A
educação pública argentina sob Javier Milei
A Argentina atravessa um dos momentos mais
delicados de sua história recente. Em meio à inflação persistente, ao avanço da
pobreza e às severas políticas de ajuste implementadas pelo governo de Javier
Milei, marcadas pela chamada “motosserra” como símbolo de cortes profundos no
Estado, instituições historicamente associadas à mobilidade social e ao
desenvolvimento nacional passaram a ocupar o centro do debate público.
Entre elas, destaca-se o sistema
universitário público argentino, reconhecido por seu caráter gratuito, laico e
inclusivo, mas que atualmente enfrenta cortes orçamentários, deterioração da
infraestrutura, paralisação de atividades e perda acelerada do poder de compra
de docentes e trabalhadores da educação.
Nesse contexto, a crise universitária ganhou
as ruas em diferentes cidades do país. Em Rosário, milhares de estudantes,
professores, funcionários não-docentes e cidadãos participaram, em 12 de maio,
da mais recente Marcha Federal Universitária. A mobilização percorreu o trajeto
entre as faculdades da Universidade Nacional de Rosario (UNR) e o Monumento à
Bandeira, reunindo diferentes setores em defesa da educação pública.
Mais que uma manifestação contra salários
defasados ou repasses insuficientes, o ato expressou a percepção de que está em
disputa um dos principais patrimônios históricos da Argentina: sua universidade
pública, responsável por desempenhar papel central na produção científica, na
democratização do ensino superior e na formação social do país.
Ao acompanhar e participar da marcha como
estudante de intercâmbio, pude perceber como a defesa das universidades
ultrapassa os limites do ambiente acadêmico e mobiliza amplos setores da
sociedade argentina. Entre palavras de ordem, cartazes e debates que ocupavam
as ruas de Rosário, emergia a sensação de que a crise atual não se restringe
apenas ao financiamento da educação, mas envolve os próprios rumos do Estado e
do desenvolvimento nacional.
Essa percepção ganha ainda mais força diante
da deterioração das condições de trabalho nas universidades públicas. Em
diversas instituições nacionais, professores com dedicação exclusiva e formação
em nível de mestrado e doutorado passaram a receber salários incapazes de
cobrir sequer a cesta básica familiar. Muitos docentes universitários, mesmo
ocupando cargos de alta qualificação, acumulam hoje múltiplos empregos, dão
aulas em diferentes instituições ou recorrem a trabalhos informais para
complementar a renda.
Há casos de professores ingressantes
recebendo valores equivalentes a pouco mais de 300 ou 400 dólares mensais,
enquanto pesquisadores do sistema científico nacional denunciam que seus
salários perderam mais da metade do poder de compra desde o início do governo
de Milei. A consequência direta dessa deterioração é a evasão de profissionais
altamente qualificados, o desestímulo à carreira acadêmica e a paralisação
gradual de projetos de pesquisa e extensão fundamentais para a sociedade
argentina.
<><> A asfixia orçamentária
Para compreender a magnitude da crise, é
preciso olhar para os números frios da gestão de La Libertad Avanza.
Ao assumir em dezembro de 2023, o governo de Javier Milei tomou uma decisão
drástica que selaria o destino das universidades para o ano seguinte: prorrogou
o orçamento de 2023 para 2024. Em um país com estabilidade econômica, isso
seria um ajuste severo; na Argentina, com uma inflação interanual que superou
os 211% no final de 2023 e continuou galopante ao longo de 2024, congelar o
orçamento nominal significou, na prática, uma redução real catastrófica.
Para 2026, o governo orçou $ 4,8 trilhões (em
pesos argentinos) para o financiamento do ensino superior. Se consideradas as
projeções inflacionárias do Levantamento de
Expectativas do Mercado (REM), do Banco
Central da República Argentina, e caso não haja atualização das partidas
orçamentárias, isso representará uma queda real de 18,4% em relação a 2025 e de
42% em comparação com 2023, último ano da gestão do ex-presidente Alberto
Fernández (Frente de Todos). Para que as universidades recuperassem o mesmo
nível real de financiamento de 2023, o orçamento deveria alcançar cerca de $
8,4 trilhões.
Os números do primeiro trimestre de 2026
reforçam essa tendência de deterioração. O governo destinou aproximadamente $
1,5 trilhão às universidades nacionais, o que representa uma retração real de
7,9% em relação ao mesmo período de 2025 e de 30,7% frente a 2023. As despesas
operacionais, destinadas à manutenção de edifícios, pagamento de serviços e
funcionamento cotidiano das instituições, registraram queda de 17,2% em termos
reais na comparação anual e de 40,8% em relação a 2023.
Estudos do Conselho Interuniversitário
Nacional (CIN) e de consultorias econômicas independentes demonstraram que, no
primeiro trimestre de 2024, o orçamento universitário sofreu a maior queda
interanual em termos reais das últimas décadas. As universidades começaram o
ano com o mesmo dinheiro que tinham mais de doze meses antes, mas pagando
tarifas de luz, gás e insumos básicos que haviam sofrido aumentos de 300% a
500% devido à desregulamentação dos serviços públicos promovida pelo próprio
Poder Executivo.
A resposta inicial do governo diante da
iminência de um apagão universitário foi oferecer um aumento de 70% e,
posteriormente, após forte pressão social, de 270%, exclusivamente para os
chamados “gastos de funcionamento”. No entanto, o que o discurso oficial tentou
ocultar é que os gastos de funcionamento representam apenas cerca de 10% a 15%
do orçamento total das universidades. Os outros 85% a 90% correspondem aos
salários de professores e funcionários não-docentes, que ficaram dramaticamente
defasados. Muitos docentes universitários argentinos, profissionais com
mestrado e doutorado, encontram-se hoje com rendimentos que os colocam abaixo
da linha da pobreza.
<><> As marchas federais
universitárias
Foi essa asfixia premeditada que catalisou as
Marchas federais universitárias, mobilizações transversais que uniram
diferentes espectros políticos e sociais. Em Rosário, assim como em Buenos
Aires, Córdoba, Mendoza e dezenas de outras cidades, as ruas foram tomadas não
apenas pela comunidade acadêmica, mas por famílias inteiras. A universidade
pública na Argentina é a instituição de maior prestígio e confiança do país. É
o grande motor de mobilidade social que permitiu que filhos de trabalhadores se
tornassem médicos, engenheiros, sociólogos e pesquisadores de renome
internacional.
A mobilização da qual participei em Rosário
foi uma demonstração clara de que a sociedade argentina traçou uma linha
vermelha. O governo de Javier Milei, que até então parecia blindado por seu
núcleo duro de eleitores e pela narrativa do ajuste necessário, deparou-se com
o seu primeiro grande limite social. As faixas clamavam que “a educação não se
vende, se defende” e repudiavam a tentativa de transformar o direito à educação
superior em um bem de mercado acessível apenas a quem pode pagar.
Apesar da contundência das ruas, a resposta
da Casa Rosada oscilou entre a indiferença e a agressividade. O governo lançou
campanhas de difamação nas redes sociais, seu campo de batalha predileto,
acusando as universidades de serem centros de “doutrinamento” esquerdista e
alegando, falsamente, que as instituições se recusavam a ser auditadas.
A realidade é que as universidades nacionais
são entidades profundamente auditadas por seus próprios conselhos superiores e
pela Auditoria Geral da Nação (AGN), que depende do Congresso Nacional. O
argumento da “falta de transparência” foi meramente uma cortina de fumaça moral
para justificar o desfinanciamento.
<><> O veto à lei de
financiamento
O ápice do ataque institucional ocorreu em
setembro de 2024, quando o Congresso Nacional aprovou a Lei de Financiamento
Universitário (Lei nº. 27.757), em resposta à crescente mobilização social e à
deterioração do financiamento das universidades. A legislação previa a
atualização bimestral dos orçamentos vinculada ao IPC do INDEC, além da
recomposição salarial de docentes e não-docentes e da garantia de programas de
bolsas, pesquisa e extensão.
Em um ato que evidenciou suas prioridades
políticas e econômicas, o presidente Javier Milei vetou integralmente a lei por
meio do Decreto 879/2024, publicado em 3 de outubro de 2024. Para sustentar o
veto, o governo articulou apoio parlamentar e conseguiu reunir os votos
necessários na Câmara dos Deputados para mantê-lo, consolidando a decisão
executiva.
Nos meses seguintes, a crise evoluiu para um
novo ciclo institucional. Em 2025, o Congresso aprovou a Lei nº 27.795, que
retomou e ampliou os mecanismos da norma anterior, estabelecendo novamente a
atualização automática por inflação e a recomposição de salários e bolsas, com
amplo apoio do sistema universitário e científico, incluindo o Conselho
Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET) e o Conselho
Interuniversitário Nacional (CIN).
Apesar de sancionada e promulgada, a lei teve
sua aplicação suspensa pelo Poder Executivo por meio do Decreto 759/2025, sob
justificativa de restrições fiscais. Em dezembro de 2025, a Corte Suprema
determinou sua aplicação, reforçando a obrigatoriedade do cumprimento,
especialmente em relação a salários e bolsas.
Em 2026, o governo passou a recorrer
judicialmente para adiar sua implementação, mantendo o impasse aberto. Ainda
que decisões judiciais tenham reafirmado sua vigência, a execução plena da lei
segue parcialmente bloqueada, consolidando um cenário de conflito estrutural
entre o sistema universitário e o Executivo. Nesse contexto, o estrangulamento
orçamentário deixou de ser uma crise pontual e passou a configurar um regime
prolongado de disputa sobre o papel do Estado no financiamento da educação
superior.
O colapso da educação se estende,
inevitavelmente, ao sistema científico. O Conicet, instituição de excelência
global, sofreu cortes draconianos. O Ministério da Ciência e Tecnologia foi
rebaixado a secretaria, as bolsas de pesquisa foram reduzidas drasticamente e
os salários dos cientistas despencaram.
O pressuposto do modelo de La
Libertad Avanza é que, se o conhecimento científico tem algum valor, o
mercado privado o financiará. Essa visão mercantilista ignora que, nas nações
mais desenvolvidas do mundo, a pesquisa básica e a formação de alto nível
dependem estruturalmente de investimentos massivos do Estado.
Para quem vive o dia a dia da universidade
pública, o colapso tem rosto e rotina. Traduz-se em hospitais universitários
sem insumos médicos, projetos de extensão territorial paralisados em bairros
vulneráveis que dependem dessa assistência, e uma precarização brutal da saúde
mental e do bem-estar dos professores, que se desdobram em múltiplos empregos
para tentar fechar as contas do mês. As próprias reitorias precisaram declarar
emergência econômica, financeira e administrativa, cortando programas vitais apenas
para conseguir manter as portas abertas e as luzes acesas.
O que o governo de Javier Milei está
provocando não é uma mera “correção de rumos” econômicos; é o desmanche
sistemático de um patrimônio histórico. A Argentina detém prêmios Nobel em
ciências justamente por causa do seu sistema público de ensino. Ao asfixiar as
universidades, o presidente compromete irremediavelmente o desenvolvimento
tecnológico, econômico e cultural do país para as próximas décadas.
A marcha em que estive presente em Rosário
não foi um evento isolado, mas o sintoma de uma ferida aberta. O colapso da
educação pública sob o governo de Javier Milei é uma tragédia induzida, um
projeto deliberado de exclusão que transforma o direito universal ao
conhecimento em privilégio de casta.
Contudo, a resistência demonstrada nas ruas
prova que o povo argentino não está disposto a entregar, sem luta, o futuro de
suas próximas gerações. A educação pública sobreviveu a ditaduras e a colapsos
econômicos no passado; a aposta agora é provar que ela também sobreviverá à
motosserra de Javier Milei.
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O Desmonte da Educação Pública
Em
junho de 2026, o governo de Javier Milei chegou a um acordo com sindicatos e
universidades argentinas para encerrar um longo conflito. O acordo garantiu um
reajuste salarial de 24,33% para docentes, um aumento de 20% nos custos de
funcionamento e novos aportes para hospitais universitários.
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O Desmonte da Educação Pública e os Cortes
Apesar
do recuo recente, as políticas educacionais da gestão têm sido marcadas por
forte tensão institucional e orçamentária. As perdas acumuladas ao longo dos
últimos anos levaram a uma série de históricas Marchas Universitárias Federais,
mobilizando mais de 1 milhão de pessoas e gerando ações na Suprema Corte.
A crise
envolveu:
- Queda Real de
Investimento:
Antes do acordo de
junho, o financiamento das universidades operava com reduções severas, afetando
o poder de compra da categoria.
- Bolsas e
Hospitais:
As perdas atingiram
diretamente o valor real de bolsas estudantis (como as bolsas Manuel Belgrano)
e o suporte a hospitais universitários.
Veja
registros das mobilizações massivas de estudantes e professores contra os
cortes orçamentários no ensino superior:
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Mudanças na Educação Básica
Além da
esfera universitária, o governo implementou alterações polêmicas na grade
curricular obrigatória de escolas e colégios no país. Em janeiro, o Ministério
da Educação removeu a obrigatoriedade do ensino de duas temáticas: Educação
Vial e Prevencão e erradicação da violência de gênero.
Fonte:
Por Bruno Fabricio Alcebino da Silva, em A Terra é Redonda/g1

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