terça-feira, 25 de março de 2025

Crise nas escolas exige medidas para 'impedir que meninos machuquem meninas e a si mesmos', diz criador da série

Uma das séries mais comentadas dos últimos anos, o impactante drama 'Adolescência', da Netflix, tem sido o centro das discussões nesta semana – desde o Parlamento Britânico até programas de entrevistas nos EUA e os portões da escola do filho do roteirista.

O debate foi impulsionado pela história fictícia de um menino de 13 anos acusado de esfaquear uma garota e pelos fatores que poderiam tê-lo levado a se tornar um assassino.

"Recebi mensagens de pessoas com quem não falava há anos, contando sobre conversas que estão tendo agora com seus filhos", diz o roteirista Jack Thorne. "Isso é muito gratificante."

Thorne conta que até o diretor da escola de seu filho o abordou nos portões para dizer: 'Gostaria de conversar com você sobre isso e pensar no que nossa escola e outras escolas podem fazer'.

"As conversas parecem estar surgindo em todos os tipos de lugares", acrescenta.

Agora, Thorne defende que o governo tome "ações radicais" para enfrentar as questões levantadas pela série.

Entre os principais temas estão as redes sociais e a influência da cultura incel*(celibatários involuntários), que incentiva homens a culpar as mulheres por sua falta de relacionamentos e oportunidades.

Mas o drama, criado por Thorne em parceria com o ator Stephen Graham, não está apenas apontando o dedo para a cultura incel, explica o roteirista à BBC.

"Eu realmente espero que essa seja uma série que mostre que Jamie se tornou assim por uma série de fatores complexos", afirma.

A trama apresenta a influência dos pais, da escola e dos amigos de Jamie, cada um desempenhando um papel de diferentes formas.

No entanto, o personagem interpretado por Owen Cooper sofre bullying nas redes sociais, sendo levado a se sentir feio, além de ser exposto a mensagens incel e visões distorcidas sobre violência sexual.

"Ele é um garoto vulnerável, e então começa a ouvir esse tipo de discurso, que faz sentido para ele – sobre por que está isolado, por que está sozinho, por que não se encaixa. E ele absorve isso. Não tem filtros para entender o que é apropriado", explica Thorne.

"Nessa idade, sob todas essas pressões e as particularidades da sociedade ao seu redor, ele começa a acreditar que a única maneira de restabelecer esse equilíbrio é através da violência."

O próprio roteirista mergulhou em espirais semelhantes da internet, explorando sites como 4Chan e Reddit para enxergar o mundo pelos olhos de Jamie.

Ele percebeu que essas mensagens não vinham apenas dos lugares mais óbvios.

"Não era só Andrew Tate. Não eram apenas os grandes nomes da 'manosfera'", diz ele.

"Eram os pequenos blogs, os vlogs, e detalhes sutis – como pessoas falando sobre um videogame e, a partir disso, explicando por que as mulheres te odeiam.

"Isso foi o que achei mais perturbador."

Essas questões não são novas, mas a série estreou em um momento em que cresce o debate sobre mensagens perigosas direcionadas a meninos e jovens.

Na quarta-feira, o ex-técnico da seleção inglesa, Sir Gareth Southgate, fez um discurso alertando contra "influenciadores cruéis, manipuladores e tóxicos".

"Eles estão o mais distante possível dos modelos que nossos jovens precisam em suas vidas", afirmou.

Thorne considera que Sir Gareth foi "incrível", mas acredita que a solução vai além de oferecer melhores exemplos.

"Temos essa conversa desde que eu era criança", diz o roteirista.

"Já passou da hora de fazermos algo mais radical. Não se trata apenas de modelos a serem seguidos.

"Obviamente, modelos podem ter um grande impacto. Mas, para falar a verdade, precisamos mudar a cultura que eles estão consumindo e os mecanismos que a tecnologia tem usado para espalhar essa cultura."

"Foi um discurso muito interessante, mas eu esperava que ele propusesse algo mais ousado."

Mas, afinal, quais poderiam ser essas soluções mais radicais?

Nesta semana, o Primeiro-Ministro Sir Keir Starmer informou ao Parlamento que tem assistido ao "muito bom" drama com seus filhos adolescentes.

A violência cometida por jovens homens, influenciados pelo que veem online, é "repulsiva e precisamos enfrentá-la", e também é "uma questão de cultura", disse ele na Câmara dos Comuns.

Thorne espera que o PM entenda a mensagem de que "há uma crise acontecendo em nossas escolas, e precisamos pensar em como evitar que os meninos machuquem as meninas e uns aos outros".

"Isso vai exigir uma série de medidas nas escolas e em casa, e isso precisa de ajuda do governo", afirma.

Ele pede a Sir Keir que considere "com urgência" um banimento de smartphones nas escolas e uma "era digital de consentimento", similar à da Austrália, que aprovou uma lei proibindo crianças menores de 16 anos de usar redes sociais.

O roteirista também sugeriu estender essa proibição para o uso de smartphones e jogos.

"Acho que devemos fazer o que a Austrália está fazendo e separar nossas crianças dessa doença perniciosa de pensamento que as está contaminando", diz ele.

Uma proibição seria, no entanto, uma venda difícil para os adolescentes.

Thorne participou do Newsnight da BBC Two esta semana, ao lado de três homens de 18, 19 e 21 anos.

Quando perguntados sobre a proibição de redes sociais para menores de 16 anos, as opiniões foram divididas.

Um disse que era "uma ótima ideia, com moderação", outro considerou que seria "bastante injusto", enquanto o terceiro foi contra, argumentando que "as redes sociais trouxeram muitos benefícios para as gerações mais jovens também".

Para Thorne, a questão de como regulamentar smartphones e redes sociais está prestes a se aproximar muito de sua realidade.

Seu filho tem oito anos, e Thorne diz que quer garantir que estabeleça "um método de comunicação com ele" enquanto cresce. Logo, ele vai querer seu próprio celular.

Enquanto trabalhava na série, Thorne refletiu sobre como lidar com o futuro uso de tecnologia de seu filho. "E ainda estou processando como fazer isso."

Pesquisando e escrevendo 'Adolescência', ele abriu os olhos para os desafios enfrentados por jovens e pais. Mas como enfrentá-los? Essa é a parte mais difícil.

¨      Quem são os incels, o movimento sombrio retratado na aclamada série 'Adolescência'

A série Adolescência, da Netflix, se tornou um fenômeno global.

A produção tem sido elogiada pelas atuações dos protagonistas — entre eles, jovens atores sem experiência anterior diante das câmeras —, pelas cenas gravadas em um único plano-sequência e, sobretudo, pelo roteiro.

A história gira em torno de Jamie Miller, um adolescente britânico de 13 anos que é detido após uma colega da escola ser assassinada.

Entre os temas abordados pela série estão a masculinidade tóxica, a violência online e o universo dos incels.

O termo, cunhado nos anos 1990, é uma abreviação de "celibatários involuntários" (do inglês involuntary celibates) e se refere a pessoas que se descrevem como incapazes de ter um relacionamento ou uma vida sexual, embora desejem estar em uma relação.

Em manifestos publicados em diversos fóruns da internet, como Reddit e 4chan, os incels culpam abertamente as mulheres por seu "fracasso sexual", partindo da premissa de que todas seriam interesseiras e oportunistas, preocupadas apenas com dinheiro e aparência.

Também costumam classificá-las como promíscuas e manipuladoras, entre outras generalizações.

Ainda que haja registros desse tipo de comportamento há décadas, foi com a chegada das redes sociais que o mundo dos incels ganhou força e se espalhou globalmente.

Em alguns casos, essas ideias resultaram em atos violentos. Em 2021, Jake Davison, que divulgava muitas ideias associadas aos incels em suas redes sociais, matou cinco pessoas no norte da Inglaterra.

Em 2014, Elliot Rodger, considerado um herói por algumas comunidades incels, assassinou seis pessoas em Isla Vista, na Califórnia.

Rodger gravou um vídeo antes do ataque e afirmou que cometeu os assassinatos porque as mulheres não queriam fazer sexo com ele. Depois, ele mesmo se matou.

<><> Violência e misoginia

O conceito de "incel" surgiu há cerca de 30 anos e se popularizou por meio de um site criado para oferecer apoio a pessoas solitárias ou que se sentiam rejeitadas.

Ele apareceu em um blog criado em 1997 por uma jovem canadense que se identificava como Alana.

Na época, o blog se chamava O projeto de celibato involuntário de Alana (Alana's Involuntary Celibacy Project) e incentivava outros jovens a compartilhar suas experiências de dificuldade em estabelecer relações afetivas.

Com o tempo, o movimento avançou, e os discursos se diversificaram.

Hoje, é possível encontrar fóruns cheios de mensagens de autopiedade, mas também há espaços dominados por discursos de ressentimento.

Homens que participam desses fóruns — especialmente nas plataformas Reddit e 4chan, entre outras que compõem a chamada "machosfera" (universo masculino radicalizado na internet) — manifestam misoginia e uma sensação de frustração diante de um suposto direito ao sexo que acreditam ser negado pelas mulheres.

Alguns incels defendem a violência contra mulheres, bem como contra homens que mantêm relações felizes.

Florence Keen, pesquisadora do tema no Centro Internacional para o Estudo da Radicalização do King's College, em Londres, disse à BBC que, em 2021, um dos maiores fóruns tinha 13 mil membros ativos e cerca de 200 mil publicações.

"A ressalva que sempre faço é que não podemos afirmar que toda a subcultura incel seja violenta", afirma a pesquisadora.

Segundo Keen, o grau de incitação à violência contra as mulheres varia. Alguns membros glorificam atos violentos, enquanto outros reforçam nos próprios fóruns que "isso não é o que somos".

Ainda assim, a maioria dos conceitos gira em torno da mesma ideia: rejeição às mulheres e inveja dos homens que têm relacionamentos bem-sucedidos.

Em muitos desses espaços, a incitação à violência é frequente.

Em abril de 2018, dez pessoas morreram atropeladas em Toronto, no Canadá, por uma van dirigida por Alek Minassian. Dias antes, Minassian havia publicado em sua conta no Facebook diversas mensagens sobre sua frustração.

"A 'Rebelião Incel' já começou!", escreveu.

Após esse ataque, o jornalista da BBC Jonathan Griffin entrevistou vários jovens que haviam participado desses fóruns.

Sob anonimato, muitos confirmaram que circulam nesses espaços mensagens violentas contra mulheres.

"De certo modo, parece que eu odeio as mulheres. Tento não ser assim, mas às vezes falo coisas que realmente não deveria, só porque estive lendo esses fóruns", disse um entrevistado, identificado como Liam.

  • Chads e Staceys

Pesquisadores apontam que muitos jovens recorrem a esses fóruns para compartilhar sua solidão, mas acabam encontrando um grupo de homens ressentidos que acreditam ter "perdido na loteria genética" — o que os impediria de atrair mulheres — e que não há nada que possam fazer a respeito.

Em vários fóruns consultados pela BBC, mulheres atraentes são chamadas de "Staceys" e os homens escolhidos por elas, de "Chads".

Ambos são ridicularizados e insultados pelos incels, que por sua vez aceitam sua suposta "inferioridade genética" em relação aos chamados "Chads".

Na série Adolescência, esse tema é abordado por meio da "regra do 80/20", que se baseia na crença de que 80% das mulheres se sentem atraídas por apenas 20% dos homens — deixando os demais sem chances.

A série também toca em outro conceito presente nesses fóruns: a pílula negra.

A metáfora remete à pílula vermelha do filme Matrix, que representa um despertar para uma suposta verdade escondida.

Muitos incels incentivam seus seguidores a "tomar a pílula negra" — ou seja, despertar para o que consideram ser a confirmação de que seu destino está selado desde o nascimento por forças que não podem controlar.

A pílula os faria perceber que são oprimidos pelo feminismo e por outras forças que os impediriam de levar uma vida plena.

A escalada da violência fez com que autoridades passassem a monitorar o conteúdo desses fóruns.

No Reino Unido, após o ataque de Jake Davison em 2021, autoridades manifestaram a intenção de declarar os grupos incels como "organizações terroristas".

Embora a medida não tenha sido adotada, o fato é que Adolescência recolocou o tema na agenda pública.

O criador, roteirista e ator da série, o britânico Stephen Graham, disse que a ideia de fazer a produção surgiu após dois casos que o impactaram profundamente.

"A série não é baseada em uma história real, mas me lembro de dois casos de menores de idade que assassinaram meninas e que me chamaram muito a atenção", afirmou Graham em entrevista.

"Foi então que comecei a pesquisar para entender o que realmente estava acontecendo com esse problema", completou.

<><> Um problema de saúde mental

Pesquisadores vêm acompanhando o crescimento do fenômeno dos incels e suas implicações na tentativa de encontrar respostas.

Diante da proposta das autoridades britânicas de classificar os incels como "terroristas", um estudo da Universidade de Swansea concluiu que o problema deveria, na verdade, "ser combatido mais como uma questão de saúde mental do que por meio de operações antiterroristas".

"Se quisermos romper esse ciclo, precisamos oferecer apoio em saúde mental, porque, se esses jovens não cuidam de si mesmos, também não vão se importar com os outros", disse à BBC o psiquiatra Andrew Thomas, da Universidade de Swansea, que participou da pesquisa.

Segundo Thomas, o problema está no fato de que esses jovens — cuja "saúde mental costuma estar em frangalhos", como ele define — superestimam o poder de atração física e o poder aquisitivo dos outros, ao mesmo tempo em que subestimam qualidades como gentileza, senso de humor e lealdade.

"Quando você supervaloriza mentalmente a importância da aparência física para as mulheres e subestima o peso da gentileza, começa a buscar evidências que confirmem essa visão de mundo", afirma o psiquiatra.

Essa também é a mensagem reforçada por alguns homens que já fizeram parte desses fóruns, mas que hoje dizem ter uma nova perspectiva.

Um deles é Jack Peterson, que publicou um vídeo no YouTube explicando por que decidiu deixar os grupos de incels.

"Percebi que não dava para passar o dia todo num fórum, falando sobre o quanto eu me sentia péssimo e gravando podcasts sobre isso. Eu precisava mudar", disse Peterson à BBC.

Durante anos, ele manteve um podcast no qual propagava as ideias que fundamentam a visão incel, mas hoje acredita que é preciso mudar de atitude.

"Se você projeta amor no mundo, vai receber amor de volta. Se for negativo em relação às mulheres, elas nunca vão querer ter um relacionamento com você", concluiu.

 

Fonte: Por Ian Youngs, repórter de cultura da BBC

 

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