segunda-feira, 20 de julho de 2026

PF aciona Interpol para rastrear bens de Vorcaro nos EUA e Europa

A Polícia Federal (PF) acionou a Interpol para tentar localizar bens e ativos do empresário Daniel Vorcaro na América do Norte e na Europa, em uma nova frente da investigação que apura um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes envolvendo o Banco Master.

A medida, que vinha sendo estudada há alguns meses, foi confirmada por investigadores familiarizados com o caso ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado.

Segundo os investigadores da PF, a solicitação à Interpol foi feita por meio de uma ferramenta conhecida como "Silver Notice" (Alerta Prata, em tradução literal do inglês).

Trata-se de um mecanismo da Interpol implementado recentemente pela organização e que é voltado ao rastreamento internacional de bens ligados a pessoas investigadas ou condenadas por crimes financeiros.

A expectativa entre os investigadores é de que Vorcaro tenha um patrimônio milionário espalhado por diversos países, fruto, em parte, das atividades supostamente criminosas que ele desempenhou à frente do conglomerado liderado pelo Banco Master.

O colapso do grupo comandado por ele, que inclui pelo menos três instituições financeiras, deixou um rombo de R$ 52 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A notificação à Interpol pede que autoridades policiais dos países-alvo informem a existência de imóveis, empresas, contas bancárias, embarcações, aeronaves ou outros ativos eventualmente registrados em nome do investigado ou vinculados a ele por meio de empresas.

Segundo a PF, essas informações podem subsidiar futuras medidas de bloqueio, confisco e repatriação de patrimônio de Vorcaro caso a Justiça determine que esses bens tenham origem ilícita.

Ainda de acordo com os investigadores, os países-alvo do pedido ainda não informaram sobre quais bens e ativos foram identificados.

A PF suspeita que parte do patrimônio de Daniel Vorcaro tenha sido pulverizado em propriedades e fundos de investimento em diversos países, inclusive paraísos fiscais.

O temor da PF é que Vorcaro consiga blindar esse patrimônio ao longo do tempo, seja vendendo propriedades seja colocando-o em nome de outras pessoas.

A BBC News Brasil enviou perguntas à defesa de Daniel Vorcaro, mas não recebeu respostas.

<><> Patrimônio pulverizado

O paradeiro dos bens de Daniel Vorcaro tornou-se um dos principais objetivos da Polícia Federal desde o avanço das investigações da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025.

Desde que assumiu o comando do Banco Master, em 2019, Vorcaro ficou conhecido por ostentar um padrão de vida luxuoso com direito a festas milionárias em destinos europeus, mansões em Brasília e apartamentos de alto padrão em São Paulo.

Documentos apontam, por exemplo, que, em 2021, Vorcaro realizou uma festa de aniversário para a sua filha em uma ilha particular nas Bahamas ao custo de aproximadamente R$ 5 milhões.

Documentos indicam ainda que, em setembro de 2023, Vorcaro fez uma festa em Taormina, na Sicília, e desembolsou R$ 363,2 milhões entre a produção, acomodações, hospedagens e contratação de artistas como Coldplay e Michael Bublé.

Dados divulgados durante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS mostraram que, em 2024, Vorcaro tinha um patrimônio de R$ 2,4 bilhões declarados à Receita Federal.

Investigadores ouvidos pela BBC News Brasil, no entanto, avaliam que os bens do banqueiro possam ser muito superiores a esse valor.

De acordo com eles, identificar a extensão e a localização do patrimônio do empresário é considerado fundamental diante da dimensão financeira do caso.

Segundo pessoas ligadas ao caso, liquidantes responsáveis por procedimentos envolvendo empresas relacionadas ao grupo de Vorcaro no exterior já apontaram a existência de propriedades de alto valor atribuídas ao empresário nos Estados Unidos.

Um exemplo é uma mansão avaliada em R$ 180 milhões na Flórida que, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, teria sido alvo de uma tentativa de venda por parte do pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, que também é investigado pela Operação Compliance Zero.

A transação, segundo o jornal, foi identificada pelo liquidante do banco, a EFB Regimes Especiais, com base em informações colhidas nos Estados Unidos.

Investigadores afirmam, porém, que ainda não há um mapa completo dos ativos eventualmente mantidos fora do Brasil.

É justamente essa lacuna que a Polícia Federal pretende reduzir com a ajuda da Interpol e foi esse um dos principais pontos que barrou o avanço de um acordo de colaboração premiada entre Vorcaro, a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR).

Segundo investigadores ouvidos pela BBC News Brasil, durante as negociações para o acordo, Vorcaro não teria colaborado fornecendo a localização de partes de seu patrimônio.

Sem consenso sobre esse tema, a colaboração não avançou e hoje, Vorcaro, continua preso em uma penitenciária de Brasília.

A difusão da "Silver Notice" é a segunda frente de investigação sobre o patrimônio de Vorcaro no exterior.

Em abril, a Justiça dos Estados Unidos havia autorizado o liquidante do banco realize consultas a instituições financeiras norte-americanas em busca de ativos vinculados ao banqueiro.

A decisão permitiu a busca por imóveis, dinheiro em fundos de investimentos e até mesmo obras de arte.

<><> Cronologia do caso

O caso envolvendo Daniel Vorcaro eclodiu no dia 18 de novembro de 2025, quando a PF deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero.

Naquele dia, ele foi preso pela primeira vez. Na mesma ocasião, o Banco Central anunciou a liquidação do Master e de outras duas instituições financeiras vinculadas a ele.

Vorcaro foi solto no final de novembro, após uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), mas foi preso novamente em março de 2026, durante a terceira fase da operação. Desde então, ele permanece preso.

A investigação apura supostos crimes contra o sistema financeiro nacional envolvendo a tentativa de venda de ativos do Master para o Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões.

Essa venda, segundo as investigações, era uma tentativa de salvar o Master, que enfrentava dificuldades para saldar seus compromissos com milhões de investidores. Durante o negócio, o Master teria tentado vender ativos supervalorizados ou sem lastro para o banco público.

Ao longo das investigações, a PF identificou, também, suspeitas de que o Master mantinha um esquema de captação irregular de investimentos feitos por Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), fundos que recebem contribuições de servidores públicos em diferentes Estados e cidades do Brasil para garantir as suas aposentadorias.

As suspeitas são de que esses investimentos teriam sido feitos por pressão política de pessoas próximas a Vorcaro.

Em depoimentos e manifestações à Justiça, a defesa do banqueiro vem negando o cometimento desses crimes.

As investigações sobre o caso também alcançaram suas supostas relações com políticos e integrantes do Judiciário, entre eles os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

Toffoli deixou a relatoria do caso no STF em fevereiro, depois de pedir a redistribuição do processo. A decisão ocorreu após questionamentos sobre sua ligação com uma empresa familiar da qual é sócio, que teve parte de sua participação vendida, em 2021, a um fundo controlado por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

O ministro afirmou que jamais recebeu qualquer valor de Vorcaro ou de Zettel, que não conhece o gestor do fundo e que nunca manteve relação de amizade com o banqueiro. O ministro André Mendonça foi sorteado e assumiu a relatoria do caso. À época, o STF afirmou, em nota assinada pelos dez ministros da Corte, que não havia motivo para declarar a suspeição de Toffoli. A nota também informou que o pedido de redistribuição havia sido feito pelo próprio ministro e acolhido pela Presidência do tribunal, "considerados os altos interesses institucionais".

Moraes também foi alvo de questionamentos após reportagens revelarem um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, apontarem supostas trocas de mensagens entre o ministro e Daniel Vorcaro e relatarem contatos com o presidente do Banco Central. Em nota, o STF negou que Moraes tenha tratado do Banco Master com o BC e afirmou que uma análise técnica dos dados telemáticos de Vorcaro concluiu que as mensagens atribuídas ao ministro "não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes".

As investigações também avançaram sobre as relações do banqueiro com os senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A PF investiga supostas vantagens econômicas pagas por Vorcaro ou pessoas e empresas próximas a ele aos parlamentares.

No caso de Ciro Nogueira, a PF investiga se o senador teria apresentado uma emenda parlamentar que beneficiaria os negócios do banqueiro em troca de presentes e o pagamento de despesas como viagens, além de uma suposta mesada.

Ciro e sua defesa negam as suspeitas.

No caso do senador petista, a PF apura a suposta ligação dele com o também banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. As suspeitas recaem sobre um apartamento de R$ 2,5 milhões de Wagner em Salvador. As suspeitas são de que as vantagens teriam sido pagas em troca de apoio parlamentar a projetos que beneficiariam o Master. Wagner nega ter praticado qualquer irregularidade.

Outro desdobramento envolve o senador Flávio Bolsonaro, que, segundo o site The Intercept Brasil, pediu US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Flávio afirma que a relação era exclusivamente comercial e que cobrava parcelas atrasadas de um patrocínio legal.

•        Master enviou R$ 57,9 milhões a empresa com 40 reais de capital social. Por Tácio Lorran

O Banco Master enviou R$ 57,9 milhões a uma empresa recém-aberta que detém capital social ínfimo, de apenas R$ 40. Os repasses foram feitos entre 2024 e 2025, segundo dados da Receita Federal analisados pela coluna. A Copenhagen e Assessoria e Consultoria S.A. é uma das 10 empresas que mais receberam valores do Master no período por supostos serviços prestados.

A empresa pertence ao Estônia Fundo de Investimento Multiestratégia, que é administrado pela gestora Trustee DTVM – investigada pela Polícia Federal por suspeita de aquisição e ocultação de bens para o grupo criminoso do empresário Daniel Vorcaro, CEO do Master.

A Copenhagen foi fundada em novembro de 2024 e atualmente tem como sede um prédio comercial no município de São Caetano do Sul (SP). A empresa declara exercer atividade de consultoria em gestão empresarial.

No papel, a Copenhagen é dirigida pelo contador Rogério Lourenço Novo. Ele assumiu o posto em setembro de 2025, pouco antes de a Polícia Federal deflagrar a Operação Compliance Zero, que apura a fraude envolvendo o Banco Master.

Rogério Lourenço Novo já foi investigado pela Polícia Federal por supostamente operar esquema de notas fiscais falsas de companhias de fachadas para evadir impostos entre 2013 e 2015. A fraude foi estimada em mais de R$ 100 milhões e também tinha como beneficiário o empresário Tercio Borlenghi Júnior, fundador da Ambipar.

O Ministério Público Federal, contudo, promoveu o arquivamento das apurações, após a principal empresa investigada aderir a um regime de parcelamento da dívida tributária. Atualmente, Rogério Lourenço Novo também é conselheiro fiscal da Ambipar.

Anteriormente, a gestão da Copenhagen era exercida pelo diretor Artur Martins de Figueiredo, também da Trustee DTVM. Segundo reportagem publicada pelo UOL, ele é investigado pela PF por usar fundos de investimentos e manobras contábeis para movimentar e ocultar dinheiro do Master.

Procurada, a Trustee DTVM afirmou à coluna que, como administradora do fundo Estônia Multiestratégia, que investe em ações da Copenhagen Assessoria e Consultoriada, não tinha ingerência sobre as relações comerciais da empresa nem da definição de qualquer pagamento ou negociação entre a companhia e o Banco Master para ocultar patrimônio de quem quer que seja.

“Importante esclarecer que Artur Figueiredo exerceu o cargo de administração na empresa Copenhagen, representando o fundo Estônia – prática de governança amplamente consolidada no mercado quando estruturas societárias recebem investimentos de fundos de participações.”

“Durante todo o período em que exerceu a função na companhia, a atuação de Artur Figueiredo observou rigorosamente a legislação aplicável, os procedimentos de governança, controles internos e compliance então vigentes”, assinalou a Trustee.

•        Master emprestou R$ 45 milhões a ex-ministro e fundador da Biomm. Por Demétrio Vecchioli

O Banco Master fez duas cessões de crédito, que somaram R$ 45,5 milhões, ao ex-deputado federal e ex-ministro do governo Lula (PT) Walfrido dos Mares Guia. O empresário diz que os recursos foram utilizados para a compra de ações de uma das empresas que ele fundou, a farmacêutica Biomm, que naquele momento tinha o banqueiro Daniel Vorcaro como principal acionista.

Quando Vorcaro foi preso pela primeira vez, em novembro do ano passado, acreditava-se que ele ainda controlava 25,86% da farmacêutica por meio do fundo Catargo. Não era conhecida, à época, a informação de que o banqueiro havia repassado essas ações para BRB, o Banco de Brasília, como compensação pela venda de carteiras de crédito podres.

De acordo com Mares Guia, ele e Vorcaro se conheceram porque ambos são de Belo Horizonte (MG) e a então esposa do banqueiro era cliente da loja da esposa do ex-ministro. “Ele ficou interessado na nossa fábrica de insulina na região de BH, então me ele me procurou, falamos sobre a Biomm, que é uma empresa de capital aberto e tem inúmeros sócios, e ele adquiriu ações da empresa, como qualquer um poderia fazer”, disse o empresário à coluna.

Naquela época, em 2023, a Biomm realizou um aumento de capital, com preferência para quem já era acionista. Vorcaro, por meio do fundo Catargo, comprou as “sobras”, ficando com cerca de 18% do capital, o que foi homologado em janeiro de 2024. Também naquele mês, o Master emprestou R$ 10 milhões a Mares Guia. Em fevereiro, outros R$ 35 milhões.

“Como ele (Vorcaro) tinha estudado a operação toda, sabia da qualidade, eu tinha o crédito e fiz a operação. A Biomm fez aumento de capital e eu subscrevi. Em vez de usar capital A, B ou C, fiz um financiamento”, justificou o empresário em contato com a coluna.

Três meses depois, em maio, o crédito foi repassado ao Banco Voiter SA, que posteriormente mudou de nome para Banco Pleno e pertencia a Augusto Lima, ex-sócio do Master, quando foi liquidado pelo Banco Central. Hoje o crédito está com o Banvox, com vencimento para 2029.

Ainda de acordo com Mares Guia, o aumento de capital serviu para dar capital de giro à Biomm, que terminou de construir sua fábrica de insulina em 2022 e a inaugurou em 2024, mas, por questões regulatórias, só pôde começar a comercializar o produto no ano passado. “É um absurdo terem colocado o Vorcaro como dono da Biomm, como se o Lula tivesse inaugurado uma fábrica dele. A Biomm não tem controlador, não tem sequer acordo de acionistas.”

As ações que um dia pertenceram a Vorcaro, de qualquer forma, foram recompradas, junto ao BRB, pelo fundo Alaska, que anunciou em abril ter se tornado a maior acionista da Biomm, com uma participação de 26,15%.

 

Fonte: BBC News Brasil/Metrópoles

 

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