Petroquímica
de bilionário é investigada por vazamento de gás tóxico em Manaus
Umas
das maiores petroquímicas do país, a Videolar-Innova, fundada e presidida pelo
bilionário Lirio Parisotto, está no centro de uma investigação para apurar
danos ambientais e à saúde humana no Amazonas. Autoridades do Corpo de
Bombeiros, Defesa Civil, Ministério Público e órgãos ambientais iniciaram a
apuração, na tarde de quarta-feira (15), quando vazou gás estireno, uma
substância inflamável e tóxica, em uma das unidades da empresa no Distrito
Industrial da Zona Franca de Manaus.
As
multas dos órgãos ambientais da Prefeitura de Manaus e do Governo do Amazonas
contra à petroquímica somam R$ 22,5 milhões. As penalidades são por vazamento
contínuo de estireno, poluição amosférica, poluição de solo e corpo hídrico,
risco à saúde e segurança pública e descumprimento ambiental.
A
Defesa Civil classificou o incidente de “uma emergência química de alto risco”.
Trabalhadores da Videolar-Innova foram internados, mas a empresa não informou o
número de pessoas atingidas dentro das instalações da petroquímica.
Em nota
pública, a empresa afirmou que o vazamento foi causado pela elevação anormal de
temperatura do líquido, dentro de um tanque de armazenamento da petroquímica. O
material é usado para fabricação de plásticos, borrachas sintéticas e isopor. Imagens do incidente ganharam as
redes sociais.
A
primeira fábrica de Lirio Parisotto, instalada em Manaus, iniciou sua atividade
em 1988 com a produção e gravação de fitas VHS, CDs e DVDs. Em 2014, com a
compra da Innova da Petrobras, a Videolar mudou a planta industrial e expandiu,
passando a ser fabricante petroquímica e de transformados plásticos. Leia mais
sobre a indústria no final deste texto.
Fora da
unidade da Videolar-Innova houve pânico na população das zonas sul e
centro de Manaus. Unidades de saúde já
somam, até essa sexta-feira (17), 211 atendimentos. Os sintomas das pessoas
atingidas pelo gás tóxico são falta de ar, náusea, dor de cabeça, tontura e
desmaio. “Apenas um paciente ainda está internado na UTI, mas em recuperação e
com risco baixo de morte”, diz nota da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM).
A
Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (Seduc) suspendeu as
atividades de 19 escolas estaduais. Fábricas de diversos segmentos, localizadas
nas proximidades da petroquímica, interromperam suas atividades. Trabalhadores
precisaram deixar os locais às pressas por causa do forte odor e do risco de
contaminação.
A SES
negou a morte de um homem, de 67 anos, por efeitos da contaminação do gás de
estireno da petroquímica. Segundo a secretaria, ele foi internado em uma
unidade de saúde na quarta-feira, relatando mal estar pelos efeitos do
vazamento de gás estireno. “O paciente possuía um histórico de doença
respiratória crônica , tendo sido atendido na unidade de saúde ao longo da
semana com dificuldades respiratórias, evoluiu para óbito. A SES reforça que
não foi constatada relação direta da morte com o vazamento ocorrido”, diz a
nota da SES.
Um
outro caso de internação, mas sem gravidade, foi de Fabíola Silva, 25 anos,
secretária de vendas e moradora da rua Adalberto Vale, no bairro Betânia, na
zona sul de Manaus. Ela disse à Amazônia Real que passou mal após sentir o
forte cheiro de gás provocado pelo vazamento da Videolar-Innova. Segundo
Fabíola, os sintomas começaram no dia do acidente e persistiram até o dia
seguinte (16), quando precisou procurar atendimento em uma unidade de saúde
próxima de casa.
“Senti
muito enjoo e dor de cabeça. Fui ao posto de saúde perto de casa e acabei
fazendo uma inalação. No dia seguinte, percebi que o enjoo que eu estava
sentindo não era normal”, contou à reportagem. Ela recebeu alta médica no mesmo
dia.
A
Prefeitura de Manaus decretou estado de alerta e na quinta-feira (16) autuou a
empresa em 30 mil Unidades Fiscais do Município (UFMs), o equivalente a R$4,5
milhões de reais. Uma outra multa saiu nesta sexta-feira no montande de R$
5.347.300,00 por poluição de solo e corpo hídrico. As duas multas totalizam R$
9,9 milhões.
A
Videolar-Innova tem 20 dias para apresentar planos de contingência, relatórios
de segurança e informações sobre o sistema de drenagem. Procurada pela Amazônia
Real, a empresa não se pronunciou pelas acusações de danos ambientais e à saúde
humana e não informou se vai recorrer das penalidades. Leia nota no final do
texto.
O diretor jurídico da Secretaria Municipal de
Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), Henrique Marinheiro, disse que o
índice de poluição no entorno da petroquímica “ainda está acima do limite
tolerável para a exposição humana, embora o fluxo do vazamento já esteja bem
reduzido”. Segundo a Semmas, os recursos das multas serão destinados ao Fundo
Municipal para o Desenvolvimento e Meio Ambiente (FMDMA) para serem utilizados
na execução da política ambiental municipal.
Vazamentos
de produtos químicos tóxicos, como o monômero de estireno, são caracterizados
como crime ambiental e contra a saúde pública. Conforme a Lei de Crimes
Ambientais (Lei 9.605/1998), causar poluição que coloque em risco a saúde
humana ou a segurança é passível de severas sanções penais e administrativas.
Procurados
pela Amazônia Real, o Ibama disse que vai apoiar o Instituto de Proteção
Ambiental do Amazonas (Ipaam) com recomendações técnicas e monitorar impactos
que ultrapassem a área da empresa ou atinjam bens da União. Até então, os dois
órgãos não se pronunciaram sobre multas por crimes ambientais contra a
petroquímica de Lirio Parisotto.
Após a
publicação desta reportagem, o Ipaam informou que decidiu multar em R$ 12,5
milhões à Videolar-Innova por poluição atmosférica. Segundo o órgão, a
penalidade está fundamentada na Lei de Crimes Ambientais. “O Ipaam acompanha a
execução do Plano de Ação (PAE) da empresa e fiscaliza as medidas adotadas para
conter o vazamento. A indústria opera com Licença de Operação (LO) vigente,
válida até outubro de 2026”, diz o órgão.
Já o
Ministério Público do Amazonas (MPAM) instaurou um procedimento para apurar as
circunstâncias, as causas do incidente e as eventuais responsabilidades
decorrentes do vazamento de gás estireno.
<><>
Efeitos na saúde
Uma
área de cerca de 300 metros do perímetro da petroquímica Videolar-Innova foi
isolada como medida preventiva pelos Corpo de Bombeiros. Equipes continuam no
local do incidente para estancar o vazamento do gás de estireno, que causa dor
nos olhos, na garganta, falta de ar – sintomas que precisam de atendimentos nas
unidades de saúde ou acionar o Samu.
Moradora
do Centro de Manaus, Clara Beatriz Oliveira, 25 anos, relatou que sentiu dor de
cabeça e ardência no nariz desde que o cheiro de gás tomou conta de sua casa,
no fim da tarde de quarta-feira. Apesar do desconforto, ela não chegou a
procurar atendimento médico.
“A
gente começou a sentir esse cheiro de gás no fim da tarde de quarta-feira e ele
permaneceu até por volta das 20h de quinta-feira. Às vezes amenizava, mas
depois voltava com mais intensidade. A sensação era de estar pintando um quarto
com tudo fechado e o ar-condicionado ligado, de tão forte que estava o cheiro.
Tivemos que fechar a casa toda e ficar de máscara aqui dentro”.
No
bairro Japiim, a aposentada Tereza Neves, de 66 anos, relatou sentir um forte
cheiro, que inicialmente acreditou ser de tinta, durante o fim da tarde de
quarta-feira. Sem informações claras sobre o ocorrido, ela passou a madrugada
de quarta para quinta usando máscara dentro de casa e disse que teve receio até
de acender o fogão.
“Estava
com um cheiro muito forte e senti ardência no nariz. Usei máscara dentro de
casa porque achei que estavam pintando alguma casa aqui perto. Depois me
avisaram que tinha acontecido um vazamento”, disse.
Apesar
de informar que o risco à saúde da população é baixo, o governo do Amazonas não
detalhou à reportagem quais medidas estruturais serão adotadas para reforçar a
prevenção e a resposta a acidentes envolvendo produtos químicos no Distrito
Industrial.
Enquanto
isso, a Defesa Civil orientou a população a permanecer em locais abertos e bem
ventilados, manter portas e janelas abertas para favorecer a circulação do ar e
desligar aparelhos que captam ar do ambiente externo, como ar-condicionado e
sistemas de ventilação.
O Corpo
de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) informou que segue atuando de forma
ininterrupta para resfriar o tanque e estancar o vazamento de gás estireno da
unidade da Videolar-Innova, mas que aguardará 24 horas para realizar uma nova
avaliação sobre a liberação do retorno do funcionamento da fábrica e das
indústrias próximas. “Reforçamos que 80% do material que hoje ainda está sendo
expelido do tanque é composto de partículas de água, sendo a concentração do
produto químico bem menor que na quarta-feira. Dessa forma, as autoridades
ressaltam que os riscos para a saúde da população são pequenos”, disse o órgão.
<><>
Sindicato critica desinformação
No
Distrito Industrial, 18 empresas evacuaram seus prédios e liberaram
funcionários devido ao forte odor de gás e aos riscos de exposição ao monômero
de estireno. Em nota pública, o Sindicato dos Metalúrgicos do Estado do
Amazonas (Sindmetal-AM) classificou como inadmissível a falta de informações
conclusivas sobre as condições de segurança mais de 24 horas após o vazamento e
defendeu que o retorno às atividades industriais só ocorra após um parecer
técnico que assegure não haver riscos à saúde dos trabalhadores.
O
sindicato também criticou a divergência entre as informações divulgadas pelos
órgãos públicos. Enquanto o Governo do Estado afirmou que as medições
realizadas nas empresas próximas registraram concentrações inferiores a 20 ppm
e que os riscos para a população são pequenos, a Prefeitura de Manaus informou
que levantamentos preliminares apontaram níveis de poluição acima do limite
tolerável para exposição humana e recomendou que a população evitasse a região.
“O
Sindmetal-AM não pode aceitar que os trabalhadores sejam colocados no centro de
uma situação inconclusiva. Também não pode orientar ou concordar com o retorno
às atividades enquanto não houver certeza técnica de que os trabalhadores não
estarão expostos a riscos à saúde e à segurança”, disseram os sindicalistas.
<><>
Bilionário preside Videolar-Innova
A
Videolar-Innova S/A, que está no centro de uma dos maiores incidentes de
poluição atmosférica em Manaus, é uma gigante do setor petroquímico e de
plásticos no Brasil, fundada e presidida pelo empresário gaúcho Lirio Albino
Parisotto, 72 anos – um dos homens mais ricos do mundo, com um patrimônio
líquido estimado em R$ 14,1 bilhões, ocupando posições de destaque na lista da
Forbes.
Os
negócios de Lirio Parisotto são diversificados, abrangendo desde o controle da
Videolar-Innova até investimentos expressivos no mercado de capitais e
participações em empresas como Vale, Petrobras, Hypera, Celesc, Usiminas e CSN.
Influente
na política do Amazonas, Lírio Parisotto foi o segundo suplente do senador
Eduardo Braga (MDB-AM) no período de 2011 a 2019.
Em
2016, o empresário foi denunciado por violência contra a mulher. A modelo Luiza
Brunet acusou o empresário Lírio Parisotto de agressão, resultando na quebra de
quatro costelas da atriz, em Nova York. Parisotto foi condenado pela Justiça
brasileira.
A
primeira fábrica de Lirio Parisotto na Zona Franca de Manaus iniciou sua
atividade em 1988 com a produção e gravação de fitas VHS, CDs e DVDs – chegou a
produzir 1,5 milhão de mídias por dia em 2007.
Em
2014, com a compra da indústria Innova da Petrobras, a Videolar mudou a planta
industrial e expandiu, passando a ser fabricante petroquímica e de
transformados plásticos – criando a marca Videolar-Innova, com um capital
social registrado em aproximadamente R$ 1,51 bilhão. São duas unidades do
segmento no Distrito Industrial em Manaus.
Parisotto
foi vice-presidente e segue como conselheiro honorário da Fundação Amazonas
Sustentável (FAS), organização não governamental que atua com comunidades
ribeirinhas amazonenses.
Em seu
site, a Videolar-Innova se apresenta como empresa de referência em
sustentabilidade na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças
Climáticas (COP-26), devido à neutralização de suas emissões de gases do efeito
estufa (chamado de Carbono Neutro).
No dia
15 de julho, a Innova confirmou o incidente químico em uma das unidades de
Manaus, por volta das 17:20 (horário local). O vazamento, classificado pela
empresa como “uma emergência química”, ocorreu em um dos três tanques de
armazenamento do Monômero de Estireno da Unidade IV. “O líquido sofreu elevação
anormal de temperatura, liberando vapores de forma controlada pelos próprios
dispositivos de segurança do equipamento”, diz a nota oficial da empresa.
A
Videolar-Innova foi taxativa com relação às providências tomadas: “a situação
foi prontamente contida de acordo com os procedimentos de emergência
estabelecidos. (…) Dessa forma, não há risco à saúde das pessoas e de
contaminação ao meio ambiente.”
A
empresa declarou em nota que: “a atuação rápida e coordenada da Brigada de
Incêndio da Innova, aliada ao apoio decisivo do Corpo de Bombeiros, foram
cruciais para o controle da ocorrência. (…) Ressalte-se que não houve incêndio,
vazamento do produto líquido ou de efluentes para fora dos diques de contenção,
e, o mais importante, sem vítimas.”
Em nota
já publicada na imprensa, a empresa Videolar-Innova diz que: “a situação [o
vazamento de gás estireno] foi prontamente contida de acordo com os
procedimentos de emergência estabelecidos pela Companhia e todo o resíduo
proveniente recebeu destinação adequada, sendo armazenado para subsequente
tratamento de acordo com as normas ambientais vigentes.”
A
agência Amazônia Real solicitou um pedido de esclarecimentos com perguntas,
enviadas por e-mail, conforme orientação no site da Videolar-Innova, e para sua
assessoria de comunicação. Em resposta à reportagem, a petroquímica explicou as
providências tomadas para o resfriamento do tanque de armazenamento do monômero
de estireno, após o vazamento de quarta-feira:
Sobre a
causa do incidente: “a liberação controlada de vapores ocorreu em razão da
atuação dos dispositivos de segurança do tanque, projetados para preservar a
integridade do equipamento e, principalmente, mitigar maiores impactos, em
situações dessa natureza”, diz a nota.
Emergência
no fato: “é importante frisar que a mobilização do Corpo de Bombeiros,
coordenada com nossa Brigada de Incêndio, ocorreu em aproximadamente 7 minutos
do início do evento”.
O que
vazou: “o material dentro do tanque já está em mais de 85% polimerizado
(solidificado) e estamos fazendo todos os esforços para concluir o processo até
o final da noite de hoje (17). Apenas alguns resquícios de polimerização podem
acontecer nos próximos dias. O Plano de Atendimento a Emergências (PAE) segue
mobilizado”.
Orientação
à população: “em determinados locais onde o odor é relatado, as medições
indicam concentrações não detectáveis ou bastante reduzidas de Monômero de
Estireno, e, quando detectadas, inferiores aos limites estabelecidos por
organismos internacionais de saúde. Ainda assim, diante de qualquer
desconforto, seguem vigentes as orientações transmitidas pelos órgãos
competentes. Não há riscos relativos aos demais tanques e equipamentos da
unidade industrial. Está garantida a segurança das pessoas e meio ambiente”.
Pedido
de desculpas: “a Videolar-Innova pede desculpas pelos transtornos ocasionados,
reafirma seu compromisso com uma atuação transparente, responsável e
colaborativa à população de Manaus e esclarece que, em simultâneo às medidas
conclusivas do resfriamento, acontece o trabalho de investigação das causas do
sobreaquecimento e solução do seu fato gerador”. Leia a íntegra da nota neste
link.
<><>
Multas impostas à petroquímica
A
agência Amazônia Real atualizou essa reportagem neste sábado (18) para incluir
novas informações sobre as multas contra a Videolar-Innova por vazamento de
estireno na fábrica do Distrito Industrial de Manaus. Segundo as autoridades,
subiu de 211 para mais de 400 atendimetos de pessoas que pocuraram às unidades
de saúde com sintomadas de reação à poluição atmosférica, causada pelo
vazamento do gás tóxico da petroquímica.
As
multas totais somam R$ 22.401.600,00 em autuações da Prefeitura de Manaus e da
Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), além do
Instituto de Proteção do Meio Ambiente (Ipaam), do governo estadual.
Em
nota, a Prefeitura de Manaus diz que detectou, com ajuda de drones equipados
com câmeras térmicas, fissuras em parte do tanque e a continuidade de vazamento
de gás estireno na Videolar-Innova. A unidade indústrial foi interditada pelo
Município.
<><>
Principais motivos das autuações e danos apontados:
>>>
1. Poluição atmosférica
– Emissão de gás estireno causou
significativo desconforto respiratório e olfativo à população -Ipaam: R$
12.500.000,00.
– Poluição do ar com emissão de gases –
Semmas: R$ 4.554.300,00.
>>>
2. Poluição de solo e corpo hídrico
– Drones térmicos detectaram fissuras no
tanque e continuidade do vazamento – Semmas: R$ 5.347.300,00.
– Risco de migração do estireno para
drenagem, esgoto, solo, igarapés e rios – Ibama alertou.
>>>
3. Risco à saúde e segurança pública
– 10 escolas municipais sem aulas por forte
odor do gás.
– Tanque exige controle térmico rigoroso
25°C a 27°C para evitar reações
– População orientada a evitar rua Javari e
procurar saúde se tiver sintomas
>>>
4. Descumprimento ambiental
– Infração à Lei de Crimes Ambientais
9.605/1998, Decreto 6.514/2008 e Decreto Estadual 51.355/2025 – Ipaam.
– Empresa opera com LO válida até 2026, mas
Ipaam avalia cumprimento das condicionantes.
Fonte:
Por Nicoly Ambrosio, na Amazônia Real

Nenhum comentário:
Postar um comentário