Mudar
legislação para equiparar narcotráfico a terrorismo é criar 'Frankenstein
jurídico'
À Sputnik Brasil, especialistas apontam que a
medida "seria catastrófica" e que a defesa do tema pela oposição está
mais ligada a um movimento político e eleitoral do que a uma mudança de fato.
A decisão do governo dos EUA de tipificar
como terroristas as facções brasileiras Comando Vermelho
(CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) deu novo impulso à oposição,
que em fevereiro tentou, sem sucesso, incluir a medida no Projeto de Lei
(PL) Antifacção.
Um dia após o anúncio da medida pelo
presidente norte-americano, Donald Trump, o deputado federal Eduardo Pazuello
(PL-RJ) apresentou um PL que propõe alterar a Lei 13.260/2016, a chamada Lei
Antiterrorismo, para ampliar o conceito de terrorismo, incluindo crimes de
ordem social.
O texto do projeto argumenta que "atos
destinados a intimidar a população ou a coagir o poder público raramente
ocorrem no vácuo" e são, em essência, "impulsionados por motivações
que buscam a desestabilização das estruturas fundamentais do país".
"Ao prever que o terrorismo pode visar a
destruição da ordem constitucional e econômica, o projeto alinha a legislação
nacional aos tratados internacionais e às recomendações de órgãos de controle
global, como o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), assegurando que o
Estado disponha de meios para punir condutas que atentem contra a própria
existência da democracia", diz o documento.
A movimentação de Pazuello vem na esteira de
outras ações similares da oposição, como a proposta do deputado Luiz Philippe
de Orleans e Bragança (PL-SP) de equiparar as facções a grupos terroristas
e incluir na lista organizações criminosas de outros países, como a venezuelana
Tren de Aragua e a salvadorenha Mara Salvatrucha, também designadas como
terroristas pelo governo Trump.
À Sputnik Brasil, Robson Rodrigues,
antropólogo, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência (LAV), da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e coronel da reserva da
Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), avalia que a movimentação
do governo Trump pode resultar em tentativas de mudança
na legislação brasileira, mas diz não acreditar que a
oposição seja "tão incauta nesse sentido".
"Porque um movimento como esse soaria a
subserviência a Trump, o que ajudaria a narrativa do governo de luta pela
soberania, o que tem rendido bons pontos nas pesquisas de intenção de voto para
a reeleição de Lula", pondera o analista.
Ele acrescenta que uma mudança na legislação
não traria resultado nenhum para a segurança
pública, pois classificar por lei algo que, na
prática, tem outra natureza não resolve o problema.
"Crime organizado se combate com ações
integradas de inteligência, prevenção e repressão qualificada. Há outros
interesses em jogo. Mas uma atitude servil como essa, por parte de uma oposição
birrenta, mais que reacionária, seria uma tragédia do ponto de vista da
soberania jurídica de nosso país."
Segundo Rodrigues, a administração Trump, de
forma "errática, atabalhoada e sem evidências", vem usando todos os
artifícios possíveis como instrumentos de pressão geopolítica, cujo verdadeiro
objetivo é ampliar seus poderes sobre outros países.
"Tentar levar um problema que é de
segurança pública e criminalidade organizada para o campo geopolítico da
defesa, além de não resolver o problema, pode dar esse instrumento a essa
administração inconsequente, que ampliará, assim, seus poderes para ações
perigosas para o Brasil e o mundo."
Marcio Sergio Christino, procurador de
Justiça criminal, afirma à reportagem não enxergar possibilidade de mudança na
legislação brasileira para incluir as facções como terroristas. Ele diz que a
medida "seria catastrófica" pois uniria fenômenos completamente
diferentes.
"A mudança de classificação feita pelos
EUA não atende a mínimos critérios técnicos. Existe uma evidente inclinação
política, na medida em que uma organização terrorista tem objetivos
ideológicos/políticos, ao passo que uma organização criminosa é uma empresa que
tem por base a obtenção de lucro", explica o procurador.
Ele cita o caso do grupo palestino Hamas, que
é considerado terrorista pelo governo norte-americano e nunca obteve lucro em
suas ações, traçando uma diferença com a Cosa Nostra, sociedade da máfia
italiana que tem o lucro como modo de ser.
"Uma mudança legislativa que una esses
dois conceitos é de muito difícil elaboração, dada a contraposição dessas
atividades."
Christino afirma que recorrer a uma
nomenclatura diferente para classificar facções do narcotráfico também não
traria efeitos práticos em termos nacionais, já que tudo continuaria a
funcionar da mesma forma — na legislação brasileira não existem instrumentos
jurídicos diversos no tratamento de uma ou de outra. Segundo ele, isso teria
efeito dentro dos EUA porque a sistemática usada é diferente, inclusive em
termos orgânicos.
"A união entre esses dois conceitos
criaria um 'Frankenstein' jurídico que traria mais benefícios tanto ao
terrorismo quanto à organização criminosa, criando dúvidas sobre a aplicação da
lei em um caso ou outro. Na verdade, essa proposta e ampliação do conceito é
mais um movimento na seara política derivado de questões político-eleitorais do
que propriamente uma constante necessária", conclui o procurador.
¨
Trump anuncia morte do
líder do grupo venezuelano Tren de Aragua: quem era Niño Guerrero?
Donald Trump anunciou na noite de sexta-feira (12/06) que as
Forças Armadas dos Estados Unidos mataram Héctor Rusthenford Guerrero Flores,
mais conhecido como Niño Guerrero, considerado o líder do grupo
criminoso venezuelano Tren de Aragua.
Em uma mensagem publicada em sua plataforma
Truth Social, o presidente americano afirmou que o Comando Sul dos EUA realizou
um ataque "rápido e letal" que "executou com sucesso"
Guerrero Flores.
A operação foi conduzida em estreita
coordenação com o governo venezuelano, segundo Trump, que não especificou onde
ou quando a ação ocorreu.
O presidente americano também compartilhou um
vídeo que mostra o momento em que um projétil atinge um prédio, que em seguida
explode em chamas.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth,
publicou no X (antigo Twitter) que a captura ocorreu no início desta semana,
sem fornecer mais detalhes.
"Esta ação reforça o compromisso
compartilhado entre os Estados Unidos e a Venezuela no combate aos
narcoterroristas e na negação de qualquer refúgio seguro para eles em nosso
hemisfério", afirmou.
A Casa Branca, o Pentágono e o Comando Sul
ainda não divulgaram mais informações sobre a operação.
O Departamento de Estado dos EUA havia
oferecido uma recompensa de até US$ 5 milhões (R$ 25,3 milhões) por informações
que levassem à captura de Guerrero Flores.
Niño Guerrero foi indiciado em dezembro por
um tribunal federal de Nova York por conspiração para cometer extorsão e outros
crimes, incluindo apoio a atividades terroristas, segundo as autoridades da
época.
O procurador federal Jay Clayton declarou
então que a organização era responsável por inúmeros atos de violência,
extorsão e tráfico de drogas na América do Norte, América do Sul e Europa.
O Tren de Aragua é considerado uma
organização terrorista pelos Estados Unidos.
<><> Um ataque 'rápido e letal'
"Sob minhas ordens, o Comando Sul dos
Estados Unidos realizou um ataque cinético rápido e letal para executar com
sucesso Niño Guerrero, o infame líder do Tren de Aragua, uma das organizações
terroristas mais sanguinárias do planeta", escreveu Trump em sua
publicação.
Ele indicou que "a ação foi coordenada
em estreita colaboração com nossos amigos na Venezuela, com quem estamos
trabalhando muito bem".
"Como resultado, os terroristas do Tren
de Aragua não têm mais refúgio seguro na Venezuela ou em qualquer outro lugar,
e sob minha liderança, encontraremos esses assassinos impiedosos e
narcotraficantes a qualquer hora, em qualquer lugar, e os enviaremos para as
profundezas do inferno, onde é o lugar deles", declarou ainda Trump.
Guerrero Flores, de 43 anos, era considerado
pelas autoridades americanas o principal líder do Tren de Aragua há mais de uma
década.
Segundo procuradores federais, sob seu
comando, a organização cresceu de uma gangue que surgiu em uma prisão
venezuelana para uma rede criminosa transnacional com presença em diversos
países das Américas, incluindo os Estados Unidos e o Brasil.
Guerrero Flores também ficou conhecido por
relatos sobre as condições privilegiadas de que supostamente desfrutou durante
parte do tempo em que esteve preso na Venezuela sob a presidência de Nicolás
Maduro.
Os militares
americanos capturaram Maduro em Caracas em 3
de janeiro e o transferiram para Nova York, onde ele enfrenta múltiplas
acusações.
<><> Quem era Niño Guerrero?
De acordo com perfis biográficos e artigos de
imprensa, Héctor Rusthenford Guerrero Flores nasceu em 1983 em Maracay, estado
de Aragua, embora diferentes fontes discordem sobre sua data de nascimento
exata.
Niño Guerrero começou a aparecer nos
registros da polícia venezuelana no início dos anos 2000.
Em 2005, ele foi acusado de atirar em um
policial que acabou falecendo.
Ele foi preso em 2010 por crimes relacionados
a homicídio, tráfico de drogas e roubo, fugiu da prisão em 2012 e foi
recapturado no ano seguinte, retornando à prisão de Tocorón.
Longe de perder influência atrás das grades,
ele consolidou seu poder lá dentro e se tornou o principal "pran", ou
líder prisional, da Venezuela.
Mesmo preso, há registros de Niño Guerrero em
uma festa em um dos muitos bairros controlados pelo grupo Tren de Aragua em
Maracay, a capital do estado de Aragua, em 2015.
Na festa, ele se apresentou como líder do
grupo e prometeu melhorar as condições de vida dos moradores locais.
Segundo o InSight Crime, um centro de
pesquisa especializado em crime organizado nas Américas, em 2020 o grupo já
contava com cerca de 1.000 membros que respondiam às ordens de Niño Guerrero.
E tudo era controlado de dentro da prisão.
Niño Guerrero morava, inclusive, dentro de uma casa de dois andares dentro do
presídio de Tocorón, onde recebia todas as visitas que desejava.
Ele também tinha acesso a uma piscina,
um campo de beisebol, uma discoteca, restaurantes e até mesmo um zoológico.
Em setembro de 2023, as autoridades
venezuelanas lançaram uma grande operação de segurança e tomaram o controle de
Tocorón.
Relatos da imprensa local, porém, apontam que
as lideranças criminosas foram avisadas sobre a intervenção com antecedência e
conseguiram deixar a área com armas e dinheiro. Guerrero e os líderes do grupo
não foram encontrados.
De dentro e fora da prisão, o criminoso ainda
conseguiu expandir a influência da gangue, assumindo o controle de minas de
ouro no estado de Bolívar, perto da fronteira venezuelana com o Brasil, e
tomando rotas de tráfico de drogas na costa caribenha e passagens clandestinas
de fronteira entre a Venezuela e a Colômbia, de acordo com o Departamento de
Estado dos EUA.
Especialistas consultados pela BBC Mundo, o
serviço em espanhol da BBC, indicam ainda que a expansão internacional do grupo
seguiu em grande parte as rotas da migração venezuelana.
As autoridades atribuem à organização crimes
como extorsão, sequestro, tráfico de drogas, tráfico de pessoas, contrabando de
migrantes, mineração ilegal e lavagem de dinheiro.
Segundo a maioria dos relatos, o Tren de
Aragua se espalhou para fora da Venezuela quando o país entrou em uma crise
humanitária e econômica em 2014, que tornou o crime menos lucrativo.
O grupo ainda opera, em parte, formando
alianças e parcerias com organizações criminosas locais.
No Brasil, há relatos de presença do Tren de
Aragua em pelo menos seis Estados no país, mas o grupo se
consolidou principalmente na região Norte, mais próxima da Venezuela.
Foi em Roraima, mais especificamente, que a
gangue venezuelana iniciou seus laços com as facções brasileiras Primeiro
Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
Já no Equador, acredita-se que a gangue
trabalhe com grupos vagamente afiliados ao cartel mexicano de Sinaloa, enquanto
na Colômbia alguns alegam que ela trabalha com membros do grupo guerrilheiro de
esquerda Exército de Libertação Nacional (ELN).
Sob o governo Trump, as forças americanas
lançaram dezenas de ataques contra barcos que, segundo elas, fazem parte de uma
operação em larga escala para transportar drogas para os EUA, incluindo aqueles
que alegam estar ligados ao Tren de Aragua. Mais de 200 pessoas foram mortas em
ataques desde setembro, segundo a imprensa americana.
Mas os militares não apresentaram provas de
que as embarcações atacadas transportavam drogas ou traficantes, o que gerou
críticas à operação e questionamentos sobre sua legalidade.
Alguns especialistas em direito argumentam
que os ataques podem violar o direito internacional, por alvejarem civis sem
lhes garantir o devido processo legal.
O governo Trump afirmou que as mortes são
legais.
Em uma declaração ao Congresso no ano
passado, a Casa Branca disse que Donald Trump havia "determinado" que
os EUA estavam em um conflito armado formal com cartéis de drogas e que as
tripulações de embarcações que traficam drogas eram "combatentes".
Fonte:
Sputnik Brasil/BBC News Brasil

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