Os
labirintos laborais das plantações paulistas
O
viajante que percorrer as estradas paulistas avistará a monotonia da paisagem
de um verdadeiro mar de cana. São seis milhões de hectares, responsáveis pela
produção gigantesca de açúcar e etanol, destinados ao mercado internacional e
nacional. Além dos canaviais, o viajante também avistará as grandes máquinas,
colheitadeiras, caminhões-tanque, caminhões com até quatro gaiolas para o
transporte da cana, tratores, plantadeiras, pivôs para irrigação e distribuição
de vinhaça, além de drones e aeronaves agrícolas empregados na pulverização
aérea de herbicidas, fungicidas e fertilizantes. No entanto, avistará poucos
ônibus (Rurais) que transportam os trabalhadores.
Esse
mar de cana foi se formando a partir da década de 1960, com o surgimento de
grandes usinas em várias regiões do estado. No período entre 1960 e 2005,
predominava o corte manual da cana queimada, realizada por migrantes, vindos do
Vale do rio Jequitinhonha (MG) e de estados do nordeste do Brasil. A presença
de máquinas, pouco a pouco foi aumentando. A partir de então, o processo de
mecanização se acelerou até se completar nos dias de hoje. Este processo
resultou no estancamento das migrações permanentemente temporárias, resultando
no apagamento da memória e da história dos migrantes que labutaram nas terras
paulistas. Um verdadeiro processo de expulsão e memoricídio.
Ademais
das grandes plantações de cana, o viajante também avistará os pomares de
laranjas e os cafezais. O estado de São Paulo é o maior produtor de suco de
laranja do país, exportado, principalmente para os EUA. Nos laranjais, o
trabalho da colheita é feito manualmente pelos homens e mulheres provenientes
do Nordeste, particularmente, do estado do Piauí. Nos cafezais, predomina a
colheita mecanizada. Há também em lugares mais distanciados das estradas,
granjas para produção de ovos e aves. Em 2025, segundo dados do IEA (Instituto
de Economia Agrícola), a produção de ovos, a maior do país, foi de 16,7 bilhões
de unidades, representando um crescimento de 7% em relação ao ano anterior.
Por
mais de quatro décadas, venho acompanhando a história do trabalho e dos/as
trabalhadores/as nas terras paulistas, bem como suas metamorfoses definidas
pelas reestruturações produtivas, concentração da propriedade da terra e
domínio de grandes empresas nacionais e internacionaisi.
Meu
intento é, seguindo as pegadas de Walter Benjamin, escovar essa história a
contrapelo, por meio da metáfora do palimpsestoii, ou seja, escovar e raspar a
superfície, a fim de avistar as camadas até então invisibilizadas, escondidas.
A grandiosidade da produção do denominado agronegócio é mostrada anualmente nas
feiras, as agrishows, realizadas na cidade de Ribeirão Preto, a capital mundial
do etanol. No que diz respeito especificamente à agroindústria canavieira, o
discurso do desenvolvimento promovido pelo setor foi e tem sido bastante
acentuado. O Estado conta com a colaboração de empresários, políticos e meios
de comunicação para difundir a ideologia do etanol. A nova imagem revela os
números gigantescos da produção, mas esconde a degradação socioambiental: uso
de agroquímicos por drones e aviões e uso excessivo de água, pois cada vez mais
há a necessidade de irrigação dos canaviais em razão dos períodos de seca, sem
contar que para cada litro de etanol são consumidos 13 litros de água, e as
formas de exploração laboral, caracterizadas pela imposição de metas abusivas
que, muitas vezes, extrapolavam os limites físicos dos trabalhadores e, até
mesmo, ocorrências de trabalho escravizado, as quais têm diminuído nos últimos
anos em razão da ação da Promotoria Pública.
À
estrutura de poder econômico e político, soma-se o poder simbólico, manifesto,
sobretudo nas agrishow. Em Ribeirão Preto, no final de abril de 2025, foi
realizada a 30ª. feira, que reuniu 195 mil participantes e contou com a
exposição de 800 marcas de produtos agropecuários, e movimentou mais de 13
bilhões de reais. É a vitrine do agro, assim denominado. Helicópteros, jatos
particulares, aviões transportavam os visitantes estrangeiros e nacionais que
desembarcavam em São Paulo. Compradores, empresários se somam aos políticos
locais, prefeitos, vereadores, além de governadores, deputados, ministros e
presidentes da República (de diferentes coligações políticas). As grandes
máquinas são expostas em inúmeros estandes, pelos seus representantes.
Ademais,
a feira é, assim, o lugar da mostra da moda feminina do agro, criada por
estilistas, composta de botas, chapéus, roupas com visuais próprios. É também o
lugar onde o som da música do agronejo, de vários cantores, substitui a música
caipira ou a sertaneja. Também é o lugar onde as indústrias de tratores e
máquinas agrícolas expõem os tratores cor de rosa, um chamariz para as mulheres
trabalhadoras do agro. Os números da produção sempre se reportam aos milhões,
bilhões. A cana de açúcar ocupa quase seis milhões de hectares no estado de São
Paulo, sendo um pouco mais de 8 milhões no país. Os dados quantitativos revelam
uma produção crescente, assim como os níveis de produtividade. Na safra
2024-25, o Estado de São Paulo foi responsável por 53% da produção nacional de
cana-de-açúcar, com 26 milhões de toneladas de açúcar e 13,5 bilhões de litros
de etanol, segundo os dados da CONAB.
Na
contramão das imagens expostas nas feiras e dos discursos políticos e
midiáticos sobre a grandiosidade do agro, a proposta para o BVPS é convidar
os/as leitores/as a penetrarem nos labirintos desta produção a fim de avistarem
outras paisagens ocultadas e invisibilizadas – o mundo do trabalho. Tal como
Ariadne, convido os/as leitores/as para seguirem o fio condutor até os
labirintos onde se acham aqueles e aquelas que trabalham nessas plantações.
Oxalá, as reflexões acerca desse mundo escondido possam contribuir não só para
aumentar seus conhecimentos sobre esse tema, como também provocar outros
olhares, outras formas de ver as paisagens do mar de cana paulista.
Seguindo
esta toada, a raspagem das camadas do palimpsesto não segue uma linha do tempo
linear, mas, circular, onde tempo/espaço formam uma simbiose, constituída por
elementos contraditórios, onde verso/reverso, continuidade/descontinuidade se
acham presentes. Nas quatro décadas de pesquisa nos campos paulistas e nas
regiões de origem dos/as migrantes, pude acompanhar as mudanças e permanências
relativas à situação de homens e mulheres que contribuíram para a riqueza e
acumulação dos capitais dessas plantações.
Na
década de 1960, houve a grande transformação nas estruturas produtivas até
então, vigentes. Foi o período da chamada revolução verde, que continuou
durante a ditadura militar, sob a égide do Estado. No estado de São Paulo
predominava a cultura cafeeira até a década de 1950. Aos poucos, as grandes
usinas de cana de açúcar vão se instalando e as terras destinadas aos cafezais
foram transformadas em plantações de cana, constituindo-se no chamado mar de
cana, e em laranjais, visando a produção de suco para exportação. No que se
refere aos cafezais, a diminuição da área foi seguida por sucessivas fases de
restruturação produtiva, concentrando-se em poucos municípios, especialmente,
na região da Ata Mogiana.
Esse
processo foi caracterizado pela concentração da propriedade da terra e expulsão
de sitiantes, parceiros e arrendatários, além dos colonos, trabalhadores
residentes nas fazendas cafeeiras. Houve, assim, num curto período, a mudança
total da paisagem do mudo rural paulista. Os contingentes expulsos
instalaram-se nas periferias das cidades e, aos poucos, foram retornando às
plantações, na condição de boias frias, trabalhadores temporários, que viviam
nas cidades e trabalhavam no campo. Até os finais de 1980, eram transportados
em carrocerias de caminhões, sem nenhuma segurança, o que levou muitos à morte,
em razão dos acidentes ocorridos.
As
mulheres foram as maiores vítimas deste processo de modernização, tendo em
vista a continuidade da dominação patriarcal, antes, centrada na figura do
pai-patrão e, agora, sujeitas ao domínio dos representantes do controle e
disciplina das empresas. Ademais passaram a vivenciar a dupla jornada de
trabalho, caracterizada pelo tempo na lavoura e na esfera doméstica (trabalho
reprodutivo).
Em
razão do crescimento vertiginoso das plantações, as empresas passaram a
importar a mão de obra dos/as migrantes, provenientes do Vale do Jequitinhonha
(MG) e estados do nordeste, ou seja, regiões mais pobres do país, mormente, a
partir da crise do petróleo em 1972, quando, foi posto em prática a produção de
etanol para substituir a gasolina para os carros particulares. O Pró Álcool,
gestado pelos governos militares, impulsionou mais ainda as mudanças da
estrutura produtiva das plantações canavieiras. Paulatinamente, constituiu-se o
grande exército de trabalhadores inseridos no processo que denominei de
migrações permanentemente temporárias, no qual a permanência era temporária,
onde o viver era dividido entre o cá e lá, entre o partir e o ficar.
Durante
as décadas seguintes, centenas de milhares de migrantes temporários aportaram
às terras paulistas em busca de trabalho, a grande maioria constituída de
homens jovens, dotados de maior força física para as árduas tarefas. Ainda que
a força de trabalho feminina fosse em menor quantidade, as mulheres sempre
estiveram presentes nessas plantações, muitas vezes, exercendo as piores
tarefas como a distribuição de veneno, a recolha de pedras nos canaviais,
limpeza de curvas-de-nível, além da colheita de laranjas, por meio do uso de
escadas de ferro, e o trabalho em granjas.
A
partir dos anos de 2010, novas reconfigurações dos capitais foram sendo
implantadas, por meio da chamada agricultura 4.0, que consiste no emprego de
tecnologias avançadas e das TIs. Assim, centenas de milhares de postos de
trabalho foram extintos, sobretudo, dos migrantes, surgindo novas formas de
exploração e de inserção das mulheres como operadoras de máquinas.
Vale
ressaltar que as formas de exploração laboral não podem ser consideradas
separadamente dos processos sociais de dominação de gênero e raça/etnia. São
processos historicamente distintos, embora entrelaçados, formando uma simbiose.
Do mesmo modo, embora separados, geograficamente, os mundos do trabalho
paulista e os das regiões de origem dos migrantes, acham-se imbricados. São
processos sociais regidos pelos mesmos determinantes.
Fonte:
Por Maria Moraes, para a coluna da Biblioteca Virtual do Pensamento Social
(BVPS)

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