segunda-feira, 20 de julho de 2026

Pepe Escobar: Trump fracassou no Irã e a estratégia agora é ditada pelo eixo da resistência

O Oriente Médio está diante de uma reconfiguração tectônica em sua geopolítica, e os Estados Unidos perderam definitivamente a capacidade de ditar as regras do jogo. Esta é a avaliação central do jornalista e analista internacional Pepe Escobar, em uma contundente entrevista concedida ao cientista político norueguês Glenn Diesen. Segundo Escobar, a tentativa de Washington de aplicar a clássica cartilha do “dividir para governar” contra o Eixo da Resistência gerou o efeito oposto: uma consolidação regional sem precedentes que colocou o império contra a parede.

Escobar aponta que a fragilidade estratégica da Casa Branca, sob uma liderança marcada por impulsos erráticos e pela ausência de assessoria qualificada, arrastou o Ocidente para um beco sem saída. “Eles perderam no front geopolítico, no front militar e no front geoeconômico”, disparou o jornalista, desenhando o cenário de uma derrota que ele classifica como “praticamente irreversível”.

<><> O consenso de Teerã e a união espiritual do Eixo

O ponto de virada desta nova fase do conflito, explica Escobar, ficou evidente nos impressionantes ritos fúnebres realizados recentemente em memória das lideranças iranianas assassinadas. O analista destaca que as procissões não apenas mobilizaram mais de 40 milhões de pessoas, mas unificaram espiritualmente e politicamente xiitas no Iraque — em cidades sagradas como Najaf e Karbala — e no Irã (Teerã, Qom e Mashhad).

Essa demonstração de solidariedade transfronteiriça sela, de acordo com fontes internas acessadas por Escobar, um consenso absoluto e inabalável no topo do Conselho de Segurança Nacional do Irã e entre os comandantes do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC): a era das concessões ou acomodações diplomáticas com os Estados Unidos acabou.

A liderança iraniana, agora sob a firme e discreta condução de Mojtaba Khamenei, opera sob a premissa de que qualquer diálogo com o Ocidente é uma armadilha. A visão predominante é a de que Washington utiliza acordos e memorandos apenas para ganhar tempo, reabastecer arsenais e preparar ataques surpresa. Se os EUA cruzarem novas linhas vermelhas, o Irã já tem desenhado o seu “Plano B”: a saída formal do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

<><> A resposta de um dia: o fator Iêmen e a nova dissuasão

Um dos episódios mais ilustrativos dessa mudança na correlação de forças foi a resposta das forças iemenitas (Ansarallah) ao recente bombardeio da pista do Aeroporto Internacional de Sana’a, que visava interromper um voo humanitário da companhia iraniana Mahan Air.

Escobar relata que, enquanto o Irã historicamente adota uma estratégia de paciência e respostas calculadas a longo prazo, o Iêmen alterou radicalmente essa dinâmica. Em menos de 24 horas após o ataque em Sana’a, as forças iemenitas responderam na proporção de “dois para um”, atingindo alvos militares e de infraestrutura na Arábia Saudita.

Essa velocidade de retaliação enviou uma mensagem cristalina a Riade e a Washington: qualquer agressão será respondida imediatamente e com poder destrutivo severo. Não por acaso, aponta o jornalista, a monarquia saudita tem demonstrado pânico e extrema cautela, ciente de que suas instalações petrolíferas e a estabilidade de seus megaprojetos econômicos estão ao alcance direto dos drones e mísseis hipersônicos do Iêmen.

<><> A “bomba nuclear” de Teerã: o controle absoluto das artérias comerciais

Mais do que o desenvolvimento de ogivas, a verdadeira “bomba nuclear” do Irã no tabuleiro global é geográfica e estratégica: o controle definitivo do Estreito de Ormuz.

Diesen e Escobar convergiram no diagnóstico de que o conflito atual mudou de patamar. O que começou como uma tentativa ocidental de promover uma “mudança de regime” em Teerã transformou-se em uma batalha desesperada pelo controle das rotas marítimas que oxigenam a economia global. A retórica de Washington de impor taxas de trânsito ou bloqueios na região colide com a realidade militar de que a Marinha do IRGC é quem dita as coordenadas no Golfo Pérsico.

“O Estreito de Ormuz é, a partir de agora, um ponto de estrangulamento sob controle iraniano, ponto final”, afirma Pepe Escobar.

O analista adverte que uma ação combinada entre o Irã em Ormuz e o Ansarallah iemenita no Estreito de Bab al-Mandab tem o potencial de paralisar o comércio internacional. Se o fluxo de petróleo for interrompido, os preços do barril podem saltar rapidamente para a faixa de 150 a 200 dólares. O resultado prático seria o colapso sistêmico das economias ocidentais e o golpe de misericórdia no padrão do petrodólar, pilar de sustentação da hegemonia financeira norte-americana.

<><> A falência da diplomacia ocidental e a emergência de um novo guarda-chuva regional

Diante do cenário em que os Estados Unidos são vistos globalmente como uma entidade “incapaz de cumprir acordos” — vide o abandono unilateral do JCPOA no passado e o esvaziamento recente do Memorando de Entendimento de Versalhes —, o Oriente Médio começa a desenhar sua própria arquitetura de segurança, à revelia de Washington.

Pepe Escobar revelou detalhes de uma intensa atividade diplomática de bastidores liderada pelo Paquistão. Islamabad, que mantém um sólido pacto militar com a Arábia Saudita e, ao mesmo tempo, canais de comunicação diretos e de alto nível com Teerã, desponta como o articulador de um novo arranjo regional.

Este projeto de segurança integraria potências como o próprio Paquistão, Arábia Saudita, Turquia, Catar e Egito. O objetivo central é criar um mecanismo de estabilização interna que minimize a necessidade — e a interferência — das forças do Comando Central dos EUA (CENTCOM). Trata-se do Sul Global construindo suas próprias salvaguardas contra o caos promovido pelo Ocidente.

<><> A miopia histórica dos impérios e a resiliência dos Estados-Civilização

Ao concluir a análise, Pepe Escobar e Glenn Diesen enfatizaram o erro crasso e repetitivo da mídia corporativa ocidental, que insiste em vender a narrativa de que bombardeios estrangeiros seriam “recebidos com festa” pelas populações locais para derrubar seus governos.

O Irã, lembra Diesen, é uma fortaleza geográfica cercada por cadeias montanhosas, com uma população de 93 milhões de pessoas que compreende o conflito atual em termos existenciais: capitular significa o destino trágico de destruição total visto na Líbia ou na Síria. Além disso, a cultura política local é profundamente moldada por uma teologia de resiliência e justiça de longo prazo, onde o conceito de reparação histórica transcende o imediatismo das agendas eleitorais americanas.

Para Escobar, elites ocidentais falham por serem “historicamente analfabetas” em relação ao que ele conceitua como “Estados-Civilização”, como o Irã e a Rússia. A história demonstra que tentativas externas de subjugar essas nações produzem o efeito inverso: elas enterram suas divisões internas, coalescem e emergem muito mais fortes, ricas e unificadas. Ao ignorar as lições da história, o império caminha a passos largos para acelerar sua própria ruína geoeconômica.

¨      Bombas de fragmentação, ataque a escola, hospital e a bairro civil: Quem é o terrorista na guerra do Irã? Por Joaquim de Carvalho

Voltei do Irã há poucos dias. Ainda tentava organizar as anotações da viagem quando chegou a notícia de mais um bombardeio norte-americano. Entre os alvos estava a ponte que liga Bandar Abbas a Shiraz, no sul do país. Passei por ela quando seguia para Lamerd, cidade que se tornaria um dos cenários mais marcantes da minha cobertura.

É impossível receber uma notícia dessas sem lembrar das pessoas que conheci ao longo de 14 dias percorrendo o Irã como correspondente de guerra.

No Ocidente, costuma-se falar do Irã por meio de centrífugas, mísseis, aiatolás e disputas geopolíticas – agora sei que são falas carregadas de preconceito e profundamente distorcidas. Pouco se diz ou se escreve sobre as pessoas. As mães. As crianças. Os estudantes. Os trabalhadores. As famílias.

Foi em Lamerd que compreendi o verdadeiro significado da expressão “dano colateral”. Mísseis lançados pelos EUA logo no primeiro dia da guerra, há quatro meses, explodiram a 40 metros do chão, como mostram os vídeos. E deixaram evidências de que eram de fragmentação, como denunciam os milhares de buracos nas paredes das casas e no chão.

Os relatos, reforçados por vídeos chocantes, dão conta de que esse arsenal deixou um rastro de sangue e dor. A bomba de fragmentação é proibida pela Convenção sobre Munições Cluster de 2008. Não poderiam ser usadas nem contra soldados, mas atingiram uma cidade que tem 35 mil habitantes, uma economia voltada para a indústria da pesca e petroquímica e que não abriga instalações militares conhecidas.

As autoridades exibiram vídeos e eu vi com meus próprios olhos, e registrei com meu celular, marcas espalhadas pelas paredes dos bairros. Não é preciso ser perito para concluir que são marcas de arma não-convencional.

As paredes podem ser reconstruídas.

As cicatrizes humanas permanecem.

Entrevistei uma mulher que ainda carrega fragmentos metálicos dentro do corpo. Segundo ela, os médicos concluíram que a retirada representaria um risco maior do que deixá-los onde estão. Caminhava de muletas ao lado da filha, uma menina marcada por uma profunda cicatriz no queixo.

Outra mãe contou que encontrou a filha de apenas dois anos caída no quintal onde brincava. Um fragmento havia atingido suas costas. A menina morreu no dia seguinte.

A mãe falava com um choro quase silencioso, com uma expressão que parecia esculpida por Michelangelo Buonarroti, o autor de Pietà. Era preciso ter coração de pedra para não se sentir impactado.

Conversei também com a mãe de uma estudante de Contabilidade que perdeu a vida no ataque. Ao seu lado estava o neto, hoje órfão, de apenas sete anos, trazendo na perna uma cicatriz de cerca de dez centímetros. A irmã permanecia dentro do quarto. Segundo a família, os fragmentos não puderam ser retirados e os médicos já cogitam a amputação de sua perna.

Nenhuma dessas pessoas me falou de estratégia militar.

Falaram apenas da ausência dos filhos.

Da cadeira vazia.

Do quarto que continua intacto porque ninguém teve coragem de mexer nele.

O grupo de jornalistas seguiria ainda para Minab. Ali, uma escola foi atingida no primeiro dia da guerra, provocando a morte de pelo menos 160 pessoas, incluindo 73 meninos, 47 meninas e 26 professores. Mas a rota foi desviada depois que os EUA, violando o cessar-fogo e com o funeral de Ali Khamenei em andamento, voltou a bombardear a região onde se situa Minab.

Enquanto escrevo este artigo, chegam novas notícias do Irã. Na cidade de Ahvaz, bombardeios nas proximidades do Hospital Shahid Baqaei, especializado no tratamento de crianças com câncer, levaram à evacuação de mais de duzentos pacientes pediátricos. Crianças em tratamento oncológico precisaram ser retiradas às pressas por equipes médicas e familiares. 

O governo iraniano classificou o episódio como um crime de guerra, enquanto os Estados Unidos dizem que seus ataques tiveram como alvo instalações militares. Tendo em vista os antecedentes de Minab e Lamerd, não é difícil saber a quem dar razão, em princípio.

Além disso, o fato de um hospital infantil especializado precisar ser evacuado em decorrência de ataques militares revela, por si só, que vidas inocentes não estão sendo consideradas nestes bombardeios.

Esses episódios precisam ser analisados também à luz do Direito Internacional Humanitário.

As Convenções de Genebra e seus Protocolos Adicionais estabelecem um princípio elementar: distinguir permanentemente entre alvos militares e população civil. Escolas, hospitais, pontes utilizadas pela população, bairros residenciais e demais bens civis gozam de proteção especial. Também vigora o princípio da proporcionalidade, que proíbe ataques cujos danos previsíveis à população civil sejam excessivos em relação à vantagem militar concreta e direta esperada.

Quando esses princípios são violados, pode haver responsabilidade por crimes de guerra. A existência dessa responsabilidade depende de investigação independente e, quando cabível, da atuação dos tribunais competentes. Mas os EUA e Israel não são signatários de acordos que reconhecem a jurisdição desses órgãos.

Nessa guerra, há uma dimensão que nenhuma convenção consegue medir.

É o silêncio de uma mãe depois que enterra uma filha.

É uma criança que cresce sem pai ou sem mãe.

É uma menina condenada a perder uma perna antes mesmo de descobrir o que gostaria de ser quando adulta.

Voltei do Irã convencido de que existe um país muito diferente daquele normalmente apresentado ao público ocidental. Encontrei uma sociedade acolhedora, profundamente marcada pela guerra e pelo sofrimento de civis que raramente aparecem nas manchetes internacionais.

Também voltei convencido de que a comunidade internacional precisa abandonar os pesos e duas medidas com que costuma julgar conflitos armados.

Quando escolas são destruídas, quando hospitais infantis precisam ser evacuados, quando bairros residenciais são atingidos e quando famílias inteiras têm suas vidas despedaçadas, não basta falar em “efeitos colaterais”. É preciso perguntar quem autorizou essas operações, quem as executou e quem responderá por suas consequências.

O terrorismo costuma ser apresentado como uma característica exclusiva de determinados grupos ou países. Mas, depois de caminhar por cidades bombardeadas, conversar com sobreviventes e olhar nos olhos de pais e mães que perderam seus filhos, essa definição  precisa mudar.

Se a disseminação deliberada do medo entre populações civis, a destruição de infraestrutura essencial e a morte de crianças passam a ser toleradas ou justificadas em nome de objetivos estratégicos, a palavra terrorismo precisa deixar de ser um instrumento seletivo da retórica internacional para voltar a designar aquilo que ela sempre deveria significar: o uso da violência contra civis como instrumento de poder.

Essa é a pergunta que trago de volta do Irã. 

Ela precisa ser dirigida aos centros de poder de Washington, onde são tomadas decisões capazes de alterar, em poucos minutos, o destino de milhares de pessoas que jamais empunharam uma arma.

¨      Prefeito de Nova York estuda a legalidade da possível prisão de Netanyahu caso ele visite a cidade

Detenção teria como base o mandado de prisão contra Netanyahu emitido pelo TPI e já era sinalizada por Zohran Mamdani desde que era candidato ao cargo de prefeito, em 2025.

O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmou que está investigando a legalidade de uma possível detenção do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, caso ele visite a cidade para a Assembleia Geral da ONU, em setembro, mas prometeu não criar nenhuma lei especificamente para esse fim.

"Faremos tudo o que a lei da cidade de Nova York me permite fazer, mas não criaremos nossas próprias leis para esse fim, [estamos] discutindo ativamente com nosso departamento jurídico", disse Mamdani em entrevista ao jornal The New York Times.

Ele também se referiu às acusações de supostos crimes de guerra apresentadas contra Netanyahu pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia. No final de novembro de 2024, o TPI emitiu mandados de prisão contra Netanyahu e o ex-ministro da Defesa israelense Yoav Galant por supostos crimes de guerra na Faixa de Gaza.

Em setembro de 2025, a mídia estadunidense já havia noticiado que Mamdani, então candidato a prefeito da cidade de Nova York, afirmou que, se eleito, ordenaria ao Departamento de Polícia de Nova York que prendesse o primeiro-ministro israelense caso ele aparecesse na cidade.

 

Fonte: Brasil 247/Sputnik Brasil

 

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