segunda-feira, 15 de junho de 2026

Samuel Kilsztajn: Football - das elites paulistas à multidão

Em 1867, durante o Ciclo do Café, os ingleses constituíram a São Paulo Railway Company, responsável pela construção da ferrovia Santos-Jundiaí. John Miller veio ao Brasil para trabalhar na ferrovia e foi aqui que, em 1874, nasceu o seu filho Charles Miller.

Em 1888, os ingleses, adeptos do lema mens sana in corpore sano, fundaram o São Paulo Athletic Club – SPAC, conhecido como Clube Inglês, o primeiro clube desportivo do Brasil. Charles foi mandado para estudar na Inglaterra aos dez anos de idade e, quando voltou em 1894 para trabalhar na ferrovia, trouxe consigo em sua bagagem duas bolas usadas, uma bomba de ar, um par de chuteiras, uniformes usados e um livro com as regras do futebol.

O esporte bretão começou a ser praticado no campo do SPAC no Bom Retiro em 1885 e, em 1901, Charles Miller fundou a Liga Paulista de Foot-ball. O espírito desportista e a elegância eram a marca registrada de Charles. Conta-se que quando, por algum descuido, ele esbarrava em algum dos adversários, o seu embaraço era tamanho que ninguém poderia duvidar de seus pedidos de desculpas. Com Charles na posição de artilheiro, o SPAC ganhou os três primeiros campeonatos – 1902, 1903 e 1904.

Helena Miller, em depoimento, ilustrou: “Foi papai quem formou os times da São Paulo Railway, da Light e do São Paulo Athletic, que presidiu nos três primeiros anos e logo se tornou campeão. Criou a jogada chaleira, na época chamada “charleira”, a jogada do Charles. Naquele tempo, os jogadores eram descendentes das tradicionais famílias paulistanas, e os jogos se transformavam num acontecimento social.”

Inicialmente reservado às elites, o football foi ganhando adeptos entre as camadas populares que utilizavam as várzeas da cidade para os seus jogos, com muito improviso, ginga e criatividade. Em 1910, a Liga trouxe para São Paulo o amador Corinthian Football Club londrino, famoso por difundir o futebol pelo mundo. O Corinthian, que já tinha derrotado o Fluminense no Rio de Janeiro por 10 a 1, venceu de lavada os três então melhores times da Liga Paulista de Foot-ball – Clube Inglês, Clube Atlético Paulistano e Associação Atlética das Palmeiras.

E foi durante a turnê do Corinthian team que, também no Bom Retiro, o nosso Sport Club Corinthians Paulista foi fundado. “… Battaglia, Magnani e os funcionários da São Paulo Railway… pediram conselho a Charles Miller sobre o nome que deveriam dar ao novo clube. Miller sugeriu muito polidamente, como era seu costume, chamá-lo em honra do ‘Timão’ inglês, que tanto tinham admirado.”

Em 1911 o Clube Inglês sagrou-se campeão da Liga Paulista, mas a Associação Atlética das Palmeiras, campeã em 1909 e 1910, desentendeu-se com a Liga, foi desclassificada e sumiu com a taça. Charles Miller dependurou as chuteiras e o SPAC abandonou a Liga. Com o tempo, o Clube Inglês acabou por adotar afetivamente o Corinthians Paulista como seu afilhado. Em 1913 o Sport Club Corinthians conseguiu se filiar à Liga de Foot-ball e, um ano depois, conquistou seu primeiro campeonato em São Paulo, invicto, com 37 gols marcados e 9 gols tomados, fazendo jus ao título de Campeão dos Campeões.

O Corinthians reunia jogadores das camadas populares da cidade, operários, imigrantes italianos, espanhóis, portugueses e seus descendentes – em contraste com os clubes da elite paulistana. O “Time do Povo” também é reconhecido por ser um dos pioneiros na inclusão de jogadores pretos no futebol paulista. A princípio, a Liga e a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos, que substituiu a Liga Paulista de Foot-ball, extinta em 1917) rejeitava a participação de negros. Mas, em 1919, o Corinthians conseguiu inscrever Asdrúbal Cunha, o Bingo, o primeiro negro a jogar com a camisa do Timão.

Coração Corinthiano, entre vacas gordas e tempos de jejum, celebrações e frustrações, a torcida segue sempre Fiel. Um bafo de energia cósmica atinge qualquer um que adentra a sala dos troféus do Memorial no Parque São Jorge. Em 1988, em clima de festa, no Pacaembu com os portões abertos, ocorreu o amistoso histórico entre o amador e romântico Corinthian londrino e o profissional Corinthians Paulista. No primeiro tempo, o saudoso Sócrates marcou um gol pelo filho paulistano. No segundo tempo, 15 minutos antes de acabar, Sócrates foi escalado para jogar no time do pai londrino e todos torciam pelo empate simbólico e poético, que, infelizmente, não veio. Apesar de perder o jogo, o Corinthian team recebeu o troféu da Federação Paulista de Futebol.

Quando eu era moleque, no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, mesmo perna-de-pau, eu joguei futebol em vários campos que ainda existiam na várzea formada pela confluência dos rios Tamanduateí e Tietê, no Bom Retiro do Clube Inglês e do Corinthians, o Time do Povo, ou seja, dos varzeanos, maloqueiros e pretos. O São Paulo era então o time da elite, dos almofadinhas; e o Palmeiras, o time dos oriundi italianos. Havia também o fenômeno Pelé, que arregimentou torcedores para o Santos Futebol Clube. Eu, estrangeiro palestino, morando no Bom Retiro, abracei naturalmente o Timão de tradições e glórias mil.

Em novembro de 2025 foi reinaugurado o Museu do Povo, que conta A História Preta do Corinthians, com um megaevento promovido pelo Departamento Cultural do Corinthians, com a participação da Gaviões da Fiel e do Coletivo Democracia Corinthiana – CDC que, em clima de festa, reafirmou o papel histórico do Corinthians na defesa das causas populares, celebrou a sua identidade preta e colocou em pauta o enfrentamento ao racismo no país. Hoje, efetivamente, tanto o São Paulo como o Palmeiras também se caracterizam por ser times do povo e certamente se posicionam contra o racismo. O Corinthians agrega mais de 30 milhões de torcedores e as torcidas do São Paulo e do Palmeiras atingem quase 20 milhões cada uma – vamos nessa!

•        Copa do Mundo de 2026: Trump se espelha no Mundial de Mussolini. Por Helcio Herbert Neto

Bem-vindo ao campo de batalha: a Copa do Mundo de futebol masculino de 2026 começa como um cartão de visitas da intenção de submeter o planeta à pretensa grandiosidade dos Estados Unidos.

A realização do torneio durante o segundo mandato do presidente Donald Trump aponta para outra experiência autoritária, que invadiu o esporte e redefiniu a história dos Mundiais: sob o controle de Benito Mussolini, a Itália sediou o evento em 1934 e também se empenhou para propagandear um suposto esplendor perante as demais nações.

<><> Projetos de poder e Copas do Mundo

Quando as atenções por todo o planeta se voltam para o futebol, os líderes autoritários procuram um passado mítico para legitimar seus próprios projetos de poder. Mussolini reivindicava as conquistas do Império Romano para justificar a violência generalizada que o regime italiano propunha à época do Mundial.

Em paralelo, Trump tem recorrido aos antecedentes expansionistas do próprio país nos séculos XX e XXI com o slogan “Make America Great Again” (Torne a América Grande Novamente, em português), que deu origem ao movimento conhecido como MAGA. O lema escancara quão autorreferente e ensimesmada é a política estadunidense atual.  

A expansão no número de cidades-sede reflete essa retórica: no penúltimo torneio antes da destruição da Europa pela Segunda Guerra Mundial, o roteiro das disputas passou para oito destinos – algo bastante superior à única paisagem da competição anterior. Em 1930, somente Montevidéu havia servido de cenário para os jogos da Copa do Mundo do Uruguai.

Quase um século depois, a megalomania também se manifesta com o aumento no total de locais previstos para receber as partidas.

Seria possível alegar que a organização por três países exigiria, naturalmente, o aumento no número de cidades-sede. Afinal, México e Canadá também são responsáveis pelo calendário com jogos em 16 cidades. É um tamanho inédito para o torneio.Os Estados Unidos, contudo, concentram 11 dos 16 estádios. Além disso, todos os olhares dos torcedores se voltarão para o MetLife Stadium, em Nova Jersey, no dia 19 de julho, quando os dois finalistas vão se enfrentar para definir quem fica com o troféu.

>>>> Quantos jogos cada país vai sediar

Estados Unidos: 78 jogos (incluindo todas as fases eliminatórias a partir das quartas de final e a grande final).

México: 13 jogos (incluindo o jogo de abertura no Estádio Azteca).

Canadá: 13 jogos.

>>>> Os números dos torneios

O total de países também sinaliza a intenção de grandeza. Em 1934, saltou de 13 para 16 o número de seleções que participaram do torneio na Itália. No Mundial da América do Norte, pela primeira vez, 48 equipes serão distribuídas por 12 grupos.

Se as mudanças estão associadas a interesses da Fifa e de confederações espalhadas por diferentes continentes que se sentiam sub-representadas, é inegável que as alterações encontram correspondências em instabilidades políticas de abrangência global.

Na década de 1930, os reflexos da Primeira Guerra Mundial, a agressividade política encarnada pela Itália de Mussolini e por seus aliados colaboraram para as incertezas: isso se intensificou nos anos seguintes com as sucessivas invasões e violações que definiriam a jornada do nazifascismo.

Agora, quase todas as regiões do planeta convivem com conflitos armados, que incluem desde o rapto de um presidente, como vimos na Venezuela, ao bombardeio a usinas de enriquecimento de urânio – fronts em que os Estados Unidos exercem protagonismo.

<><> A comunicação como estratégia

A tentativa de transparecer imponência se vale dos meios de comunicação. A voz de Mussolini permitiu que seu comportamento histriônico chegasse a milhões de ouvintes por aparelhos de rádio, no período em que se expandia a radiodifusão.

Depois de construir uma imagem pública na TV, Trump se utiliza das plataformas digitais para pulverizar perspectivas ambíguas, no limite, odientas, para atingir mais usuários pelos aplicativos.  

A despeito dos vários esforços, é possível que todo esse poderio dos Estados Unidos seja redimensionado ainda ao longo do Mundial de 2026. A tentativa de apresentar uma união hemisférica nas Américas esbarra nos atritos com mexicanos e canadenses, já cansados das ameaças de anexações e do desrespeito às soberanias.

Por mobilizarem tamanha paixão, as multidões ao redor do futebol escapam das tentativas de controle e podem ajudar a fazer ruir tanta prepotência. Bola ao centro do gramado; que se iniciem as disputas.

•        Copa do Mundo: Fenaj denuncia constrangimento a jornalistas nos EUA

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) manifestou preocupação com relatos de profissionais de imprensa que atuam na cobertura da Copa do Mundo de 2026. Eles afirmam ter enfrentado episódios de constrangimento, restrições à circulação e dificuldades para exercer a atividade jornalística nos Estados Unidos, uma das sedes do evento ao lado de México e Canadá.

Em nota divulgada na quinta-feira (11), assinada pela Comissão de Mulheres Jornalistas e pela Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Social (Conajira), a Fenaj destacou como um dos casos mais graves o da jornalista Karine Alves, da TV Globo.

Segundo relato compartilhado pela profissional, ela foi retirada da fila regular da imigração durante o ingresso nos EUA, tratada de forma ríspida por agentes e submetida à revista do cabelo. Karine diz que o procedimento teria sido direcionado apenas a pessoas negras que chegavam ao país.

Para a Fenaj, o episódio representa um tratamento racista e xenófobo e se soma a outros relatos envolvendo profissionais de imprensa e torcedores que acompanham a competição.

A entidade também citou o caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que foi impedido de ingressar nos EUA para participar do torneio.

Além dos episódios ocorridos nos postos de imigração, jornalistas relataram obstáculos impostos ao trabalho de cobertura esportiva, o que inclui restrições de circulação em espaços utilizados pelas seleções durante os treinamentos.

Diante desse cenário, a Fenaj informou que defenderá, no âmbito da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), o encaminhamento de um documento à Federação Internacional de Futebol (Fifa), para que a entidade assegure condições adequadas de trabalho aos profissionais credenciados para trabalhar durante as competições.

Entre as propostas estão a garantia de condições de trabalho seguras e livres de discriminação para todas as nacionalidades, a criação de mecanismos independentes para recebimento e apuração de denúncias de assédio, violência e discriminação, a adoção de protocolos específicos de proteção para mulheres jornalistas e o compromisso dos países anfitriões com a liberdade de imprensa, a liberdade de circulação e a independência profissional dos trabalhadores da comunicação.

 

Fonte: Le Monde/The Intercept/ICL Notícias

 

Nenhum comentário: