"A
universidade tem de ser um lugar de experiência humana", diz António Novoa
Em
tempos de inteligência artificial, cabe-nos pensar sobre o papel das
universidades, especialmente as públicas, e refletir sobre como enfrentar os
desafios trazidos pelo produtivismo que assola a ciência em todo o mundo. Foi
com esse espírito que me encontrei, mais uma vez, com o colega professor
António Nóvoa, emérito da Universidade de Lisboa, da qual foi reitor.
Na
longa conversa, realizada no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa,
Nóvoa declarou seu amor pelo Brasil e pela Bahia, falou da sua verdadeira
paixão pela educação e pelos enormes desafios colocados à formação dos
professores no contexto contemporâneo.
Vivemos,
em todo o mundo, uma crise universitária, com muitos apontando o esgotamento do
modelo humboldtiano de universidade, pressionado pelo produtivismo acadêmico,
pela mercantilização da educação e, agora, pela inteligência artificial. Para
Nóvoa, “se a universidade está a fazer a mesma coisa que a inteligência
artificial pode fazer, não vale a pena”.
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O que precisamos fazer diante desses desafios? Confira a entrevista abaixo.
• Você sempre foi um estudioso da
profissão docente. Como ela está se transformando ao longo dos tempos?
Julgo
que o problema principal hoje da profissão docente é um conjunto de discursos e
políticas bastante delirantes, na minha opinião, da ideia de que o futuro vai
ser uma educação sem escolas, sem professores, aprendizagem online, tudo
personalizado, tudo flexível, que os tutores vão ser motores de inteligência
artificial. Há todo um discurso muito forte sobre isso no mundo inteiro, que
obviamente traz um desgaste muito grande à profissão docente, uma espécie de
receio sobre o futuro.
Portanto,
eu creio que é muito importante nós hoje voltarmos à ideia de que, se queremos
a escola como bem público, como um bem comum, nós precisamos de professores e
precisamos dessa relação humana que existe ao nível dos professores. E creio
que isso coloca os professores num lugar muito duro e muito difícil.
• Você já se referiu à presença do setor
empresarial na educação. Como está isso no mundo e no Brasil?
Essa
presença do mercado, através de empresas, através de fundações, que muitas
vezes não são verdadeiras fundações, são empresas escondidas, são interesses de
mercado etc., está muito forte em todo o mundo. De 30 anos para cá, sobretudo a
partir da grande ascensão do movimento neoliberal, o problema é que o privado
quer tomar conta da escola pública, quer gerir o espaço público. Já não se
trata de ser uma alternativa ao público; trata-se de tomar conta, de governar o
público, de influenciar e gerir o público.
Ora,
este movimento existe em todo o lado, mas, que eu conheça, não há nenhum lugar
do mundo onde ele tenha uma expressão tão forte como no Brasil. Nenhum. E creio
que isso é muito preocupante.
• Vários colegas e você também já escreveu
algum artigo com o título O fim da universidade. Será esse o nosso destino?
Eu acho
que, se a universidade não mudar radicalmente, ela arrisca-se a tornar-se uma
instituição menor e talvez até dispensável. O professor, quando dá uma aula,
não pode ser sobre uma coisa que ele já está farto de saber. Tem que ser uma
coisa de que ele tem curiosidade, está à procura, está a investigar. Ora, isso
tudo perdeu-se. Quer dizer, nós dedicamos muito pouco tempo às aulas, estamos
encostados nesse produtivismo acadêmico absolutamente insensato e disparatado.
• Os recentes desenvolvimentos
tecnológicos ajudam a decretar esse fim da universidade?
Eu acho
que ajudam. Porque, ou a universidade se reinventa, ou, se a universidade está
a fazer a mesma coisa que a inteligência artificial pode fazer, não vale a
pena.
Agora,
eu acho que a inteligência artificial, na área da pedagogia, nos confronta com
uma realidade muito forte, que é uma coisa que nós sabemos há muito tempo, mas
que hoje é mais forte ainda: é que a educação não é sobretudo atingir certos
resultados. Claro que também é atingir certos resultados, (mas) não é sobretudo
um produto, é sobretudo um processo. É uma experiência, uma experiência de
vida, uma experiência humana, é uma experiência de pesquisa.
A
universidade tem que estar centrada é nessa experiência, no enriquecimento
dessa experiência: do encontro, do estudo, do trabalho conjunto, do enriquecer
a experiência das pessoas dentro da universidade. O que a inteligência
artificial nunca poderá substituir é a nossa experiência, não é? Portanto, a
universidade tem que ser um lugar dessa experiência. Isso é que é
verdadeiramente relevante. E isso está a perder-se nas universidades. A gente
vai lá dar umas aulas, vai lá ouvir umas aulas, fazer uns testes, despachar o
assunto.
• Você sempre fala muito de que ninguém se
torna professor sozinho, é um processo coletivo. Isso está se esvaziando hoje?
Exatamente.
Quer dizer, é o encontro, é a relação, mas é uma relação que tem que ter um
conteúdo. Não é uma relação de amigos, é uma relação em torno do conhecimento,
um encontro coletivo em torno do conhecimento e em torno da criação. É isso que
está aqui na raiz do que devia ser uma universidade.
E isso
está a faltar-nos, essa dimensão coletiva, que nós podemos dizer com muitas
palavras: cooperação, colaboração, convivialidade, no sentido mais profundo do
Ivan Illich, do que é uma sociedade convivial. Mas, no coração de todas elas,
de facto, há essa dimensão de encontro coletivo.
• Sim, você foi reitor, como um reitor
pode fazer uma gestão para isso?
Já não
estamos em fazer grandes programas, grandes reformas, grandes currículos,
grande legislação, grandes enquadramentos. Esse tempo já acabou. Eu acho que o
melhor que se pode fazer é criar as condições – vê bem o que eu estou a dizer
–, criar as condições institucionais ou políticas para que aqueles que querem
ensaiar alguma coisa diferente o possam fazer, que se sintam apoiados e
protegidos por esse poder.
Não
tenho muitas ilusões sobre a ideia de que o reitor vai agora mudar a
universidade, vai fazer um plano estratégico maravilhoso da universidade. Isso
já não funciona. Eu estava a dizer numa palestra, veio-me esta expressão, nem
sei se é muito boa: já não estamos no tempo dos enquadramentos, estamos no
tempo das dinâmicas.
• Mas como enfrentar essa lógica
produtivista da ciência?
É muito
difícil. Posso estar equivocado, mas eu tenho a ideia de que esse momento
chegou a um tal patamar, chegou a um tal excesso, que, a partir de agora, ele
tende a decair. O Ivan Illich tinha um conceito, que é o de
“contraprodutividade”, em que ele diz que, a certa altura, quando se atinge um
determinado nível de saturação, as coisas passam a ser contraprodutivas. E eu
tenho a sensação de que esse universo do produtivismo acadêmico, das revistas,
explodiram de uma maneira tal, que atingiu um ponto de saturação que, muito
provavelmente, começa a ser contraprodutivo.
E as
universidades começam agora a encontrar outras formas de reconhecer. Eu, por
exemplo, nos últimos editais de concursos em universidades norte-americanas, a
avaliação dos professores era já muito diferente. Era através do que eles
chamam currículos narrativos. Não importa se publicou mil ou se publicou
duzentos. Não. A pessoa expõe, em quatro ou cinco páginas, porque é que entende
que o seu currículo é adequado para aquele lugar de professor, assinalando um
ou dois trabalhos que tenha publicado e que sejam relevantes para aquele posto.
E o júri, eu estava no júri, só teve que se pronunciar sobre aquele currículo
narrativo escrito pela pessoa e sobre um ou dois trabalhos que a pessoa
anexava. Já há movimentos que estão a ir nesse sentido e que são centrais.
• Você deu uma conferência na Assembleia
Nacional de Portugal sobre educação, citando Guimarães Rosa. Fala-nos um pouco
sobre esse texto, que é lindo.
Eu
tenho duas referências que são, na verdade, parecidas. Uma referência
científica, acadêmica, filosófica, que é o Michel Serres. E o Michel Serres
escreveu aquele belíssimo texto, O terceiro instruído, que é um texto que eu
leio e releio. O terceiro instruído é todo sobre a ideia de construir uma
terceira coisa. Todo o nosso pensamento ocidental, toda a nossa estrutura,
sempre esteve dividida entre corpo, cérebro, direita, esquerda, dicotomias. E,
portanto, ele explica que o terceiro instruído é, de algum modo, a Viagem
(título do seu último livro). Parti desta ideia de que a viagem é uma terceira
coisa. O Michel Serres não concretiza isso na área da educação, mas eu depois
concretizo na área da educação quando vejo que grande parte do pensamento
educativo dos últimos 200 anos é um pensamento binário e dicotômico. É ensinar
ou aprender, instruir ou educar, arte ou ciência. E estas dicotomias são
tontas, não nos ajudam em nada.
Depois
encontrei esse conto do João Guimarães Rosa, A terceira margem do rio, em que
eu achei que casava muito bem com isto. No fundo, de repente, eu tenho a minha
referência filosófica no Michel Serres e a minha referência literária no João
Guimarães Rosa. E eu acho que o Guimarães Rosa, tal como o Michel Serres, tem
muito essa coisa da viagem: a viagem é o viajante, o viajante é a viagem. É
essa terceira margem do rio, porque o que caracteriza as duas margens do rio é
que elas estão paradas. Só há movimento na terceira margem. É o único lugar
onde há movimento.
A
educação é um processo, é um movimento, é um caminho. E é por isso que isso é
muito importante à luz do debate da inteligência artificial. Porque ela pode
nos fazer um determinado resultado, mas ela não pode fazer o caminho por nós,
ela não pode fazer a viagem. Ora, para aqueles como eu, que entendem que a
educação é uma viagem, é um caminho, e não a apresentação do resultado, isto é
insubstituível. A inteligência artificial pode nos ajudar, mas não pode fazer a
viagem por nós, não é? Portanto, a ideia de viagem, para mim, é muito
importante.
• É fruto dessas viagens que vem a sua
relação com o Brasil?
A minha
vida não teria sido a mesma sem o Brasil. A minha vida foi moldada, em grande
parte, pelo Brasil. Minha primeira ida ao Brasil é em 1994, com Paulo Freire,
em Águas de São Pedro, e, a partir daí, há toda uma história minha que está
muito ligada ao Brasil. E eu não teria escrito muitas das coisas que escrevi,
não teria feito muitas das coisas que fiz sem o Brasil.
Já
escrevi num livro um verso do Vitorino Nemésio, que esteve na Bahia no final do
século XIX, e escreveu uns versos que eu adotei para mim. Ele diz assim: “Foi
em Água de Meninos, na Bahia, à flor do mar, que o português percebeu que isto
de ser brasileiro é só questão de começar”. E eu sinto isso, estás a ver? Eu
sinto que a relação com o Brasil, a relação com a Bahia, mas também com São
Paulo, com o Rio de Janeiro, com Minas Gerais, onde estive agora, é uma relação
muito forte.
E eu
acho, posso estar enganado, que nós, portugueses, nós, brasileiros, angolanos e
moçambicanos, ainda não percebemos totalmente que na nossa relação está grande
parte do nosso futuro. Claro, claro que há o colonialismo, houve coisas
horríveis que têm que ser postas a nu. Não faço disto uma história idílica, foi
horrível. E continuam a haver muito racismo, muita xenofobia. Não quero pôr
nada disto de lado, antes pelo contrário. Agora, é um patrimônio impressionante
que mais nenhum país tem, nós temos uma pluralidade, uma diversidade, e não
entendemos isso. Então, para mim, a ligação com o Brasil é muito, muito
importante.
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RAIO-X
António
Sampaio da Nóvoa é professor catedrático do Instituto de Educação da
Universidade de Lisboa. É uma das principais referências internacionais nos
estudos sobre educação, formação de professores, história da educação e
políticas públicas educacionais.
Formação:
Doutorou-se em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra, em 1986, e em
História Moderna e Contemporânea pela Universidade Paris-Sorbonne, em 2006.
Trajetória:
Foi reitor da Universidade de Lisboa entre 2006 e 2013, sendo Reitor honorário
da instituição desde 2014. Passou por universidades como Wisconsin-Madison,
Columbia, Oxford e Paris V.
Atuação:
É autor de centenas de trabalhos e orientou gerações de pesquisadores no
Portugal, no Brasil e em diversos países. Foi embaixador de Portugal na Unesco
entre 2018 e 2021 e recebeu títulos de Doutor Honoris Causa de várias
universidades portuguesas e brasileiras. É membro correspondente da Academia de
Ciências da Bahia.
Fonte:
A Tarde

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