Raízes
esquecidas: a herança africana do tango
Feche
os olhos e imagine uma apresentação de tango. Você provavelmente vai pensar em
dançarinos brancos ostentando ternos elegantes e vestidos com fenda, um salão
aristocrático de um bairro tradicional de Buenos Aires e uma orquestra
melancólica com bandoneóns, contrabaixos e violinos.
Um
argentino respondendo a essa pergunta no fim do século 19, no entanto,
descreveria um cenário bem distinto, povoado por personagens negros em um
bairro marginalizado da periferia portenha, dançando ao ritmo dos batuques do
candombe.
O
tango, afinal, foi forjado nas comunidades afro-pratenses, entoado por
escravizados e seus descendentes. Por muito tempo, o estilo musical foi
estigmatizado e perseguido, rotulado como imoral e degradante. Mas depois que
os europeus se encantaram com o ritmo e passaram a importá-lo, a elite
argentina resolveu reivindicá-lo como um símbolo — e se dedicou a apagar a sua
origem negra.
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O tango
O tango
é uma das expressões culturais latinas mais conhecidas, muito apreciada em todo
o mundo pelo caráter cênico de suas coreografias complexas, bem como pelo seu
estilo musical único, caracterizado pelo ritmo sincopado e compassos binários.
Surgido
no fim do século 19 na região do Rio da Prata, o tango começou a ser exportado
para a Europa no começo do século 20, tornando-se uma febre em cidades como
Paris, Londres e Berlim.
Posteriormente,
chegou a Nova York, incorporando-se ao repertório das grandes gravadoras e da
indústria cultural de massa, ganhando em seguida fama mundial.
O tango
daria origem a uma série de variações e influenciaria diversos estilos
musicais. Sua coreografia, imbuída de expressão emotiva, misturando paixão,
melancolia e tristeza, também revolucionou a dança de salão — e levou o
compositor Enrique Santos Discépolo a definir o estilo como “um pensamento
triste que se dança”. A popularidade do tango foi coroada em 2009, quando o
estilo foi classificado como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela
Unesco.
Não
obstante, a assimilação do tango pelas classes abastadas da Argentina e do
Uruguai e sua popularização nos centros culturais europeus e norte-americanos
deu-se em paralelo ao processo de apartamento do estilo de suas origens
populares — muito distantes dos espetáculos refinados encenados nos clubes e
bares de feições aristocráticas e plateias exclusivamente caucasianas.
O tango
surgiu nas periferias de cidades como Buenos Aires e Montevidéu, habitadas
pelas camadas populares, sobretudo comunidades negras, relegadas aos subúrbios
desde a abolição da escravidão.
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As origens populares
Após o
governo de Juan Manuel de Rosas, houve na Argentina o aumento da repressão
contra os costumes de origem africana. Proibidos de marchar com seus candombes
nas ruas, os negros argentinos passaram a celebrar suas tradições em ambientes
fechados, criando casas de dança chamadas de “milongas” — em referência ao
ritmo folclórico homônimo, muito apreciado nesses locais.
Aos
poucos, as milongas passaram a ser frequentadas por famílias mestiças oriundas
do interior e por imigrantes europeus de baixo poder aquisitivo, que também
buscavam refúgio nas periferias riopratenses. A fusão dos ritmos europeus e
africanos entoados nas casas de dança — polka, milonga, habanera — gradualmente
deu origem ao tango.
Estima-se
que transição para o novo estilo tenha durado cerca de quarenta anos. As bases
coreográficas do tango, por sua vez, têm origem na mistura do candombe, da
valsa e da mazurca, estilos rejeitados pelos setores conservadores, que os
rotulavam como indecentes e imorais, em função do contato físico entre os
praticantes. Já o nome “tango” antecede em várias décadas o surgimento do
próprio estilo, designando originalmente os locais onde os negros argentinos
cantavam e dançavam.
Em
1897, o pianista afro-argentino Rosendo Mendizábal publicou “El Entrerriano”, o
primeiro tango conhecido. Nos anos seguintes, dezenas de compositores negros
ajudaram a definir a identidade do novo gênero musical. O estilo logo se
espalhou pelos bairros populares. Também era frequentemente tocado em casas de
baile, bares e bordéis, que fomentaram o surgimento das primeiras bandas,
contratadas pelos proprietários para distrair os clientes.
A
sensualidade da dança e a origem popular do tango, entretanto, eram
considerados ofensivos pelas classes abastadas argentinas, o que levou a uma
onda de repressão e censura ao estilo pelas autoridades governamentais, em
paralelo a uma tentativa de intensificar o controle social sobre as classes
baixas.
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Dos candombes aos salões de Paris
No
começo do século 20, marinheiros europeus que aportavam em Buenos Aires e
Montevidéu começaram a se interessar pelo estilo e a levar exemplares das
canções para seus países de origem. Em 1907, a canção “La Morocha” do
compositor uruguaio Enrique Saborido fez enorme sucesso em Paris.
Da
capital francesa, o ritmo se espalhou para outras metrópoles europeias e logo
as bandas e orquestras de tango começaram a ser convidadas para apresentações
internacionais. Surpresa com a boa recepção do estilo entre os europeus, a
burguesia argentina, acostumada a mimetizar o comportamento dos franceses,
viu-se obrigada a gostar de tango. Para torná-lo mais palatável, promoveu o
“branqueamento” do estilo.
Os
afro-argentinos seguiram dando enormes contribuições para a consolidação do
tango ao longo do século 20. O “payador” Gabino Ezeiza, por exemplo, concebeu
obras de grande originalidade ao inserir a milonga nos desafios de trovas. O
compositor Enrique Maciel concebeu exemplares soberbos da “valsa criolla”,
nomeadamente “La Pulpera de Santa Lucía”. E o maestro Horacio Salgán se
tornaria o expoente máximo da renovação do estilo que daria origem ao chamado
“tango de vanguarda”.
Aos
poucos, essas referências foram sendo adaptadas ao gosto da elite. Criaram-se
orquestras e ambientações aristocráticas para introduzir o estilo nos círculos
da burguesia portenha, enquanto os palcos eram reservados aos artistas brancos,
visando esconder as raízes negras, mestiças e populares do ritmo.
Assim,
a célebre canção “Heróico Paysandú” do “El Negro” Ezeiza se tornaria um grande
sucesso na voz de Carlos Gardel. E as inovações de Salgán serviriam de base
para o movimento de renovação musical encabeçado por Astor Piazzolla.
O
processo de elitização e branqueamento do tango reflete a própria consolidação
do projeto eugênico na Argentina, que levou ao desaparecimento de sua população
negra entre os séculos 19 e 20. O país, onde os afrodescendentes perfazem hoje
apenas 0,4% da população, já chegou a ter 30% de habitantes negros no fim do
século 18.
O uso
dos negros na linha de frente das guerras e conflitos travados ao longo do
século XIX, as epidemias de cólera e febre amarela, concentradas nas
comunidades afrodescendentes, o estímulo à miscigenação e a política de fomento
à imigração em massa de europeus levaram ao branqueamento gradual da população.
Ao
mesmo tempo, esse processo alimentou um ideário racista, ainda profundamente
arraigado em setores da sociedade argentina, fortalecendo um ideal da pureza
racial, de identificação étnica e cultural com a Europa e de rejeição e
apagamento das heranças culturais indígenas e africanas — o triste sonho de ser
uma Europa latina, que ainda segue vivo e alimentado por uma uma parte dos
nossos hermanos.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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