19
de julho é Dia Nacional do Futebol no Brasil, uma invenção da época da ditadura
Dezenove
de julho de 2026. O mundo da bola parou para acompanhar uma festa para a qual
o Brasil não foi convidado desta vez: a final da Copa do Mundo.
Coincidentemente,
a mesma data é histórica para os futebolistas brasileiros: é o Dia Nacional do
Futebol, efeméride comemorada pela primeira vez pela Confederação Brasileira de
Desportos (CBD), a antecessora da Confederação Brasileira de Futebol
(CBF),
há exatos 50 anos.
Mais um
capítulo, aliás, que denota como a ditadura militar que comandava o
Brasil — e o esporte brasileiro — usava a popularidade do futebol como
instrumento de marketing político e social.
A data
comemorativa não foi escolhida aleatoriamente. Em 19 de julho de 1900 foi
fundado o primeiro clube dedicado exclusivamente a futebol no Brasil, o Sport
Club Rio Grande, na cidade de Rio Grande, no extremo sul do Brasil.
"Tem
uma história muito bacana e muito bonita ao mesmo tempo", avalia o
jornalista e comentarista esportivo Mauro Beting, autor de, entre outros
livros, Bolas & Bocas: Frases de Craques e Bagres
do Futebol.
Apelidado
de Vovô, atualmente o time disputa a terceira divisão do campeonato gaúcho —
mas já teve momentos mais gloriosos.
"Procurou-se
uma data que pudesse lembrar as origens do futebol do país. Algumas sugestões
foram colocadas em análise, mas a diretoria da entidade [a CBD] achou por bem
homenagear o dia em que foi fundado o primeiro clube no Brasil com o fim
específico de praticar o futebol", esclarece o jornalista e escritor
Severino Filho, conhecido como Buim, autor do livro Curiosidades e
Recordes do Futebol Brasileiro.
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Um time de imigrantes
O DNA
do Rio Grande é alemão, pois imigrantes alemães eram a maioria entre os
fundadores do clube e, naturalmente, os primeiros praticantes do esporte por
ali, os jogadores amadores que disputavam as partidas na virada do século 19
para o 20. A ideia da criação do time partiu do jovem Johannes Christian Moritz
Minnemann (1875-1929), nascido em Hamburgo.
Quando
se instalou no sul do Brasil, ele passou a sentir falta do esporte que jogava
com os amigos em sua terra natal. Por volta de 1898, começou a reunir outros
interessados e bater bola também em Rio Grande. Em 1900, foi dele a iniciativa
de organizar a patota em uma instituição, com o apoio e a anuência da elite
rio-grandense. Nascia então o Sport Club Rio Grande, reunindo não só imigrantes
alemães, como também portugueses, ingleses e brasileiros.
No dia
14 de julho de 1900, um sábado, Minnemann juntou os interessados na fundação do
time na chamada Casa dos Atiradores, um clube de tiro local. Ali ficou
combinado que seria oficializada a instituição e houve uma partida entre os
primeiros associados, divididos em equipes A e B. A ata de fundação seria
lavrada em reunião ocorrida na quinta-feira seguinte, justamente o dia 19.
Naquela
época, o comum era que os jogos fossem realizados apenas entre as duas equipes
do próprio clube. A falta de adversários foi suprida apenas em maio do ano
seguinte, quando o Rio Grande pela primeira vez disputou uma partida contra
outro time — o dos tripulantes da embarcação inglesa HMS Nymphe.
"Por
ser uma cidade portuária, há embarcações e fluxo de gente de fora. O primeiro
jogo deles foi contra marinheiros ingleses", explica Beting. Foram duas
partidas: um empate em 2 a 2 e uma vitória da formação brasileira, 2 a 1.
"O
Rio Grande do Sul, com sua forte influência europeia, foi um dos berços do
futebol no país. O clube era de elite, mas abria espaço para operários e
funcionários de empresas britânicas, o que o diferenciava dos clubes mais
aristocráticos do eixo Rio-São Paulo", contextualiza o sociólogo Rogério
Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"É
possível dizer que a importância do Rio Grande reside no fato de ser um clube
resistente e que, apesar de fundado por membros da elite europeia, criou raízes
populares."
Em 1922
o Rio Grande venceu a Taça Centenário da Independência, campeonato realizado em
Porto Alegre para comemorar os 100 anos da Independência do Brasil. A partir de
1936, o Vovô jogou 15 vezes na primeira divisão do Gauchão, o campeonato
gaúcho. Suas melhores participação foram, respectivamente, na estreia, quando
se sagrou campeão vencendo o Internacional; e em 1941, quando terminou como
vice.
Sua
última participação na primeira divisão foi no ano 2000 — mas a vaga não foi
obtida dentro das quatro linhas. Na ocasião, a Federação Gaúcha de Futebol
convidou a agremiação a ser um dos competidores da elite, em alusão ao
centenário de sua fundação.
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Futebol instrumentalizado
Em
julho de 1975, a então CBD, antecessora da CBF, reconheceu a importância
histórica do Rio Grande para o futebol nacional, preparando o terreno para a
criação do Dia Nacional do Futebol — que passaria a ser comemorado a partir do
ano seguinte, há meio século portanto.
"A
ditadura teve algumas coisas boas. Quase nenhuma. Mas uma delas é justamente a
instituição do Dia do Futebol", elogia Beting.
O
jornalista ressalta que se era praxe o uso de efemérides e denominações como
ferramenta de propaganda política, a escolha da data foi "bem
apropriada", pois sendo o homenageado um time que não está no eixo
principal do futebol, "conseguiu-se extinguir o clubismo".
"Foi
uma sacada muito boa", diz ele.
Presidente
da Academia Brasileira de Letras do Futebol e curador do Museu do Futebol, o
jornalista e escritor Marcelo Duarte tem opinião semelhante.
"Imagino
que, ao escolher um clube do interior, a CBD não causaria ciumeira com os
torcedores dos grandes clubes", comenta ele.
Segundo
o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, comentarista esportivo, consultor do
Museu do Futebol e professor na Faculdade Cásper Líbero, quem alinhava esse
tipo de decisão era o então Conselho Nacional de Desportos, "que era
ligado aos militares".
Naquela
época, com o Brasil sob o regime militar, o futebol era usado de forma
constante como propaganda de brasilidade. Para os generais da ditadura,
aproximar-se do esporte mais popular do país era estar ao lado do povo e se
legitimar na posição de governante.
"Em
diversas oportunidades, vitórias no futebol foram, e ainda são, usadas por
governos como forma de propaganda. Não só no Brasil", salienta o
jornalista e colecionador Marcelo Monteiro, dono do perfil Museu Histórico do
Futebol no Instagram.
"A
Copa de 1934 é um exemplo claro, quando [o fascista Benito] Mussolini
[(1883-1945)] organizou o Mundial na Itália e usou a competição como forma de
divulgação do regime. Ainda mais por ter vencido a competição."
Ninguém
lançou mão tão bem do artifício como Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) — que, diga-se,
realmente gostava de futebol. A conquista do tricampeonato brasileiro na
Copa de 1970 foi apropriada pelo seu governo como efusivo e vitorioso símbolo
de um Brasil que vivia o chamado "milagre econômico" e esbanjava
slogan como "ninguém segura esse país" e "Brasil: ame-o ou
deixe-o".
"A
ditadura usava o futebol muito, principalmente no período Médici, que era um
grande entusiasta do futebol, jogava bola desde o exército e era fanático pela
modalidade", pontua Unzelte.
"Em
um momento em que a ditadura promovia uma fortíssima repressão aos opositores,
o Mundial no México acabou servindo indiretamente para deixar os problemas do
governo em segundo plano", explica Monteiro.
"O
regime fez campanha por um espécie de união nacional em torno da seleção,
buscando que a população e imprensa se concentrassem mais no futebol. O próprio
presidente Médici gostava bastante de futebol e falava bastante sobre o
assunto. E aproveitou a conquista, recebendo o time em Brasília e posando com a
taça Jules Rimet."
Nesse
contexto, foi criado o Campeonato Nacional de Clubes, cuja primeira edição, de
1971, foi considerada por muito tempo como o primeiro Brasileirão. Era um
certame que tinha representantes de todas as partes do país, favorecendo o
sentimento de unidade que era preconizada pelo governo.
A
antropóloga Mariana Mandelli, pesquisadora na Universidade de São Paulo, situa
a gênese do campeonato como "uma espécie de ferramenta artificial para o
projeto de integração nacional do regime".
O
governo brasileiro também organizou nessa época a Taça Independência, um
torneio de seleções em comemoração aos 150 anos da Independência brasileira.
Buim lembra que a competição foi considerada uma "mini-Copa".
Presidente
da CBD desde 1958, o dirigente João Havelange (1916-2016) tornou-se aliado dos
governos militares e a própria instituição esportiva foi aparelhada com muitos
quadros oriundos das forças armadas.
"A
presença de muitos militares na diretoria da CBD, por si só, já representava um
forte interesse do regime naquele que, por muitos anos, foi considerado o ópio
do povo", analisa Buim. "A construção de grandes estádios foi um dos
maiores exemplos. Vários foram edificados nesta época."
É o
caso dos que foram erguidos em Fortaleza, Natal, Campo Grande, Goiânia, entre
outros.
Havelange
teve sua candidatura ao comando da Federação Internacional de Futebol (FIFA)
apoiada pelo governo brasileiro — ele comandaria a mais importante instituição
do futebol mundial de 1974 a 1998 — e foi sucedido na gestão da CBD por um
militar de carreira, o almirante Heleno Nunes (1917-1984).
Foi
Nunes quem deu sequência à imiscuidade entre governo e futebol, reconhecendo a
primazia do Sport Club Rio Grande e efetivamente criando o Dia Nacional do
Futebol. No mesmo ano de 1976 foi oficializado também o Dia do Goleiro — data
escolhida em homenagem ao lendário arqueiro Haílton de Arruda (1937-2025), o
Manga.
A essa
altura, o comando do país já estava nas mãos de outro general, Ernesto Geisel
(1907-1996) — presidente de 1974 a 1979. Ao contrário do antecessor Médici,
este tinha uma relação mais pragmática com o futebol, vendo no esporte apenas
um meio de criar engajamento popular.
"O
Geisel mal sabia o que era a bola", alfineta Unzelte. "Médici tinha
tudo de errado, mas pelo menos gostava de futebol", compara Beting.
"Ia ao [estádio do] Maracanã, ouvia jogos pelo radinho…"
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Propaganda política
"Durante
a ditadura militar, especialmente a partir do governo Médici, entre 1969 e
1974, o futebol foi transformado em uma das principais ferramentas de
propaganda política e controle social do Estado", diz Baptistini. "A
criação de um Dia Nacional do Futebol fez parte dessa engrenagem."
"A
intenção dos militares era a de utilizar o futebol para obter legitimidade
popular para o regime. A seleção brasileira, sobretudo, foi um símbolo de
identidade nacional e manifestação de ufanismo, para mostrar um país forte e
unido", complementa o sociólogo.
"E
os campeonatos nacionais e estaduais serviam como distração política e
ferramentas de alienação, afastando os olhares do público da censura, da
tortura e do exílio dos democratas."
Em
1984, no final do regime militar, o Congresso Nacional chancelou e oficializou
a data, incluindo-a no calendário do país.
A
historiadora Fernanda Haag, professora do Instituto Federal do Paraná e que se
doutorou pela Universidade de São Paulo com tese sobre o futebol brasileiro, vê
nessas datas um interesse do regime em mobilizar a sociedade. "Eram coisas
para criar coesão, identidade", explica.
"A
ditadura pintou e bordou com a fama do futebol", afirma Haag. No caso do
campeonato brasileiro, ela lembra que até havia o bordão "onde a Arena [o
partido de sustentação ao regime] vai mal, mais um time no nacional" que
era utilizado para comentar esse jogo de barganhas entre participantes do
certame e a costura de apoios regionais.
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Outros clubes
Mas há
controvérsias sobre a primazia do Rio Grande.
Isto
porque existem clubes anteriores ao Rio Grande, mas que eram instituições
dedicadas também a outros esportes — e muitas foram descontinuadas.
"A
escolha do Rio Grande é porque ele é considerado o mais antigo clube brasileiro
criado especificamente para a prática do futebol e que permanece em atividade
ininterrupta", esclarece o jornalista Duarte.
"Esse
detalhe é importante. Existem clubes fundados antes dele, mas que nasceram
dedicados a outros esportes, e só depois passaram a ter departamentos de
futebol. O Rio Grande foi criado desde o primeiro dia como um clube de
futebol."
No Rio
de Janeiro, casos como o do Flamengo, de 1895, e do Vasco, de 1898, são
ilustrativos: eram clubes criados para a prática de esportes náuticos, daí o
"de regatas" que até hoje está na denominação oficial de ambos.
O São
Paulo Athletic Club, instituição da capital paulista onde Charles Miller
introduziu o futebol, era uma agremiação voltada para o críquete — foi fundada
em 1894.
Entre
1898 e 1899 São Paulo também teve a criação dos clubes do Mackenzie, do
Internacional e do Germânia, mas os três acabaram depois extinguindo seus
departamentos de futebol.
"O
Rio Grande conquistou essa primazia por ter se mantido em atividade durante
esse tempo todo, enquanto esses clubes anteriores deixaram o futebol",
explica Monteiro.
Em
Campinas, no interior paulista, o caso da Associação Atlética Ponte Preta é o
que costuma despertar mais polêmica. O clube foi fundado em 11 de agosto de
1900, poucos dias depois do Rio Grande.
"A
história não é tão simples assim", pondera Baptistini.
"A
Ponte Preta é o primeiro clube de futebol fundado por brasileiros, não por
imigrantes. Foi criada por estudantes do Colégio Culto à Ciência, em Campinas,
e sua fundação é amplamente documentada. Há registros que atestam que o futebol
já era praticado lá antes da fundação formal do Rio Grande."
No meio
dessa polêmica, a historiadora Haag aproveita para debater: por que, afinal,
essa necessidade de pontuar quem foi o primeiro?
"Há
esse apelo da busca das origens, sempre queremos saber quem começou, é quase um
vício. Nós, historiadores, precisamos problematizar a busca das origens",
comenta.
Para
ela, "mais interessante do que buscar uma paternidade" no assunto é
"pensar na diversidade dos futebóis do Brasil".
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Desimportância
Mas
poucos realmente sabem dessa efeméride.
"Realmente
é uma data que não é conhecida da grande maioria das pessoas que acompanha o
futebol. Acaba não tendo tanta relevância", diz Monteiro. "É um
exemplo de uma data que 'não pegou' junto à população, apesar de ter sido
criada há bastante tempo. Acaba passando meio em branco, sendo lembrada apenas
de forma institucional por entidades ligadas ao futebol ou por citações de
pesquisadores."
"Não
vejo relevância nessas efemérides relacionadas ao futebol. Não há um
engajamento da população nessas datas. De qualquer forma, é mais um legado
simbólico, ainda que esquecido, da apropriação social, cultural e política que
a ditadura militar fez do futebol. E que, de certa forma, ainda se perpetuou no
governo [federal] anterior, quando vimos um presidente da República [Jair
Bolsonaro] utilizar dezenas de camisas de times em publicações na redes
sociais", analisa Mandelli.
A
coincidência de 2026, contudo, não deixa de ser uma faceta que merece um novo
olhar sobre o tema.
"Não
parece que o Dia Nacional do Futebol seja exatamente lembrado, mesmo este sendo
o esporte principal do país. Mas neste ano há a coincidência de ser a final da
Copa…", comenta Buim.
"Neste
ano, com a final da Copa no mesmo dia, poderia ganhar um significado caso a
seleção não tivesse feito uma campanha ridícula", diz o sociólogo
Baptistini. Para ele, o que ficou da efeméride, entretanto, foi a marca de um
Estado que "tentou domesticar" a paixão pelo futebol.
Fonte:
BBC News Brasil

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