar fiéis contra o Supremo, o ex-presidente tenta inflamar sua base mais radical e minar a credibilidade das instituições que investigam sua atuação nos eventos que levaram ao 8 de janeiro.

<><> Bolsonaro se desespera e convoca novo ato 

Prestes a se tornar réu, em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) demonstra desespero e joga suas últimas fichas. Na madrugada deste domingo (23), ele usou as redes sociais para convocar um novo ato político na Avenida Paulista, em São Paulo, para o dia 6 de abril.

Na ocasião, ele pretende reunir apoiadores em defesa da desgastada tese da anistia aos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Na verdade, Bolsonaro tenta se livrar da punição, cada vez mais próxima, por comandar esquema que visava aplicar um golpe de Estado no país.

O ex-presidente será julgado na próxima quarta-feira (26), no STF. Na postagem, ele repete velhas frases, como “o que está acontecendo em nosso país é inaceitável e precisa chegar ao fim”. Acusa, novamente, o ministro Alexandre de Moraes de “ultrapassar todos os limites”.

“Em nome da vingança política, pessoas humildes estão sendo massacradas e humilhadas pelo Estado brasileiro. É chegada a hora de dar um basta nisso e trazer paz para o nosso país com a anistia”, escreveu.

Bolsonaro é alvo de inúmeras investigações, incluindo a que apura a tentativa de golpe de Estado revelada pela Polícia Federal em fevereiro.

Em tom panfletário, o ex-presidente encerra a publicação dizendo que a manifestação “não é por mim. É pela liberdade! É pelo Brasil! É pelo futuro dos nossos filhos!”. E convoca seus seguidores a se organizarem, chamarem amigos e familiares e estarem presentes em 6 de abril. “A liberdade precisa de você. Compareça. Mostre sua força”.

No dia 16 de março, Bolsonaro promoveu um ato em Copacabana, no Rio de Janeiro, também pela anistia aos golpistas. Ele e seus apoiadores esperavam que a adesão fosse um sucesso. Porém, o público flopado foi confirmado pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que estimaram em 18,3 mil pessoas os presentes no ápice da manifestação, o menor público já registrado em eventos da ultradireita bolsonarista.

¨      Até Danilo Gentili detona Eduardo e Bolsonaro por fake news sobre Débora do Batom: "culpa de vocês"

Antes de embarcar na trupe do MBL, Danilo Gentili, apresentador do SBT, foi um entusiasta do clã Bolsonaro, levando inclusive o ex-presidente em seu programa para mostrar a cicatriz da facada na barriga.

No entanto, nas hostes do MBL, Gentili tornou-se um crítico dos ex-aliados e expôs, nas redes sociais, as mentiras divulgadas pelo clã Bolsonaro para usar a condenação de Débora Rodrigues dos Santos, a "Débora do Batom", para clamar pela "anistia", que beneficia diretamente o ex-presidente.

Primeiramente, o humorista partiu para cima de Eduardo Bolsonaro, que classificou como "inaceitável" a pena de 14 anos imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à golpista.

"A culpa disso é sua e do seu pai que ficaram instigando convulsão social pra tentar dar golpe. Qdo essa mulher tava sendo presa vc e seu pai fugiram pra disney e voltaram falando que eram arruaceiros. Vcs usaram essa mulher antes e continuam usando agora. Fdp canalha. Covarde", escreveu Gentili.

Em seguida, o apresentador o SBT mirou Jair Bolsonaro, que usou imagem da mãe de Débora para tentar gerar comoção na horda de apoiadores nas redes.

"Você usou essa mulher pra ser presa. Depois a chamou de bobo da corte e arruaceira. E agora, só porque esse seu cu sujo tá na reta volta a usa-la como se vc se importasse. Vc é um lixo, covarde e desgraçado. É culpa sua que ela está presa. Espero q ela seja solta e vc preso. Fdp", escreveu Gentili.

¨      Réu por unanimidade e provocações de Eduardo: os bastidores do julgamento de Bolsonaro

Último dia antes de Jair Bolsonaro (PL) sentar definitivamente no banco dos réus por organizar uma quadrilha criminosa para dar um golpe de Estado, esta segunda-feira, 24 de março, será de tensão e expectativa entre aliados e o clã do ex-presidente.

Bolsonaro e outros 7 aliados, que compõem o "núcleo crucial", segundo a Procuradoria-Geral da República, da organização criminosa serão julgados a partir da manhã desta terça-feira (25) pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que na primeira sessão de acatar a denúncia de Paulo Gonet.

Entre aliados próximos do ex-presidente, a análise é Cristiano Zanin, Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luiz Fux, que compõem a primeira turma, darão uma sentença unânime contra os membros da cúpula golpista.

Com a decisão, a partir da tarde sentarão no banco dos réus:

  • Jair Bolsonaro, ex-presidente;
  • Alexandre Ramagem, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin);
  • Almir Garnier Santos; ex-comandante da Marinha do Brasil;
  • Anderson Torres; ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal;
  • General Augusto Heleno; ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência;
  • Mauro Cid; ex-chefe da Ajudância de Ordens da Presidência;
  • Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; e
  • Walter Souza Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil.

Crentes de que a quadrilha será denunciada, aliados do ex-presidente lamentam a transmissão ao vivo do julgamento e preparam uma ofensiva nas redes com cortes de falas dos ministros durante as sessões, que devem se estender até, pelo menos, a quarta-feira (26).

O objetivo é incitar a horda bolsonarista a sair às ruas. Diante desse quadro, o Supremo reforçou a segurança nos arredores da sede da corte, visto que há precedentes de ataques à corte.

O último ocorreu em 13 de novembro passado, quando Francisco Wanderley Luiz, que já foi candidato a vereador em Santa Catarina pelo PL de Bolsonaro, lançou explosivos contra o STF e morreu ao deitar sobre um artefato que explodiu em seguida.

Já Bolsonaro teria confidenciado a pessoas próximas que não deve acompanhar o julgamento, nem mesmo na TV. 

Em meio à sessão, ele deve se reunir com parlamentares aliados para tentar centrar fogo no PL da Anistia.

Com Hugo Motta (Republicanos-PB) acompanhando Lula na viagem ao Japão, quem assume a Presidência da Câmara é Altineu Cortês (PL-RJ), fiel escudeiro de Bolsonaro, que pode tentar uma manobra para colocar o PL que favorece o ex-presidente em pauta - mesmo sem acordo entre as lideranças das bancadas.

<><> Eduardo Bolsonaro

Outro fator de tensão nos bastidores do julgamento é a ofensiva de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) contra Alexandre de Moraes e o Supremo.

Após abdicar de seu mandato para se vitimizar foragido nos EUA, tem aumentado o tiroteio contra a corte. No sábado (22), o filho "03" de Jair Bolsonaro usou as fake news sobre a condenação a 14 anos de prisão da golpista Débora Rodrigues dos Santos, a "Débora do Batom".

"Não há técnica jurídica na decisão de Alexandre de Moraes, há vingança, há sadismo, há ódio, há psicopatia", escreveu Eduardo na rede X.

Ao menos três advogados de membros da organização criminosa golpista demonstraram irritação com a ação de Eduardo Bolsonaro à colunista Malu Gaspar, d'O Globo.

Segundo eles, os ataques de Eduardo às vésperas do julgamento "criam uma animosidade ainda maior entre o Supremo e os investigados" além de prejudicar o trabalho de advogados que buscam nos bastidores "distensionar" as relações com o ministro relator e tentam manobras jurídicas para postergar o julgamento.

Bolsonaro escalou os advogados Celso Vilardi e José Luis Oliveira Lima, que têm bom trânsito no judiciário, para a diplomacia no Supremo, mas os ataques de Eduardo teriam fechado as portas para a defesa, que já tinha conseguido se reunir com os presidentes da corte, Luís Roberto Barroso, e da primeira turma, Cristiano Zanin, além de Moraes.

“Isso cria um clima de animosidade com o STF e o relator. O ex-presidente Jair Bolsonaro também não tem uma postura muito conciliadora e isso nos causa prejuízos. É, na verdade, uma novela mexicana, e a gente não sabe qual será o próximo capítulo”, disse um dos advogados à jornalista d'O Globo.

“Se o Moraes acolher o pedido da defesa dos investigados agora, após as ameaças do Eduardo, fica parecendo um covarde”, emendou outro advogado.

¨      “Bolsonaro ficou pequeno”: Celso Amorim fala sobre irrelevância geopolítica do ex-presidente

O assessor especial da Presidência da República e um dos mais respeitados diplomatas brasileiros, o ex-chanceler Celso Amorim, afirmou que Jair Bolsonaro perdeu relevância no cenário internacional, especialmente para o governo de Donald Trump.

A declaração foi dada em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (22), em um momento crítico para o ex-presidente brasileiro, que pode se tornar réu no Supremo Tribunal Federal (STF) na próxima terça-feira (25).

Amorim avaliou que, há alguns anos, ter um governo de extrema direita no Brasil era relevante dentro da geopolítica internacional, mas que o contexto atual é outro.

“O Bolsonaro ficou pequeno diante das grandes questões do mundo hoje”, comentou o ex-chanceler.

Ele explicou que Trump respeita o poder e aqueles que demonstram força e influência, citando sua relação com líderes como Vladimir Putin e Xi Jinping.

“Trump respeita o poder. Pessoas que são capazes de agir. Ele acaba de dizer que gosta do Putin. E pode até não gostar, mas ele respeita o Putin. Respeita o Xi Jinping”, afirmou Amorim.

No entanto, ao analisar a relação de Trump com Bolsonaro, Amorim sugere que o brasileiro não tem o mesmo peso e não é levado a sério por Trump.

“Agora, se ficar lá querendo adular, como fizeram o [Volodimir] Zelenski e alguns europeus, ele não respeita”, completou.

Big Techs e a soberania nacional

Outro tema abordado por Amorim foi a disputa entre big techs e o Estado brasileiro. O ministro do STF Alexandre de Moraes tem alertado para os riscos que essas empresas representam ao desrespeitarem a jurisdição de países fora dos Estados Unidos, adotando uma postura de "tudo ou nada" diante das regulamentações nacionais.

Para Amorim, esse embate reflete o avanço da extraterritorialidade das leis estadunidenses e o poder que as gigantes da tecnologia exercem na economia e na política dos EUA.

“Os americanos sempre tiveram essa visão da extraterritorialidade da lei americana. Mas agora eles têm a possibilidade técnica para efetivar isso”, afirmou.

Ele citou a posse de Trump, que contou com a presença de figuras como Elon Musk, para exemplificar a proximidade entre o governo norte-americano e as grandes empresas de tecnologia.

“São egos muito grandes ali. Eu acho que vai acabar havendo uma diferença entre as big techs, que têm um interesse puramente econômico, e a política”, ponderou o diplomata.

Amorim também observou que as big techs estão começando a compreender que o Brasil não abrirá mão de sua soberania e que, se quiserem atuar no país, deverão seguir as regras estabelecidas pelo governo brasileiro.

“Se quiserem atuar aqui, têm que ser de acordo com as nossas regras, que não são arbitrárias. São para todos, são para proteger os cidadãos. A Europa tem uma visão parecida com a nossa”, destacou.

<><> Trump e a transformação da ordem global

O ex-chanceler ressaltou que o mundo está passando por uma das maiores transformações estruturais da história recente, com os Estados Unidos questionando a ordem mundial que eles mesmos ajudaram a construir no pós-Segunda Guerra.

“O multilateralismo tem um pouco de teatro, e Trump está acabando com ele. Ele defende os interesses dos EUA de maneira deslavada, e nós temos que nos reorganizar diante disso”, explicou.

Ele citou como exemplo a forma direta com que Trump trata questões geopolíticas e econômicas, como a possível compra da Groenlândia — que, segundo o presidente dos EUA, interessaria não por razões geopolíticas, mas pelos recursos minerais do território dinamarquês.

<><> Brasil e a nova ordem mundial

Diante desse cenário, Amorim afirmou que o Brasil precisa fortalecer sua posição regionalmente e buscar alianças variáveis, mantendo boas relações tanto com Estados Unidos, China, Rússia e Europa.

“O Brasil pode ser uma potência grande, mas será mais forte se estiver unido com a América do Sul. Temos que nos relacionar de maneira inteligente com as superpotências e com a Europa. O nosso grande desafio, nessa divisão do mundo, é não ser colônia de ninguém”, disse.

O diplomata também destacou o fortalecimento do Sul Global, bloco de países emergentes que inclui Brasil, Índia e África do Sul, e afirmou que essa aliança pode ganhar mais relevância na nova ordem internacional.

 

Fonte: Fórum

 

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