Samuel
Kilsztajn: Football - das elites paulistas à multidão
Em
1867, durante o Ciclo do Café, os ingleses constituíram a São Paulo Railway
Company, responsável pela construção da ferrovia Santos-Jundiaí. John Miller
veio ao Brasil para trabalhar na ferrovia e foi aqui que, em 1874, nasceu o seu
filho Charles Miller.
Em
1888, os ingleses, adeptos do lema mens sana in corpore sano, fundaram o São
Paulo Athletic Club – SPAC, conhecido como Clube Inglês, o primeiro clube
desportivo do Brasil. Charles foi mandado para estudar na Inglaterra aos dez
anos de idade e, quando voltou em 1894 para trabalhar na ferrovia, trouxe
consigo em sua bagagem duas bolas usadas, uma bomba de ar, um par de chuteiras,
uniformes usados e um livro com as regras do futebol.
O
esporte bretão começou a ser praticado no campo do SPAC no Bom Retiro em 1885
e, em 1901, Charles Miller fundou a Liga Paulista de Foot-ball. O espírito
desportista e a elegância eram a marca registrada de Charles. Conta-se que
quando, por algum descuido, ele esbarrava em algum dos adversários, o seu
embaraço era tamanho que ninguém poderia duvidar de seus pedidos de desculpas.
Com Charles na posição de artilheiro, o SPAC ganhou os três primeiros
campeonatos – 1902, 1903 e 1904.
Helena
Miller, em depoimento, ilustrou: “Foi papai quem formou os times da São Paulo
Railway, da Light e do São Paulo Athletic, que presidiu nos três primeiros anos
e logo se tornou campeão. Criou a jogada chaleira, na época chamada
“charleira”, a jogada do Charles. Naquele tempo, os jogadores eram descendentes
das tradicionais famílias paulistanas, e os jogos se transformavam num
acontecimento social.”
Inicialmente
reservado às elites, o football foi ganhando adeptos entre as camadas populares
que utilizavam as várzeas da cidade para os seus jogos, com muito improviso,
ginga e criatividade. Em 1910, a Liga trouxe para São Paulo o amador Corinthian
Football Club londrino, famoso por difundir o futebol pelo mundo. O Corinthian,
que já tinha derrotado o Fluminense no Rio de Janeiro por 10 a 1, venceu de
lavada os três então melhores times da Liga Paulista de Foot-ball – Clube
Inglês, Clube Atlético Paulistano e Associação Atlética das Palmeiras.
E foi
durante a turnê do Corinthian team que, também no Bom Retiro, o nosso Sport
Club Corinthians Paulista foi fundado. “… Battaglia, Magnani e os funcionários
da São Paulo Railway… pediram conselho a Charles Miller sobre o nome que
deveriam dar ao novo clube. Miller sugeriu muito polidamente, como era seu
costume, chamá-lo em honra do ‘Timão’ inglês, que tanto tinham admirado.”
Em 1911
o Clube Inglês sagrou-se campeão da Liga Paulista, mas a Associação Atlética
das Palmeiras, campeã em 1909 e 1910, desentendeu-se com a Liga, foi
desclassificada e sumiu com a taça. Charles Miller dependurou as chuteiras e o
SPAC abandonou a Liga. Com o tempo, o Clube Inglês acabou por adotar
afetivamente o Corinthians Paulista como seu afilhado. Em 1913 o Sport Club
Corinthians conseguiu se filiar à Liga de Foot-ball e, um ano depois,
conquistou seu primeiro campeonato em São Paulo, invicto, com 37 gols marcados
e 9 gols tomados, fazendo jus ao título de Campeão dos Campeões.
O
Corinthians reunia jogadores das camadas populares da cidade, operários,
imigrantes italianos, espanhóis, portugueses e seus descendentes – em contraste
com os clubes da elite paulistana. O “Time do Povo” também é reconhecido por
ser um dos pioneiros na inclusão de jogadores pretos no futebol paulista. A
princípio, a Liga e a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos, que
substituiu a Liga Paulista de Foot-ball, extinta em 1917) rejeitava a
participação de negros. Mas, em 1919, o Corinthians conseguiu inscrever
Asdrúbal Cunha, o Bingo, o primeiro negro a jogar com a camisa do Timão.
Coração
Corinthiano, entre vacas gordas e tempos de jejum, celebrações e frustrações, a
torcida segue sempre Fiel. Um bafo de energia cósmica atinge qualquer um que
adentra a sala dos troféus do Memorial no Parque São Jorge. Em 1988, em clima
de festa, no Pacaembu com os portões abertos, ocorreu o amistoso histórico
entre o amador e romântico Corinthian londrino e o profissional Corinthians
Paulista. No primeiro tempo, o saudoso Sócrates marcou um gol pelo filho
paulistano. No segundo tempo, 15 minutos antes de acabar, Sócrates foi escalado
para jogar no time do pai londrino e todos torciam pelo empate simbólico e
poético, que, infelizmente, não veio. Apesar de perder o jogo, o Corinthian
team recebeu o troféu da Federação Paulista de Futebol.
Quando
eu era moleque, no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, mesmo
perna-de-pau, eu joguei futebol em vários campos que ainda existiam na várzea
formada pela confluência dos rios Tamanduateí e Tietê, no Bom Retiro do Clube
Inglês e do Corinthians, o Time do Povo, ou seja, dos varzeanos, maloqueiros e
pretos. O São Paulo era então o time da elite, dos almofadinhas; e o Palmeiras,
o time dos oriundi italianos. Havia também o fenômeno Pelé, que arregimentou
torcedores para o Santos Futebol Clube. Eu, estrangeiro palestino, morando no
Bom Retiro, abracei naturalmente o Timão de tradições e glórias mil.
Em
novembro de 2025 foi reinaugurado o Museu do Povo, que conta A História Preta
do Corinthians, com um megaevento promovido pelo Departamento Cultural do
Corinthians, com a participação da Gaviões da Fiel e do Coletivo Democracia
Corinthiana – CDC que, em clima de festa, reafirmou o papel histórico do
Corinthians na defesa das causas populares, celebrou a sua identidade preta e
colocou em pauta o enfrentamento ao racismo no país. Hoje, efetivamente, tanto
o São Paulo como o Palmeiras também se caracterizam por ser times do povo e
certamente se posicionam contra o racismo. O Corinthians agrega mais de 30
milhões de torcedores e as torcidas do São Paulo e do Palmeiras atingem quase
20 milhões cada uma – vamos nessa!
• Copa do Mundo de 2026: Trump se espelha
no Mundial de Mussolini. Por Helcio Herbert Neto
Bem-vindo
ao campo de batalha: a Copa do Mundo de futebol masculino de 2026 começa como
um cartão de visitas da intenção de submeter o planeta à pretensa grandiosidade
dos Estados Unidos.
A
realização do torneio durante o segundo mandato do presidente Donald Trump
aponta para outra experiência autoritária, que invadiu o esporte e redefiniu a
história dos Mundiais: sob o controle de Benito Mussolini, a Itália sediou o
evento em 1934 e também se empenhou para propagandear um suposto esplendor
perante as demais nações.
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Projetos de poder e Copas do Mundo
Quando
as atenções por todo o planeta se voltam para o futebol, os líderes
autoritários procuram um passado mítico para legitimar seus próprios projetos
de poder. Mussolini reivindicava as conquistas do Império Romano para
justificar a violência generalizada que o regime italiano propunha à época do
Mundial.
Em
paralelo, Trump tem recorrido aos antecedentes expansionistas do próprio país
nos séculos XX e XXI com o slogan “Make America Great Again” (Torne a América
Grande Novamente, em português), que deu origem ao movimento conhecido como
MAGA. O lema escancara quão autorreferente e ensimesmada é a política
estadunidense atual.
A
expansão no número de cidades-sede reflete essa retórica: no penúltimo torneio
antes da destruição da Europa pela Segunda Guerra Mundial, o roteiro das
disputas passou para oito destinos – algo bastante superior à única paisagem da
competição anterior. Em 1930, somente Montevidéu havia servido de cenário para
os jogos da Copa do Mundo do Uruguai.
Quase
um século depois, a megalomania também se manifesta com o aumento no total de
locais previstos para receber as partidas.
Seria
possível alegar que a organização por três países exigiria, naturalmente, o
aumento no número de cidades-sede. Afinal, México e Canadá também são
responsáveis pelo calendário com jogos em 16 cidades. É um tamanho inédito para
o torneio.Os Estados Unidos, contudo, concentram 11 dos 16 estádios. Além
disso, todos os olhares dos torcedores se voltarão para o MetLife Stadium, em
Nova Jersey, no dia 19 de julho, quando os dois finalistas vão se enfrentar
para definir quem fica com o troféu.
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Quantos jogos cada país vai sediar
Estados
Unidos: 78 jogos (incluindo todas as fases eliminatórias a partir das quartas
de final e a grande final).
México:
13 jogos (incluindo o jogo de abertura no Estádio Azteca).
Canadá:
13 jogos.
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Os números dos torneios
O total
de países também sinaliza a intenção de grandeza. Em 1934, saltou de 13 para 16
o número de seleções que participaram do torneio na Itália. No Mundial da
América do Norte, pela primeira vez, 48 equipes serão distribuídas por 12
grupos.
Se as
mudanças estão associadas a interesses da Fifa e de confederações espalhadas
por diferentes continentes que se sentiam sub-representadas, é inegável que as
alterações encontram correspondências em instabilidades políticas de
abrangência global.
Na
década de 1930, os reflexos da Primeira Guerra Mundial, a agressividade
política encarnada pela Itália de Mussolini e por seus aliados colaboraram para
as incertezas: isso se intensificou nos anos seguintes com as sucessivas
invasões e violações que definiriam a jornada do nazifascismo.
Agora,
quase todas as regiões do planeta convivem com conflitos armados, que incluem
desde o rapto de um presidente, como vimos na Venezuela, ao bombardeio a usinas
de enriquecimento de urânio – fronts em que os Estados Unidos exercem
protagonismo.
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A comunicação como estratégia
A
tentativa de transparecer imponência se vale dos meios de comunicação. A voz de
Mussolini permitiu que seu comportamento histriônico chegasse a milhões de
ouvintes por aparelhos de rádio, no período em que se expandia a radiodifusão.
Depois
de construir uma imagem pública na TV, Trump se utiliza das plataformas
digitais para pulverizar perspectivas ambíguas, no limite, odientas, para
atingir mais usuários pelos aplicativos.
A
despeito dos vários esforços, é possível que todo esse poderio dos Estados
Unidos seja redimensionado ainda ao longo do Mundial de 2026. A tentativa de
apresentar uma união hemisférica nas Américas esbarra nos atritos com mexicanos
e canadenses, já cansados das ameaças de anexações e do desrespeito às
soberanias.
Por
mobilizarem tamanha paixão, as multidões ao redor do futebol escapam das
tentativas de controle e podem ajudar a fazer ruir tanta prepotência. Bola ao
centro do gramado; que se iniciem as disputas.
• Copa do Mundo: Fenaj denuncia
constrangimento a jornalistas nos EUA
A
Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) manifestou preocupação com relatos
de profissionais de imprensa que atuam na cobertura da Copa do Mundo de 2026.
Eles afirmam ter enfrentado episódios de constrangimento, restrições à
circulação e dificuldades para exercer a atividade jornalística nos Estados
Unidos, uma das sedes do evento ao lado de México e Canadá.
Em nota
divulgada na quinta-feira (11), assinada pela Comissão de Mulheres Jornalistas
e pela Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Social (Conajira), a
Fenaj destacou como um dos casos mais graves o da jornalista Karine Alves, da
TV Globo.
Segundo
relato compartilhado pela profissional, ela foi retirada da fila regular da
imigração durante o ingresso nos EUA, tratada de forma ríspida por agentes e
submetida à revista do cabelo. Karine diz que o procedimento teria sido
direcionado apenas a pessoas negras que chegavam ao país.
Para a
Fenaj, o episódio representa um tratamento racista e xenófobo e se soma a
outros relatos envolvendo profissionais de imprensa e torcedores que acompanham
a competição.
A
entidade também citou o caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que foi
impedido de ingressar nos EUA para participar do torneio.
Além
dos episódios ocorridos nos postos de imigração, jornalistas relataram
obstáculos impostos ao trabalho de cobertura esportiva, o que inclui restrições
de circulação em espaços utilizados pelas seleções durante os treinamentos.
Diante
desse cenário, a Fenaj informou que defenderá, no âmbito da Federação
Internacional de Jornalistas (FIJ), o encaminhamento de um documento à
Federação Internacional de Futebol (Fifa), para que a entidade assegure
condições adequadas de trabalho aos profissionais credenciados para trabalhar
durante as competições.
Entre
as propostas estão a garantia de condições de trabalho seguras e livres de
discriminação para todas as nacionalidades, a criação de mecanismos
independentes para recebimento e apuração de denúncias de assédio, violência e
discriminação, a adoção de protocolos específicos de proteção para mulheres
jornalistas e o compromisso dos países anfitriões com a liberdade de imprensa,
a liberdade de circulação e a independência profissional dos trabalhadores da
comunicação.
Fonte:
Le Monde/The Intercept/ICL Notícias

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