A
religião por trás da Korin, pioneira na produção de frango orgânico no Brasil
O sol
nem bem nasceu, e o "expediente" delas já se encerrou. Depois que a
caminhonete partiu carregada de ovos, as galinhas de penas castanhas
avermelhadas foram liberadas para saírem do galinheiro e ciscarem pelos
arredores.
Os ovos
seguiram para o centro de produção do Grupo Korin (lê-se kôrin, que significa
"círculos de luz"), em Ipeúna, a 200 km de São Paulo. A marca é mais
conhecida nas gôndolas dos maiores supermercados por suas linhas de frango
natural e orgânico, mas também produz ovos, hortaliças, carne vermelha, peixes,
mel, cereais, fertilizantes e desinfetantes naturais obtidos pela fermentação
de materiais orgânicos.
Nesta
granja, assim como em todas as parceiras da Korin, os animais são tratados de
forma incomum. Não recebem antibióticos, são alimentados com ração livre de
transgênicos e vivem com mais espaço. No plano espiritual, as galinhas
castanhas e os frangos de penas brancas são recordados anualmente em uma
cerimônia.
Em um
gramado cercado de flores, funcionários, do chão da fábrica à presidência,
realizam, todo mês de agosto, um sufrágio pelo espírito dos animais abatidos,
agradecendo-lhes pela função de alimentar e nutrir os seres humanos e fazendo
orações de despedida desses espíritos.
Por
décadas, a Korin cultivou quase tanto discrição quanto galinhas. Sua fundação
está calcada na disseminação dos ideais de Mokiti Okada (1882–1955), filósofo
japonês e fundador da Igreja Messiânica Mundial, em 1935 no Japão.
Diz a
história que Okada, também conhecido pelo nome religioso de Meishu-Shama
("senhor da luz"), contraiu tuberculose na juventude e estava
desenganado. Mas, miraculosamente, ele melhorou, depois que passou a se
alimentar somente de vegetais, cultivados de maneira natural. Isto é, sem
agrotóxicos ou qualquer outro componente químico.
Produzir
alimentos desta forma tornou-se um dos três pilares da religião criada por ele
anos mais tarde, além de cultivar o belo, representado pelos ikebanas, arranjos
florais minimalistas, que valorizam a simetria e a harmonia entre as flores e
as linhas. Forma a tríade o Johrei, que consiste na canalização e transmissão
de energia espiritual por meio da imposição das mãos.
Para os
messiânicos, ser saudável e livre de doenças é um dos critérios para atingir o
nirvana, que eles chamam de Paraíso Terrestre.
A terra
é, portanto, elemento fundamental. Por isso, os messiânicos criaram na década
de 1970 um polo de agricultura natural. Em um pequeno sítio em Atibaia, no
interior de São Paulo, eles plantavam hortaliças e criavam alguns animais para
consumo próprio.
À
medida que o número de fiéis aumentou, o sítio ficou pequeno. Para expandir a
produção e também partir para um modelo comercial, o polo de agricultura
natural mudou-se para Ipeúna, transformou-se em empresa e ganhou o nome de
Korin.
Era o
início da década de 1990, a alimentação orgânica não estava na moda e bebida
fermentada era sinônimo de Yakult, que — coincidência ou não — também surgiu no
Japão.
Por
isso, muita gente, especialmente a indústria, torceu o nariz quando os
alimentos da Korin começaram a chegar aos mercados com o rótulo de livres de
antibióticos.
"Éramos
vistos como malucos ou irresponsáveis", diz Edson Matsui, presidente do
grupo. "Diziam que íamos disseminar doenças."
Passadas
mais de três décadas, a Korin distribui nacionalmente os cerca de 300 produtos
do seu portfólio e virou sinônimo de carne de frango natural. Responsável por
70% do faturamento da empresa, o frango da Korin aparece como chamariz em
cardápios de restaurantes, rótulos de papinhas infantis e até na fórmula de
ração para cães e gatos.
A
ligação com a Igreja Messiânica ainda permanece estruturante: além de inspirar
a filosofia da empresa, a instituição é sua mantenedora e compõe toda a sua
direção. Seus fiéis — 103 mil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) em 2010, 1,8 milhão, de acordo com a igreja hoje — têm
descontos na compra de alimentos vendidos em feiras nos dias de culto.
<><>
'Um ano sem frango'
O
sucesso da empresa está no controle rigoroso da sua produção. Como não
trabalham com granjas próprias, os parceiros fornecedores passam por
treinamentos e diversas auditorias.
Willian
Fernandes Leite e Ana Cláudia Laurenti Marchini Leite fazem parte desses
parceiros, chamados na empresa de "horizontais". Eles trocaram São
Paulo pela região de Ipeúna há alguns anos para produzir frango.
Em dado
momento, o casal rompeu com a Korin, em um "divórcio" que durou cerca
de um ano. Neste período, criaram frango seguindo o processo convencional, com
mais aves por metro quadrado, ração mais barata e produzida com grãos
geneticamente modificados e o uso livre de antibióticos.
Assim,
a rentabilidade, diz Willian, aumentou um pouco, cerca de 10%. "As aves
morriam menos, e eu podia criar mais frangos por metro quadrado", explica.
Mas o
lucro não foi suficiente para que o negócio perdurasse.
No dito
popular, o olho do dono é o que engorda o gado. Neste caso, o frango. Mas, para
Willian e Ana Cláudia, estar por perto não bastou para que eles consumissem a
própria produção.
"Era
tanto remédio e antibiótico que o bicho tomava que eu não tinha coragem de
comer a carne depois", diz Willian.
Ele se
refere ao uso de antimicrobianos, que são medicamentos naturais ou sintéticos —
como os antibióticos — usados para matar ou inibir o crescimento de
microrganismos causadores de infecções.
Na
criação intensiva, ou tradicional, esses medicamentos são utilizados para
acelerar o crescimento dos animais e como profilaxia de doenças, antes mesmo
que elas sejam contraídas.
O
resultado da experiência com a criação intensiva foi a restrição alimentar do
casal. "Ficamos um ano sem comer frango", diz Willian.
Voltando
a fornecer para a Korin, Willian explica que a rentabilidade não é o mais
importante. "Por esse frango a gente tem mais carinho", diz.
"É
um bichinho saudável que vai alimentar as pessoas. Tem coisas que o dinheiro
não paga."
Os
frangos do casal abastecem parte das cerca de 17,5 mil aves abatidas
diariamente pela empresa, número pequeno frente ao volume da avicultura
nacional de 18 bilhões de abatimentos diários, mas suficiente para consolidar a
marca em nichos específicos.
Os
produtores que abastecem a Korin de frango e ovos têm suas granjas, na maioria,
espalhadas pelas redondezas da fábrica. Passam por rigorosas inspeções para
garantir tanto a produção com base nos preceitos da empresa, quanto selos, como
o de orgânico — quando é o caso — e o de bem-estar animal — em todos os casos.
Para
comprovar o cumprimento desses requisitos na prática, as propriedades e as
produções são periodicamente avaliadas por uma dezena de empresas
certificadoras independentes. Cada uma delas emite um certificado diferente,
com critérios ambientais e sociais.
A
ausência de antibióticos na criação de frangos e galinhas também impõe cuidados
redobrados com biosegurança. A reportagem não pôde entrar no aviário, apenas em
uma área próxima e, ainda assim, precisou utilizar vestimentas especiais.
Em
época de transmissão de vírus, como o da gripe aviária, os animais são
proibidos de sair do galinheiro, já que podem se contaminar por meio de aves
silvestres, norma estabelecida por parte das certificadoras.
A
produção da Korin afirma considerar o bem-estar dos animais "como
princípio". Além da saúde, conforto, nutrição, manejo e abate
humanitários, os animais, segundo a empresa, têm o direito de "expressar
comportamentos naturais inerentes à espécie e não devem ser submetidos a
sofrimentos como dores, medo ou angústia".
Nessa
linha, as galinhas dividem o espaço no viveiro com alguns poucos — mas
fundamentais — galos. "Melhora o bem-estar, e elas ficam mais
calmas", explica a veterinária do grupo, Leikka Iwamura.
<><>
Frango mais caro
Para
garantir que o processo de agricultura natural da Korin seja seguido à risca
desde o começo, a empresa adquire pintinhos com um dia de vida e realiza o
acompanhamento técnico, a assistência veterinária e fornece a ração, cuja
fórmula é guardada a sete chaves e não é comercializada.
Isso
porque a alimentação dos animais, afirma Matsui, é um dos diferenciais da
empresa. A fórmula leva somente grãos não geneticamente modificados de milho,
soja e sorgo, uma opção que encarece o produto final.
Na
criação tradicional, o excedente do frango, como penas, vísceras e bicos, é
utilizado na produção de ração para alimentar outros frangos, reduzindo o preço
da produção.
"A
gente não faz isso", diz Matsui. Ali, o excedente é vendido para a
indústria de ração para pet.
Ele
afirma que o valor da alimentação das aves responde por 60% a 70% dos custos de
produção, tornando o produto final mais caro. "Se utilizássemos grãos
transgênicos, o valor cairia de 20 a 25%."
Por
essas razões, os frangos "vegetarianos" da Korin acabam tendo um
preço consideravelmente mais alto. A linha orgânica pode chegar a até cinco
vezes mais cara, enquanto a linha natural (cuja diferença é que a ração não é
feita com grãos orgânicos), pode custar até três vezes mais que o frango
tradicional. O mesmo ocorre com os ovos.
Matsui
afirma que o preço mais elevado é um fator importante a ser considerado na
estratégia do processo de expansão da empresa. Mas reconhece que seu modelo de
produção é limitado.
"A
Korin não tem condições de produzir alimentos dentro desse modelo para o mundo
inteiro", diz.
"Nós
somos esse modelo e podemos vender esse know-how para que mais empresas queiram
também produzir desta forma."
<><>
Depois das galinhas, tomates
Embora
a Korin tenha surgido e crescido ancorada nos mesmos princípios, o grupo aposta
também em inovação e pesquisa. Um dos braços da empresa é o Centro de Pesquisa
Mokiti Okada, fundado em 1989, cinco anos antes da fundação da Korin.
É ali
que vive a galinha dos ovos de ouro da empresa.
As
tecnologias desenvolvidas por eles dão origem a diferentes produtos, todos
feitos a partir de matéria orgânica não transgênica, com processos de
fermentação, para diversas finalidades.
Grosso
modo, os chamados bioinsumos são parecidos com a kombucha, para os mais
modernos, ou o Yakult, para os saudosos.
São
linhas de neutralizadores, desengordurantes e higienizadores para pets,
decompostos para efluentes da indústria, reguladores e fortificantes tanto para
o solo quanto para o intestino dos animais, além de fórmulas para limpar o
local onde eles vivem.
Este
último também elimina a amônia produzida pelos excrementos em contato com a
"cama" dos animais, evitando que as aves aspirem a substância e
danifiquem suas vias aéreas.
Segundo
os ensinamentos de Mokiti Okada, os microrganismos do solo são fundamentais
para que a terra tenha força vital capaz de gerar alimentos saudáveis.
Por
isso, para chegar a essas fórmulas desenvolvidas com muita pesquisa, uma área
no centro de produção de Ipeúna teve papel importante: a plantação de tomates,
presente no mesmo local desde 1994.
"Esse
campo foi muito utilizado para aperfeiçoar os bioinsumos", explica Sergio
Kenji Homma, diretor-superintendente da Korin.
Hoje,
os tomates enormes e vermelhos da Korin são exibidos com orgulho pela diretoria
que recebeu a BBC News Brasil no centro de produção.
Mas nem
sempre foi assim. "Foram anos e anos perdendo tomate", diz Matsui.
Ele calcula que, nos 30 anos da plantação, ao menos durante 15 anos eles
tiveram mais perdas do que ganhos.
<><>
Agricultura 'disruptiva'
Quando
a Korin começou a operar, o modelo proposto pela empresa era visto como
improvável. Produzir sem antibióticos, com menor densidade de criação e
apostando na vitalidade do solo — em vez de fertilizantes químicos — era
encarado como inviável do ponto de vista econômico.
"O
que fazíamos era muito disruptivo", diz Matsui.
Hoje, o
uso excessivo de antimicrobianos na pecuária brasileira levou a União Europeia
(UE) a vetar a compra de carne bovina e de frango do Brasil. O Ministério da
Agricultura e Pecuária (MAPA) tem até 3 de setembro para apresentar aos
europeus evidências de que não usará mais esse tipo de medicamento com a
finalidade de promover o crescimento ou aumentar o rendimento.
O
mercado europeu tem participação relativamente pequena nas exportações de
frango brasileiro — 4,5% — frente ao que importam os Emirados Árabes Unidos,
Japão e Arábia Saudita, os maiores compradores de frango do Brasil, segundo a
Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Ainda
assim, a decisão da UE pode apontar para os caminhos que a indústria de carne
brasileira deve seguir, se não quiser perder o posto de maior exportadora de
frango do mundo.
Se há
30 anos cultivar animais sem o uso de antibióticos, plantar alimentos sem
agrotóxicos e priorizar a alimentação natural era "disruptivo", hoje
esses preceitos entraram na lógica de mercado.
Para
Edson Matsui, não há nenhuma novidade nisso.
"Esperamos
o tempo certo para quebrar esses paradigmas. E isso é um dos ensinamentos de
Mokiti Okada: não é querer convencer ninguém de que o método está errado",
afirma ele, com a mesma paciência de quem esperou por quase 30 anos para colher
tomates vermelhos e polpudos no pé.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário