6×1:
Centrão e oposição querem aproveitar falta de decisão para mudar CLT
Em meio
à indefinição do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), sobre a
análise da proposta de emenda à constituição (PEC) que acaba com a escala de
trabalho 6×1 no país, nomes do Centrão e bolsonaristas se movimentam para
incluir ‘jabutis’ na redação do texto final em prol do empresariado.
A
articulação do Centrão e dos bolsonaristas toma forma em outra PEC, protocolada
pelo senador bolsonarista Rogério Marinho (PL-RN) com a assinatura de outros 40
senadores – ou seja, mais da metade da Casa ao todo – e que permite a
contratação em um regime de pagamento por horas trabalhadas.
Na
prática, o grupo mira uma mini-reforma trabalhista, similar à das controversas
mudanças do governo Michel Temer (MDB) na legislação do país, segundo apurado
pela Agência Pública. Neste sentido, declarações do vice-presidente da Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ), senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO),
exemplificam o discurso da oposição (e do próprio empresariado) contra o fim da
6×1, defendendo que “empregador e trabalhador tenham uma opção a não ser [a
contratação via regime] CLT”.
“Acho
que sou um dos poucos parlamentares que já teve empresa fora [do país], onde
havia o [regime de] trabalho por hora, então o trabalhador podia escolher
quantas horas quisesse trabalhar… a regra era clara e para a [minha] empresa
funcionou muito bem”, afirmou o vice-presidente da CCJ à Pública.
Com
patrimônio declarado em mais de R$ 26 milhões nas eleições de 2024, quando
concorreu, sem sucesso, à prefeitura de Goiânia (GO), Cardoso vocaliza a
posição do empresariado quanto ao fim da escala 6×1, dada a sua condição de
fundador e dono do grupo Cicopal, que atua no ramo alimentício e de
ultraprocessados.
O
senador relatou à Pública que fez pesquisas internas com os funcionários de sua
companhia, confirmando a ampla adesão de trabalhadores ao fim da escala 6×1. “A
primeira coisa que fiz foi ouvi-los [funcionários], porque são eles que ‘tocam’
a empresa no dia-a-dia. A maioria esmagadora é favorável [ao fim da 6×1], com
87% favorável à escala 5×2, enquanto os outros 13% fizeram observações
interessantes – como, por exemplo, questionar quem vai pagar essa ‘conta’”,
disse.
Ao
mesmo tempo, o vice-presidente da CCJ tenta se descolar da PEC de Rogério
Marinho, mesmo sendo um dos que assinaram a proposta em apoio ao líder
bolsonarista. “Eu vou apresentar uma emenda, creio que outros senadores também
vão, porque já tem gente defendendo o [regime de] trabalho por hora. Foi por
isso que assinei a PEC do Rogério Marinho: não sou favorável a tudo que está
lá, mas assinamos para abrir a discussão”, disse Cardoso.
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“Quando chegar aqui, eu dou meu ritmo”, diz presidente da CCJ sobre PEC do fim
da 6×1
Levando-se
em consideração o trâmite de PECs no Senado, a posição de Vanderlan Cardoso tem
um peso relevante, dada a sua condição de vice-presidente da CCJ atualmente.
A
comissão é responsável por avaliar a constitucionalidade, legalidade e
juridicidade de todas as propostas legislativas antes que sejam votadas na
Casa, incluindo as duas PECs sobre a mudança da escala trabalhista – tanto a
aprovada na Câmara com apoio do governo Lula (PT) e do presidente da Casa,
deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), da Câmara, quanto aquela protocolada
pela oposição e pelo Centrão.
Mas se
depender do presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), que integra a
base do governo no Senado, o plano oposicionista não dará certo na comissão.
O
presidente da CCJ já disse que não pautará a PEC de Rogério Marinho, como
relatado pela CNN Brasil, e no início da semana ele não escondeu sua frustração
com o adiamento de uma reunião que teria com o presidente do Senado para
discutir matérias de interesse do governo Lula, como a PEC do fim da escala 6×1
e a PEC da Segurança Pública, segundo o portal Metrópoles.
“Já
falei algumas vezes e vou repetir: não conversei com o Davi [Alcolumbre] sobre
PEC da Segurança, sobre PEC da 6×1, não conversei com ele sobre absolutamente
nada”, disse Alencar à Pública e outros veículos ao fim da sessão da CCJ na
quarta (10).
“Quando
chegar aqui, eu vou indicar um relator para a PEC da Segurança e a PEC da 6×1…
se chegar! Ou seja, está tudo do mesmo jeito. Eu não tenho conversado com ele
[Alcolumbre], não tenho telefonado… vou repetir: eu respeito o tempo dele e há
de se respeitar o meu. Quando [a PEC] chegar aqui, eu dou meu ritmo”, também
afirmou o presidente da CCJ nesta quarta.
Segundo
apurado pela reportagem, o senador Otto Alencar diverge do vice-presidente da
CCJ ao se mostrar favorável ao fim da escala 6×1 seja por meio da PEC aprovada
recentemente na Câmara, seja por meio de outra proposta similar já aprovada na
própria CCJ – a PEC 148/2015, do senador Paulo Paim (PT-RS).
O texto
relatado pelo senador petista foi aprovado na comissão em dezembro passado e,
desde então, pode ser votado a qualquer momento no plenário do Senado – basta
que Davi Alcolumbre inclua a proposta na pauta de votações da Casa Alta.
Por
outro lado, Otto Alencar é contra a PEC alternativa, da oposição, que abre
espaço para jornadas de trabalho ainda mais “flexíveis” e para o pagamento de
salário apenas por horas trabalhadas. Para o presidente da CCJ, a alternativa
retoma o polêmico conceito de “trabalho intermitente”, surgido na reforma
trabalhista do governo de Michel Temer (MDB) em 2017.
• Sob pressão no caso Master, Alcolumbre
pode liberar votação do fim da escala 6×1
ob
pressão no Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) começa a cogitar a votação da PEC
do fim da escala 6×1 como forma de desviar o foco da CPI do Master, após
inúmeros entraves do projeto desde que foi aprovado na Câmara. Nos bastidores
do Senado, ele voltou a sinalizar que pretende destravar a discussão na semana
que vem. As informações são da coluna de Daniela Lima, do UOL, mas um detalhe
chama atenção: a sinalização do presidente do Senado ocorre logo após a
revelação do seu suposto envolvimento no caso Master.
A
estratégia, segundo fontes entrevistadas pela colunista, seria seguiria o rito
normal da Casa, enviando o texto à Comissão de Constituição e Justiça,
presidida por Otto Alencar (PSD-BA), para análise da matéria já aprovada pela
Câmara dos Deputados.
A
revelação, pela revista Veja, de que o presidente do Senado teria recebido 30
milhões de dólares (o equivalente a R$ 155 milhões) de Daniel Vorcaro explica o
grande acordo firmado com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), antecipado pela Fórum em
abril deste ano, para enterrar a CPI.
A
negociata voltou à tona na noite da quarta-feira (29) com a manobra de
Alcolumbre no Senado, que aprovou a toque de caixa pautas-bomba com custo
fiscal estimado em até R$ 215 bilhões para causar impacto nas contas do governo
e servir de discurso eleitoral para a campanha de Flávio Bolsonaro.
A ação
é parte do grande acordo entre Alcolumbre e Flávio Bolsonaro que teve início
com a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF),
derrubou o veto de Lula ao PL da Dosimetria e tenta enterrar a CPI do Master,
que atinge o grupo político de ambos. Na mais recente tratativa, os dois
senadores ainda acordaram em barrar a PEC do fim da Escala 6×1 e impor a
proposta bolsonarista, que destrói lei trabalhista e foi remetida à toque de
caixa por Alcolumbre à CCJ do Senado.
Na
edição desta sexta-feira (12), antecipada na noite anterior, a revista Veja
revelou o repasse milionário a Alcolumbre que constaria na segunda tentativa de
acordo para delação premiada do banqueiro, que foi rejeitada pela Polícia
Federal (PF), que notificou o Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira
(11).
Os 30
milhões de dólares pagos a Alcolumbre por Vorcaro teriam sido depositados em
uma conta secreta no exterior e repassados ao presidente do Senado pelo apoio
dado a uma demanda de interesse do dono do Banco Master, em transação que foi
operada por Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro.
A soma
é superior aos 24 milhões de dólares prometidos pelo banqueiro ao clã Bolsonaro
supostamente para financiar o filme Dark Horse, que conta a narrativa da
ultradireita sobre Jair Bolsonaro (PL). Desse montante, cerca de 10 milhões de
dólares (cerca de R$ 61 milhões) teriam sido enviados ao fundo Havengate,
administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), nos EUA.
Segundo
essa matéria da Fórum, no início do ano legislativo, após Lula vetar o PL da
Dosimetria em ato simbólico no 8 de Janeiro, Alcolumbre se aproximou de Flávio
Bolsonaro (PL) e iniciou as negociações que, em princípio, trocariam os votos
necessários para barrar Messias no Senado pela retomada da “anistia” a
Bolsonaro, que já se encontrava devidamente preso.
O
escândalo financeiro no Caso Master, no entanto, ampliou a negociata. A ampla
rede de relacionamentos de Daniel Vorcaro, que vai do “amigo da vida” Ciro
Nogueira (PP-PI) à contratação do escritório de Viviane Barci de Moraes,
passando pela rede de influência do próprio presidente do Senado e do
financiamento da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas
(Republicanos), capitalizou o poder de barganha.
O
avanço das investigações sobre a Faria Lima – que se estende a facções
criminosas já conhecidas, como o Primeiro Comando da Capital, o PCC – causou
“pânico em Brasília”. E foi ai que Alcolumbre resolveu ampliar o acordão com
Flávio Bolsonaro, colocando no pacote o travamento da CPI do Master, que
colocaria o escândalo financeiro em evidência em plena campanha eleitoral.
Assim
como Flávio Bolsonaro e Alcolumbre, Moraes não tem interesse que o caso Master,
que começa a sumir das manchetes, voltasse à tona com uma CPMI no Congresso.
Foi, então, que o presidente do Senado selou a imprevista união, distribuindo
favores e promessas, típicos de sua postura, tanto a Moraes, quanto a Flávio
Bolsonaro, segundo a reportagem.
Com
Flávio Bolsonaro, Alcolumbre manteve o acordo sobre a derrubada do veto da
dosimetria, em troca dos votos para barrar Messias. E ampliou a tratativa,
oferecendo uma ponte com Moraes e o STF, que será agora o responsável por
“dosar” a pena, como relator do caso – ou seja, para calcular em quanto tempo a
sentença de 27 anos e 3 meses de Bolsonaro será reduzida.
Ainda
segundo a matéria, a adesão ao acordo também beneficia a fantasia de “moderado”
de Flávio Bolsonaro, que vai usar a aproximação com o próprio Moraes para se
mostrar como “o pacificador” à Faria Lima e à mídia liberal, além dos quadros
do Centrão e da burguesia paulista, onde Michel Temer ainda tem influência. Em
troca, Flávio Bolsonaro teria se comprometido a atuar em prol de um novo
mandato de Alcolumbre na Presidência do Senado, caso vença Lula e assuma o
Planalto em 2027.
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Alcolumbre fala em “honra” ao dizer que “não recebeu” dólares de Vorcaro
Em uma
nota publicada nesta quinta (11), Davi Alcolumbre negou ter recebido dinheiro
do banqueiro Daniel Vorcaro e classificou as acusações como “falsas”. Em
defesa, o presidente do Senado falou em “trajetória pública” e “honra” diante
das acusações. “O senador Davi Alcolumbre jamais recebeu valores, no Brasil ou
no exterior. Diante da gravidade das acusações e dos danos causados à sua honra
e à sua trajetória pública, serão adotadas todas as medidas judiciais cabíveis,
nas esferas cível e criminal, para que os responsáveis pelas acusações
respondam por suas afirmações e apresentem as provas que dizem possuir”, afirma
a nota.
Desde
que saiu da Câmara, o projeto do fim da escala 6×1 segue travado no Senado. Na
terça-feira (9), Alcolumbre cancelou uma reunião com Otto Alencar (PSD-BA),
presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que havia viajado
especialmente para o encontro. O cancelamento, comunicado pela secretária de
Alcolumbre quando Alencar já estava a caminho da residência oficial, deixou o
senador baiano “bastante irritado” e aprofundou o impasse em torno da PEC que
propõe o fim da escala 6×1, aprovada pela Câmara em maio e ainda parada na mesa
diretora do Senado.
Aprovada
pela Câmara em 27 de maio, a PEC ainda não foi despachada por Alcolumbre para a
CCJ, etapa exclusiva do presidente do Senado. Sem o despacho, a comissão não
pode designar um relator, e sem relator a proposta não pode ser pautada.
Alcolumbre já havia afirmado publicamente “não ter pressa” para analisar o
texto.
Nos
bastidores, Hugo tem criticado a demora de Alcolumbre em dar andamento ao
texto. Antes da aprovação da matéria pela Câmara, o senador havia sinalizado
apoio à tramitação, mas posteriormente afirmou que não aceitaria pressões para
acelerar o processo.
Enquanto
isso, o Palácio do Planalto busca deixar a proposta pronta para votação no
Senado. Integrantes do governo avaliam que, caso Alcolumbre impeça o avanço do
projeto, partidos como PT e PSOL deverão intensificar campanhas nas redes
sociais responsabilizando o Congresso pelo bloqueio da pauta.
Mesmo
diante da possibilidade de a proposta não ser votada, aliados do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva consideram que o fim da escala 6×1 pode continuar
sendo um tema relevante para a estratégia eleitoral do governo nos próximos
anos.
O
presidente da Câmara mostrou resistência em avançar com a votação do projeto de
renegociação de dívidas rurais, aprovado pelo Senado na quarta-feira (10). Antes mesmo da votação, Davi Alcolumbre
(União-AP) havia ligado para Motta para questionar se o projeto seria colocado
em pauta na Câmara. O deputado paraibano não deu garantias, alegando
desconhecimento do texto e citando que a Câmara só havia votado proposta
semelhante em 2025 devido a benefícios concedidos a agricultores afetados por
enchentes no Rio Grande do Sul.
Fonte:
Por Caio de Freitas, da Agência
Pública/Fórum

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