Quem
é o maior jogador de todas as Copas?
Tentar examinar os milhares de jogadores que
participaram de 22 torneios realizados ao longo de quase um século, para
escolher as 10 maiores lendas da Copa do Mundo da
Fifa de Futebol Masculino de todos os
tempos, é uma tarefa gigantesca.
Para mim, os seis ou sete primeiros são
óbvios, mesmo que a ordem possa ser objeto de discussão. Mas preencher as vagas
restantes, sem dúvida, irá gerar grandes discussões.
Não sobrou lugar, por exemplo, para o
alemão Miroslav Klose. O maior artilheiro da história das Copas poderia vir em
um disputado 11º lugar.
Entre os brasileiros, foi difícil não incluir
Garrincha (1933-1983), o surpreendente craque das pernas tortas, do Botafogo e
da seleção nacional.
Ou deixar de fora Roberto Baggio, um
verdadeiro ícone italiano, e o atacante francês Just Fontaine (1933-2023),
artilheiro da Copa de 1958, com 13 gols em apenas cinco jogos.
Outras lendas do futebol também mereceriam
ser mencionadas, como o ícone holandês Johan Cruyff (1947-2016), o artilheiro
português Eusébio (1942-2014) e a máquina alemã de fazer gols Gerd
Müller (1945-2021). Uma lista dos top 20 talvez fosse mais fácil?
Já o belo coletivo da seleção
espanhola, campeã do mundo
de 2010, fez com que nenhum jogador específico
entrasse para a lista.
Mas quem fez esta lista? Bem, eu escolhi o
meu top 10 e aqui está ele. São os jogadores que, para mim, são sinônimos de
Copa do Mundo.
>>>> Quais seriam os seus 10
escolhidos?
<><> 10. Geoff Hurst, Inglaterra,
campeão do mundo em 1966
A história é bem conhecida pelos torcedores
ingleses.
Ninguém esperava que Geoff Hurst entrasse em
campo naquele dia. Afinal, o astro da Inglaterra Jimmy Greaves (1940-2021),
lesionado no último jogo da fase de grupos da Copa de 1966, contra a França, se
recuperou a tempo para a final contra a Alemanha Ocidental.
A torcida clamava pela presença de Greaves no
Estádio de Wembley. Mas o técnico Alf Ramsey (1920-1999) insistiu com Hurst,
mesmo que ele tivesse iniciado sua carreira internacional poucos meses antes.
O resto é história. O atacante do West Ham
jogou uma final fabulosa, marcando três gols contra os alemães — um deles,
discutido até hoje.
A seleção inglesa venceu por 4x2 e conseguiu,
dentro de casa, seu único título mundial até aqui.
Hurst não era o jogador mais simbólico
daquela seleção, nem o mais talentoso. Mas é impossível ignorar um hat-trick em
uma final de Copa do Mundo.
O feito do atacante inglês só seria repetido
em 2022, na final da Copa do Catar. Mas os três gols de Kylian Mbappé não
impediram que a França perdesse o título para a Argentina nos pênaltis.
<><> 9. Cafu, Brasil, campeão do
mundo em 1994 e 2002
O comediante escocês Kevin Bridges foi o
autor do passe que me levou a incluir Cafu nesta lista.
No especial de TV da BBC In Search of
the Beautiful Game ("Em busca do jogo bonito", em tradução
livre), Bridges sai da Escócia rumo a Copacabana, para encontrar o jogo bonito.
Lá, ele conhece o lendário Cafu, recordista
de jogos na seleção brasileira e o único jogador do mundo a participar de três
finais de Copas do Mundo seguidas (1994, 1998 e 2002).
O implacável lateral-direito deixou o banco
de reservas na final de 1994, quando o Brasil venceu a Itália nos pênaltis.
Quatro anos depois, foi vice-campeão na França.
Foi ele quem ergueu o troféu com a tarja de
capitão na final da Copa de 2002, em Yokohama, no Japão. E ainda disputaria sua quarta
Copa do Mundo na Alemanha, em 2006.
Cafu faz parte da realeza da Copa do Mundo.
Miroslav Klose é único a ter mais vitórias que o brasileiro em Mundiais.
Como Lionel Messi, Cafu participou de 16
vitórias da sua seleção (Klose tem uma vitória a mais).
E também é um herói fiel às suas raízes.
Antes de erguer o troféu no penta em 2002, ele rabiscou "100% Jardim
Irene" na sua camisa amarela, em homenagem ao bairro onde se criou, em São
Paulo.
<><> 8. Paolo Rossi, Itália,
campeão do mundo em 1982
O conto de fadas de Paolo Rossi (1956-2020)
na Copa do Mundo começou como carrasco do Brasil em Barcelona, na Espanha.
O jogo entre Brasil e Itália, pela Copa do
Mundo de 1982, é um dos mais icônicos do torneio em todos os tempos. O azul das
camisas italianas, encharcadas de suor, enfrentou o vibrante amarelo da seleção
considerada favorita, ao som das barulhentas cornetas do Estádio Sarriá.
A defesa era considerada o ponto forte da
seleção italiana. Mas, naquele dia, Rossi foi o herói da Azzurra com três gols:
dois no primeiro tempo e o gol da vitória por 3x2, aos 29 minutos do segundo.
Foram os primeiros gols do atacante após o
seu retorno à seleção da Itália. Ele havia sido suspenso por dois anos, devido
a um escândalo de combinação de resultados. Rossi sempre negou a acusação.
Mestre na cobrança de pênaltis, Paolo Rossi
voltou a marcar contra a Polônia, convertendo duas penalidades na vitória
italiana por 2x0 nas semifinais. E abriu o marcador quando a Itália despachou a
Alemanha Ocidental por 3x1 na grande final, no Estádio Santiago Bernabéu, em
Madri.
Foi o primeiro título italiano em Copas do
Mundo desde 1938, na França.
Os seis gols de Paolo Rossi valeram a ele a
Chuteira e a Bola de Ouro da Copa de 1982, além do prêmio de melhor jogador do
mundo daquele ano.
<><> 7. Zinédine Zidane, França,
campeão do mundo em 1998
Aos gritos de "Zidane presidente!",
a imagem de Zinédine Zidane e a mensagem em francês Merci, Zizou iluminaram
o Arco do Triunfo, em Paris, naquela noite de 1998.
Mais de um milhão de felizes torcedores se
aglomeraram no Champs-Élysées para comemorar o primeiro título mundial da
França.
Filho de imigrantes argelinos, Zidane foi
criado nos arranha-céus do norte de Marselha, na França. Ele era o talismã e o
rosto da multicultural seleção francesa de 1998, que finalmente conquistou para
o país o maior título do futebol mundial.
"Percebemos que Zidane era o jogador que
faria a diferença", declarou à BBC o zagueiro francês Lilian Thuram.
O legado do majestoso meio-campista francês
para a Copa do Mundo é uma mistura de gols decisivos, jogadas de balé
brilhantes e expulsões de cabeça quente.
A derrota da França na final de 2006 para a
Itália é lembrada, naturalmente, pela cabeçada de Zidane contra o italiano
Marco Materazzi. Mas ele também foi suspenso por dois jogos em 1998, ao ser
expulso na vitória francesa por 4x0 contra a Arábia Saudita, na fase de grupos.
Zidane voltou nas quartas de final, liderando
a França contra a Itália (0x0 no tempo normal e 4x3 nos pênaltis) e na
semifinal contra a Croácia (2x1). Até que veio sua aula de mestre contra o
Brasil, com dois gols de cabeça em cobranças de escanteio.
A vitória da França por 3x0 na final da Copa
levou às enormes comemorações ocorridas em Paris.
<><> 6. Kylian Mbappé, França,
campeão do mundo em 2018
A história de Mbappé em Copas do Mundo ainda
está sendo escrita.
Com 27 anos e, possivelmente, ainda dois ou
até três torneios pela frente, o superastro francês pode muito bem disputar o
topo desta lista até sua aposentadoria.
O atacante se destacou na Rússia, em 2018,
com 19 anos de idade. Ele foi o mais jovem jogador a marcar pela seleção
francesa; o primeiro adolescente a marcar duas vezes em um mata-mata da Copa,
desde Pelé, em 1958; e o primeiro adolescente a marcar em uma final de Copa do
Mundo, também desde Pelé, na Copa da Suécia.
Mbappé fez dois gols na vitória da França
contra a Argentina por 4x3, nas oitavas de final da Copa de 2018, e marcou o
quarto gol na final contra a Croácia, fechando a vitória francesa por 4x2.
A carreira de Mbappé certamente teve seu auge
nas Copas do Mundo.
Ele foi prolífico no Paris St. Germain e,
agora, no Real Madrid, mas não conseguiu vencer a Champions League com nenhum
dos dois times. É na seleção francesa, no maior dos palcos do futebol mundial,
que a estrela de Mbappé brilha com mais força.
O seu desempenho na final contra a Argentina
no Catar, em 2022, com um cintilante hat-trick, por si só já
justificaria a segunda conquista do título de futebol mais importante do mundo
— não estivesse ele frente a Lionel Messi & Cia.
<><> 5. Franz Beckenbauer,
Alemanha Ocidental, campeão do mundo em 1974 (como jogador) e 1990 (como
técnico)
Vice-campeão em 1966 e terceiro colocado no
México, quatro anos depois, Franz Beckenbauer (1945-2024) finalmente pôs as
mãos no troféu em 1974, como capitão da Alemanha Ocidental, após a vitória na
final sobre a empolgante seleção holandesa por 2x1.
Zagueiro de jogo elegante, Beckenbauer
liderou os donos da casa contra o carrossel holandês de Johan Cruyff, mesmo sem
ter sequer tocado na bola quando Johan Neeskens (1951-2024) abriu o placar para
a Holanda em cobrança de pênalti, aos dois minutos de jogo.
Aquela seria sua terceira e última
participação em Copas do Mundo como jogador. Mas o Kaiser voltaria
a liderar a seleção do seu país como treinador, em duas finais sucessivas.
Na Copa de 1986, no México, a Alemanha
Ocidental perdeu a final para a Argentina, por 3x2. Jorge Burruchaga marcou o
gol decisivo dos argentinos, a seis minutos do fim do tempo regulamentar.
Mas, em 1990, na Itália, a seleção dirigida
por Beckenbauer venceu a mesma Argentina na final, por 1x0, com gol de pênalti
de Andreas Brehme (1960-2024).
Além do alemão, apenas dois outros atletas
foram campeões mundiais como jogadores e como técnicos. Um deles foi o francês
Didier Deschamps, campeão como jogador em 1998 e como técnico, em 2018.
Beckenbauer e Deschamps só são superados por
Mário Jorge Lobo Zagallo (1931-2024), campeão como jogador em 1958 e 1962, como
técnico em 1970 e como coordenador técnico, em 1994.
<><> 4. Lionel Messi, Argentina,
campeão do mundo em 2022
Eles eram os dois melhores jogadores da sua
geração. E a Copa teimava em não chegar para nenhum deles.
Lionel Messi e Cristiano Ronaldo já haviam
passado dos 30 anos de idade em 2022, sem vencerem a Copa do Mundo. E o ídolo
argentino vislumbrava uma volta para casa mais cedo no Catar, quando sua
seleção perdeu surpreendentemente para a Arábia Saudita logo na estreia, por
2x1.
Era a quinta Copa de Messi, que já havia
liderado a Argentina até a final de 2014, no Brasil. E ele tomou para si a
responsabilidade.
Um gol e uma assistência selaram o placar de
2x0 no segundo jogo, contra o México. Nas oitavas de final, ele marcou
novamente contra a Austrália e a Argentina venceu por 2x1.
Seguiu-se um gol de pênalti no empate contra
a Holanda por 2x2 nas quartas de final, com a Argentina se classificando nos
pênaltis. E, depois, mais um — o primeiro da vitória por 3x0 sobre a Croácia
nas semifinais.
Na clássica final contra a França, Messi
voltou a ficar inspirado.
Ele marcou duas vezes no empate em 3x3,
chegando a sete gols no torneio. E converteu sua cobrança na decisão por
pênaltis, que levou a Argentina a ganhar sua primeira Copa do Mundo depois do
heroico feito de Diego Maradona, em 1986.
<><> 3. Ronaldo, Brasil, campeão
do mundo em 1994 e 2002
Uma famosa história de redenção.
Como Cafu, Ronaldo Nazário também fez parte
da equipe tetracampeã de 1994. Mas, com apenas 17 anos, não chegou a entrar em
campo.
Quatro anos depois, na Copa da França, o
atacante brasileiro estava na sua melhor fase. Uma invencível combinação de
velocidade, técnica e finalizações implacáveis o transformou no melhor jogador
do planeta na época.
Ele marcou quatro gols na trajetória do
Brasil até a final. Mas uma convulsão horas antes do jogo e a incerteza se ele
teria ou não condições de jogo levaram Ronaldo a jogar muito menos que o
habitual. A França venceu o Brasil por 3x0 e se sagrou campeã do mundo pela
primeira vez.
Entre 1998 e 2002, a carreira de Ronaldo foi
prejudicada por uma séria lesão no joelho. Ronaldo pouco jogou pela Inter de
Milão e pela seleção brasileira e sua inclusão no grupo que iria disputar a
Copa era uma dúvida.
Mas, nos estádios do Japão e da Coreia do
Sul, ele retomou seu brilho, marcando oito gols — incluindo os dois do Brasil
na final contra a Alemanha em Yokohama, apagando as dolorosas lembranças de
Paris.
Em 2006, Ronaldo voltaria à Copa do Mundo na
Alemanha, para estabelecer a marca até então inédita de 15 gols em Mundiais.
Seu recorde só foi batido na Copa de 2014 pelo alemão Miroslav Klose, durante o
fatídico 7x1 contra o Brasil.
<><> 2. Diego Maradona,
Argentina, campeão do mundo em 1986
Aqui, ele é o segundo da lista, mas ninguém
atrai mais a atenção do que Diego Armando
Maradona (1960-2020). Basta olhar para suas
campanhas na Copa do Mundo.
Com 17 anos de idade, Diego não foi convocado
para a Copa de 1978, na Argentina. O time da casa venceu a Holanda na final por
3x1, após prorrogação, para se tornar campeão pela primeira vez.
A primeira experiência de Maradona no maior
torneio de futebol do planeta viria quatro anos mais tarde, na Espanha. O
notável atacante acabou sendo expulso em um tenso confronto contra o Brasil,
que venceu por 3x1.
Mas a grande Copa de Maradona seria a de
1986, no México. Sua campanha, seguramente, é considerada o melhor torneio
pessoal de um jogador na história dos Mundiais.
Maradona levou como maior recordação daquela
Copa seus dois gols marcados contra a Inglaterra nas quartas de final.
O primeiro, claro, foi o infame momento da
"Mão de Deus".
Mas o segundo foi um lance de pura
genialidade. Uma sequência de dribles a partir do campo de defesa deixou os
jogadores ingleses paralisados no gramado do Estádio Azteca, até o chute a gol, na saída do goleiro Peter Shilton.
A Argentina venceu o jogo por 2x1. Maradona
voltaria a marcar duas vezes na semifinal contra a Bélgica (2x0) e levaria a
Argentina à vitória na final contra a Alemanha Ocidental por 3x2, atingindo um
total de cinco gols e cinco assistências no torneio.
O que se seguiu foi o lado triste de Maradona
nas Copas do Mundo. Em 1990, na Itália, a Argentina perdeu a final para a
Alemanha por 1x0.
Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, El
Pibe de Oro deixou o torneio de forma dramática, algo que pareceu
persegui-lo como uma sombra. Ele voltou para casa mais cedo, após testar
positivo para substâncias proibidas, ainda na fase de grupos.
<><> 1. Pelé, Brasil, campeão do
mundo em 1958, 1962 e 1970
Quem mais poderia ser o primeiro da lista
senão Édson Arantes do Nascimento (1940-2022), o rei Pelé?
Ele foi o único a ganhar três Copas do Mundo
como jogador, em décadas diferentes. As gerações se sucedem e o rei ainda é o
nome mais simbólico do futebol em todo o mundo.
Quando o Brasil perdeu para o Uruguai a Copa
do Mundo de 1950 no Maracanã, Pelé disse ao seu pai, Dondinho (1917-1996), que
ganharia para ele a Copa do Mundo.
O rei tinha apenas 17 anos quando explodiu no
mundo do futebol na Copa de 1958. Ele marcou três gols na semifinal contra a
França e outros dois na final contra os donos da casa, a Suécia. O Brasil
venceu as duas partidas pelo mesmo placar de 5x2.
Pelé fez parte da seleção brasileira bicampeã
de 1962, mas perdeu a maior parte do torneio devido a uma lesão no jogo de
abertura contra o México — não sem antes marcar o primeiro gol da partida,
vencida pelo Brasil por 2x0.
Ele só voltaria a campo no Chile para receber
sua medalha de campeão, após os 3x1 do Brasil na final contra a Checoslováquia.
Em 1966, na Inglaterra, já como o melhor
jogador do mundo, Pelé marcou um gol no jogo de estreia da seleção (2x0 contra
a Bulgária).
O rei saiu machucado na partida contra
Portugal, que venceu o Brasil por 3x1. A violência dos adversários o levou a
prometer que nunca mais jogaria uma Copa do Mundo.
Mas Pelé voltou na Copa de 1970. Carregando o
peso da nação no México, o rei deu o seu melhor.
Habilidoso, criativo e inovador, ele fez
brilhar a camisa amarela da seleção brasileira, que arrasou a Itália na final
por 4x1. Pelé marcou o primeiro gol e participou de outros dois.
Foram 12 gols marcados em 14 jogos em
Mundiais. O rei é o mais lendário astro da Copa do Mundo de todos os tempos,
sem sombra de dúvida.
Fonte:
BBC Sport

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