Por
que reabrir Ormuz é mais complexo do que liberar rodovia
Estados Unidos e Irã anunciaram neste domingo (14/06) um acordo preliminar para encerrar
a guerra entre os dois
países. O primeiro ponto destacado pelo presidente
dos Estados Unidos, Donald Trump, foi a reabertura do Estreito de Ormuz, por
onde passa um quinto do suprimento mundial de petróleo.
"Navios
do mundo, liguem seus motores. Que o petróleo flua!", escreveu o
presidente. Os mercados financeiros globais reagiram com entusiasmo ao anúncio.
Mas
reabrir uma via marítima como Estreito de Ormuz não é a mesma coisa que reabrir
uma rodovia após um acidente. Restaurar o tráfego de petróleo, gás e
contêineres no nível pré-guerra por esse importante gargalo logístico enfrenta
obstáculos significativos – o maior deles a fragilidade do próprio acordo, cujo
texto não foi divulgado.
A
agência grega de gestão de riscos marítimos Marisks alertou, nesta
segunda-feira, que o acordo deve ser visto como "o início de um processo
de desescalada, e não como a restauração imediata das condições normais de
comércio".
"Operacionalmente,
o setor não está se apressando para retomar as atividades", afirmou o
editor-chefe do site especializado em transporte marítimo Lloyd's List, Richard
Meade, observando que muitos alertam que a remoção de minas e o retorno ao uso
das rotas de trânsito reconhecidas internacionalmente são pré-requisitos para
uma navegação segura.
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Remoção das minas navais
Se as
agressões tanto dos EUA quanto do Irã realmente pararem, o Irã terá
primeiramente de localizar e remover as minas navais que instalou
durante o conflito para tornar o Estreito de Ormuz novamente transitável.
A
maioria delas pode ser localizada rapidamente com o uso de navios varredores de
minas convencionais e drones submarinos de última geração. No entanto, algumas
podem ter se deslocado ou ser difíceis de encontrar, segundo especialistas
marítimos.
A
operação de localização e remoção poderia levar de 40 a 50 dias – até muitas
empresas de seguros, de transporte marítimo ou petrolíferas se sentirem seguras
o suficiente para navegar pela região, de acordo com avaliações de
especialistas ocidentais da área de segurança marítima ouvidos pela agência de
notícias Reuters.
Já a
chefe de análises de energia para o Oriente Médio e Opep+ na Kpler, Amena Bakr,
ouvida pela AP, estimou que a remoção de minas levaria seis meses. A Kpler é
uma empresa de dados e análises especializada em logística marítima.
Depois
disso, observadores independentes precisarão verificar se a via marítima está
de fato segura para a navegação.
O
ministro alemão do Exterior, Johann Wadephul, afirmou que a Alemanha vai
considerar participar de operações de remoção de minas no Estreito de Ormuz
apenas quando ficar claro que os combates cessaram e que tanto os Estados
Unidos quanto o Irã apoiam essa missão.
Alemanha,
França, Reino Unido e Itália já haviam manifestado disposição para apoiar a retomada da navegação pelo Estreito
de Ormuz, inclusive por meio de uma missão independente e de caráter
estritamente defensivo, voltada para garantir a segurança de navios comerciais
e realizar a remoção de minas.
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Seguro contra riscos de guerra
Mesmo
após a remoção das minas, as empresas de navegação terão que arcar com custos
mais altos do seguro contra riscos de guerra para transitar pelo Estreito de
Ormuz até que a confiança seja restaurada.
Atualmente,
os valores permanecem extremamente altos, entre 1% e 4% do valor da embarcação
por travessia, em comparação com taxas inferiores a 0,1% antes da guerra,
segundo o jornal The New York Times.
Para um
petroleiro típico de 200 milhões de dólares, isso significa custos adicionais
entre 2 milhões e 8 milhões de dólares por travessia, contra menos de 200 mil
dólares antes do conflito.
O
Lloyd's List citou nesta segunda-feira um analista de riscos de seguros de
Singapura, não identificado, que descreveu os valores como "rápidos para
subir e lentos para cair".
O chefe
global de pesquisa em transporte marítimo da corretora de mercadorias Oil
Brokerage Ltd, Anoop Singh, alertou que os proprietários de navios avaliarão os
prós e contras com base em sua própria tolerância ao risco.
"Japoneses,
coreanos e chineses são menos propensos a assumir riscos elevados, enquanto os
gregos têm um apetite diferente. Portanto, podemos ver alguns agentes se
preparando para avançar, mas, de modo geral, o restante do mercado ainda busca
mais detalhes e garantias antes de prosseguir", disse Singh à agência de
notícias Bloomberg.
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Quando os navios poderão se mover?
Mesmo
que o estreito esteja totalmente aberto, levará tempo para que os navios-tanque
entrem, carreguem e façam a viagem até os países asiáticos, que são os
principais clientes do petróleo proveniente de Arábia Saudita, Iraque, Bahrein,
Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Uma viagem de ida e volta ao Japão pode
levar de 45 a 50 dias.
Assim
que corredores seguros forem estabelecidos no Estreito de Ormuz, centenas de
embarcações comerciais e suas tripulações, retidas por meses no Golfo Pérsico,
poderão começar a se mover.
A
Bloomberg, que citou a Kpler, noticiou que 300 navios totalmente carregados
estão parados no Golfo, enquanto outros 250 estão vazios, aguardando
carregamento assim que o estreito for reaberto.
Nas
proximidades, no Golfo de Omã, cerca de 300 petroleiros vazios aguardam
autorização para entrar no Golfo.
Reunir
a tripulação para essas embarcações pode ser outro obstáculo. Estima-se que
cerca de 20 mil marinheiros permaneçam a bordo de navios retidos, segundo a
Organização Marítima Internacional.
Essa
agência da ONU também confirmou que 14 tripulantes foram mortos em ataques,
cerca de metade deles da Índia, a terceira maior origem dos marinheiros, depois
das Filipinas e da China.
Diante
da crescente relutância das tripulações em aceitar deslocamentos para a região
do Golfo, a Diretoria Geral de Navegação da Índia ordenou no domingo que
agências de emprego restrinjam esses envios para áreas de conflito.
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Instalações energéticas danificadas
Com o
anúncio do acordo, os países árabes do Golfo podem agora começar a aumentar a
produção de petróleo e gás. Mas esse pode ser um processo lento, pois exige
inspeções de segurança nas instalações energéticas, reparos na infraestrutura
danificada e o retorno gradual de trabalhadores e equipes de manutenção.
Alguns
produtores no Oriente Médio interromperam a extração de petróleo quando ficaram
sem espaço de armazenamento. Esses países não retomarão as atividades até terem
certeza de que o estreito permanecerá aberto de forma duradoura e de que um
cessar-fogo durará mais de 30 ou 60 dias, afirmou o pesquisador Daniel
Sternoff, da Universidade de Columbia.
Uma
retomada completa dependerá da restauração dos cronogramas de envio, da
garantia de um número suficiente de petroleiros e de convencer compradores
internacionais de que o fornecimento de energia voltou a ser confiável.
O
economista-chefe do grupo Capital Economics, Neil Shearing, projetou nesta
segunda-feira que levará até o fim de setembro para que cerca de 80% dos fluxos
de energia pelo Estreito de Hormuz sejam retomados.
Shearing
alertou que os fluxos de gás natural levarão mais tempo para se recuperar e
mencionou danos no terminal de gás natural liquefeito de Ras Laffan, no Catar,
onde ataques eliminaram cerca de 17% da capacidade de exportação do país,
provavelmente por vários anos.
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Cobrança de taxas pelo Irã
Não
está claro se os EUA e o Irã chegaram a um acordo sobre o que significa
"aberto" no caso do Estreito de Ormuz.
O Irã
exigiu o direito de cobrar taxas de navios que utilizam o
estreito e, em alguns casos, já cobrou para permitir a saída das embarcações.
Trump afirmou em sua rede social, a Truth Social, que o acordo envolvia uma
"abertura sem cobrança de pedágio", mas não houve confirmação disso por
parte do Irã.
Enquanto
os EUA insistem que o Estreito de Ormuz fique permanentemente livre de tarifas,
as autoridades iranianas falam em "taxas de serviço" e em manter o
controle da via marítima, junto com Omã.
O
pagamento de pedágio representaria um dilema para os armadores, uma vez que os
EUA e a União Europeia (UE) classificam o Corpo da Guarda Revolucionária
Islâmica como organização terrorista, e o Departamento do Tesouro dos EUA impôs
sanções à entidade, que o Irã anunciou como responsável pela cobrança.
A menos
que essas sanções sejam alteradas, efetuar o pagamento expõe as empresas de
transporte marítimo e os bancos a penalidades.
Além
disso, especialistas jurídicos afirmam que permitir que o Irã controle a
passagem violaria o direito internacional sobre a liberdade de navegação,
estabelecido na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, a qual
exige que os países permitam a passagem pacífica por suas águas territoriais.
As águas do estreito são compartilhadas pelo Irã, ao norte, e por Omã, ao sul.
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Acordo frágil
O maior
risco para a reabertura do Estreito de Ormuz, porém, é o próprio acordo entre
EUA e Irã, já que ele é apenas um esboço para negociações que buscam um fim
definitivo do conflito.
Além da
cobrança de pedágio, há questões ainda mais amplas não resolvidas, como as
ambições nucleares do Irã, o alívio de sanções econômicas e o apoio de Teerã a
grupos como o Hezbollah e os houthis, o que indica que há um risco real de que
o conflito recomece.
Fortalecido
por sua vantagem estratégica sobre o Estreito de Ormuz e por ter resistido à
maior potência militar mundial, o Irã pode continuar testando limites.
Já o
governo de Israel ressaltou que não está vinculado ao acordo, apesar de o Irã
ter afirmado que ele abrange também o conflito no Líbano, o que é mais um ponto
a colocar em risco o frágil acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã – e o
retorno à normalidade em Ormuz.
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Trump diz não ser 'má ideia' ter navios de guerra
patrulhando Ormuz com 'isenção de pedágio'
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (15)
que "não é uma má ideia" ter navios de guerra não americanos
patrulhando o estreito de Ormuz após sua reabertura, conforme previsto no
memorando de entendimento com o Irã.
"Não
acho que precisaremos de muita ajuda, pois temos um acordo que garante a
abertura e a isenção de pedágio", disse Trump a repórteres durante uma
reunião bilateral com seu homólogo francês, Emmanuel Macron, em
Évian. "Não acho que seja uma má ideia ter um ou dois navios de
alguns países patrulhando o estreito de Ormuz."
No
domingo (14), Trump e o vice-ministro das Relações Exteriores do
Irã, Kazem Gharibabadi, confirmaram a finalização do memorando de
entendimento,
que será assinado fisicamente na Suíça em 19 de junho. A assinatura digital já havia sido
realizada no domingo, conforme anunciado pelo vice-presidente dos Estados
Unidos, J. D. Vance, nesta segunda-feira.
Após o
anúncio, Trump afirmou ter autorizado o levantamento do bloqueio naval dos
Estados Unidos às águas e portos iranianos e observou que o trânsito
de embarcações pelo estreito de Ormuz está sendo retomado de forma segura.
Hoje, Trump esclareceu que o estreito havia sido parcialmente reaberto e seria
totalmente aberto na sexta-feira (19).
O
processo de desminagem para garantir que a hidrovia esteja
totalmente segura para a navegação regular após o fim do conflito entre EUA e
Irã pode levar cerca de dois meses, informou a Reuters, citando fontes.
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EUA e aliados divergem sobre a facilidade de reabertura
do estreito de Ormuz, diz mídia
O
presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que o estreito de Ormuz estará
totalmente aberto até sexta-feira (19), mas os aliados europeus não
compartilham seu otimismo, informou a mídia norte-americana, apontando que
ainda existem minas no corredor marítimo e que o processo de desativação será
complexo e demorado.
A
questão do Irã está alimentando o debate dentro do G7 (grupo composto por
Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), já
que seus membros duvidam que o tráfego possa ser retomado até o final da
semana, como prometido pelo
presidente norte-americano.
As
dúvidas não se restringem aos esforços de desminagem e patrulhamento, mas
também à dificuldade de se chegar a uma posição comum sobre a situação no
Irã, observou a apuração.
Nesse
sentido, poucos esperam uma declaração conjunta, algo que se tornou
raro durante
a era Trump, enfatizou a publicação. Ainda segundo a matéria, a posição da
primeira-ministra italiana Giorgia Meloni merece destaque. Ela afirmou que
as ações da Itália vão depender do fim das hostilidades no Líbano.
No
entanto, dentro da própria administração Trump, existem dúvidas sobre um
rápido retorno à normalidade do tráfego marítimo, conforme apontado no artigo.
Um alto funcionário norte-americano indicou que a recuperação será
gradual devido
à presença de minas terrestres não detonadas e à relutância de algumas
companhias de navegação em retomar a rota. Ele estimou que a retomada aos
níveis pré-conflito poderia levar semanas.
Ao
mesmo tempo, as empresas de
navegação não
devem retomar o trânsito pelo estreito de Ormuz por várias semanas, até
que tenham certeza de que o acordo entre os EUA e o Irã é sólido, afirmou
Jotaro Tamura, CEO da operadora japonesa de navios-tanque Mitsui OSK Lines.
"O
que precisa ser estabelecido não é apenas um simples acordo entre os países
envolvidos, mas algo concreto que se traduza em medidas reais no estreito
de Ormuz, para que as empresas de navegação se sintam seguras ao transitar por
ele", declarou Tamura à mídia
britânica.
Ele
também observou que, desde o início do conflito no Oriente
Médio, no final de fevereiro, houve diversas tentativas frustradas de
retomar as operações na hidrovia.
"Considerando
o que aconteceu nos últimos meses, acho razoável supor que isso possa levar
pelo menos algumas semanas, ou até mesmo um mês", acrescentou.
O
aumento das tensões em torno do Irã bloqueou efetivamente o estreito de Ormuz,
uma rota fundamental para o abastecimento do mercado global com petróleo e
gás natural liquefeito (GNL) provenientes dos países do golfo Pérsico, e
também afetou os níveis de
exportação e
produção de petróleo. Os preços dos combustíveis e das commodities industriais
estão subindo na maioria dos países.
Fonte:
DW Brasil/Sputnik Brasil

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