Crise
nas escolas exige medidas para 'impedir que meninos machuquem meninas e a si
mesmos', diz criador da série
Uma das
séries mais comentadas dos últimos anos, o impactante drama 'Adolescência',
da Netflix, tem sido o centro das discussões nesta semana – desde o Parlamento
Britânico até programas de entrevistas nos EUA e os portões da escola do filho
do roteirista.
O
debate foi impulsionado pela história fictícia de um menino de 13 anos acusado
de esfaquear uma garota e pelos fatores que poderiam tê-lo levado a se tornar
um assassino.
"Recebi
mensagens de pessoas com quem não falava há anos, contando sobre conversas que
estão tendo agora com seus filhos", diz o roteirista Jack Thorne.
"Isso é muito gratificante."
Thorne
conta que até o diretor da escola de seu filho o abordou nos portões para
dizer: 'Gostaria de conversar com você sobre isso e pensar no que nossa escola
e outras escolas podem fazer'.
"As
conversas parecem estar surgindo em todos os tipos de lugares",
acrescenta.
Agora,
Thorne defende que o governo tome "ações radicais" para enfrentar as
questões levantadas pela série.
Entre
os principais temas estão as redes sociais e a influência da cultura
incel*(celibatários involuntários), que incentiva homens a culpar as mulheres
por sua falta de relacionamentos e oportunidades.
Mas o
drama, criado por Thorne em parceria com o ator Stephen Graham, não está apenas
apontando o dedo para a cultura incel, explica o
roteirista à BBC.
"Eu
realmente espero que essa seja uma série que mostre que Jamie se tornou assim
por uma série de fatores complexos", afirma.
A trama
apresenta a influência dos pais, da escola e dos amigos de Jamie, cada um
desempenhando um papel de diferentes formas.
No
entanto, o personagem interpretado por Owen Cooper sofre bullying nas redes sociais, sendo levado a se
sentir feio, além de ser exposto a mensagens incel e visões distorcidas sobre
violência sexual.
"Ele
é um garoto vulnerável, e então começa a ouvir esse tipo de discurso, que faz
sentido para ele – sobre por que está isolado, por que está sozinho, por que
não se encaixa. E ele absorve isso. Não tem filtros para entender o que é
apropriado", explica Thorne.
"Nessa
idade, sob todas essas pressões e as particularidades da sociedade ao seu
redor, ele começa a acreditar que a única maneira de restabelecer esse
equilíbrio é através da violência."
O
próprio roteirista mergulhou em espirais semelhantes da internet, explorando sites
como 4Chan e Reddit para enxergar o mundo pelos olhos de Jamie.
Ele
percebeu que essas mensagens não vinham apenas dos lugares mais óbvios.
"Não
era só Andrew Tate. Não eram apenas os grandes nomes da 'manosfera'", diz
ele.
"Eram
os pequenos blogs, os vlogs, e detalhes sutis – como pessoas falando sobre
um videogame e, a partir
disso, explicando por que as mulheres te odeiam.
"Isso
foi o que achei mais perturbador."
Essas
questões não são novas, mas a série estreou em um momento em que cresce o
debate sobre mensagens perigosas direcionadas a meninos e jovens.
Na
quarta-feira, o ex-técnico da seleção inglesa, Sir Gareth Southgate, fez um
discurso alertando contra "influenciadores cruéis, manipuladores e
tóxicos".
"Eles
estão o mais distante possível dos modelos que nossos jovens precisam em
suas vidas", afirmou.
Thorne
considera que Sir Gareth foi "incrível", mas acredita que a solução
vai além de oferecer melhores exemplos.
"Temos
essa conversa desde que eu era criança", diz o roteirista.
"Já
passou da hora de fazermos algo mais radical. Não se trata apenas de modelos a
serem seguidos.
"Obviamente,
modelos podem ter um grande impacto. Mas, para falar a verdade, precisamos
mudar a cultura que eles estão consumindo e os mecanismos que a tecnologia tem
usado para espalhar essa cultura."
"Foi
um discurso muito interessante, mas eu esperava que ele propusesse algo mais
ousado."
Mas,
afinal, quais poderiam ser essas soluções mais radicais?
Nesta
semana, o Primeiro-Ministro Sir Keir Starmer informou ao Parlamento que tem
assistido ao "muito bom" drama com seus filhos adolescentes.
A
violência cometida por jovens homens, influenciados pelo que veem online, é
"repulsiva e precisamos enfrentá-la", e também é "uma questão de
cultura", disse ele na Câmara dos Comuns.
Thorne
espera que o PM entenda a mensagem de que "há uma crise acontecendo em
nossas escolas, e precisamos pensar em como evitar que os meninos machuquem as
meninas e uns aos outros".
"Isso
vai exigir uma série de medidas nas escolas e em casa, e isso precisa de ajuda
do governo", afirma.
Ele
pede a Sir Keir que considere "com urgência" um banimento de
smartphones nas escolas e uma "era digital de consentimento", similar
à da Austrália, que aprovou uma lei proibindo crianças menores de 16 anos de
usar redes sociais.
O
roteirista também sugeriu estender essa proibição para o uso de smartphones e
jogos.
"Acho
que devemos fazer o que a Austrália está fazendo e separar nossas crianças
dessa doença perniciosa de pensamento que as está contaminando", diz ele.
Uma
proibição seria, no entanto, uma venda difícil para os adolescentes.
Thorne
participou do Newsnight da BBC Two esta semana, ao lado de
três homens de 18, 19 e 21 anos.
Quando
perguntados sobre a proibição de redes sociais para menores de
16 anos, as opiniões foram divididas.
Um
disse que era "uma ótima ideia, com moderação", outro considerou que
seria "bastante injusto", enquanto o terceiro foi contra,
argumentando que "as redes sociais trouxeram muitos benefícios para as
gerações mais jovens também".
Para
Thorne, a questão de como regulamentar smartphones e redes sociais está prestes
a se aproximar muito de sua realidade.
Seu
filho tem oito anos, e Thorne diz que quer garantir que estabeleça "um
método de comunicação com ele" enquanto cresce. Logo, ele vai querer seu
próprio celular.
Enquanto
trabalhava na série, Thorne refletiu sobre como lidar com o futuro uso de
tecnologia de seu filho. "E ainda estou processando como fazer isso."
Pesquisando
e escrevendo 'Adolescência', ele abriu os olhos para os desafios
enfrentados por jovens e pais. Mas como enfrentá-los? Essa é a parte mais
difícil.
¨ Quem são os incels, o
movimento sombrio retratado na aclamada série 'Adolescência'
A
série Adolescência, da Netflix, se tornou um
fenômeno global.
A
produção tem sido elogiada pelas atuações dos protagonistas — entre eles,
jovens atores sem experiência anterior diante das câmeras —, pelas cenas
gravadas em um único plano-sequência e, sobretudo, pelo roteiro.
A
história gira em torno de Jamie Miller, um adolescente britânico de 13 anos que
é detido após uma colega da escola ser assassinada.
Entre
os temas abordados pela série estão a masculinidade tóxica, a violência online
e o universo dos incels.
O
termo, cunhado nos anos 1990, é uma abreviação de "celibatários
involuntários" (do inglês involuntary celibates) e se refere a
pessoas que se descrevem como incapazes de ter um relacionamento ou uma vida
sexual, embora desejem estar em uma relação.
Em
manifestos publicados em diversos fóruns da internet, como Reddit e 4chan, os
incels culpam abertamente as mulheres por seu "fracasso sexual",
partindo da premissa de que todas seriam interesseiras e oportunistas,
preocupadas apenas com dinheiro e aparência.
Também
costumam classificá-las como promíscuas e manipuladoras, entre outras
generalizações.
Ainda
que haja registros desse tipo de comportamento há décadas, foi com a chegada
das redes sociais que o mundo dos
incels ganhou força e se espalhou globalmente.
Em
alguns casos, essas ideias resultaram em atos violentos. Em 2021, Jake Davison,
que divulgava muitas ideias associadas aos incels em suas redes sociais, matou cinco pessoas no norte da
Inglaterra.
Em
2014, Elliot Rodger, considerado um herói por algumas comunidades incels,
assassinou seis pessoas em Isla Vista, na Califórnia.
Rodger
gravou um vídeo antes do ataque e afirmou que cometeu os assassinatos porque as
mulheres não queriam fazer sexo com ele. Depois, ele mesmo se matou.
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Violência e misoginia
O
conceito de "incel" surgiu há cerca de 30 anos e se popularizou por
meio de um site criado para oferecer apoio a pessoas solitárias ou que se
sentiam rejeitadas.
Ele
apareceu em um blog criado em 1997 por uma jovem canadense que se identificava
como Alana.
Na
época, o blog se chamava O projeto de celibato involuntário de Alana (Alana's
Involuntary Celibacy Project) e incentivava outros jovens a compartilhar
suas experiências de dificuldade em estabelecer relações
afetivas.
Com o
tempo, o movimento avançou, e os discursos se diversificaram.
Hoje, é
possível encontrar fóruns cheios de mensagens de autopiedade, mas também há
espaços dominados por discursos de ressentimento.
Homens
que participam desses fóruns — especialmente nas plataformas Reddit e 4chan,
entre outras que compõem a chamada "machosfera"
(universo masculino radicalizado na internet) — manifestam misoginia e uma
sensação de frustração diante de um suposto direito ao sexo que acreditam ser
negado pelas mulheres.
Alguns
incels defendem a violência contra mulheres, bem como contra homens que mantêm
relações felizes.
Florence
Keen, pesquisadora do tema no Centro Internacional para o Estudo da
Radicalização do King's College, em Londres, disse à BBC que, em 2021, um dos
maiores fóruns tinha 13 mil membros ativos e cerca de 200 mil publicações.
"A
ressalva que sempre faço é que não podemos afirmar que toda a subcultura incel
seja violenta", afirma a pesquisadora.
Segundo
Keen, o grau de incitação à violência contra as mulheres varia. Alguns membros
glorificam atos violentos, enquanto outros reforçam nos próprios fóruns que
"isso não é o que somos".
Ainda
assim, a maioria dos conceitos gira em torno da mesma ideia: rejeição às
mulheres e inveja dos homens que têm relacionamentos bem-sucedidos.
Em
muitos desses espaços, a incitação à violência é frequente.
Em
abril de 2018, dez pessoas morreram atropeladas em Toronto, no Canadá, por uma
van dirigida por Alek Minassian. Dias antes, Minassian havia publicado em sua
conta no Facebook diversas mensagens sobre sua frustração.
"A
'Rebelião Incel' já começou!", escreveu.
Após
esse ataque, o jornalista da BBC Jonathan Griffin entrevistou vários jovens que
haviam participado desses fóruns.
Sob
anonimato, muitos confirmaram que circulam nesses espaços mensagens violentas
contra mulheres.
"De
certo modo, parece que eu odeio as mulheres. Tento não ser assim, mas às vezes
falo coisas que realmente não deveria, só porque estive lendo esses
fóruns", disse um entrevistado, identificado como Liam.
- Chads e Staceys
Pesquisadores
apontam que muitos jovens recorrem a esses fóruns para compartilhar sua
solidão, mas acabam encontrando um grupo de homens ressentidos que acreditam
ter "perdido na loteria genética" — o que os impediria de atrair
mulheres — e que não há nada que possam fazer a respeito.
Em
vários fóruns consultados pela BBC, mulheres atraentes são chamadas de
"Staceys" e os homens escolhidos por elas, de "Chads".
Ambos
são ridicularizados e insultados pelos incels, que por sua vez aceitam sua
suposta "inferioridade genética" em relação aos chamados
"Chads".
Na
série Adolescência, esse tema é abordado por meio da "regra do
80/20", que se baseia na crença de que 80% das mulheres se sentem atraídas
por apenas 20% dos homens — deixando os demais sem chances.
A série
também toca em outro conceito presente nesses fóruns: a pílula negra.
A
metáfora remete à pílula vermelha do filme Matrix, que representa
um despertar para uma suposta verdade escondida.
Muitos
incels incentivam seus seguidores a "tomar a pílula negra" — ou seja,
despertar para o que consideram ser a confirmação de que seu destino está
selado desde o nascimento por forças que não podem controlar.
A
pílula os faria perceber que são oprimidos pelo feminismo e por outras forças
que os impediriam de levar uma vida plena.
A
escalada da violência fez com que autoridades passassem a monitorar o conteúdo
desses fóruns.
No
Reino Unido, após o ataque de Jake Davison em 2021, autoridades manifestaram a
intenção de declarar os grupos incels como "organizações
terroristas".
Embora
a medida não tenha sido adotada, o fato é que Adolescência recolocou
o tema na agenda pública.
O
criador, roteirista e ator da série, o britânico Stephen Graham, disse que a
ideia de fazer a produção surgiu após dois casos que o impactaram
profundamente.
"A
série não é baseada em uma história real, mas me lembro de dois casos de
menores de idade que assassinaram meninas e que me chamaram muito a
atenção", afirmou Graham em entrevista.
"Foi
então que comecei a pesquisar para entender o que realmente estava acontecendo
com esse problema", completou.
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Um problema de saúde mental
Pesquisadores
vêm acompanhando o crescimento do fenômeno dos incels e suas implicações na
tentativa de encontrar respostas.
Diante
da proposta das autoridades britânicas de classificar os incels como
"terroristas", um estudo da Universidade de Swansea concluiu que o
problema deveria, na verdade, "ser combatido mais como uma questão de
saúde mental do que por meio de operações antiterroristas".
"Se
quisermos romper esse ciclo, precisamos oferecer apoio em saúde mental, porque,
se esses jovens não cuidam de si mesmos, também não vão se importar com os
outros", disse à BBC o psiquiatra Andrew Thomas, da Universidade de
Swansea, que participou da pesquisa.
Segundo
Thomas, o problema está no fato de que esses jovens — cuja "saúde mental
costuma estar em frangalhos", como ele define — superestimam o poder de
atração física e o poder aquisitivo dos outros, ao mesmo tempo em que
subestimam qualidades como gentileza, senso de humor e lealdade.
"Quando
você supervaloriza mentalmente a importância da aparência física para as
mulheres e subestima o peso da gentileza, começa a buscar evidências que
confirmem essa visão de mundo", afirma o psiquiatra.
Essa
também é a mensagem reforçada por alguns homens que já fizeram parte desses
fóruns, mas que hoje dizem ter uma nova perspectiva.
Um
deles é Jack Peterson, que publicou um vídeo no YouTube explicando por que
decidiu deixar os grupos de incels.
"Percebi
que não dava para passar o dia todo num fórum, falando sobre o quanto eu me
sentia péssimo e gravando podcasts sobre isso. Eu precisava mudar", disse
Peterson à BBC.
Durante
anos, ele manteve um podcast no qual propagava as ideias que fundamentam a
visão incel, mas hoje acredita que é preciso mudar de atitude.
"Se
você projeta amor no mundo, vai receber amor de volta. Se for negativo em
relação às mulheres, elas nunca vão querer ter um relacionamento com
você", concluiu.
Fonte:
Por Ian Youngs, repórter de cultura da BBC

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