segunda-feira, 20 de julho de 2026


 

O Irã é um parceiro indispensável da China, mas Pequim nunca lutará sua guerra

Existe um mito sedutor de que a China e o Irã são aliados unidos pelo sangue e pela ideologia, de que Pequim correria em socorro de Teerã da mesma forma que a OTAN o faria por um membro nos termos do Artigo 5º. Nada poderia estar mais longe da verdade. O que une Pequim e Teerã é mais frio, mais duradouro e, em alguns aspectos, mais perigoso do que o sentimento: a utilidade mútua. A China precisa do Irã. Mas não morrerá pelo Irã. Compreender essa distinção é a chave para entender tudo o que Pequim fez — e não fez — desde que as armas da guerra de 2026 começaram a disparar.

<><> Uma parceria sem promessas

Quando a China e o Irã assinaram a Parceria Estratégica Abrangente de 25 anos, a mídia estatal chinesa saudou o acordo como um laço civilizacional. O acordo abrange energia, infraestrutura, setor bancário e cooperação “técnico-militar”. No entanto, ele omite de forma notável uma cláusula de defesa mútua. Fica aquém dos compromissos inabaláveis que Pequim assumiu com o Paquistão, ou que Moscou prometeu à Coreia do Norte. Farzin Nadimi, do Washington Institute, deixou isso bem claro: o tratado China-Irã “não incluiu nenhuma cláusula de defesa mútua”. Em termos simples, Teerã é vista como um parceiro de segundo escalão, enquanto Islamabad ocupa uma posição de primeiro escalão.

Essa assimetria ficou exposta nos termos mais contundentes possíveis durante a guerra de 2026. Quando ataques israelenses e americanos mataram o Líder Supremo do Irã e mergulharam a região no confronto mais sangrento em uma geração, Pequim não enviou a Teerum único navio de guerra, bateria de mísseis ou soldado. O ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, condenou o assassinato e chamou o conflito de “uma guerra que nunca deveria ter acontecido e que não beneficia nenhuma das partes”. Analisada com rigor, a declaração é uma formulação cuidadosamente neutra que, segundo observaram os estudiosos do Chicago Council on Global Affairs, “não era uma condenação direta dos Estados Unidos, de Israel ou, aliás, do Irã”, mas sim “uma declaração mais generalizada de pesar”. A China e a Rússia solicitaram conjuntamente uma sessão de emergência do Conselho de Segurança da ONU e se abstiveram de votar em resoluções críticas a Teerã — o equivalente diplomático a enviar condolências em vez de reforços.

<><> Os bastidores foram lucrativos

A cautela de Pequim não foi uma neutralidade gratuita; foi uma neutralidade lucrativa. A China passou boa parte dos últimos dois anos montando discretamente uma das maiores reservas estratégicas de petróleo de sua história, estimada em 1,2 bilhão de barris, o equivalente a cerca de 109 dias de cobertura de importações, constituída substancialmente por petróleo bruto iraniano, russo e venezuelano sujeito a sanções, comprado com descontos de 5 a 15 dólares por barril abaixo do preço do Brent.

A China foi responsável por quase 90% das exportações de petróleo do Irã durante o conflito atual. Essa é a essência da relação: Pequim comprará o petróleo de Teerã com um grande desconto, guardará a economia resultante e recusará todos os convites para se tornar um co-beligerante.

<><> Por que Pequim não pode deixar Teerã cair

Nada disso significa que a China seja indiferente ao destino do Irã. Pelo contrário, o Irã ocupa uma posição estratégica, tanto geográfica quanto ideológica, no âmbito de dois projetos que Pequim não pode abandonar.

O primeiro é a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI). O Irã foi incorporado à BRI em 2019 e representa o elo central no corredor do “Cinturão Central”, que deve transportar mercadorias e capital chineses pela Ásia Central, atravessando o planalto iraniano, até o Golfo e o Mediterrâneo.

Se o Irã caísse na órbita ocidental, esse corredor terminaria abruptamente na fronteira entre o Paquistão e o Irã. Os países do Golfo, ricos em petróleo — o prêmio máximo da iniciativa no trecho do Oriente Médio —, se tornariam inacessíveis por terra. Considerando que é um projeto no qual Xi Jinping apostou seu legado, esse não seria um desfecho aceitável.

A segunda é a visão sino-russa do equilíbrio de poder regional. Moscou e Pequim têm se coordenado estreitamente ao longo da crise, convocando conjuntamente sessões da ONU e recusando-se a abandonar Teerã diplomaticamente, mesmo ao negarem apoio militar direto. O presidente russo, Vladimir Putin, ao receber o ministro das Relações Exteriores do Irã em São Petersburgo enquanto a guerra se prolongava, disse-lhe: “Vemos com que coragem e heroísmo o povo iraniano está lutando por sua independência e soberania”, prometendo que Moscou “faria tudo o que servisse aos seus interesses” para garantir a paz. Foi solidariedade em palavras, não em navios de guerra. No entanto, isso sinalizou inequivocamente que Moscou e Pequim consideram um colapso iraniano inaceitável, mesmo que nenhum dos dois esteja disposto a garantir a sobrevivência do Irã militarmente.

<><> A variável Paquistão

Para entender por que Pequim raciocina dessa forma, olhe para o leste, em direção a Islamabad. O Paquistão é o único país da região a ter recebido o claro apoio militar chinês que foi negado ao Irã. Entre 2020 e 2024, mais de 60% de todas as exportações de armas chinesas foram para o Paquistão. Esse investimento rendeu dividendos visíveis em maio de 2025, quando os caças J-10C do Paquistão, construídos pela China e equipados com mísseis PL-15 de alcance além do campo visual, foram reconhecidos por Islamabad como responsáveis pelo abate de vários jatos da Força Aérea Indiana, incluindo os Rafales de fabricação francesa, durante o confronto aéreo mais intenso entre os dois vizinhos (que possuem armas nucleares) em décadas. O próprio órgão regulador da indústria de defesa da China confirmou posteriormente, pela primeira vez, que um jato chinês exportado havia abatido um alvo em combate. O vice-chefe do Estado-Maior do Exército indiano, o tenente-general Rahul Singh, apresentou uma interpretação mais direta dessa relação, dizendo aos repórteres que Pequim “está usando o Paquistão como um laboratório de armas ao ar livre”.

Essa aliança é de enorme importância para Pequim no combate à estratégia de contenção liderada pelos EUA. A China enfrenta um quadrilátero de rivais cada vez mais coordenado — Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia — e precisa de todos os parceiros confiáveis que puder encontrar na periferia da Índia. O Paquistão, envolvido em sua própria longa disputa com Nova Délhi sobre a Caxemira, é o mais confiável desses parceiros.

<><> O jogo de longo prazo: por que o Irã e o Paquistão são duas metades de uma mesma estratégia

A política da China em relação ao Irã e ao Paquistão converge para uma única lógica estratégica. Pequim pensa em termos de décadas, não de ciclos de notícias, e não esqueceu a geometria da era do Xá, quando um Irã pró-Ocidente e uma Índia hostil deixaram o Paquistão estrategicamente cercado. Caso o Irã caia no campo ocidental, o Paquistão se veria mais uma vez espremido entre uma Índia hostil e alinhada aos EUA a leste e um Irã orientado para o Ocidente a oeste. Para Pequim, que dedicou uma geração e dezenas de bilhões de dólares para transformar o Paquistão em seu parceiro regional mais confiável, esse cenário beira um pesadelo estratégico.

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Assim, manter Teerã no campo antiocidental não é uma questão de sentimentalismo; é um seguro para o eixo China-Paquistão.

<><> A questão das armas e da inteligência

A China já forneceu ao Irã acesso a posicionamento e navegação por satélite por meio de seu sistema BeiDou, além de radares, guerra eletrônica e apoio de inteligência. O analista do Instituto Hudson, Can Kasapoğlu, avaliou que, após a guerra, a provável lista de compras do Irã junto a Pequim inclua caças J-10C, sistemas estratégicos de defesa aérea HQ-9, mísseis antinavio YJ-12 e componentes para reconstruir o arsenal de mísseis balísticos da Guarda Revolucionária, que se encontra esgotado. Autoridades da defesa iraniana teriam pressionado pela aquisição do J-10C — armado com o míssil PL-15, cujo alcance de 200 quilômetros teria superado o do míssil Meteor transportado pelos Rafales da Índia no confronto do ano passado, justamente porque a Rússia não conseguiu entregar os Su-35s pelos quais Teerã já havia pago.

Mesmo assim, comentaristas militares chineses alertaram publicamente Teerã de que os caças, por si sós, seriam “alvos fáceis” contra a frota de F-35I de Israel sem a rede mais ampla de sensores e gerenciamento de batalha que torna a plataforma letal — um lembrete de que Pequim pondera cada decisão sobre armas diante do risco de provocar Israel e, acima de tudo, Washington.

<><> Em resumo

A estratégia da China em relação ao Irã não é uma aliança. É uma proteção, calibrada ao barril de petróleo e ao míssil. Pequim comprará o petróleo do Irã com desconto, compartilhará inteligência e acesso a satélites, oferecerá caças e pressionará Moscou para manter Teerã diplomaticamente em pé — mas não disparará um único tiro em nome de Teerã e não permitirá que sua amizade com o Irã lhe custe sua relação muito mais profunda com Washington.

O que Pequim não fará é permitir que o Irã caia no campo ocidental, pois isso cortaria a Iniciativa Cinturão e Rota na fronteira entre o Irã e o Paquistão e deixaria seu aliado regional mais importante, o Paquistão, estrategicamente cercado, exatamente como nos dias do xá.

A China está jogando um jogo de longo prazo em uma região onde os ânimos se exaltam facilmente — e, até agora, vem vencendo esse jogo justamente por se recusar a jogar o jogo de terceiros.

¨      'Jeitinho' chinês de fazer negócios conquista África no setor militar, apontam especialistas

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas destrincham os motivos pelos quais os países africanos estão desenvolvendo ligações de defesa com Pequim em vez das antigas metrópoles ou dos Estados Unidos.

A China tem forte presença na África desde o final do século XX, mas foi no início dos anos 2000 que Pequim, ao lado de dezenas de nações africanas, fundou o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), estreitando os laços separados pelo oceano Índico.

A ligação entre o país de tamanho continental e o próprio continente africano só cresceu desde então. Parcerias comerciais, investimentos em infraestruturas vitais, exploração de recursos naturais e, agora, a venda de armamentos chineses para a África.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que o jeito chinês de fazer negócios é o que fortalece a parceria com os países africanos. Sem intervencionismo, Pequim se mostra um parceiro mais confiável do que as antigas metrópoles e os Estados Unidos.

Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica na Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), explica que a intensificação da parceria China-África acontece justamente no momento em que as ex-colônias do continente passam a fugir da órbita de seus respectivos colonizadores.

"A China se aproxima dos países africanos de uma maneira bastante sutil, sem exigir grandes esforços contrários aos países africanos, oferecendo segurança nas relações. Pequim não quer mudanças econômicas ou de governo internamente, não requer coisas que são impossíveis no trato diplomático. E isso fortalece uma cooperação Sul-Sul."

Teixeira explica que a China precisa que os Estados africanos estejam fortalecidos e estáveis para ter interlocutores saudáveis na região. Quanto mais robusto for um governo, melhor para Pequim, e essa solidez passa também por suas capacidades militares.

"Os povos africanos devem resolver os seus problemas à sua maneira, e a China defende isso. Ela não vai interferir nas relações internas. Ela fortalece o país, o Estado que está lidando com ela."

Essa postura chinesa de parceria sem interferência é nova para os africanos, que lidaram ao longo de décadas com ações europeias e norte-americanas no decorrer de processos de independência e consolidação de nações.

"Vários golpes que aconteceram na África foram sustentados, apoiados por países estrangeiros. Os governos africanos, as várias quedas, assassinatos de lideranças nos anos 1970 e 1980 contra esses países, promovidos por forças nitidamente apoiadas por potências ocidentais, demonstram os interesses malignos que esses países tinham sobre o continente africano."

João Chiarelli, que possui pós-doutorado em relações internacionais e coordena a Oficina de China e Leste Asiático, ambos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de atuar como pesquisador associado ao Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri/USP), explica que a China se comporta como um "player em ascensão".

"A China também tem declarado que vai respeitar muito a política interna desses países africanos e de outras localidades."

Chiarelli destaca que Pequim tem construído parcerias militares em diferentes esferas, como forças armadas nacionais e polícias locais em países da África, com o objetivo de garantir a estabilidade local.

<><> Por que é mais vantajoso fazer negócios com a China?

Para uma pessoa física, uma das primeiras referências usadas para a compra de um produto é o preço. Em uma negociação entre países, o valor é importante, mas questões agregadas pesam muito mais ao concluir um acordo.

Teixeira conta que o preço das armas chinesas é mais baixo do que o de outros fornecedores internacionais, mas um dos grandes destaques de Pequim é o grande portfólio aberto aos clientes africanos.

"Praticamente todo arsenal chinês está disponível para a compra desses países. Logicamente que a China não vai vender um míssil balístico nuclear, mas tudo o que ela pode vender dentro do seu aspecto de fornecimento internacional, esses países africanos têm condição de acessar."

De acordo com o especialista, essa abordagem de Pequim é diferente em relação aos principais players de defesa ocidentais. Dessa forma, os países da África agora conseguem comprar drones, mísseis antiaéreos, aviões de caça, blindados, entre outros armamentos.

"A China fornece um preço significativamente mais baixo, modos de pagamento que podem ser via commodity ou então financiamento a longo prazo, dar confiança a esses países na estabilização deles com acesso a uma tecnologia que antes era impossível."

A tradicional história de não só dar o peixe, mas ensinar a pescar também é válida para os chineses. Teixeira destaca que Pequim fornece a formação militar a oficiais, oferecendo uma outra perspectiva de treinamento sem comprometimento político.

"A China formou mais de 2 mil oficiais de países africanos nos últimos anos. Isso ajuda de maneira significativa a compreender como esses países adquirem equipamento e começam a operar. O treinamento militar, que antes era praticamente voltado a uma doutrina ocidental, passa a ser regido por uma doutrina chinesa também dentro desses países."

Chiarelli ressalta que as ações chinesas na África vão muito além do lado militar ou meramente comercial. Por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, na qual a China estabelece parcerias para a criação de infraestruturas logísticas, Pequim possibilita meios de desenvolvimento que não necessariamente prendem essas nações às decisões do país oriental.

"A ideia que as lideranças africanas têm é que a China não é só uma alternativa a essa relação de exploração do Norte Global com o Sul Global, mas também é um player distante em ascensão."

 

Fonte: Opera Mundi/Sputnik Brasil

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