STJ
mantém condenação e Syngenta paga indenização por assassinato de Sem Terra no
PR
Após 19
anos de batalha judicial, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a
responsabilidade civil e a obrigatoriedade de pagamento de indenizações pela
multinacional Syngenta em decorrência do assassinato do agricultor Sem Terra
Valmir Mota de Oliveira, o Keno, e da tentativa de homicídio da agricultora
Isabel Maria Cardin.
Os
crimes foram cometidos por seguranças privados da empresa, durante uma ocupação
organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e pela Via
Campesina em uma fazenda da empresa, em Santa Tereza do Oeste (PR), no dia 21
de outubro de 2007. A ocupação reunia cerca de 200 pessoas e tinha como
objetivo protestar contra experimentos ilegais realizados pela transnacional. A
Syngenta utilizava sementes transgênicas na área de amortecimento do Parque
Nacional do Iguaçu, considerado patrimônio natural da humanidade.
A 1ª
Vara Cível de Cascavel condenou a empresa a pagar indenização moral e material
à família de Keno (esposa e três filhos) e moral, material e estético para
Isabel Maria Cardin. O Tribunal de
Justiça do Paraná manteve a condenação. A Syngenta recorreu, e em 2024 o STJ
manteve a condenação do Tribunal de Justiça do Paraná. Em julho de 2025, o
juízo da 1ª Vara homologou o acordo das partes no cumprimento da sentença. Os
pagamentos foram efetivados no início de fevereiro de 2026.
Na
sentença, o órgão reconheceu a responsabilidade objetiva da Syngenta
(contratante da NF Segurança) sobre as ações da empresa de segurança. A decisão
ainda destacou que a transnacional contratou a empresa de segurança mesmo tendo
conhecimento de que se tratava de uma milícia, já que seis meses antes do
ocorrido a NF havia realizado uma ação ilegal de despejo de famílias Sem Terra.
A justiça reconheceu que o direito de propriedade não pode, em nenhuma
circunstância, se sobrepor ao direito à vida.
A
condenação da transnacional é emblemática porque a Justiça reconhece a
responsabilidade da empresa ao contratar a NF Segurança e subsidiar a atuação
de milícias na ação violenta contra as e os trabalhadores rurais. José
Damasceno, integrante da direção do MST-PR, enfatiza que a decisão tem
“significado profundo” para o Movimento e a sociedade de forma geral, por se
tratar de “uma das grandes transnacionais do agronegócio e que vem cometendo há
anos crime no mundo inteiro de envenenamento da terra, da água, dos alimentos,
causando vários transtornos na saúde das pessoas”.
Passadas
quase duas décadas desde o crime, o integrante do MST reforçou a importância de
buscar justiça: “Nos dá a certeza que vale a pena a gente batalhar, vale a pena
a gente lutar para fazer com que seja feita a justiça nos crimes que são
cometidos contra as pessoas, contra as humanidades”.
“A
condenação da transnacional Syngenta é um caso excepcional, pois, em regra, as
empresas recorrem a todos os meios para impedir que o Estado as puna por seus
crimes. Ainda assim, depois de muita luta e da realização de campanhas, só foi
possível obter justiça 19 anos após os fatos — uma demora injustificável. O
caso servirá de precedente para outras lutas contra graves violações de
direitos humanos praticadas por grandes empresas”, destaca o coordenador
executivo da Terra de Direitos, Darci Frigo.
Na
Justiça Criminal, o Ministério Público do Estado do Paraná (MP-PR) ajuizou uma
ação penal contra Nerci de Freitas (dono da NF Segurança), pistoleiros que
participaram do ato e Alessandro Meneghel, fazendeiro da região apontado como
mandante do crime junto com a empresa Syngenta. Após 10 anos de tramitação, o
processo foi arquivado, a partir de requerimento elaborado pelo próprio MP-PR,
sob os argumentos de violação ao direito da duração razoável do processo.
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A denúncia de Keno se confirmou
As
mobilizações de movimentos campesinos em áreas da Syngenta ocorreram para
denunciar irregularidades no plantio de sementes transgênicas no entorno do
Parque Iguaçu, no município de Santa Tereza do Oeste. O plano de manejo definia
a zona de amortecimento do parque em 10 km, isto é, uma área de proteção onde
não poderia haver manipulação de sementes geneticamente modificadas, como fazia
a transnacional. No entanto, a empresa plantou 123 hectares de sementes
transgênicas de soja na zona de amortecimento do Parque, uma área equivalente
a 123 campos de futebol.
A
primeira ocupação ocorreu enquanto Curitiba recebia a Convenção sobre
Diversidade Biológica (COP8/MOP3), em março de 2006, mesmo mês em que o
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) autuou e multou a empresa em R$1 milhão. Ao saber que a empresa
retomará os experimentos, os movimentos campesinos voltaram a ocupar a área em
outubro de 2007.
O
ataque que resultou no assassinato de Keno e nos ferimentos graves em Isabel
ocorreu por volta do meio-dia daquele dia 21 de outubro, quando chegou ao local
um micro-ônibus cheio de seguranças privados e um carro com armas. Fizeram
parte da ação cerca de 40 pessoas, entre agentes da NF Segurança e pistoleiros
fortemente armados.
Keno e
Isabel estavam na guarita do espaço. Sem possibilidade de resistência, o grupo
armado atirou diretamente contra os trabalhadores. Keno foi executado com tiro
no peito e na perna. Houve tentativa de execução de Isabel. Rendida de joelhos,
o tiro acertou a cabeça, braço e tórax. A camponesa sobreviveu ao ataque, mas
perdeu a visão de um dos olhos e a mobilidade do braço e do ombro.
Em
dezembro de 2007, dois meses após o crime, a Justiça do Paraná confirmou a
ilegalidade das pesquisas realizadas pela Syngenta na área.
Desde
2009, a área onde Keno foi assassinado abriga o Centro de Pesquisas em
Agroecologia Valmir Mota de Oliveira, com 123 hectares, administrado pelo
Instituto Ambiental do Paraná (Iapar).
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Um triunfo de uma batalha contra os transgênicos
Dezenove
anos após o assassinato de Keno, o pagamento de indenização é um momento de
alívio e forte significado político para a família da vítima. O camponês foi
morto aos 34 anos, e deixou a esposa e três filhos. Iris de Oliveira, viúva de
Keno, enxerga a condenação como uma conquista de todo o movimento social, e não
apenas de sua família. “Foi uma luta assim que nós, enquanto movimento,
enquanto MST, a gente conquistou. Não foi só eu e nem meus filhos que ganhou”,
afirma.
Iris
faz questão de ressaltar que a batalha judicial e a ocupação que culminou na
morte do marido tinham um objetivo maior: a defesa da soberania alimentar e do
meio ambiente, uma causa que Keno abraçou desde o início da discussão sobre
sementes geneticamente modificadas.
“Eu
nunca perdi a esperança que a Syngenta um dia ia ser condenada. Pra mim foi um
alívio muito grande que aconteceu isso agora, e saber que de uma forma ou de
outra ela pagou”, garante. Ela também faz duras críticas à lentidão do sistema
judicial. “O bom é que eles [Judiciário] viram que nós não deixamos o Keno ser
esquecido”.
Apesar
da dor, Iris e os filhos superaram o trauma, ressaltando a importância do apoio
constante do Movimento: “O MST nunca me abandonou. E o MST jamais abandona uma
família que passou por isso.”
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“O trabalhador venceu”
Sobrevivente
do ataque de 2007, Isabel Cardin relata os custos da luta e a força para honrar
a memória de Keno. “Eu acho que o mais importante não foi nós receber a
indenização, é uma questão financeira, mas sim a vitória do povo trabalhador.
Isso é o mais importante,” afirma Isabel.
Ela
celebra o resultado como uma quebra na lógica de que apenas o poder vence.
“Sempre quem ganha é o lado mais forte. Dessa vez o trabalhador venceu. Espero
que muitas e muitas outras vezes o trabalhador continue vencendo essas batalhas
judiciais.” Para Isabel, o pagamento por danos morais, materiais e estéticos é
essencial para reparar a grave ofensa à dignidade humana e as sequelas
permanentes.
Isabel
avalia que a demora de 17 anos para o desfecho do processo se deve, em parte,
ao porte da empresa envolvida. “Infelizmente, a nossa Justiça é muito lenta”. A
sobrevivente acredita que o sistema judiciário freou o processo para adiar a
derrota da empresa perante a opinião pública. Ela espera que a condenação sirva
de lição. “A sociedade agora pode saber que essa empresa perdeu, foi condenada,
numa questão onde ela perdeu para pessoas humildes, para pessoas
trabalhadoras.”
A longa
espera teve um custo imenso para a saúde física e psicológica de Isabel. Por
não ter condições de parar de trabalhar, ela se submeteu a diversos empregos,
mesmo com sequelas graves no corpo. “Eu trabalhei, fui atendente de padaria,
fui vendedora, zeladora, eu catei recicláveis para sobreviver”, lista.
Isabel
lamenta que a lentidão do processo afetou sua recuperação e sua vida pessoal:
“Se tivesse saído antes, a minha saúde hoje, tanto o física como o psicológica,
eu não estaria tão afetada… Eu perdi o crescimento das minhas netas porque não
pude ver uma neta das minhas filhas nascer devido à minha saúde”, relata. Hoje,
ela está aliviada: “Hoje já consigo dormir sabendo que a justiça foi feita.”
Para
Isabel, a motivação para persistir contra uma gigante não era financeira, mas a
necessidade de honrar a memória do companheiro assassinado. O dinheiro jamais
trará Keno de volta, diz Isabel, mas a condenação é simbólica. “Essa questão de
que a justiça fosse feita, especialmente pelo Keno, é onde me dava força para
poder continuar nessa luta, nessa briga, de que a Syngenta pagasse.”
Isabel
Cardin reitera o valor da militância em sua vida, prometendo continuar a luta
contra os agrotóxicos e pela reforma agrária: “Foi dentro do MST que eu aprendi
os valores com a família, os valores com o ser humano […]. Essa luta para mim é
a coisa mais importante que já aconteceu na minha vida… Agora tem que ser
grata, mais ainda com a luta.”
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Atualidade da violência no campo e da luta contra os transgênicos
Ainda
permanece um contexto de intensa violência contra trabalhadores rurais, com o
uso de empresas de segurança e emprego de milícias para a prática de violência
contra as manifestações, especialmente no campo. A pesquisa Linha de Frente,
desenvolvida pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, sobre
violência contra defensores de direitos humanos, aponta que agentes privados
são os autores de violência em 62,1% dos casos mapeados em 2023 e 2024 e que
camponeses e trabalhadores rurais Sem Terra foram vítimas de 131 casos de
violência nestes últimos anos.
A
constituição da organização Invasão Zero, articulada pelo agronegócio com
milícias e agentes de segurança pública, também evidencia a conexão estreita
entre agronegócio e emprego de intensa violência. Exemplo disso é o assassinato
da liderança Nega Pataxó pelas milíciais rurais, em janeiro de 2024, na Bahia.
A
denúncia feita pelos trabalhadores em 2007 também segue viva. O Brasil segue
violando a biodiversidade com a aprovação de transgênicos, sem respeito ao
princípio de precaução e garantia do direito à saúde, ao meio ambiente
equilibrado, como determina a Constituição Federal.
Mesmo
com intensa denúncia de organizações e especialistas pelos riscos à saúde e
biodiversidade, o trigo transgênico “trigo HB4” teve, em 2023, o plantio
liberado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), instância
responsável pela liberação de organismos geneticamente modificados.
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Uma transnacional do veneno
A
Syngenta é o exemplo de uma empresa transnacional no ramo de agrotóxicos com
atuação em todo o mundo, respondendo a processos judiciais por diversos tipos
de violações. Atualmente, se apresenta como sendo registrada em Xangai, na
China, e com sede administrativa na Suíça, e com quatro unidades de negócios,
com sedes na Suíça, Estados Unidos, Israel e China, com atuação em cerca de 100
países.
Entre
as acusações mais recentes pela qual a empresa responde no Brasil é da ação
civil pública movida pelo Ibama e pela Advocacia-Geral da União (AGU), em 2024,
por adulteração em agrotóxicos e tentativa de burlar a fiscalização.
Outro
caso de grande relevância é a ação coletiva movida no Canadá contra a Syngenta,
relacionado aos supostos danos à saúde causados por seus herbicidas à base do
príncipio ativo paraquat, comercializados sob a marca Gramoxone entre os anos
1960 e 2017. A ação foi proposta em nome de um grupo de canadenses que
desenvolveram a doença de Parkinson após serem expostos ao produto, incluindo
também seus familiares próximos.
Além de
ignorar internamente os estudos que comprovaram as consequências à saúde
trazidos pelo produto, a empresa foi acusada de agir de má-fé ao tentar
influenciar o consenso científico para minimizar os perigos do produto e
proteger seus interesses comerciais.
Fonte:
Página do MST

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