O
Irã é um parceiro indispensável da China, mas Pequim nunca lutará sua guerra
Existe
um mito sedutor de que a China e o Irã são aliados unidos pelo sangue e pela
ideologia, de que Pequim correria em socorro de Teerã da mesma forma que a OTAN
o faria por um membro nos termos do Artigo 5º. Nada poderia estar mais longe da
verdade. O que une Pequim e Teerã é mais frio, mais duradouro e, em alguns
aspectos, mais perigoso do que o sentimento: a utilidade mútua. A China precisa
do Irã. Mas não morrerá pelo Irã. Compreender essa distinção é a chave para
entender tudo o que Pequim fez — e não fez — desde que as armas da guerra de
2026 começaram a disparar.
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Uma parceria sem promessas
Quando
a China e o Irã assinaram a Parceria Estratégica Abrangente de 25 anos, a mídia
estatal chinesa saudou o acordo como um laço civilizacional. O acordo abrange
energia, infraestrutura, setor bancário e cooperação “técnico-militar”. No
entanto, ele omite de forma notável uma cláusula de defesa mútua. Fica aquém
dos compromissos inabaláveis que Pequim assumiu com o Paquistão, ou que Moscou
prometeu à Coreia do Norte. Farzin Nadimi, do Washington Institute, deixou isso
bem claro: o tratado China-Irã “não incluiu nenhuma cláusula de defesa mútua”.
Em termos simples, Teerã é vista como um parceiro de segundo escalão, enquanto
Islamabad ocupa uma posição de primeiro escalão.
Essa
assimetria ficou exposta nos termos mais contundentes possíveis durante a
guerra de 2026. Quando ataques israelenses e americanos mataram o Líder Supremo
do Irã e mergulharam a região no confronto mais sangrento em uma geração,
Pequim não enviou a Teerum único navio de guerra, bateria de mísseis ou
soldado. O ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, condenou o assassinato e
chamou o conflito de “uma guerra que nunca deveria ter acontecido e que não
beneficia nenhuma das partes”. Analisada com rigor, a declaração é uma
formulação cuidadosamente neutra que, segundo observaram os estudiosos do
Chicago Council on Global Affairs, “não era uma condenação direta dos Estados
Unidos, de Israel ou, aliás, do Irã”, mas sim “uma declaração mais generalizada
de pesar”. A China e a Rússia solicitaram conjuntamente uma sessão de
emergência do Conselho de Segurança da ONU e se abstiveram de votar em
resoluções críticas a Teerã — o equivalente diplomático a enviar condolências
em vez de reforços.
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Os bastidores foram lucrativos
A
cautela de Pequim não foi uma neutralidade gratuita; foi uma neutralidade
lucrativa. A China passou boa parte dos últimos dois anos montando
discretamente uma das maiores reservas estratégicas de petróleo de sua
história, estimada em 1,2 bilhão de barris, o equivalente a cerca de 109 dias
de cobertura de importações, constituída substancialmente por petróleo bruto
iraniano, russo e venezuelano sujeito a sanções, comprado com descontos de 5 a
15 dólares por barril abaixo do preço do Brent.
A China
foi responsável por quase 90% das exportações de petróleo do Irã durante o
conflito atual. Essa é a essência da relação: Pequim comprará o petróleo de
Teerã com um grande desconto, guardará a economia resultante e recusará todos
os convites para se tornar um co-beligerante.
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Por que Pequim não pode deixar Teerã cair
Nada
disso significa que a China seja indiferente ao destino do Irã. Pelo contrário,
o Irã ocupa uma posição estratégica, tanto geográfica quanto ideológica, no
âmbito de dois projetos que Pequim não pode abandonar.
O
primeiro é a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI). O Irã foi incorporado à BRI
em 2019 e representa o elo central no corredor do “Cinturão Central”, que deve
transportar mercadorias e capital chineses pela Ásia Central, atravessando o
planalto iraniano, até o Golfo e o Mediterrâneo.
Se o
Irã caísse na órbita ocidental, esse corredor terminaria abruptamente na
fronteira entre o Paquistão e o Irã. Os países do Golfo, ricos em petróleo — o
prêmio máximo da iniciativa no trecho do Oriente Médio —, se tornariam
inacessíveis por terra. Considerando que é um projeto no qual Xi Jinping
apostou seu legado, esse não seria um desfecho aceitável.
A
segunda é a visão sino-russa do equilíbrio de poder regional. Moscou e Pequim
têm se coordenado estreitamente ao longo da crise, convocando conjuntamente
sessões da ONU e recusando-se a abandonar Teerã diplomaticamente, mesmo ao
negarem apoio militar direto. O presidente russo, Vladimir Putin, ao receber o
ministro das Relações Exteriores do Irã em São Petersburgo enquanto a guerra se
prolongava, disse-lhe: “Vemos com que coragem e heroísmo o povo iraniano está
lutando por sua independência e soberania”, prometendo que Moscou “faria tudo o
que servisse aos seus interesses” para garantir a paz. Foi solidariedade em
palavras, não em navios de guerra. No entanto, isso sinalizou inequivocamente
que Moscou e Pequim consideram um colapso iraniano inaceitável, mesmo que
nenhum dos dois esteja disposto a garantir a sobrevivência do Irã militarmente.
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A variável Paquistão
Para
entender por que Pequim raciocina dessa forma, olhe para o leste, em direção a
Islamabad. O Paquistão é o único país da região a ter recebido o claro apoio
militar chinês que foi negado ao Irã. Entre 2020 e 2024, mais de 60% de todas
as exportações de armas chinesas foram para o Paquistão. Esse investimento
rendeu dividendos visíveis em maio de 2025, quando os caças J-10C do Paquistão,
construídos pela China e equipados com mísseis PL-15 de alcance além do campo
visual, foram reconhecidos por Islamabad como responsáveis pelo abate de vários
jatos da Força Aérea Indiana, incluindo os Rafales de fabricação francesa,
durante o confronto aéreo mais intenso entre os dois vizinhos (que possuem
armas nucleares) em décadas. O próprio órgão regulador da indústria de defesa
da China confirmou posteriormente, pela primeira vez, que um jato chinês
exportado havia abatido um alvo em combate. O vice-chefe do Estado-Maior do
Exército indiano, o tenente-general Rahul Singh, apresentou uma interpretação
mais direta dessa relação, dizendo aos repórteres que Pequim “está usando o
Paquistão como um laboratório de armas ao ar livre”.
Essa
aliança é de enorme importância para Pequim no combate à estratégia de
contenção liderada pelos EUA. A China enfrenta um quadrilátero de rivais cada
vez mais coordenado — Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia — e precisa de
todos os parceiros confiáveis que puder encontrar na periferia da Índia. O
Paquistão, envolvido em sua própria longa disputa com Nova Délhi sobre a
Caxemira, é o mais confiável desses parceiros.
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O jogo de longo prazo: por que o Irã e o Paquistão são duas metades de uma
mesma estratégia
A
política da China em relação ao Irã e ao Paquistão converge para uma única
lógica estratégica. Pequim pensa em termos de décadas, não de ciclos de
notícias, e não esqueceu a geometria da era do Xá, quando um Irã pró-Ocidente e
uma Índia hostil deixaram o Paquistão estrategicamente cercado. Caso o Irã caia
no campo ocidental, o Paquistão se veria mais uma vez espremido entre uma Índia
hostil e alinhada aos EUA a leste e um Irã orientado para o Ocidente a oeste.
Para Pequim, que dedicou uma geração e dezenas de bilhões de dólares para
transformar o Paquistão em seu parceiro regional mais confiável, esse cenário
beira um pesadelo estratégico.
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Assim,
manter Teerã no campo antiocidental não é uma questão de sentimentalismo; é um
seguro para o eixo China-Paquistão.
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A questão das armas e da inteligência
A China
já forneceu ao Irã acesso a posicionamento e navegação por satélite por meio de
seu sistema BeiDou, além de radares, guerra eletrônica e apoio de inteligência.
O analista do Instituto Hudson, Can Kasapoğlu, avaliou que, após a guerra, a
provável lista de compras do Irã junto a Pequim inclua caças J-10C, sistemas
estratégicos de defesa aérea HQ-9, mísseis antinavio YJ-12 e componentes para
reconstruir o arsenal de mísseis balísticos da Guarda Revolucionária, que se
encontra esgotado. Autoridades da defesa iraniana teriam pressionado pela
aquisição do J-10C — armado com o míssil PL-15, cujo alcance de 200 quilômetros
teria superado o do míssil Meteor transportado pelos Rafales da Índia no
confronto do ano passado, justamente porque a Rússia não conseguiu entregar os
Su-35s pelos quais Teerã já havia pago.
Mesmo
assim, comentaristas militares chineses alertaram publicamente Teerã de que os
caças, por si sós, seriam “alvos fáceis” contra a frota de F-35I de Israel sem
a rede mais ampla de sensores e gerenciamento de batalha que torna a plataforma
letal — um lembrete de que Pequim pondera cada decisão sobre armas diante do
risco de provocar Israel e, acima de tudo, Washington.
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Em resumo
A
estratégia da China em relação ao Irã não é uma aliança. É uma proteção,
calibrada ao barril de petróleo e ao míssil. Pequim comprará o petróleo do Irã
com desconto, compartilhará inteligência e acesso a satélites, oferecerá caças
e pressionará Moscou para manter Teerã diplomaticamente em pé — mas não
disparará um único tiro em nome de Teerã e não permitirá que sua amizade com o
Irã lhe custe sua relação muito mais profunda com Washington.
O que
Pequim não fará é permitir que o Irã caia no campo ocidental, pois isso
cortaria a Iniciativa Cinturão e Rota na fronteira entre o Irã e o Paquistão e
deixaria seu aliado regional mais importante, o Paquistão, estrategicamente
cercado, exatamente como nos dias do xá.
A China
está jogando um jogo de longo prazo em uma região onde os ânimos se exaltam
facilmente — e, até agora, vem vencendo esse jogo justamente por se recusar a
jogar o jogo de terceiros.
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'Jeitinho' chinês de fazer negócios conquista África no
setor militar, apontam especialistas
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas destrincham os
motivos pelos quais os países africanos estão desenvolvendo ligações de defesa
com Pequim em vez das antigas metrópoles ou dos Estados Unidos.
A China
tem forte presença na África desde o final do século XX, mas foi no início dos
anos 2000 que Pequim, ao lado de dezenas de nações africanas, fundou
o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), estreitando os laços separados
pelo oceano Índico.
A
ligação entre o país de tamanho continental e o próprio continente africano só
cresceu desde então. Parcerias comerciais, investimentos em infraestruturas
vitais, exploração de recursos naturais e, agora, a venda de armamentos chineses para a África.
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas
afirmaram que o jeito chinês de fazer negócios é o que fortalece a
parceria com os países africanos. Sem intervencionismo, Pequim se mostra um
parceiro mais confiável do que as antigas metrópoles e os Estados Unidos.
Vinicius
Modolo Teixeira, professor de geopolítica na Universidade do Estado do Mato
Grosso (Unemat), explica que a intensificação da parceria China-África acontece
justamente no momento em que as ex-colônias do continente passam a fugir
da órbita de seus respectivos colonizadores.
"A
China se aproxima dos países africanos de uma maneira bastante sutil, sem
exigir grandes esforços contrários aos países africanos, oferecendo segurança
nas relações. Pequim não quer mudanças econômicas ou de governo internamente,
não requer coisas que são impossíveis no trato diplomático. E isso fortalece
uma cooperação Sul-Sul."
Teixeira
explica que a China precisa que os
Estados africanos estejam fortalecidos e estáveis para ter interlocutores
saudáveis na região. Quanto mais robusto for um governo, melhor para Pequim,
e essa solidez passa também por suas capacidades militares.
"Os
povos africanos devem resolver os seus problemas à sua maneira, e a China
defende isso. Ela não vai interferir nas relações internas. Ela fortalece o
país, o Estado que está lidando com ela."
Essa
postura chinesa de parceria sem interferência é nova para os africanos,
que lidaram ao longo de décadas com ações europeias e norte-americanas no
decorrer de processos de independência e consolidação de nações.
"Vários
golpes que aconteceram na África foram sustentados, apoiados por países
estrangeiros. Os governos africanos, as várias quedas, assassinatos de
lideranças nos anos 1970 e 1980 contra esses países, promovidos por forças
nitidamente apoiadas por potências ocidentais, demonstram os interesses
malignos que esses países tinham sobre o continente africano."
João
Chiarelli, que possui pós-doutorado em relações internacionais e coordena a
Oficina de China e Leste Asiático, ambos na Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS), além de atuar como pesquisador associado ao Núcleo de Pesquisa
em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri/USP), explica
que a China se comporta como um "player em ascensão".
"A
China também tem declarado que vai respeitar muito a política interna desses
países africanos e de outras localidades."
Chiarelli
destaca que Pequim tem construído parcerias militares em diferentes
esferas, como forças armadas nacionais e polícias locais em países da África,
com o objetivo de garantir a estabilidade local.
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Por que é mais vantajoso fazer negócios com a China?
Para
uma pessoa física, uma das primeiras referências usadas para a compra de um
produto é o preço. Em uma negociação entre países, o valor é importante, mas
questões agregadas pesam muito mais ao concluir um acordo.
Teixeira
conta que o preço das armas chinesas é mais baixo do que o de outros
fornecedores internacionais, mas um dos grandes destaques de Pequim é o
grande portfólio aberto aos clientes africanos.
"Praticamente
todo arsenal chinês está disponível para a compra desses países. Logicamente
que a China não vai vender um míssil balístico nuclear, mas tudo o que ela pode
vender dentro do seu aspecto de fornecimento internacional, esses países africanos
têm condição de acessar."
De
acordo com o especialista, essa abordagem de Pequim é diferente em relação
aos principais players de defesa ocidentais. Dessa forma, os
países da África agora conseguem comprar drones, mísseis antiaéreos, aviões de
caça, blindados, entre outros armamentos.
"A
China fornece um preço significativamente mais baixo, modos de pagamento que
podem ser via commodity ou então financiamento a longo prazo, dar confiança a
esses países na estabilização deles com acesso a uma tecnologia que antes era
impossível."
A
tradicional história de não só dar o peixe, mas ensinar a pescar também é
válida para os chineses. Teixeira destaca que Pequim fornece a formação
militar a oficiais, oferecendo uma outra perspectiva de treinamento sem
comprometimento político.
"A
China formou mais de 2 mil oficiais de países africanos nos últimos anos. Isso
ajuda de maneira significativa a compreender como esses países adquirem
equipamento e começam a operar. O treinamento militar, que antes era
praticamente voltado a uma doutrina ocidental, passa a ser regido por uma
doutrina chinesa também dentro desses países."
Chiarelli
ressalta que as ações chinesas na África vão muito além do lado militar ou
meramente comercial. Por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, na qual a
China estabelece parcerias para a criação de infraestruturas logísticas, Pequim
possibilita meios de desenvolvimento que não necessariamente prendem essas
nações às decisões do país oriental.
"A
ideia que as lideranças africanas têm é que a China não é só uma alternativa a
essa relação de exploração do Norte Global com o Sul Global, mas também é um
player distante em ascensão."
Fonte:
Opera Mundi/Sputnik Brasil

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