13º
salário: a história de uma conquista da classe trabalhadora
Em 13
de julho de 1962, o presidente João Goulart sancionava a Lei 4.090, instituindo
o pagamento da gratificação de Natal aos trabalhadores brasileiros — o direito
social popularmente conhecido como 13º salário.
A
medida foi resultado de uma luta de mais de quatro décadas, iniciada ainda nos
anos 20 pelos trabalhadores das indústrias têxteis. A mobilização pelo 13º
salário se intensificou no início dos anos 60, dando início a uma onda de
greves e revoltas populares que se espalhou pelo país, resultando em milhares
de prisões e dezenas de mortes.
A luta
dos trabalhadores e dos sindicatos foi essencial para vencer a resistência dos
parlamentares de direita, das organizações patronais e da grande imprensa. Uma
verdadeira campanha de terror tentava impedir a aprovação do projeto de lei,
argumentando que o 13º salário destruiria o setor produtivo, provocaria
falência em massa e mergulharia o país no caos social.
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A luta pelo bônus natalino
Inicialmente
um hábito voluntário derivado das tradições cristãs, o pagamento do bônus
natalino se converteu em uma bandeira dos movimentos operários europeus no
início do século 20. Pressionados pelos gastos extraordinários de fim e início
de ano, os trabalhadores passaram a reivindicar que o bônus de Natal não
deveria ser um ato de caridade, mas um direito garantido por lei ou por
convenções coletivas.
A luta
pela gratificação natalina foi particularmente expressiva na Itália. Em 1937,
visando cooptar apoio da classe trabalhadora, o regime de Benito Mussolini
modificou o Contrato Coletivo Nacional de Trabalho, introduzindo a concessão
obrigatória de um bônus de Natal para todos os empregados da indústria.
No
Brasil, as primeiras campanhas reivindicando o pagamento do abono natalino
remontam à década de 1920, com os operários do setor têxtil de São Paulo à
frente das mobilizações. Em 1921, os trabalhadores da Companhia Paulista de
Aniagem e da Tecelagem Mariângela organizaram as primeiras greves exigindo o
pagamento do bônus de dezembro.
Nos
anos 40, em meio ao acelerado processo de industrialização e expansão dos
sindicatos urbanos, a reivindicação se popularizou. O governo de Getúlio Vargas
chegou a estudar a possibilidade de instituir o 13º salário, mas acabou cedendo
às exigências do patronato e manteve o abono excluído da Consolidação das Leis
do Trabalho (CLT).
A
concessão do bônus de Natal aos funcionários da Pirelli em 1943 deu novo
impulso à luta operária. Em 1944, uma greve geral em prol do 13º salário
mobilizou milhares de trabalhadores em Santo André. Entre 1945 e 1946, uma onda
de greves exigindo o bônus contou com a adesão de várias categorias, incluindo
metalúrgicos, ferroviários, tecelões, gráficos, químicos, bancários,
marceneiros, padeiros e vidreiros.
A
mobilização levou algumas empresas a aceitarem o pagamento do bônus. A maioria
dos patrões, entretanto, seguiu ignorando a demanda ou se limitava a conceder
presentes como panetones, sacos de laranja e garrafas de vinho como
“gratificações natalinas”.
<><> Os projetos de lei e a pressão sobre o
Congresso
Em
1951, o deputado Muniz Falcão, do Partido Social Progressista (PSP), apresentou
um projeto de lei que propunha o pagamento obrigatório da gratificação
natalina. O texto, entretanto, foi barrado pela Câmara dos Deputados, que
alegou sua inconstitucionalidade por “interferir nos encargos financeiros das
empresas”.
A
rejeição enfureceu os trabalhadores e uma nova onda de greves eclodiu no país,
estendendo-se até 1952. A incorporação do abono salarial aos direitos
trabalhistas se tornou pauta central das campanhas sindicais nos anos 50. Todos
os anos, o abono de Natal era apresentado como a principal reivindicação nas
listas dos dissídios coletivos.
O
contexto econômico vivenciado pelos trabalhadores explica o senso de urgência.
Os investimentos em obras de infraestrutura e na expansão do parque industrial
feitos durante o governo de Juscelino Kubitschek aceleraram o crescimento
econômico, mas também alimentaram a inflação. A elevação do custo de vida
corroía os salários e a instituição do bônus natalino passou a ser vista pelos
sindicatos como uma forma de compensar as perdas inflacionárias.
Em
1959, o deputado Aarão Steinbruch, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB),
formulou um novo projeto de lei propondo a instituição do abono natalício. Os
empresários manifestaram indignação e os deputados de direita logo se
organizaram para barrar o projeto no parlamento.
A
tramitação transcorreu em um ambiente bastante tumultuado e em meio a uma grave
crise política. A renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1961 abriu caminho
para que João Goulart ascendesse à presidência. Contrariadas pelos vínculos de
Goulart com a esquerda nacionalista e com os movimentos sindicais, as Forças
Armadas tentaram impedir sua posse.
A
conspiração golpista foi contida pela vigorosa reação popular comandada por
Leonel Brizola durante a Campanha da Legalidade. Um meio termo foi acordado:
Goulart assumiria a presidência da república, mas teria seus poderes limitados
pela instauração de um regime parlamentarista.
Os
debates sobre a instauração da gratificação natalina também foram influenciados
pelo cenário político polarizado. A esquerda defendia a criação do 13º salário
como parte das reformas essenciais para a modernização do país, ao passo que a
direita associava o projeto à “irresponsabilidade fiscal”, ao “perigo
comunista” e a um alegado processo de “cubanização do Brasil”.
Parlamentares
conservadores argumentavam que a medida levaria a “classe produtiva” à falência
e provocaria conflitos insanáveis. O deputado gaúcho Mem de Sá, do Partido
Libertador (PL), destacou-se como um dos mais histéricos opositores do 13º
salário, afirmando que a aprovação do projeto faria a economia colapsar e
mergulharia o Brasil na convulsão social.
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A conquista do 13º salário
Reagindo
à inércia do Congresso e às tentativas da direita de criar empecilhos à
tramitação, as lideranças reunidas no 3º Encontro Sindical da Guanabara
estabeleceram um prazo até novembro de 1961 para a aprovação da lei. Diante do
anúncio de que a votação seria novamente adiada, os trabalhadores deflagraram
uma greve.
A
paralisação foi iniciada pelos sindicatos dos metalúrgicos e trabalhadores
têxteis de São Paulo. O movimento foi violentamente reprimido pelo governador
paulista, Carvalho Pinto. A Justiça considerou a greve ilegal e cerca de 1.300
trabalhadores foram presos. Mais de 50 líderes sindicais foram detidos e o
Sindicato dos Metalúrgicos foi submetido a um verdadeiro cerco pela polícia.
A
pressão popular conseguiu neutralizar a resistência dos parlamentares. A Câmara
dos Deputados aprovou o projeto de lei em 24 de abril de 1962. Dois meses
depois, em 27 de junho, a decisão foi referendada pelo Senado.
Apesar
dos avanços no parlamento, a campanha contra o 13º salário seria intensificada.
FIESP, federações do comércio, associações patronais e os grandes jornais
exigiam que Goulart vetasse o projeto de lei, afirmando se tratar de uma medida
populista que traria enormes prejuízos para o empresariado.
Em
editorial, o jornal O Globo disse que a criação do bônus seria “desastrosa”
para o Brasil. O pagamento sobrecarregaria os custos operacionais, levando à
quebradeira generalizada e a uma onda de demissões, além de expor o país ao
aumento desenfreado da inflação.
Em 7 de
julho de 1962, os trabalhadores recorreram novamente à greve como instrumento
de pressão. Convocada em meio à crise ministerial, logo após a renúncia de
Tancredo Neves ao cargo de primeiro-ministro, a greve paralisou trabalhadores
de bancos, ferrovias, portos, siderúrgicas, refinarias e distribuidoras de
combustível.
As
paralisações se espalharam pelo país e foram acompanhadas por revoltas
populares. Na Baixada Fluminense, as forças policiais reprimiram brutalmente
uma onda de saques, deixando 42 mortos e mais de 700 feridos.
A
despeito da pressão da mídia e dos órgãos patronais, Goulart manteve a promessa
feita aos trabalhadores e sancionou a Lei 4.090 em 13 de julho de 1962,
instituindo o 13º salário. A imprensa reagiu histericamente, rotulando o
presidente como um demagogo irresponsável que havia cometido um atentado contra
o setor produtivo.
Em
1963, Goulart estendeu o pagamento da gratificação aos trabalhadores
aposentados. Vinte e cinco anos depois, a Constituição de 1988 consolidou o 13º
salário como um direito social, garantindo o seu pagamento aos trabalhadores
rurais e urbanos.
O
cenário catastrófico anunciado pela imprensa nunca se confirmou. Ao contrário:
a adoção do 13º salário teve impacto extremamente positivo para a economia,
movimentando o comércio, estimulando a indústria, gerando empregos sazonais e
ajudando as famílias a quitar dívidas ou realizar despesas extras. Atualmente,
o DIEESE estima que o bônus represente uma injeção de 250 bilhões de reais na
economia do país.
O 13º
salário, no entanto, nunca deixou de ser alvo de críticas por parte de setores
liberais e conservadores, que frequentemente o apontam como um dos “encargos
trabalhistas” que elevariam o custo de contratação e prejudicariam a geração de
empregos.
A
extinção da gratificação chegou a ser aventada durante os debates da reforma
trabalhista de 2017. Na campanha presidencial de 2018, o general Hamilton
Mourão, candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Jair Bolsonaro,
propôs a extinção do 13º salário, rotulando-o como uma “jabuticaba brasileira”
e “um peso para o empresário”.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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