Reflexões
sobre a propaganda eleitoral
A
propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV foi o grande palco do debate
eleitoral desde os estertores do regime militar nos anos 1980 até meados da
década passada. A principal mudança desde então tem sido o crescente papel das
redes telemáticas nas eleições e uma relativa perda de importância do horário
eleitoral gratuito. Foram mudados os meios de comunicação, que são ferramentas;
o fundamental sempre é quem controla as ferramentas, e para quê.
Os
períodos de propaganda eleitoral gratuita costumavam introduzir um ar renovador
no debate político, levantando questões de interesse popular, rompendo a
monotonia das temáticas e interpretações políticas de interesse do capital
financeiro, que dominavam e ainda dominam o debate político no dia-a-dia das
TVs, rádios e jornais.
Durante
os primeiros governos petistas, quase sempre o período eleitoral produzia uma
inflexão favorável ao governo nas pesquisas. Compreende-se: fora do período
eleitoral, só existia a propaganda política usual dos noticiários da grande
imprensa, oposicionista, enquanto o período eleitoral garantia certo equilíbrio
no debate, particularmente no segundo turno, permitindo ao governo mostrar ao
público as realizações que a imprensa escondia.
Depois
do impeachment de Dilma Rousseff, o período de propaganda eleitoral gratuita
foi reduzido em número de dias e encurtado pela metade em tempo de exposição
diário. O Congresso, por sua maioria de direita, aprovou estas mudanças com o
argumento da redução de gastos públicos, já que o tempo de programação em rádio
e TV é gratuito para os partidos, mas é remunerado pelo governo para as
empresas. A credibilidade desta justificativa se esvai considerando o aumento
exorbitante dos gastos com as emendas parlamentares no mesmo período, emendas
que se tornaram outra forma de propaganda eleitoral.
Este
esvaziamento da propaganda eleitoral gratuita foi simultâneo à abertura do novo
palco eleitoral, as redes digitais, que já se mostraram muito atuantes na
articulação das manifestações de 2013 a 2016, junto à dobradinha Veja–Globo.
Atuaram, portanto, na eleição apertada de Dilma Rousseff contra Aécio Neves e,
depois, em prol do impeachment da Presidenta.
Nas
eleições de 2018, a força bolsonarista nas redes apareceu e assustou pelo
volume e, particularmente, pelo conteúdo, simbolizado por uma mamadeira
pornográfica. A expressão “fake-news” foi incorporada às conversas
coloquiais. E essa ferramenta de comunicação continuou atuante no governo
Bolsonaro, foi central para a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, e
continua atuante, agora com o incremento tecnológico da Inteligência artificial.
Ficou
claro que as redes digitais têm gerado bolhas de circulação da propaganda
política, com a divulgação seletiva de notícias mentirosas, dificultando
imensamente o debate político, sendo cada nicho ideológico abastecido por
informações distintas, e com análises distintas sobre as notícias divulgadas
pela imprensa comercial. Mais ainda, constatou-se que o fanatismo encontra
campo aberto dentro de algumas dessas bolhas.
Por
conta desta força da ferramenta digital em mãos fascistas, as eleições
presidenciais de 2022 ensejaram importante atuação do STE, então presidido pelo
ministro Alexandre de Morais, no sentido de controlar as notícias falsas e as
manifestações de ódio nas redes digitais, já encontrando resistência das
grandes redes telemáticas multinacionais. O argumento esgrimido por estas
redes, assim como pela propaganda bolsonarista, assenta-se na liberdade de
expressão. Como se esta fosse absoluta, isenta de limitas de respeito ao ser
humano e à Constituição.
Mas o
argumento “libertário” é falso principalmente porque as redes impõem suas
próprias regras. Um caso emblemático é a censura imposta pelo YouTube ao canal
do portal Brasil 247, quando proibiu a continuidade da divulgação
das reportagens do jornalista Joaquim de Carvalho sobre a suposta facada em
Bolsonaro a 6 de setembro de 2018, que trazia informações importantes
negligenciadas pela imprensa corporativa, equiparando-as a “fake news”.
Enfim, liberdade de expressão também é uma das coisas que precisa ser cobrada
das redes telemáticas multinacionais.
Uma
tentativa abrangente de regulação das redes foi o projeto relatado na Câmara
Federal pelo deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) no começo do atual governo Lula.
Procurava coibir a divulgação de postagens inconstitucionais como as de
racismo, misoginia, pedofilia, ataques à democracia e, por outro lado, buscava
impor a remuneração aos criadores de conteúdo brasileiros pelas grandes redes
telemáticas, cujos lucros provêm daqueles criadores. A iniciativa enfrentou
pesada oposição no Congresso, que culminou no desmembramento do projeto em dois
ou três projetos mais específicos, dos quais não se falou mais.
Previsivelmente,
o lobby das redes telemáticas encontrara terreno fértil no
Congresso. O bolsonarismo nutriu-se sempre de grande trânsito nas redes
digitais, e amplo domínio das técnicas de segmentação de notícias que fizeram a
fama de Steve Bannon. A aliança de Elon Musk ao bolsonarismo foi explícita, e
orgulhosamente ostentada pelo nosso fascismo vira-lata. Além destes dois
personagens, estiveram juntos naquela solenidade de posse de Donald Trump
mega-empresários proprietários de quase todas as redes telemáticas disponíveis
no Brasil, exceto Telegram e Tic-Toc. Portanto, a posicionamento da direita no
Congresso era previsível, assim como o do oportunismo centrista.
Mas a
oposição àquele projeto incluiu canais e blogs de esquerda, com destaque para o
importantíssimo Brasil 247. A crítica deste órgão centrava-se na
questão financeira, com um argumento de difícil compreensão: as grandes redes
disporiam de um fundo para remuneração dos criadores de conteúdo e, se fossem
obrigadas a remunerar os conteúdos como os da rede Globo, nada
restaria para os pequenos órgãos como o próprio Brasil 247, que tem
contrato com aquela rede.
Ora, a
remuneração do produtor de conteúdo corresponde necessariamente a uma parcela
daquilo que as grandes redes arrecadam a partir de cada produtor; não se
entende a razão do suposto conflito entre a Globo, ou as grandes
redes de comunicação em geral, e os pequenos órgãos, como se o fundo para
remuneração dos produtores de conteúdo fosse rígido. O conflito objetivo
evidente é entre todos os produtores e as grandes redes telemáticas.
Houve
também a crítica dos sindicatos de jornalistas e de artistas contra a ausência
de menção no projeto à remuneração aos profissionais, apenas às empresas, mas
esse aspecto certamente poderia ter sido incluído, não fosse a pressão das
grandes empresas telemáticas sobre o Parlamento.
Agora,
às vésperas das novas eleições presidenciais e legislativas, o Executivo e o
Legislativo anunciam medidas inteiramente opostas neste tema. Decreto do
presidente Lula enrijece a legislação de uso destes meios, exigindo respeito
aos princípios constitucionais de combate a racismo, misoginia, estímulo a
violência e auto-mutilação, ou ataques à democracia, incluindo
responsabilização solidária das redes pelo conteúdo divulgado.
O
Congresso propõe-se a derrubar o decreto presidencial, e discute leis
flexibilização das regras de uso eleitoral das redes pelos parlamentares,
permitindo disparos em massa e praticamente extinguindo multas. Assim como já
está votando a flexibilização das regras de uso eleitoral das emendas
parlamentares, para que as obras decorrentes possam ser usadas explicitamente
como propaganda eleitoral.
Não
tranqüiliza observar que, no contexto, avulta o papel da Justiça Eleitoral, que
agora está sob o comando dos 20% de Jair Bolsonaro no STF. Portanto, apesar das
várias ações positivas do terceiro governo Lula, e apesar dos escândalos em que
se afogam os bolsonaristas e a direita, o debate eleitoral exigirá muita
atenção dos democratas.
Reconhecendo
a importância das redes digitais, a militância democrática e de esquerda formou
um conjunto de órgãos que acompanham com perspicácia a vida política. Muitos
passam por dificuldades financeiras, precisam perder tempo solicitando apoio
nesta área, mas vêm cumprindo um papel fundamental de resistência
anti-fascista.
Abro
parêntesis para um caso específico, o Blog da cidadania. Seu
fundador, de Eduardo Guimarães, teve sua principal fonte de renda destruída
pelo ex-juiz Sérgio Moro, por ter noticiado com antecedência a prisão de Lula,
e passou a viver de seu blog, que foi o primeiro a prognosticar a libertação de
Lula e sua eleição. Teve agora seus equipamentos novos, recém adquiridos,
perdidos por um acidente, e precisa de apoio para sobrevivência de seu canal
que trouxe contribuições importantíssimas para o debate público.
É
consenso, pois, a necessidade de participação nas redes digitais, e o domínio
desta linguagem. Porém, também se reconhece que o ambiente das redes digitais
tem sido o contexto que gerou as bolhas de circulação de propaganda política,
com a divulgação seletiva de notícias mentirosas, e todas as suas seqüelas. Em
comparação, a propaganda eleitoral gratuita, além do maior equilíbrio de tempo
de fala, cria a possibilidade de resposta do adversário em sua propaganda e, em
caso de acusação falsa, permite a captura tempo de propaganda do acusador
através do STE e dos TREs.
Por
isto, é importante fortalecer a propaganda eleitoral gratuita aos olhos da
população, enfatizando esses aspectos do equilíbrio entre as partes e da
possibilidade de resposta. Não tem credibilidade, por exemplo, acusação feita
em alguma rede digital que não tenha sido repetida no horário gratuito. Não se
trata de desqualificar as redes digitais a que cada eleitor dá atenção, até
porque estas podem aprofundar o debate político e eleitoral. Trata-se apenas de
apontar um critério prático para o reconhecimento de notícia possivelmente
mentirosa.
Nem
sempre as tendências visíveis se mantêm, é usual aparecerem
contra-tendências.Por exemplo, um país nórdico acaba de proibir meios digitais
na educação infantil, retornando aos livros e cadernos, com base em observações
pedagógicas. Houve um choque de muitos eleitores de Jair Bolsonaro com a
realidade das práticas comerciais, digamos, dos Bolsonaro, e talvez este choque
permita a estes eleitores valorizar o debate, o confronto dos discursos entre
si e com a realidade.
Esta
conscientização do eleitor da superioridade do horário eleitoral sobre
propagandas unilaterais é tarefa factível para qualquer militante democrata, em
sua atuação específica, mas que bem caberia ao Superior Tribunal Eleitoral.
Antes e
durante as campanhas eleitorais, este Tribunal usualmente proclama a
necessidade do eleitor estar atento contra notícias mentirosas, mas tem
dificuldade de propor uma maneira prática, não abstrata, para o eleitor
reconhecer as tais “fake news”. Uma maneira de fazê-lo é mostrar ao
eleitor este aspecto de superioridade da propaganda gratuita sobre a propaganda
unilateral, pois só o enfrentamento de idéias permite desnudar factóides. Fica
esta sugestão para o Tribunal.
O
programa eleitoral gratuito alterna propagandas para o Executivo e para o
Legislativo, programas muito distintos. As propagandas para o Executivo
costumam ser mais politizadas, apresentando com algum detalhamento as distintas
convicções e propostas.
As
propagandas para o Legislativo se perdem pela atomização, com muitíssimos
candidatos se alternando cansativamente, cada um com direito a pouquíssimos
segundos para recitar princípios ou citar realizações. Isso reflete nosso tipo
de sistema proporcional, em que o eleitor escolhe um candidato individual, em
oposição ao sistema proporcional de voto em lista, naturalmente mais
politizador.
Os
partidos progressistas poderiam empregar parte do tempo de propaganda
legislativa para destacar a importância do voto partidário, para consolidar uma
base sólida de apoio legislativo ao quarto mandato do presidente Lula. Convém
que o eleitorado saiba que há candidatos de partidos centristas e de direita
que se elegem declarando voto em Lula, mas, eleitos, são constrangidos a votar
contra as propostas do governo, por fechamento de questão no partido, por
exemplo.
Outra
questão politizadora pode ser a das emendas parlamentares, tendo em vista o que
é trazido à tona pelas investigações da PF sob relatoria do ministro Flávio
Dino. Uma boa condução deste tópico pode anular a vantagem eleitoral dos
parlamentares candidatos que tiverem sido favorecidos por emendas secretas.
Indo
mais a fundo, conviria aos partidos democráticos encampar como proposta de
campanha uma redução expressiva do valor das emendas parlamentares, pois estas
impedem a estruturação orgânica do orçamento federal, assim como dos estaduais
e municipais. Ao mesmo tempo, as emendas consolidam o parlamento brasileiro
como um aglomerado de interesses locais e, mesmo, pessoais.
Fonte:
Por José Ricardo Figueiredo, em A Terra é Redonda

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