Marcha
dos Vencidos: a humilhação pública dos nazistas em Moscou
Em 17
de julho de 1944, cerca de 57 mil prisioneiros de guerra alemães desfilavam
pelas ruas de Moscou no episódio conhecido como “Marcha dos Vencidos”.
O
evento foi organizado pelas autoridades soviéticas poucas semanas após o
lançamento da Operação Bagration, a campanha do Exército Vermelho que dizimou o
Grupo de Exércitos Centro da Alemanha nazista.
As
imagens de dezenas de milhares de soldados nazistas derrotados serviriam como
demonstração de força e como prova concreta de que o domínio no campo de
batalha havia passado definitivamente para as mãos da União Soviética.
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A invasão alemã
Quando
a Alemanha nazista invadiu a União Soviética em 22 de junho de 1941, Hitler fez
um discurso enérgico prometendo aos seus soldados que eles desfilariam
vitoriosos pelas ruas de Moscou antes mesmo do Natal. Walther von Brauchitsch,
o comandante do exército, e Franz Halder, chefe do Estado-Maior, asseguravam ao
“führer” que os soviéticos seriam derrotados em dois ou três meses e que até o
final de outubro os alemães teriam tomado toda a porção europeia do país.
O
otimismo dos líderes nazistas parecia justificado. Alcunhada “Operação
Barbarossa”, a ofensiva alemã foi a maior campanha militar da história em
termos de efetivos envolvidos. Foram mobilizados quase quatro milhões de
soldados, alocados em uma frente de combate com quase 3.000 quilômetros de
extensão. A operação englobava 180 divisões militares, 600 mil veículos, 3.300
blindados, 7.000 peças de artilharia e 2.500 aeronaves.
A
gigantesca ofensiva surpreendeu Moscou e forçou o Exército Vermelho a recuar.
Em apenas um mês, as forças nazistas capturaram 500 mil soldados e ocuparam
parte substancial da porção europeia do território soviético. A campanha logo
se converteu em uma guerra de extermínio, resultando no assassinato de milhões
de civis e na destruição de 70 mil cidades e vilarejos.
Os
soviéticos, no entanto, demonstraram uma capacidade formidável de resistência.
Entre 1942 e 1943, o Exército Vermelho conseguiu se reorganizar e a produção de
tanques, aviões, artilharia e munições cresceu de forma extraordinária. A
população soviética se dedicou com afinco ao esforço de guerra e inúmeros
grupamentos de partisans se somaram à luta das tropas regulares.
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A Operação Bagration
As
vitórias épicas do Exército Vermelho em Stalingrado e Kursk marcaram a virada
definitiva dos rumos da guerra na Frente Oriental. A partir daí, os alemães
passaram a recuar continuamente, enquanto os soviéticos libertavam
sucessivamente cidades e territórios ocupados.
O plano
de Hitler de ver os soldados alemães desfilando por Moscou teve de ser
continuamente adiado até 1944, quando o Exército Vermelho destruiu as
esperanças de vitória dos nazistas na contraofensiva denominada Operação
Bagration.
Lançada
em 22 de junho de 1944, exatamente três anos após o início da invasão nazista,
a Operação Bagration também entraria para o rol das maiores campanhas militares
da história. A ofensiva foi batizada em homenagem a Pyotr Bagration, o general
que conduziu as tropas russas na guerra contra Napoleão Bonaparte.
A
Operação Bagration mobilizou 1,6 milhão de soldados (dez vezes o efetivo
empregado no “Dia D”), assistidos por 34.000 peças de artilharia, 4.000
blindados e 5.300 aeronaves. Desnorteadas pela intensidade da investida, as
unidades alemãs não conseguiram impor resistência significativa e logo foram
subjugadas.
Em 3 de
julho, o Exército Vermelho capturou Minsk, a capital da Bielorrússia, há três
anos sob domínio alemão. Em seguida, os soviéticos conseguiram neutralizar o
abastecimento das tropas nazistas estacionadas nos Países Bálticos e iniciaram
o avanço rumo à Polônia.
Os
resultados foram catastróficos para o Terceiro Reich. Considerada a maior
derrota militar já sofrida pelo exército alemão, a Operação Bagration dizimou
28 das 34 divisões do Grupo de Exércitos Centro — a elite da Wehrmacht.
Os
soldados soviéticos destruíram 2.000 tanques e 57.000 veículos. Cerca de 500
mil soldados nazistas foram mortos ou feridos e 160 mil foram levados como
prisioneiros. Vastas porções do território soviético foram libertadas e enormes
contingentes nazistas ficaram isolados em bolsões.
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A “Grande Valsa”
Enquanto
o Exército Vermelho avançava no Leste Europeu, o alto comando soviético
preparava uma ação inusitada. Decidido a humilhar Hitler, Josef Stalin resolveu
cumprir a promessa do líder nazista. Mandou preparar quase 60 mil prisioneiros
de guerra alemães para que eles marchassem por Moscou. Mas não como vitoriosos.
Essa seria uma “Marcha dos Vencidos”.
O
desfile foi chamado por Stalin de “A Grande Valsa”, nome inspirado em um
musical norte-americano de 1938, muito popular na União Soviética. Foram
selecionados os soldados em boas condições físicas, capazes de aguentar a
marcha quilométrica. Os alemães foram devidamente alimentados, mas não
receberam permissão para se banharem. O governo soviético queria que seu povo
testemunhasse os autoproclamados “guerreiros da raça superior” marchando
derrotados, maltrapilhos e imundos.
Os
prisioneiros foram concentrados no Estádio Dinamo e no Hipódromo de Moscou.
Eles foram divididos em dois grupos principais, o primeiro com 42 mil soldados
e o segundo com 15 mil. A rota principal, dirigida à Estação Kursk, percorreria
a Rua Leningrado, a Rua Gorki e o Anel dos Jardins. O segundo grupo marcharia
rumo à Praça do Triunfo.
Na
manhã do dia 17 de julho de 1944, o gigantesco desfile foi anunciado por rádio.
Representantes dos países aliados compareceram para assistir ao evento em
camarotes. Uma grande multidão de moscovitas saiu às ruas para ver de perto a
marcha dos invasores, responsáveis pela morte de mais de 20 milhões de
compatriotas.
A
maioria assistiu em silêncio. Muitos xingaram e cuspiram. Os organizadores,
entretanto, não permitiram que os mais exaltados agredissem ou apedrejassem os
alemães. Os soldados nazistas seguiam cabisbaixos em sua maioria, embora alguns
não conseguissem disfarçar olhares de ódio. Ao término do desfile, carros de
limpeza percorreram as ruas por onde os nazistas passaram jogando jatos de água
e sabão, lavando simbolicamente Moscou de toda a sujeira.
A
“Marcha dos Vencidos” foi uma das demonstrações de força mais monumentais da
Segunda Guerra Mundial. Conforme alguns relatos, Hitler teria ficado tão
furioso com a humilhação de suas tropas em Moscou que cogitou copiar a
iniciativa, idealizando um desfile de prisioneiros de guerra pelas ruas de
Paris. A tentativa de demonstrar o poder minguante do Terceiro Reich, no
entanto, esbarraria na libertação de Paris, tomada pela Resistência Francesa e
pelas tropas aliadas em agosto de 1944.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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