segunda-feira, 15 de junho de 2026

Gustavo Tapioca: O partido sem cara e o desafio da democracia

A reflexão de Eugenio Bucci sobre o "partido clandestino" da extrema direita e a proposta de "radicalização democrática" defendida por pesquisadores do LAUT lançam luz sobre um dos debates centrais da eleição de 2026.

<><> O partido que existe sem existir

O artigo publicado por Eugenio  Bucci no Estadão nesta quinta-feira (12) traz uma definição provocadora para um dos fenômenos mais relevantes da política brasileira contemporânea. Segundo o jornalista, o bolsonarismo funciona como uma espécie de partido clandestino.

Não clandestino porque esteja proibido de existir. Nem porque seja perseguido pelo Estado.

A clandestinidade, neste caso, seria uma escolha.

Ao longo dos últimos anos, o bolsonarismo atravessou sucessivas legendas sem jamais se confundir inteiramente com nenhuma delas. Passou pelo PSL, pelo PL e por outras estruturas partidárias como quem utiliza uma plataforma temporária. O movimento permanece o mesmo. As siglas mudam.

A observação de Bucci ajuda a compreender uma característica central da extrema direita brasileira: sua capacidade de operar simultaneamente dentro e fora das instituições.

Quando lhe convém, apresenta-se como força institucional, disputa eleições, ocupa mandatos, recebe recursos públicos e utiliza a estrutura do sistema partidário.

Quando lhe convém, volta a vestir a fantasia de movimento antissistema, atacando exatamente as instituições que lhe garantem existência política.

Essa ambiguidade talvez seja um dos principais segredos de sua sobrevivência.

<><> O bolsonarismo continua vivo

A condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal e sua prisão por tentativa de golpe de Estado não significaram o desaparecimento do fenômeno político que levou milhões de brasileiros às ruas nos últimos anos.

O bolsonarismo revelou-se maior que seu fundador.

A substituição de Jair Bolsonaro por Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026 demonstra justamente isso.

Não se trata de uma escolha baseada em debates programáticos ou em renovação partidária. Trata-se da tentativa de preservar um projeto político e familiar ameaçado pelo avanço das investigações, pelas condenações judiciais e pelo desgaste crescente de sua principal liderança.

A candidatura do senador surge como instrumento de continuidade.

A missão é clara: manter mobilizada a base política construída pelo pai, impedir a reeleição de Lula e, se possível, reconstruir as condições para uma futura reversão das condenações que atingiram o núcleo central do bolsonarismo.

Nesse sentido, a eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre candidatos.

Será também um teste para medir a capacidade de sobrevivência de um movimento que se acostumou a operar nas zonas cinzentas entre a institucionalidade e a contestação permanente das regras democráticas.

<><> A democracia não pode viver apenas na defensiva

Mas existe uma segunda reflexão importante surgida nesta semana.

Em reportagem artigo publicado nesta sexta-feira (12) na Folha de S.Paulo, a jornalista Ana Luiza Albuquerque apresentou as teses do livro Como Desarmar o Autoritarismo no Brasil: Uma Agenda para a Desradicalização, organizado por Conrado Hübner Mendes, Fernando Romani Sales e Lucas Petroni.

A obra reúne pesquisadores do LAUT — Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo — e parte de uma constatação simples.

A democracia brasileira conseguiu resistir.

Resistiu às ameaças golpistas. Resistiu aos ataques contra o sistema eleitoral. Resistiu à tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023.

Mas resistir talvez já não seja suficiente.

Os autores defendem aquilo que chamam de "radicalização democrática" como resposta ao avanço do autoritarismo.

O conceito não significa radicalismo político.

Significa aprofundar os mecanismos de proteção democrática para impedir que novas aventuras autoritárias encontrem terreno fértil no futuro.

<><> As reformas que o país adiou

A proposta envolve enfrentar questões que o Brasil costuma adiar há décadas.

O papel das Forças Armadas na vida política.

O uso do sistema de Justiça como instrumento de perseguição.

A disseminação industrial de notícias falsas.

A captura do debate público por estruturas de desinformação.

A instrumentalização política da fé.

A fragilidade da educação democrática.

São temas que permanecem no centro da crise brasileira.

Mais importante: são temas que não desaparecerão com uma eventual derrota eleitoral da extrema direita.

<><> O verdadeiro debate de 2026

Durante muito tempo, a principal preocupação dos setores democráticos foi impedir que o autoritarismo chegasse ao poder.

Hoje, o desafio é mais complexo.

É preciso impedir que ele retorne.

A eventual vitória de Lula em 2026, caso se confirme, não encerrará esse ciclo histórico.

Ela poderá representar apenas uma etapa de um processo maior.

O verdadeiro debate que começa a surgir no país não é apenas como derrotar eleitoralmente a extrema direita.

A pergunta mais profunda é como reduzir as condições que permitiram seu crescimento.

Eugenio Bucci chama atenção para a existência de uma força política que muitas vezes prefere atuar sem rosto institucional definido.

Os pesquisadores do LAUT chamam atenção para a necessidade de fortalecer as bases da democracia por meio de uma agenda de desradicalização e aprofundamento institucional.

As duas reflexões convergem para o mesmo ponto.

O Brasil talvez esteja entrando numa nova etapa.

Uma etapa em que a defesa da democracia já não depende apenas da capacidade de resistir aos ataques.

Depende também da coragem de reformar as estruturas que permitiram que eles acontecessem.

<><> Depois de vencer, o que fazer?

Em plena campanha presidencial, essa discussão deixa de ser apenas acadêmica. Ela se transforma em tema de governo.

Seja qual for o resultado das urnas, o país precisará decidir se continuará administrando as crises produzidas pelo autoritarismo ou se enfrentará suas causas estruturais.

A agenda sugerida pelos pesquisadores do LAUT — fortalecida pela reflexão de Eugenio Bucci sobre os limites da democracia diante de movimentos que operam dentro e fora das instituições — aponta alguns dos desafios centrais do próximo ciclo político: consolidar a supremacia do poder civil sobre qualquer tutela militar, combater a indústria da desinformação, fortalecer a educação democrática, proteger as instituições republicanas e ampliar os mecanismos de participação cidadã.

Se Lula for reconduzido à Presidência, esses temas poderão deixar de ser apenas objeto de debate acadêmico para se transformar em questões centrais de governo. Afinal, derrotar eleitoralmente o autoritarismo é uma tarefa. Construir mecanismos para impedir seu retorno é outra, muito mais complexa.

Mais do que uma plataforma partidária, trata-se de uma pergunta histórica que estará presente no centro do debate nacional:

Depois de resistir ao autoritarismo, o Brasil será capaz de fortalecer sua democracia?

•        Dois pesos e duas medidas: como a imprensa e a Faria Lima ignoraram a inflação de Bolsonaro e amplificam a de Lula. Por Chico Alves

IPCA de maio veio acima do esperado. Subiu 0,58%, puxado pelos alimentos, e a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,72%. O número está acima do teto da meta do Banco Central, que é de 3% com tolerância de 1,5 ponto. A categoria alimentação no domicílio teve alta de 1,65% no mês – a maior para maio em 18 anos. É verdade que ainda há efeitos da guerra no Oriente Médio e do El Niño, e a tendência é de resistência inflacionária. Tanto que economistas já reduziram as expectativas para a queda dos juros.

Essa foi a reação da imprensa ao dado de junho. E não é de se estranhar: a inflação segue como um dos indicadores mais sensíveis da economia. Ela corrói o poder de compra, condiciona a política monetária e pauta o debate fiscal. Só que, mais do que os números, interessa observar como a imprensa e o chamado mercado financeiro interpretam e comunicam esses números. E aí a coisa muda de figura.

Durante o governo Bolsonaro, a inflação chegou a superar os expressivos 10%, com forte expansão da dívida pública e flexibilização do teto de gastos. Ainda assim, o discurso predominante da imprensa e do mercado financeiro foi de tolerância. Atribuiu-se a alta a choques externos – pandemia, cadeias produtivas desorganizadas, commodities em disparada. O Banco Central, quando citado, aparecia como uma espécie de fiador solitário do regime de metas. Mas risco sistêmico, descontrole fiscal ou hiperinflação nunca estiveram na pauta.

Já a partir de 2023, com o retorno de Lula, graças aos acertos da área econômica a cargo de Fernando Haddad, a inflação caiu para patamares próximos de 4%, dentro da meta do Conselho Monetário Nacional. Os gastos públicos passaram a respeitar os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. O desemprego recuou a níveis historicamente baixos. Apesar disso, o tom dominante na imprensa e entre analistas de mercado passou a ser o de alarde: desancoragem das expectativas, risco de descontrole fiscal, ameaça de hiperinflação. Amplificam-se cenários pessimistas diante de dados concretos que apontam estabilidade.

Por que tamanha assimetria? Não é pelos indicadores – isso é evidente. A diferença está na relação política entre governo e chamado “mercado” – os donos do capital. Bolsonaro era lido como alinhado à agenda neoliberal, com Paulo Guedes à frente de um programa de privatizações e reformas. Isso funcionava como um escudo. Os problemas eram relativizados, tratados como conjunturais. Lula, ao contrário, carrega a marca de políticas sociais e maior presença do Estado. E isso desperta uma desconfiança estrutural no capital. O discurso de risco, nesse contexto, opera como instrumento de pressão política: ajuda a manter os juros elevados e a limitar a expansão de programas sociais.

As consequências não são meramente retóricas. Ao amplificar riscos sob Lula, imprensa e mercado alimentam um ambiente de desconfiança que pode influenciar as decisões do Banco Central e inibir investimentos, influenciando decisivamente no humor eleitoral. Ao relativizar os problemas sob Bolsonaro, normalizaram uma situação de inflação elevada e deterioração fiscal. Em ambos os casos, a cobertura revela mais as disputas políticas do que a realidade dos números.

O que se tem, portanto, é dois pesos e duas medidas na leitura da inflação brasileira. Com Bolsonaro, problemas reais foram tratados como conjunturais. Com Lula, a estabilidade virou alerta vermelho. A narrativa econômica não é neutra. Ela é atravessada por interesses políticos e ideológicos. Reconhecer essa assimetria é condição para entender não apenas os índices de preços, mas o jogo de poder que se desenrola em torno deles.

 

Fonte: Brasil 247/Fórum

 

Nenhum comentário: