Quando
a cobra fumou: o Brasil em guerra contra os nazistas
em 16
de julho de 1944, as primeiras divisões da Força Expedicionária Brasileira
(FEB) desembarcavam em Nápoles, na Itália, e se juntavam aos exércitos Aliados.
Criada
em agosto de 1943, a FEB era a unidade militar enviada pelo governo brasileiro
para auxiliar no combate às tropas nazifascistas durante a Segunda Guerra
Mundial. A divisão congregava 25.834 combatentes, incluindo batalhões de
infantaria, artilharia, engenharia e apoio médico.
A FEB
participou de intensos combates na Campanha da Itália, dando importante
contribuição para o rompimento da Linha Gótica e para ofensiva final lançado
pelos Aliados em 1945.
Entre
seus principais feitos dos brasileiros destacam-se a conquista de Monte
Castello, as batalhas de Castelnuovo e Montese e a decisiva vitória em
Collecchio-Fornovo, onde forçaram milhares de soldados alemães e italianos à
rendição.
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O Brasil declara guerra
O
Brasil foi o único país sul-americano a enviar soldados sob sua própria
bandeira para lutar contra as forças nazifascistas na Segunda Guerra Mundial. A
princípio, o país, então sob governo de Getúlio Vargas, tentou manter a
neutralidade no conflito, em consonância com o tradicional pragmatismo de sua
política externa. Após o ataque do Japão a Pearl Harbor e o subsequente
ingresso dos Estados Unidos na guerra, o Brasil passou a ser pressionado a
auxiliar as tropas dos Aliados.
Em
1942, no âmbito dos Acordos de Washington, Vargas autorizou o uso das bases
aéreas do Nordeste pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, recebendo em
contrapartida a promessa de financiamento norte-americano para ampliar a
indústria siderúrgica nacional. Foi o suficiente para que o Brasil sofresse
pesada retaliação da Alemanha e da Itália, que enviaram submarinos para atacar
as embarcações brasileiras.
Ao
longo da guerra, os submarinos do Eixo torpedearam 36 navios mercantes do
Brasil, afundando 32 embarcações e matando mais de mil pessoas. Os ataques
atingiram seu ápice no mês de agosto de 1942, quando seis navios foram
afundados em apenas dois dias — nomeadamente o paquete Baependi, cujo naufrágio
causou 270 mortes.
Indignada,
a população saiu às ruas exigindo que Vargas declarasse guerra aos nazistas.
Visando pressionar o governo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) organizou
uma série de passeatas nas capitais brasileiras, obtendo enorme adesão dos
trabalhadores. Cedendo à pressão popular, Vargas declarou guerra à Alemanha
nazista e à Itália fascista em 22 de agosto de 1942.
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A criação da FEB
Após a
declaração de guerra, Vargas ainda manteve uma postura acanhada, limitando-se a
colaborar com o patrulhamento do Atlântico Sul e com o envio de matéria-prima
para o esforço dos Aliados. Reagindo à inércia do governo, organizações
antifascistas, movimentos sociais e partidos de esquerda passaram a defender o
envio de uma força expedicionária para contribuir militarmente na luta contra o
nazifascismo.
Respondendo
à mobilização popular e à crescente pressão norte-americana, o governo Vargas
instituiu em 9 de agosto de 1943 a Força Expedicionária Brasileira (FEB) —
agrupamento militar aeroterrestre criado para integrar o esforço dos Aliados
contra o Eixo. Em alusão aos críticos que afirmavam que seria “mais fácil uma
cobra fumar um cachimbo do que o Brasil lutar na guerra”, a FEB adotou um lema
irônico: “A cobra está fumando”.
A FEB
englobava três regimentos de infantaria (incluindo nove companhias de
fuzileiros), um regimento de artilharia, uma esquadrilha de reconhecimento, um
esquadrão de caças, batalhões de engenharia e saúde militar e unidades de
apoio, reunindo mais de 25 mil combatentes (ditos “pracinhas”).
A
divisão era composta, sobretudo, por soldados das classes populares, bem como
militantes do movimento tenentista e comunistas orgânicos ligados ao PCB — tais
como Jacob Gorender e Salomão Malina. Embora alguns oficiais da FEB tenham
recebido instrução prévia nos Estados Unidos, a grande maioria dos pracinhas
teve acesso apenas um treinamento limitado, com equipamentos obsoletos.
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A Campanha da Itália
Sob o
comando do general Mascarenhas de Morais, a FEB aportou na Itália em 16 de
julho de 1944. Após um breve período de aclimatação e treinamento complementar,
os brasileiros se juntaram às demais divisões aliadas ativas na Campanha da
Itália.
A
missão inicial dos pracinhas era ajudar a romper a Linha Gótica — o vigoroso
sistema defensivo do Eixo, que impossibilitava o avanço dos Aliados rumo às
regiões setentrionais da Península Itálica. Neutralizar a ação do exército
alemão nas fortificações da Linha Gótica era um passo essencial para derrubar o
governo paralelo de Benito Mussolini e aumentar a pressão sobre o Terceiro
Reich.
Os
pracinhas enfrentaram inúmeras dificuldades na Itália — da ausência de
uniformes apropriados até a falta de armamentos modernos, passando pelo
desconhecimento de táticas de combate em regiões montanhosas. Apesar disso, a
FEB conseguiu cumprir a imensa maioria das missões para as quais foi designada.
Na
primeira etapa, os brasileiros subjugaram os nazistas nas batalhas do Vale do
Rio Serchio, libertando as cidades de Massarosa, Camaiore e Monte Prano. Em
seguida, a FEB avançou rumo aos Apeninos, onde enfrentaria suas batalhas mais
difíceis.
Os
brasileiros sofreram alguns revezes e foram prejudicados pelo inverno rigoroso,
mas conseguiram vencer os nazistas nas batalhas de Monte Castello e
Castelnuovo. Em seguida, obtiveram novo triunfo contra o 14º Exército alemão
durante a sangrenta Batalha de Montese.
Os
triunfos da FEB nos Apeninos, somados às vitórias dos norte-americanos em
Belvedere e Della Torraccia, possibilitaram o início da Ofensiva da Primavera,
a investida derradeira dos Aliados na Itália.
Nessa
última etapa da campanha, os pracinhas, mesmo estando em desvantagem numérica,
conseguiram cercar, subjugar e forçar à rendição quatro divisões inimigas nas
batalhas de Collecchio e Fornovo di Taro — duas alemãs (148ª Divisão de
Infantaria e 90ª Divisão Panzer Granadier) e duas italianas (1ª Divisão
Bersaglieri e 4ª Divisão de Montanha).
A FEB
logrou assim um feito inédito: foi a única força militar a conseguir capturar
integralmente uma divisão alemã durante a Campanha da Itália. Os brasileiros
também frustraram a retirada das tropas alemãs rumo à Ligúria, ajudando a
consolidar a libertação da Itália e a desfalcar a capacidade de reação do
Terceiro Reich — já prestes a ruir sob o avanço irrefreável das tropas
soviéticas.
Os
pilotos brasileiros prestaram importante apoio na Campanha da Itália. Agrupados
no 1º Grupo de Aviação de Caça (informalmente chamado de “Senta a Púa!”, em
referência ao seu grito de guerra), os brasileiros atuaram em diversas missões
na região da Toscana e no Vale do Pó. Composto por quatro esquadrilhas de
aeronaves Republic P-47 Thunderbolt, o grupo conduziu uma série de ataques a
pontes, ferrovias, depósitos de munição, arsenais e veículos de transporte.
Por sua
vez, as forças navais brasileiras participaram ativamente da Batalha do
Atlântico. Ao longo do conflito, a Marinha do Brasil escoltou 3.167 navios e
conduziu 66 ataques aos submarinos do Eixo — danificando e afundando 18
submarinos inimigos em águas brasileiras.
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A contribuição da FEB
Durante
a Segunda Guerra Mundial, a FEB permaneceu ininterruptamente em combate ao
longo de 239 dias. Os brasileiros percorreram mais de 400 quilômetros na
Península Itálica, libertando centenas de povoados, vilas e cidades.
A FEB
foi responsável por capturar mais de 20 mil soldados nazistas. Também apreendeu
80 canhões, 1.500 viaturas e 4.000 cavalos. O Brasil sofreu centenas de perdas
humanas no conflito: 467 soldados da FEB foram mortos em ação e cerca de 2.000
homens ficaram feridos. A Marinha do Brasil teve três de seus navios de guerra
afundados e perdeu 486 homens em ação.
A
participação da FEB na Segunda Guerra Mundial foi um marco histórico para o
Brasil e uma importante contribuição para a luta antifascista internacional. Os
pracinhas foram efusivamente saudados pelo povo ao retornarem ao Brasil, mas
foram tratados com desprezo e desconfiança pelo governo de Getúlio Vargas.
O
establishment autoritário do Estado Novo se incomodava com a exaltação popular
a uma força expedicionária que ajudou a derrubar uma ditadura. Por sua vez, o
alto comando das forças armadas, muito elitizado, se ressentia com o fato de
que soldados de baixa patente fossem tratados como heróis pela população.
Assim, logo após o seu retorno, malgrado o fato de ser a unidade militar mais
experiente do país, a FEB foi desmobilizada e os pracinhas foram dispensados
sem qualquer tipo de benefício.
Coube à
Itália a tarefa de erguer os primeiros monumentos celebrando a memória dos
soldados brasileiros. Sobrevivente da Segunda Guerra, o italiano Franco Fini
registrou em depoimento a diferença de tratamento dos soldados brasileiros em
relação às outras unidades. “Os soldados brasileiros eram como irmãos, uma boa
companhia. Os outros exércitos eram completamente distantes.” E emendou,
aludindo à importância da contribuição dos pracinhas: “Não sei como é nos
outros lugares, mas em toda esta região no vale do Rio Reno, de Porretta até
Vergato, os libertadores foram os brasileiros”.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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