segunda-feira, 20 de julho de 2026

Quando a cobra fumou: o Brasil em guerra contra os nazistas

em 16 de julho de 1944, as primeiras divisões da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcavam em Nápoles, na Itália, e se juntavam aos exércitos Aliados.

Criada em agosto de 1943, a FEB era a unidade militar enviada pelo governo brasileiro para auxiliar no combate às tropas nazifascistas durante a Segunda Guerra Mundial. A divisão congregava 25.834 combatentes, incluindo batalhões de infantaria, artilharia, engenharia e apoio médico.

A FEB participou de intensos combates na Campanha da Itália, dando importante contribuição para o rompimento da Linha Gótica e para ofensiva final lançado pelos Aliados em 1945.

Entre seus principais feitos dos brasileiros destacam-se a conquista de Monte Castello, as batalhas de Castelnuovo e Montese e a decisiva vitória em Collecchio-Fornovo, onde forçaram milhares de soldados alemães e italianos à rendição.

<><> O Brasil declara guerra

O Brasil foi o único país sul-americano a enviar soldados sob sua própria bandeira para lutar contra as forças nazifascistas na Segunda Guerra Mundial. A princípio, o país, então sob governo de Getúlio Vargas, tentou manter a neutralidade no conflito, em consonância com o tradicional pragmatismo de sua política externa. Após o ataque do Japão a Pearl Harbor e o subsequente ingresso dos Estados Unidos na guerra, o Brasil passou a ser pressionado a auxiliar as tropas dos Aliados.

Em 1942, no âmbito dos Acordos de Washington, Vargas autorizou o uso das bases aéreas do Nordeste pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, recebendo em contrapartida a promessa de financiamento norte-americano para ampliar a indústria siderúrgica nacional. Foi o suficiente para que o Brasil sofresse pesada retaliação da Alemanha e da Itália, que enviaram submarinos para atacar as embarcações brasileiras.

Ao longo da guerra, os submarinos do Eixo torpedearam 36 navios mercantes do Brasil, afundando 32 embarcações e matando mais de mil pessoas. Os ataques atingiram seu ápice no mês de agosto de 1942, quando seis navios foram afundados em apenas dois dias — nomeadamente o paquete Baependi, cujo naufrágio causou 270 mortes.

Indignada, a população saiu às ruas exigindo que Vargas declarasse guerra aos nazistas. Visando pressionar o governo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) organizou uma série de passeatas nas capitais brasileiras, obtendo enorme adesão dos trabalhadores. Cedendo à pressão popular, Vargas declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista em 22 de agosto de 1942.

<><> A criação da FEB

Após a declaração de guerra, Vargas ainda manteve uma postura acanhada, limitando-se a colaborar com o patrulhamento do Atlântico Sul e com o envio de matéria-prima para o esforço dos Aliados. Reagindo à inércia do governo, organizações antifascistas, movimentos sociais e partidos de esquerda passaram a defender o envio de uma força expedicionária para contribuir militarmente na luta contra o nazifascismo.

Respondendo à mobilização popular e à crescente pressão norte-americana, o governo Vargas instituiu em 9 de agosto de 1943 a Força Expedicionária Brasileira (FEB) — agrupamento militar aeroterrestre criado para integrar o esforço dos Aliados contra o Eixo. Em alusão aos críticos que afirmavam que seria “mais fácil uma cobra fumar um cachimbo do que o Brasil lutar na guerra”, a FEB adotou um lema irônico: “A cobra está fumando”.

A FEB englobava três regimentos de infantaria (incluindo nove companhias de fuzileiros), um regimento de artilharia, uma esquadrilha de reconhecimento, um esquadrão de caças, batalhões de engenharia e saúde militar e unidades de apoio, reunindo mais de 25 mil combatentes (ditos “pracinhas”).

A divisão era composta, sobretudo, por soldados das classes populares, bem como militantes do movimento tenentista e comunistas orgânicos ligados ao PCB — tais como Jacob Gorender e Salomão Malina. Embora alguns oficiais da FEB tenham recebido instrução prévia nos Estados Unidos, a grande maioria dos pracinhas teve acesso apenas um treinamento limitado, com equipamentos obsoletos.

<><> A Campanha da Itália

Sob o comando do general Mascarenhas de Morais, a FEB aportou na Itália em 16 de julho de 1944. Após um breve período de aclimatação e treinamento complementar, os brasileiros se juntaram às demais divisões aliadas ativas na Campanha da Itália.

A missão inicial dos pracinhas era ajudar a romper a Linha Gótica — o vigoroso sistema defensivo do Eixo, que impossibilitava o avanço dos Aliados rumo às regiões setentrionais da Península Itálica. Neutralizar a ação do exército alemão nas fortificações da Linha Gótica era um passo essencial para derrubar o governo paralelo de Benito Mussolini e aumentar a pressão sobre o Terceiro Reich.

Os pracinhas enfrentaram inúmeras dificuldades na Itália — da ausência de uniformes apropriados até a falta de armamentos modernos, passando pelo desconhecimento de táticas de combate em regiões montanhosas. Apesar disso, a FEB conseguiu cumprir a imensa maioria das missões para as quais foi designada.

Na primeira etapa, os brasileiros subjugaram os nazistas nas batalhas do Vale do Rio Serchio, libertando as cidades de Massarosa, Camaiore e Monte Prano. Em seguida, a FEB avançou rumo aos Apeninos, onde enfrentaria suas batalhas mais difíceis.

Os brasileiros sofreram alguns revezes e foram prejudicados pelo inverno rigoroso, mas conseguiram vencer os nazistas nas batalhas de Monte Castello e Castelnuovo. Em seguida, obtiveram novo triunfo contra o 14º Exército alemão durante a sangrenta Batalha de Montese.

Os triunfos da FEB nos Apeninos, somados às vitórias dos norte-americanos em Belvedere e Della Torraccia, possibilitaram o início da Ofensiva da Primavera, a investida derradeira dos Aliados na Itália.

Nessa última etapa da campanha, os pracinhas, mesmo estando em desvantagem numérica, conseguiram cercar, subjugar e forçar à rendição quatro divisões inimigas nas batalhas de Collecchio e Fornovo di Taro — duas alemãs (148ª Divisão de Infantaria e 90ª Divisão Panzer Granadier) e duas italianas (1ª Divisão Bersaglieri e 4ª Divisão de Montanha).

A FEB logrou assim um feito inédito: foi a única força militar a conseguir capturar integralmente uma divisão alemã durante a Campanha da Itália. Os brasileiros também frustraram a retirada das tropas alemãs rumo à Ligúria, ajudando a consolidar a libertação da Itália e a desfalcar a capacidade de reação do Terceiro Reich — já prestes a ruir sob o avanço irrefreável das tropas soviéticas.

Os pilotos brasileiros prestaram importante apoio na Campanha da Itália. Agrupados no 1º Grupo de Aviação de Caça (informalmente chamado de “Senta a Púa!”, em referência ao seu grito de guerra), os brasileiros atuaram em diversas missões na região da Toscana e no Vale do Pó. Composto por quatro esquadrilhas de aeronaves Republic P-47 Thunderbolt, o grupo conduziu uma série de ataques a pontes, ferrovias, depósitos de munição, arsenais e veículos de transporte.

Por sua vez, as forças navais brasileiras participaram ativamente da Batalha do Atlântico. Ao longo do conflito, a Marinha do Brasil escoltou 3.167 navios e conduziu 66 ataques aos submarinos do Eixo — danificando e afundando 18 submarinos inimigos em águas brasileiras.

<><> A contribuição da FEB

Durante a Segunda Guerra Mundial, a FEB permaneceu ininterruptamente em combate ao longo de 239 dias. Os brasileiros percorreram mais de 400 quilômetros na Península Itálica, libertando centenas de povoados, vilas e cidades.

A FEB foi responsável por capturar mais de 20 mil soldados nazistas. Também apreendeu 80 canhões, 1.500 viaturas e 4.000 cavalos. O Brasil sofreu centenas de perdas humanas no conflito: 467 soldados da FEB foram mortos em ação e cerca de 2.000 homens ficaram feridos. A Marinha do Brasil teve três de seus navios de guerra afundados e perdeu 486 homens em ação.

A participação da FEB na Segunda Guerra Mundial foi um marco histórico para o Brasil e uma importante contribuição para a luta antifascista internacional. Os pracinhas foram efusivamente saudados pelo povo ao retornarem ao Brasil, mas foram tratados com desprezo e desconfiança pelo governo de Getúlio Vargas.

O establishment autoritário do Estado Novo se incomodava com a exaltação popular a uma força expedicionária que ajudou a derrubar uma ditadura. Por sua vez, o alto comando das forças armadas, muito elitizado, se ressentia com o fato de que soldados de baixa patente fossem tratados como heróis pela população. Assim, logo após o seu retorno, malgrado o fato de ser a unidade militar mais experiente do país, a FEB foi desmobilizada e os pracinhas foram dispensados sem qualquer tipo de benefício.

Coube à Itália a tarefa de erguer os primeiros monumentos celebrando a memória dos soldados brasileiros. Sobrevivente da Segunda Guerra, o italiano Franco Fini registrou em depoimento a diferença de tratamento dos soldados brasileiros em relação às outras unidades. “Os soldados brasileiros eram como irmãos, uma boa companhia. Os outros exércitos eram completamente distantes.” E emendou, aludindo à importância da contribuição dos pracinhas: “Não sei como é nos outros lugares, mas em toda esta região no vale do Rio Reno, de Porretta até Vergato, os libertadores foram os brasileiros”.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

Nenhum comentário: