A
PRÓXIMA CRISE DO CAPITAL: Inteligência artificial, crédito privado e o retorno
do capital fictício
A economia mundial atravessa uma zona
histórica de instabilidade que já não pode ser compreendida apenas pelas
categorias tradicionais de recessão, inflação ou ciclo financeiro. Há algo mais
profundo em curso: uma crise de reprodução do próprio modelo de acumulação
capitalista, cuja capacidade de produzir riqueza permanece enorme, mas cuja
capacidade de distribuir estabilidade, segurança social, emprego digno e futuro
coletivo se mostra cada vez mais reduzida. O capitalismo não está paralisado;
ao contrário, move-se intensamente. Mas move-se por meio de contradições
crescentes: concentração, financeirização, endividamento, guerra, precarização
do trabalho, bolhas tecnológicas, adoecimento psíquico e destruição ecológica.
A próxima crise do capital talvez não comece
com a imagem clássica de operadores financeiros em pânico, telas vermelhas e
manchetes anunciando a queda de um banco sistêmico. Talvez ela já tenha
começado em lugares mais silenciosos: no jovem norte-americano que trabalha,
recebe salário e ainda assim não consegue pagar aluguel, comida, transporte,
saúde e dívidas; na família europeia que calcula se ainda conseguirá permanecer
na própria casa; no trabalhador que adia consulta médica; na juventude que
retorna ao quarto dos pais porque a independência se tornou economicamente
impossível; no adulto que já não sonha com ascensão social, mas apenas com
sobreviver ao mês seguinte. Esses acontecimentos, aparentemente privados, são
sinais públicos de uma crise histórica. A economia mundial ainda é narrada por
indicadores agregados – PIB, inflação, juros, bolsas, endividamento,
produtividade e comércio internacional –, mas a crise real aparece antes no
corpo social. Ela aparece quando o salário deixa de sustentar a vida, quando a
moradia se converte em ativo financeiro antes de ser direito humano, quando a
juventude perde a perspectiva de futuro e quando o progresso tecnológico convive
com o adoecimento psicopatológico de quem trabalha.
O dado mais revelador do presente não é a
existência isolada de uma bolha, mas a convergência entre baixo crescimento
global, valuations elevados, crédito opaco, concentração monopolista, promessa
tecnológica inflada e deterioração das condições concretas de reprodução da
vida. Em 2008, a crise nasceu da transformação da moradia popular endividada em
ativo financeiro global. Agora, a crise que se anuncia parece nascer de outra
forma de promessa: a expectativa de que a inteligência artificial produzirá lucros
futuros tão extraordinários que justificariam a valorização presente de grandes
conglomerados tecnológicos, fundos, semicondutores, data centers, empresas de
energia, plataformas digitais e estruturas de crédito conectadas a esse novo
ciclo. A semelhança com os subprime não está no ativo específico. Não se trata,
agora, de hipotecas imobiliárias residenciais de baixa qualidade embaladas em
derivativos complexos. A semelhança está na lógica. Em ambos os casos, há uma
promessa futura convertida em riqueza presente. Em ambos os casos, o risco é
deslocado, empacotado, disfarçado e distribuído por estruturas financeiras
pouco transparentes. Em ambos os casos, a ideologia dominante repete a mesma
frase histórica de todas as bolhas: “desta vez é diferente”.
A UNCTAD, no documento Global growth
expected to slow to 2.6% through 2026,
publicado em 3 de dezembro de 2025, projetou que a economia mundial crescerá
apenas 2,6% em 2025 e 2026, abaixo dos 2,9% de 2024, abaixo da média
pré-pandemia de 3% e muito abaixo da média de 4,4% observada antes da crise
financeira de 2008–2009. Esse dado é decisivo porque demonstra que a economia
global não atravessa apenas uma oscilação conjuntural: há uma desaceleração
estrutural longa, posterior à crise de 2008, que restringe a capacidade do
sistema de produzir prosperidade social ampla. Essa leitura é reforçada pela
própria UNCTAD em seu relatório World Economic
Situation and Prospects 2026, publicado
em 8 de janeiro de 2026, segundo o qual o crescimento global permanece lento e
desigual entre regiões. O documento projeta expansão de 2,7% em 2026 e 2,9% em
2027, ainda abaixo da média pré-pandemia de 3,2%, com crescimento fraco na
Europa e restrições adicionais em países em desenvolvimento por dívida elevada
e choques climáticos. Esse é o primeiro elemento de semelhança com 2008: a
economia real perde fôlego enquanto a economia financeira continua criando
narrativas de valorização. Antes, a narrativa era a de que o mercado
imobiliário norte-americano continuaria sustentando a expansão do crédito.
Agora, a narrativa é a de que a inteligência artificial abrirá uma nova era de
produtividade, lucros e automação capaz de justificar preços crescentes dos
ativos. A tecnologia é real, mas a pergunta decisiva é outra: a rentabilidade
futura será suficiente para sustentar a capitalização presente?
Toda grande bolha nasce de uma verdade
parcial. A bolha ferroviária nasceu de uma transformação real dos transportes.
A bolha da internet nasceu de uma transformação real da comunicação. A bolha
imobiliária nasceu de uma necessidade real de moradia. A eventual bolha da
inteligência artificial nasce de uma tecnologia real, com potencial profundo de
reorganizar produção, serviços, linguagem, vigilância, logística, educação,
finanças e gestão do trabalho. Mas a existência de uma inovação verdadeira não
impede a formação de uma bolha. Ao contrário: as grandes bolhas modernas
costumam nascer justamente quando uma inovação real é capturada por
expectativas financeiras desmedidas. O problema, portanto, não é dizer que a
inteligência artificial “não existe” ou que não terá efeitos econômicos
relevantes. O problema é perceber que o mercado pode estar antecipando, de
forma exagerada, uma massa de lucros que ainda não se realizou socialmente.
Parte considerável da valorização associada à IA depende da expectativa de produtividade
futura, da expansão de data centers, do consumo crescente de energia, do
domínio de semicondutores e do controle monopolista de plataformas. Se essa
expectativa for frustrada, mesmo parcialmente, a correção de preços poderá
atingir não apenas empresas de tecnologia, mas também fundos, fornecedores,
credores, seguradoras, bancos, mercados de energia e cadeias globais de
investimento.
A segunda semelhança com 2008 está no
crescimento de uma estrutura financeira paralela, opaca e insuficientemente
testada. O nome contemporâneo dessa zona de risco é private credit,
ou crédito privado. Depois da crise financeira global, os bancos foram
submetidos a regulações mais rígidas. Parte do risco saiu do sistema bancário
tradicional e migrou para fundos, gestoras, seguradoras, veículos privados,
private equity e outras formas de intermediação não bancária. O risco não
desapareceu. Apenas mudou de endereço. O Financial Stability Board, no
relatório Report on
Vulnerabilities in Private Credit, publicado
em 6 de maio de 2026, advertiu que o setor de crédito privado apresenta
vulnerabilidades decorrentes de sua complexidade, alavancagem e interconexão
com bancos, seguradoras e empresas de private equity, podendo
amplificar choques em cenários adversos. O FSB também destacou riscos ligados à
opacidade de avaliação dos ativos, à qualidade de crédito dos tomadores, aos
descasamentos de liquidez, à concentração setorial e ao fato de que o setor
ainda não foi testado em uma desaceleração econômica prolongada. Essa
advertência é central. Em 2008, muitos títulos hipotecários pareciam seguros
porque estavam estruturados em camadas, avaliados por modelos sofisticados e
distribuídos por instituições globais. Hoje, muitos ativos de crédito privado
parecem estáveis porque não são negociados diariamente em mercado aberto,
porque são avaliados por modelos internos e porque a ausência de marcação
transparente reduz a percepção imediata de volatilidade. Mas estabilidade
aparente não é estabilidade real. Às vezes, é apenas falta de visibilidade.
A Reuters noticiou, em 5 de junho de 2026, que o boom do crédito privado
começou a esfriar, com desaceleração acentuada na emissão de empréstimos
de direct lending nos Estados Unidos, queda de
fluxos de investimento, aumento de pedidos de resgate e preocupação com a
qualidade de crédito, especialmente em setores como software. Esse dado recente
reforça que o crédito privado não é uma abstração técnica distante: ele já
apresenta sinais de tensão concreta. Se a inteligência artificial é o rosto
luminoso da nova promessa, o crédito privado pode ser sua engrenagem
subterrânea. A IA aparece nas capas dos relatórios como futuro; o private
credit aparece nas notas técnicas como risco. A crise pode nascer
exatamente da conexão entre essas duas dimensões: expectativas tecnológicas
exageradas e estruturas financeiras ilíquidas, opacas e altamente conectadas. A
presença dos imóveis comerciais completa o quadro. O setor de escritórios,
shopping centers e propriedades corporativas sofreu alterações estruturais
depois da pandemia, com expansão do trabalho híbrido, queda de demanda em
centros urbanos e necessidade de refinanciamento sob juros mais altos. Ele
talvez não seja o epicentro da próxima crise, mas pode funcionar como uma falha
geológica secundária: um canal de contágio para bancos regionais, fundos
imobiliários, seguradoras e credores privados.
A diferença em relação a 2008 é que a próxima
crise talvez não tenha um único rosto. Não precisa haver um novo Lehman
Brothers. Pode haver uma crise em camadas: primeiro, revisão das expectativas
de lucro da IA; depois, queda das ações de tecnologia, semicondutores, nuvem e
infraestrutura digital; em seguida, aperto no crédito para startups e empresas
dependentes de financiamento barato; depois, inadimplências no private credit;
por fim, pressão sobre bancos regionais, seguradoras, fundos e mercados de imóveis
comerciais. Esse encadeamento revelaria uma verdade incômoda: a economia
contemporânea está novamente sustentada por promessas de valorização futura. Só
que agora a promessa não está ancorada na casa própria financiada do
trabalhador norte-americano, mas na inteligência artificial monopolizada por
poucos conglomerados globais.
A terceira dimensão da crise é a
monopolização. O capitalismo contemporâneo já não se parece com a imagem
liberal da livre concorrência entre empresas autônomas e dispersas. Ele se
organiza em torno de plataformas, oligopólios, fundos, patentes, infraestrutura
digital, propriedade intelectual, controle de dados e domínio de cadeias
logísticas. A inteligência artificial intensifica essa tendência porque exige
escala gigantesca: poder computacional, energia, chips avançados, nuvem, bases
de dados e capital intensivo. Poucos grupos conseguem competir nesse nível. Da
perspectiva marxista, isso é decisivo. A monopolização opera como
contratendência à queda da taxa de lucro. Quando a concorrência pressiona
margens, quando a composição orgânica do capital aumenta, quando os
investimentos necessários se tornam cada vez maiores e quando o trabalho vivo é
relativamente reduzido pela automação, o capital busca recompor sua
rentabilidade por meio de mecanismos extraordinários: monopólio, renda
tecnológica, patentes, precarização, redução salarial, financeirização,
apropriação de fundos públicos, expansão imperial e endividamento.
Mas essas contratendências não eliminam a
crise. Elas apenas a deslocam. O capital consegue preservar lucros elevados no
topo, mas ao custo de fragilizar a base social que sustenta a demanda, o
trabalho, a legitimidade política e a coesão democrática. É por isso que os
lucros podem coexistir com estagnação. É por isso que bolsas podem subir
enquanto a vida concreta se torna mais insegura. É por isso que a produtividade
tecnológica pode crescer junto com adoecimento, desemprego, informalidade e
medo.
A quarta dimensão é geopolítica. A economia
mundial está cada vez mais atravessada por guerras, sanções, disputas
energéticas, rotas marítimas, semicondutores, terras raras e rivalidades
industriais. A Reuters noticiou, em 5 de junho de 2026, que a
Organização Mundial do Comércio identificou sinais de desaceleração do comércio
global de bens, apesar da resiliência inicial em 2026. O barômetro do comércio de mercadorias da OMC
recuou de 102,3 em janeiro para 101,7, ainda acima da tendência, mas já
indicando perda de fôlego. A notícia também registra que a demanda por
componentes eletrônicos ligados à IA ainda sustenta parte do comércio,
mostrando a ambiguidade do momento: a IA atua simultaneamente como motor
parcial de crescimento e como possível núcleo de vulnerabilidade financeira. Esse
ponto é fundamental para uma leitura crítica. A crise econômica contemporânea
não é apenas crise de mercado; é crise de hegemonia. Quando a valorização
produtiva encontra limites, a disputa geopolítica se torna mecanismo de
reorganização da acumulação. Tarifas, guerras, sanções, subsídios industriais,
controle de semicondutores, militarização e disputa energética deixam de ser
eventos externos à economia. Passam a ser parte da própria economia política do
capitalismo em crise.
Mas há uma quinta dimensão, talvez a mais
decisiva para compreender o sentido humano da crise: a incapacidade crescente
de manutenção básica da vida, inclusive nos países centrais do capitalismo. O
Federal Reserve publicou, em 13 de maio de 2026, o relatório Economic
Well-Being of U.S. Households in 2025,
baseado na pesquisa Survey of Household Economics and Decisionmaking,
realizada em outubro de 2025. O relatório informa que, embora a situação geral
dos adultos tenha permanecido relativamente estável, o bem-estar financeiro
piorou entre jovens adultos, famílias de baixa renda e adultos negros. A
instituição também assinala que aumentos de preços permaneceram como a
preocupação financeira mais comum entre adultos norte-americanos. Esse dado
precisa ser lido politicamente. Quando jovens adultos em uma das economias mais
ricas da história relatam piora de bem-estar financeiro, não estamos diante de
mero problema individual de planejamento. Estamos diante de uma crise
estrutural entre salário, custo de vida, dívida, moradia, saúde e instabilidade
ocupacional. Quando a juventude trabalha e ainda assim não consegue pagar suas
contas, o problema não está apenas na educação financeira do indivíduo. Está na
arquitetura econômica que tornou a vida comum mais cara do que a renda
ordinária.
A Europa confirma essa mesma tendência. A
Eurofound informou, em 14 de janeiro de 2025, com base na pesquisa Living and
working in the EU 2024, que 30% dos
respondentes relataram dificuldade para fechar as contas, contra 22% em 2023.
Na Grécia, esse percentual chegou a 55%. O dado revela que, mesmo depois de
alguma melhora nos indicadores macroeconômicos, a inflação acumulada e o custo
de vida corroeram a resiliência financeira dos lares europeus. Aqui a crise
econômica ganha rosto humano. A juventude, que deveria ser o tempo da travessia
para o futuro, torna-se o tempo da suspensão: suspende-se a saída de casa,
suspende-se a formação de família, suspende-se a maternidade ou paternidade,
suspende-se o projeto de vida, suspende-se a esperança. O capitalismo prometeu
que desenvolvimento tecnológico e crescimento econômico levariam a mais
liberdade individual, mobilidade social e segurança material. Mas a realidade
contemporânea mostra jovens mais qualificados vivendo mais inseguros;
trabalhadores empregados incapazes de pagar contas; famílias adiando cuidados
médicos; adultos retornando à dependência familiar; moradia convertida em
privilégio. É nesse ponto que o tema do adoecimento psicopatológico causado
pela superexploração do trabalho deve ingressar no centro da análise. A crise
contemporânea do capitalismo não se manifesta apenas como queda de crescimento,
instabilidade financeira ou bolha de ativos. Ela aparece também como sofrimento
psíquico massificado. Antes de se tornar crise aberta dos mercados, ela aparece
como ansiedade, depressão, burnout, pânico, insônia, exaustão, medo de
demissão, perda de sentido e colapso subjetivo diante de uma organização do
trabalho que exige disponibilidade total, produtividade crescente e adaptação
permanente.
O capitalismo contemporâneo já não explora
apenas a força física do trabalhador. Ele captura sua atenção, sua linguagem,
sua criatividade, sua afetividade, sua capacidade relacional e até sua
esperança. O trabalhador não vende apenas horas de trabalho. Vende energia
psíquica, disponibilidade emocional, velocidade de resposta, capacidade de
absorver pressão e disposição para transformar sofrimento em desempenho. A
psicodinâmica do trabalho, especialmente a partir de Christophe Dejours,
permite compreender que o adoecimento mental não nasce apenas de uma
fragilidade individual. Ele emerge da relação concreta entre sujeito e
organização do trabalho. O sofrimento aparece quando há ruptura entre o
trabalho prescrito e o trabalho real; quando o trabalhador é impedido de
mobilizar sua inteligência prática; quando o reconhecimento desaparece; quando
a cooperação é substituída pela competição; quando metas abstratas, rankings,
algoritmos e comandos gerenciais negam a experiência concreta do trabalhador. Essa
perspectiva permite superar a leitura moralizante do adoecimento. Não se trata
de um indivíduo fraco diante de um mundo exigente. Trata-se de um mundo
organizado para exigir mais do que o corpo e o psiquismo podem sustentar. A
superexploração do trabalho não deve ser compreendida apenas como aumento da
jornada ou redução salarial direta. Ela se expressa também na intensificação
invisível do trabalho: metas inalcançáveis, cobrança permanente, vigilância
digital, disponibilidade fora do expediente, medo de substituição tecnológica,
precarização contratual e responsabilização individual por problemas
estruturais.
É aqui que o capitalismo flexível revela sua
violência específica. Sob a promessa de autonomia, mobilidade, inovação e
empreendedorismo de si, ele transfere ao indivíduo os riscos da instabilidade
sistêmica. A empresa flexibiliza custos, vínculos, equipes, jornadas e metas; o
trabalhador absorve ansiedade, culpa, insegurança e adoecimento. A
flexibilidade do capital torna-se rigidez psíquica para quem trabalha. Aquilo
que aparece nos relatórios empresariais como eficiência aparece na vida
concreta como colapso nervoso. A inteligência artificial intensifica essa
contradição. Ela poderia reduzir jornadas, democratizar conhecimento e libertar
tempo humano. Mas, sob comando monopolista e financeiro, tende a ser
incorporada como tecnologia de corte de custos, vigilância, substituição,
aceleração e controle. A IA não chega, para a maioria dos trabalhadores, como
promessa de descanso. Chega como ameaça silenciosa: “serei substituído?”, “meu
trabalho ainda terá valor?”, “quantas tarefas a mais terei de cumprir agora que
a máquina aumentou a produtividade esperada?”.
Essa é a conexão mais profunda entre crise
financeira e adoecimento mental. O capital fictício antecipa lucros futuros; a
organização do trabalho antecipa sofrimento presente. O mercado precifica uma
produtividade que ainda não se realizou; a gestão cobra do trabalhador uma
performance que seu corpo e sua mente talvez não consigam sustentar. Assim, a
bolha da inteligência artificial não é apenas uma bolha de ativos. É também uma
bolha de expectativas humanas insuportáveis.
A crise psicopatológica do trabalho não é uma
externalidade do capitalismo contemporâneo. Ela é parte de seu modo de
funcionamento. A depressão, a ansiedade, o burnout e o pânico não podem ser
reduzidos a categorias clínicas isoladas quando aparecem massivamente em
ambientes organizacionais marcados por metas agressivas, competição interna,
medo, assédio, invisibilidade e ausência de reconhecimento. O que aparece como
diagnóstico individual muitas vezes é a forma clínica de uma violência social. Essa
talvez seja uma das violências mais sofisticadas do capitalismo contemporâneo:
produzir sofrimento estrutural e depois privatizar sua explicação. O que é
social aparece como psicológico. O que é político aparece como clínico. O que é
exploração aparece como falta de resiliência. O que é organização patogênica do
trabalho aparece como fragilidade pessoal do trabalhador.
Contra essa inversão, é necessário recolocar
o adoecimento mental no centro da crítica econômica. A crise do capitalismo é
também crise da alma trabalhadora. O sistema exige que o indivíduo seja
permanentemente produtivo em uma economia permanentemente instável. Exige
serenidade em meio à ameaça, criatividade em meio ao medo, engajamento em meio
à exaustão, flexibilidade em meio à precarização. Depois, quando o trabalhador
adoece, o mesmo sistema o trata como problema individual, custo previdenciário,
baixa produtividade ou falha de adaptação.
O que está diante de nós, portanto, não é
simplesmente uma possível “bolha da IA”, entendida como fenômeno financeiro
isolado. A bolha da inteligência artificial é expressão de algo mais profundo:
a tentativa do capital de encontrar uma nova fronteira de valorização num
momento de baixo crescimento estrutural, saturação de mercados, concentração
monopolista, instabilidade geopolítica, pressão sobre a taxa de lucro e colapso
subjetivo da força de trabalho.
A inteligência artificial aparece, nesse
contexto, como promessa de salvação produtiva. Mas, sob o comando do capital,
tende a se converter também em tecnologia de vigilância, intensificação do
trabalho, substituição de empregos, controle algorítmico, precarização e
concentração de poder. A máquina poderia reduzir jornadas, democratizar
conhecimento, ampliar capacidades humanas e liberar tempo social. Mas,
subordinada à acumulação privada, tende a chegar ao trabalhador como ameaça,
meta, corte, monitoramento e ansiedade. A contradição é brutal: a sociedade
produz instrumentos técnicos capazes de ampliar a liberdade humana, mas os
organiza segundo uma lógica que amplia a dominação econômica. Essa é a
diferença entre desenvolvimento das forças produtivas e emancipação social. Uma
tecnologia revolucionária pode se tornar socialmente regressiva se estiver
aprisionada pela forma-mercadoria. A bolha mais perigosa, portanto, talvez não
seja apenas a financeira. A bolha mais profunda é ideológica: a crença de que o
capitalismo poderá resolver, por meio de uma nova tecnologia, contradições que
são sociais, políticas e históricas. A inteligência artificial pode aumentar
produtividade, mas não resolve a desigualdade se os ganhos forem apropriados
por monopólios. Pode automatizar tarefas, mas não garante redução de jornada se
o poder permanecer nas mãos do capital. Pode reorganizar a produção, mas não
elimina a exploração se a propriedade dos meios tecnológicos continuar
concentrada. Se houver uma crise, ela provavelmente será narrada como excesso
de entusiasmo, correção de mercado, falha regulatória ou problema de liquidez.
Mas essa explicação será insuficiente. A crise será, antes de tudo, o momento
em que o capital fictício criado em torno da promessa tecnológica encontrará os
limites da produção real de valor. Será o instante em que o futuro antecipado
pelos mercados exigirá comprovação no presente – e talvez descubra que grande
parte da riqueza precificada era expectativa, não substância.
Em 2008, a crise revelou que milhões de
contratos hipotecários não poderiam sustentar a pirâmide financeira construída
sobre eles. Na próxima crise, talvez se revele que a inteligência artificial,
embora real e poderosa, não consegue sustentar sozinha a massa de expectativas,
dívidas, valuations e monopólios erguidos em seu nome. O
roteiro possível é conhecido: primeiro, uma correção nas empresas mais
valorizadas; depois, retração de investimento; em seguida, inadimplência em
empresas frágeis; depois, pressão sobre fundos de crédito privado; por fim,
intervenção estatal direta ou indireta para evitar contágio sistêmico. Mais uma
vez, os ganhos terão sido privatizados, enquanto as perdas buscarão abrigo no
Estado, no orçamento público, no desemprego, na austeridade e no sofrimento
social. A questão decisiva, portanto, não é apenas prever qual bolha vai
estourar. É compreender por que o capitalismo precisa produzir bolhas
sucessivas para continuar funcionando. A resposta está na própria lógica da
acumulação: quando a valorização produtiva encontra limites, o sistema antecipa
valor futuro por meio de ativos financeiros; quando a renda do trabalho não
sustenta a demanda, expande o crédito; quando a concorrência reduz margens,
intensifica a monopolização; quando a legitimidade social se desgasta, recorre
à guerra, à austeridade e ao nacionalismo econômico; quando o trabalhador
adoece, privatiza o sofrimento e o converte em diagnóstico individual.
A próxima crise, se vier, não será um
acidente externo ao capitalismo. Será uma manifestação de sua racionalidade
interna. O capital não entra em crise porque deixa de funcionar. Entra em crise
porque funciona de acordo com sua própria lógica: acumular, concentrar,
antecipar, explorar, deslocar e, quando necessário, destruir valor para
reconstruir as condições de uma nova rodada de acumulação. A inteligência
artificial não é o inimigo. A tecnologia não é o problema em si. O problema é
uma civilização que transforma cada avanço técnico em instrumento de acumulação
privada, cada ganho de produtividade em ameaça ao trabalho, cada inovação em
monopólio, cada crise em oportunidade de concentração e cada promessa de futuro
em ativo financeiro.A próxima bolha pode estar na IA financeirizada. O
mecanismo de contágio pode estar no crédito privado. A falha secundária pode
estar nos imóveis comerciais. Mas o núcleo da crise é mais profundo: o
capitalismo global já não consegue oferecer à humanidade uma promessa universal
de progresso. Consegue produzir máquinas inteligentes, mas não consegue
produzir uma sociedade racional. Consegue organizar redes planetárias de dados,
mas não consegue garantir saúde, moradia, trabalho digno e estabilidade
democrática. Consegue antecipar lucros futuros, mas não consegue assegurar
futuro à vida. Essa é a verdadeira crise: não apenas a queda possível dos
ativos, mas a queda concreta da vida abaixo de seu mínimo humano. E quando a
vida já não cabe no salário, quando a juventude já não cabe na promessa, quando
a tecnologia já não cabe na esperança e quando o trabalho já não cabe no
psiquismo, a crise deixa de ser previsão econômica. Torna-se experiência
histórica.
Essa crise já começou.
Fonte:
Por Flaviano Correia Cardoso, no Le Monde

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