Pepe
Escobar: Trump fracassou no Irã e a estratégia agora é ditada pelo eixo da
resistência
O
Oriente Médio está diante de uma reconfiguração tectônica em sua geopolítica, e
os Estados Unidos perderam definitivamente a capacidade de ditar as regras do
jogo. Esta é a avaliação central do jornalista e analista internacional Pepe
Escobar, em uma contundente entrevista concedida ao cientista político
norueguês Glenn Diesen. Segundo Escobar, a tentativa de Washington de aplicar a
clássica cartilha do “dividir para governar” contra o Eixo da Resistência gerou
o efeito oposto: uma consolidação regional sem precedentes que colocou o
império contra a parede.
Escobar
aponta que a fragilidade estratégica da Casa Branca, sob uma liderança marcada
por impulsos erráticos e pela ausência de assessoria qualificada, arrastou o
Ocidente para um beco sem saída. “Eles perderam no front geopolítico, no front
militar e no front geoeconômico”, disparou o jornalista, desenhando o cenário
de uma derrota que ele classifica como “praticamente irreversível”.
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O consenso de Teerã e a união espiritual do Eixo
O ponto
de virada desta nova fase do conflito, explica Escobar, ficou evidente nos
impressionantes ritos fúnebres realizados recentemente em memória das
lideranças iranianas assassinadas. O analista destaca que as procissões não
apenas mobilizaram mais de 40 milhões de pessoas, mas unificaram
espiritualmente e politicamente xiitas no Iraque — em cidades sagradas como
Najaf e Karbala — e no Irã (Teerã, Qom e Mashhad).
Essa
demonstração de solidariedade transfronteiriça sela, de acordo com fontes
internas acessadas por Escobar, um consenso absoluto e inabalável no topo do
Conselho de Segurança Nacional do Irã e entre os comandantes do Corpo de
Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC): a era das concessões ou acomodações
diplomáticas com os Estados Unidos acabou.
A
liderança iraniana, agora sob a firme e discreta condução de Mojtaba Khamenei,
opera sob a premissa de que qualquer diálogo com o Ocidente é uma armadilha. A
visão predominante é a de que Washington utiliza acordos e memorandos apenas
para ganhar tempo, reabastecer arsenais e preparar ataques surpresa. Se os EUA
cruzarem novas linhas vermelhas, o Irã já tem desenhado o seu “Plano B”: a
saída formal do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).
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A resposta de um dia: o fator Iêmen e a nova dissuasão
Um dos
episódios mais ilustrativos dessa mudança na correlação de forças foi a
resposta das forças iemenitas (Ansarallah) ao recente bombardeio da pista do
Aeroporto Internacional de Sana’a, que visava interromper um voo humanitário da
companhia iraniana Mahan Air.
Escobar
relata que, enquanto o Irã historicamente adota uma estratégia de paciência e
respostas calculadas a longo prazo, o Iêmen alterou radicalmente essa dinâmica.
Em menos de 24 horas após o ataque em Sana’a, as forças iemenitas responderam
na proporção de “dois para um”, atingindo alvos militares e de infraestrutura
na Arábia Saudita.
Essa
velocidade de retaliação enviou uma mensagem cristalina a Riade e a Washington:
qualquer agressão será respondida imediatamente e com poder destrutivo severo.
Não por acaso, aponta o jornalista, a monarquia saudita tem demonstrado pânico
e extrema cautela, ciente de que suas instalações petrolíferas e a estabilidade
de seus megaprojetos econômicos estão ao alcance direto dos drones e mísseis
hipersônicos do Iêmen.
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A “bomba nuclear” de Teerã: o controle absoluto das artérias comerciais
Mais do
que o desenvolvimento de ogivas, a verdadeira “bomba nuclear” do Irã no
tabuleiro global é geográfica e estratégica: o controle definitivo do Estreito
de Ormuz.
Diesen
e Escobar convergiram no diagnóstico de que o conflito atual mudou de patamar.
O que começou como uma tentativa ocidental de promover uma “mudança de regime”
em Teerã transformou-se em uma batalha desesperada pelo controle das rotas
marítimas que oxigenam a economia global. A retórica de Washington de impor
taxas de trânsito ou bloqueios na região colide com a realidade militar de que
a Marinha do IRGC é quem dita as coordenadas no Golfo Pérsico.
“O
Estreito de Ormuz é, a partir de agora, um ponto de estrangulamento sob
controle iraniano, ponto final”, afirma Pepe Escobar.
O
analista adverte que uma ação combinada entre o Irã em Ormuz e o Ansarallah
iemenita no Estreito de Bab al-Mandab tem o potencial de paralisar o comércio
internacional. Se o fluxo de petróleo for interrompido, os preços do barril
podem saltar rapidamente para a faixa de 150 a 200 dólares. O resultado prático
seria o colapso sistêmico das economias ocidentais e o golpe de misericórdia no
padrão do petrodólar, pilar de sustentação da hegemonia financeira
norte-americana.
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A falência da diplomacia ocidental e a emergência de um novo guarda-chuva
regional
Diante
do cenário em que os Estados Unidos são vistos globalmente como uma entidade
“incapaz de cumprir acordos” — vide o abandono unilateral do JCPOA no passado e
o esvaziamento recente do Memorando de Entendimento de Versalhes —, o Oriente
Médio começa a desenhar sua própria arquitetura de segurança, à revelia de
Washington.
Pepe
Escobar revelou detalhes de uma intensa atividade diplomática de bastidores
liderada pelo Paquistão. Islamabad, que mantém um sólido pacto militar com a
Arábia Saudita e, ao mesmo tempo, canais de comunicação diretos e de alto nível
com Teerã, desponta como o articulador de um novo arranjo regional.
Este
projeto de segurança integraria potências como o próprio Paquistão, Arábia
Saudita, Turquia, Catar e Egito. O objetivo central é criar um mecanismo de
estabilização interna que minimize a necessidade — e a interferência — das
forças do Comando Central dos EUA (CENTCOM). Trata-se do Sul Global construindo
suas próprias salvaguardas contra o caos promovido pelo Ocidente.
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A miopia histórica dos impérios e a resiliência dos Estados-Civilização
Ao
concluir a análise, Pepe Escobar e Glenn Diesen enfatizaram o erro crasso e
repetitivo da mídia corporativa ocidental, que insiste em vender a narrativa de
que bombardeios estrangeiros seriam “recebidos com festa” pelas populações
locais para derrubar seus governos.
O Irã,
lembra Diesen, é uma fortaleza geográfica cercada por cadeias montanhosas, com
uma população de 93 milhões de pessoas que compreende o conflito atual em
termos existenciais: capitular significa o destino trágico de destruição total
visto na Líbia ou na Síria. Além disso, a cultura política local é
profundamente moldada por uma teologia de resiliência e justiça de longo prazo,
onde o conceito de reparação histórica transcende o imediatismo das agendas
eleitorais americanas.
Para
Escobar, elites ocidentais falham por serem “historicamente analfabetas” em
relação ao que ele conceitua como “Estados-Civilização”, como o Irã e a Rússia.
A história demonstra que tentativas externas de subjugar essas nações produzem
o efeito inverso: elas enterram suas divisões internas, coalescem e emergem
muito mais fortes, ricas e unificadas. Ao ignorar as lições da história, o
império caminha a passos largos para acelerar sua própria ruína geoeconômica.
¨
Bombas de fragmentação, ataque a escola, hospital e a
bairro civil: Quem é o terrorista na guerra do Irã? Por Joaquim de Carvalho
Voltei
do Irã há poucos dias. Ainda tentava organizar as anotações da viagem quando
chegou a notícia de mais um bombardeio norte-americano. Entre os alvos estava a
ponte que liga Bandar Abbas a Shiraz, no sul do país. Passei por ela quando
seguia para Lamerd, cidade que se tornaria um dos cenários mais marcantes da
minha cobertura.
É
impossível receber uma notícia dessas sem lembrar das pessoas que conheci ao
longo de 14 dias percorrendo o Irã como correspondente de guerra.
No
Ocidente, costuma-se falar do Irã por meio de centrífugas, mísseis, aiatolás e
disputas geopolíticas – agora sei que são falas carregadas de preconceito e
profundamente distorcidas. Pouco se diz ou se escreve sobre as pessoas. As
mães. As crianças. Os estudantes. Os trabalhadores. As famílias.
Foi em
Lamerd que compreendi o verdadeiro significado da expressão “dano colateral”.
Mísseis lançados pelos EUA logo no primeiro dia da guerra, há quatro meses,
explodiram a 40 metros do chão, como mostram os vídeos. E deixaram evidências
de que eram de fragmentação, como denunciam os milhares de buracos nas paredes
das casas e no chão.
Os
relatos, reforçados por vídeos chocantes, dão conta de que esse arsenal deixou
um rastro de sangue e dor. A bomba de fragmentação é proibida pela Convenção
sobre Munições Cluster de 2008. Não poderiam ser usadas nem contra soldados,
mas atingiram uma cidade que tem 35 mil habitantes, uma economia voltada para a
indústria da pesca e petroquímica e que não abriga instalações militares
conhecidas.
As
autoridades exibiram vídeos e eu vi com meus próprios olhos, e registrei com
meu celular, marcas espalhadas pelas paredes dos bairros. Não é preciso ser
perito para concluir que são marcas de arma não-convencional.
As
paredes podem ser reconstruídas.
As
cicatrizes humanas permanecem.
Entrevistei
uma mulher que ainda carrega fragmentos metálicos dentro do corpo. Segundo ela,
os médicos concluíram que a retirada representaria um risco maior do que
deixá-los onde estão. Caminhava de muletas ao lado da filha, uma menina marcada
por uma profunda cicatriz no queixo.
Outra
mãe contou que encontrou a filha de apenas dois anos caída no quintal onde
brincava. Um fragmento havia atingido suas costas. A menina morreu no dia
seguinte.
A mãe
falava com um choro quase silencioso, com uma expressão que parecia esculpida
por Michelangelo Buonarroti, o autor de Pietà. Era preciso ter coração de pedra
para não se sentir impactado.
Conversei
também com a mãe de uma estudante de Contabilidade que perdeu a vida no ataque.
Ao seu lado estava o neto, hoje órfão, de apenas sete anos, trazendo na perna
uma cicatriz de cerca de dez centímetros. A irmã permanecia dentro do quarto.
Segundo a família, os fragmentos não puderam ser retirados e os médicos já
cogitam a amputação de sua perna.
Nenhuma
dessas pessoas me falou de estratégia militar.
Falaram
apenas da ausência dos filhos.
Da
cadeira vazia.
Do
quarto que continua intacto porque ninguém teve coragem de mexer nele.
O grupo
de jornalistas seguiria ainda para Minab. Ali, uma escola foi atingida no
primeiro dia da guerra, provocando a morte de pelo menos 160 pessoas, incluindo
73 meninos, 47 meninas e 26 professores. Mas a rota foi desviada depois que os
EUA, violando o cessar-fogo e com o funeral de Ali Khamenei em andamento,
voltou a bombardear a região onde se situa Minab.
Enquanto
escrevo este artigo, chegam novas notícias do Irã. Na cidade de Ahvaz,
bombardeios nas proximidades do Hospital Shahid Baqaei, especializado no
tratamento de crianças com câncer, levaram à evacuação de mais de duzentos
pacientes pediátricos. Crianças em tratamento oncológico precisaram ser
retiradas às pressas por equipes médicas e familiares.
O
governo iraniano classificou o episódio como um crime de guerra, enquanto os
Estados Unidos dizem que seus ataques tiveram como alvo instalações militares.
Tendo em vista os antecedentes de Minab e Lamerd, não é difícil saber a quem
dar razão, em princípio.
Além
disso, o fato de um hospital infantil especializado precisar ser evacuado em
decorrência de ataques militares revela, por si só, que vidas inocentes não
estão sendo consideradas nestes bombardeios.
Esses
episódios precisam ser analisados também à luz do Direito Internacional
Humanitário.
As
Convenções de Genebra e seus Protocolos Adicionais estabelecem um princípio
elementar: distinguir permanentemente entre alvos militares e população civil.
Escolas, hospitais, pontes utilizadas pela população, bairros residenciais e
demais bens civis gozam de proteção especial. Também vigora o princípio da
proporcionalidade, que proíbe ataques cujos danos previsíveis à população civil
sejam excessivos em relação à vantagem militar concreta e direta esperada.
Quando
esses princípios são violados, pode haver responsabilidade por crimes de
guerra. A existência dessa responsabilidade depende de investigação
independente e, quando cabível, da atuação dos tribunais competentes. Mas os
EUA e Israel não são signatários de acordos que reconhecem a jurisdição desses
órgãos.
Nessa
guerra, há uma dimensão que nenhuma convenção consegue medir.
É o
silêncio de uma mãe depois que enterra uma filha.
É uma
criança que cresce sem pai ou sem mãe.
É uma
menina condenada a perder uma perna antes mesmo de descobrir o que gostaria de
ser quando adulta.
Voltei
do Irã convencido de que existe um país muito diferente daquele normalmente
apresentado ao público ocidental. Encontrei uma sociedade acolhedora,
profundamente marcada pela guerra e pelo sofrimento de civis que raramente
aparecem nas manchetes internacionais.
Também
voltei convencido de que a comunidade internacional precisa abandonar os pesos
e duas medidas com que costuma julgar conflitos armados.
Quando
escolas são destruídas, quando hospitais infantis precisam ser evacuados,
quando bairros residenciais são atingidos e quando famílias inteiras têm suas
vidas despedaçadas, não basta falar em “efeitos colaterais”. É preciso
perguntar quem autorizou essas operações, quem as executou e quem responderá
por suas consequências.
O
terrorismo costuma ser apresentado como uma característica exclusiva de
determinados grupos ou países. Mas, depois de caminhar por cidades
bombardeadas, conversar com sobreviventes e olhar nos olhos de pais e mães que
perderam seus filhos, essa definição precisa mudar.
Se a
disseminação deliberada do medo entre populações civis, a destruição de
infraestrutura essencial e a morte de crianças passam a ser toleradas ou
justificadas em nome de objetivos estratégicos, a palavra terrorismo precisa
deixar de ser um instrumento seletivo da retórica internacional para voltar a
designar aquilo que ela sempre deveria significar: o uso da violência contra
civis como instrumento de poder.
Essa é
a pergunta que trago de volta do Irã.
Ela
precisa ser dirigida aos centros de poder de Washington, onde são tomadas
decisões capazes de alterar, em poucos minutos, o destino de milhares de
pessoas que jamais empunharam uma arma.
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Prefeito de Nova York estuda a legalidade da possível
prisão de Netanyahu caso ele visite a cidade
Detenção
teria como base o mandado de prisão contra Netanyahu emitido pelo TPI e já era
sinalizada por Zohran Mamdani desde que era candidato ao cargo de prefeito, em
2025.
O
prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmou que está investigando a
legalidade de uma possível detenção do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, caso ele visite a
cidade para a Assembleia Geral da ONU, em setembro, mas prometeu não criar
nenhuma lei especificamente para esse fim.
"Faremos
tudo o que a lei da cidade de Nova York me permite fazer, mas não criaremos
nossas próprias leis para esse fim, [estamos] discutindo ativamente com nosso
departamento jurídico", disse Mamdani em entrevista ao jornal The New York
Times.
Ele
também se referiu às acusações de supostos crimes de guerra apresentadas
contra Netanyahu pelo Tribunal Penal
Internacional (TPI)
em Haia. No final de novembro de 2024, o TPI emitiu mandados de
prisão contra
Netanyahu e o ex-ministro da Defesa israelense Yoav Galant por supostos crimes
de guerra na Faixa de Gaza.
Em
setembro de 2025, a mídia estadunidense já havia noticiado que Mamdani, então
candidato a prefeito da cidade de Nova York, afirmou que, se
eleito, ordenaria ao Departamento de Polícia de Nova York que prendesse o
primeiro-ministro israelense caso ele aparecesse na cidade.
Fonte:
Brasil 247/Sputnik Brasil

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