quarta-feira, 17 de junho de 2026

Ala do STF se prepara para atuar como revisora do TSE nas eleições, e Kassio tenta marcar posição

Decisões envolvendo as eleições inauguraram um novo ponto de atrito entre ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Um grupo de magistrados da corte se prepara para atuar como uma espécie de instância revisora de decisões do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e fazer frente à gestão de Kassio Nunes Marques.

O embate ficou exposto nesta sexta-feira (12), quando a Primeira Turma do Supremo e o plenário do TSE começaram a julgar simultaneamente, em seus respectivos plenários virtuais, um caso envolvendo as eleições suplementares em Roraima. A discussão gira em torno do prazo para que candidatos deixem os cargos públicos para disputar o pleito, marcado para o próximo domingo (21) naquele estado.

Após uma liminar do ministro Flávio Dino, no STF, determinando que a desincompatibilização ocorresse de três a seis meses antes da eleição, e não as 24 horas previstas em resolução do TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de Roraima, Kassio quis marcar posição e também pautou a discussão no TSE. Os dois ministros têm posições divergentes sobre o tema.

Dino obteve maioria na turma, acompanhado pelos ministros Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin (o colegiado tem apenas quatro integrantes, faltando a posição da ministra Cármen Lúcia). Kassio também conseguiu maioria no TSE, com os votos de Dias Toffoli, André Mendonça e Antônio Carlos Ferreira, mas houve pedido de vista da ministra Estela Aranha.

Interlocutores de Kassio afirmam que o ministro quer defender o papel da Justiça Eleitoral e a jurisprudência do próprio TSE, que aponta para a possibilidade de haver prazos mais flexíveis em eleições suplementares. Em seu voto, o presidente da corte eleitoral afirmou que a liminar de Dino cita precedentes que não se aplicam ao caso de Roraima.

Na semana passada, integrantes do STF também fizeram chegar a Kassio que a corte derrubaria sua decisão de censurar a pesquisa Atlas/Bloomberg, que apontou queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após diálogos entre o senador e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O presidente do TSE afirmou a aliados que já tinha isso no radar, mas que a possibilidade de costurar um acordo pode ser salutar para que a crise não escale.

Segundo relatos feitos à Folha, Kassio tem reclamado com parlamentares sobre o receio de que uma ala do Supremo tome para si questões eleitorais na tentativa de esvaziar suas atribuições no comando do TSE. Esse grupo, por outro lado, afirma que o STF tem a prerrogativa de atuar se houver indícios de violação a alguma questão constitucional.

Um dos pontos de maior embate pode ser a remoção de conteúdo nas redes sociais durante a campanha. Ex-presidente do TSE, Moraes teve em 2022 uma atuação rígida em relação às plataformas, sob ameaça de altas multas e prazos exíguos para retirada de publicações. Já Kassio sinalizou que vai atuar de forma mais contida nessas situações.

Outro caso que ilustra o conflito entre Supremo e TSE em temas eleitorais é o do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), que renunciou ao cargo em março às vésperas de ser condenado à inelegibilidade por abuso de poder. Ministros do STF criticaram a incongruência entre o que foi debatido pela corte eleitoral e o acórdão (resumo) do julgamento.

O esclarecimento sobre a cassação é considerado tecnicamente crucial para que o STF decida se as novas eleições no Rio devem ser diretas, com voto popular, ou indiretas, em que a deliberação cabe à Assembleia Legislativa. O julgamento do caso, de relatoria de Zanin, está suspenso por pedido de vista de Flávio Dino.

Dois ministros da ala oposta à de Kassio no Supremo têm lembrado, em conversas reservadas, que em 2022 o próprio deu decisões monocráticas (individuais) para derrubar cassações impostas pelo TSE, caso dos então deputados Valdevan Noventa e Fernando Francischini. As liminares acabaram revertidas pela Segunda Turma.

Em geral, a postura do Supremo é de deferência às decisões do TSE envolvendo cassação de políticos, em especial as que são tomadas por unanimidade. Em 2023, por exemplo, o STF manteve a condenação do ex-deputado federal e ex-procurador da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol.

Ações ajuizadas no Supremo contra resoluções eleitorais também não costumam prosperar. A corte validou, por exemplo, a norma da gestão de Moraes que, às vésperas do segundo turno de 2022, aumentou os poderes da corte eleitoral sobre conteúdos publicados na internet.

Uma abordagem de maior interferência, portanto, seria uma “mudança de tradição”, conforme classificou um integrante da área jurídica do TSE.

Defensores da continuidade do inquérito das fake news, Moraes e o ministro Gilmar Mendes manifestaram a pessoas próximas preocupação com uma postura potencialmente menos rigorosa do TSE em relação ao combate à desinformação e sinalizaram que o Supremo poderá atuar nesse tema se alguma omissão for identificada.

Em seu discurso de posse, Kassio disse que a corte eleitoral tem o dever de combater ameaças concretas ao processo democrático, especialmente com os desafios do uso da inteligência artificial, mas alertou que o TSE não pode “incorrer em excessos incompatíveis com o Estado democrático de Direito”.

•        Presidente do TSE vai convidar União Europeia para acompanhar eleições no Brasil

 presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, vai convidar a União Europeia a enviar uma missão oficial de acompanhamento para as eleições deste ano. Caso o convite seja aceito, será a primeira vez que o bloco europeu terá uma delegação do tipo para acompanhar um pleito brasileiro.

Kassio tem defendido a interlocutores a necessidade de ampliar o monitoramento internacional das eleições para blindar o processo contra possíveis questionamentos aos resultados e às urnas eletrônicas. Ele também tem dito que haverá maior transparência com a ampliação do número de entidades envolvidas no acompanhamento.

Os ataques sem provas ao sistema eleitoral na disputa de 2022 foram uma das marcas de Jair Bolsonaro (PL), responsável pela indicação de Kassio ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Naquela eleição, porém, o governo Bolsonaro foi contrário ao convite à União Europeia para acompanhar o pleito, algo que vinha sendo articulado pela gestão do TSE —a preparação daquele processo eleitoral perpassou as presidências de Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes.

O tipo de comissão eleitoral que está sendo negociado neste ano com a UE é a chamada Missão de Especialistas Eleitorais (EEM, na sigla em inglês). De acordo com o Serviço Europeu para a Ação Externa, as EEMs são compostas por especialistas independentes que acompanham por cerca de dois meses o processo eleitoral de um país. Elas não têm visibilidade pública, mas produzem um relatório com recomendações.

“Os especialistas avaliam de forma imparcial se o processo eleitoral é conduzido em conformidade com as obrigações internacionais, regionais e nacionais relativas à realização de eleições democráticas”, diz o serviço externo da UE.

Trata-se de um formato menor e menos abrangente do que as Missões de Observação Eleitoral (EOM, na sigla em inglês), cujas delegações são maiores, permanecem no país por mais tempo, visitam locais de votação, interagem com a imprensa e publicam conclusões e sugestões detalhadas para melhorar o processo eleitoral.

De acordo com pessoas com conhecimento da estrutura de acompanhamento eleitoral da Europa, não há tempo suficiente para a organização de uma EOM.

Procurado, o TSE disse que o convite para a União Europeia será expedido nos próximos dias.

“As missões de observação eleitoral são regulamentadas em resolução do TSE e observam critérios rigorosos em razão das diversas atividades realizadas pelos observadores, como visitas às seções eleitorais”, declarou o tribunal.

“O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, entende que todos os interessados em conhecer o sistema de votação brasileiro podem participar desde que preencham os requisitos previstos na regulamentação do TSE.”

Ainda segundo a corte, a OEA (Organização dos Estados Americanos), a Uniore (União Interamericana de Organismos Eleitorais) e a Rede dos Órgãos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) já confirmaram presença no pleito de outubro.

A conclusão dos trâmites para a participação da UE depende de articulação com o governo Lula (PT), uma vez que cabe ao Executivo expedir os convites aos observadores internacionais.

Nas eleições de 2022, quando o presidente Lula derrotou Bolsonaro por uma diferença de 2,1 milhões de votos, OEA, Uniore e CPLP enviaram missões de observação. Além delas, também participaram o Carter Center (instituto fundado pelo ex-presidente dos EUA Jimmy Carter), a Ifes (Fundação Internacional para Sistemas Eleitorais) e a organização Transparencia Electoral.

Naquela eleição, quando o governo Bolsonaro foi contrário ao convite à União Europeia, o argumento do então chanceler, Carlos França, foi de que o Brasil não é membro da União Europeia. Além disso, ele afirmou que a UE não envia missões de observação quando seus próprios países-membros realizam eleições.

“Acho que podemos com a OEA e outros organismos ter esse cuidado de observação eleitoral sem depender de uma organização que, estranhamente, dentro dos seus próprios membros não desdobra missão eleitoral”, disse França, em maio de 2022, durante uma audiência na Câmara dos Deputados.

Como mostrou a Folha, desde antes de tomar posse no TSE Kassio afirmava a aliados que poderia ressurgir o debate sobre a lisura das votações, alvo de campanha de desinformação encampada nos últimos anos por aliados de Bolsonaro.

Além da ampliação das missões, ele fixou, enquanto relator das resoluções eleitorais aprovadas pela corte neste ano, a possibilidade de a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) fiscalizar diretamente todo o processo eleitoral, uma novidade para o pleito.

Após a eleição, os observadores publicam relatórios com conclusões e recomendações.

Em 2022, por exemplo, a OEA destacou o trabalho do TSE como uma instituição que demonstrou “alto nível de profissionalismo e solidez”.

“A missão [eleitoral] mais uma vez destaca a capacidade do TSE de organizar com sucesso uma eleição logisticamente complexa devido ao tamanho do país e ao tamanho do eleitorado”, disse a organização.

Entre as recomendações feitas pela OEA no capítulo da urna eletrônica estavam dar continuidade institucional à Comissão de Transparência Eleitoral, “regulando suas funções e escopo técnico, e avaliando sua adequada composição no futuro”; institucionalizar exercícios de verificação de resultados realizados pelo TCU (Tribunal de Contas da União); e dar mais tempo para que atores fiscalizadores realizem testes e “análises aprofundadas dos diferentes componentes da tecnologia eleitoral”.

Na lista de recomendações do Carter Center, havia sugestões para ampliar o acesso dos eleitores aos locais de votação e para criar fundos específicos que permitissem às universidades se engajar mais nos processos de auditoria das urnas.

<><> Missões internacionais nas eleições

•        2018 – OEA (Organização dos Estados Americanos)

•        2022 – Carter Center, Ifes (Fundação Internacional para Sistemas Eleitorais, (OEA), Parlasul (Parlamento do Mercosul), Rojae-CPLP (Rede dos Órgãos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Uniore (União Interamericana de Organismos Eleitorais) e Transparencia Electoral

•        2026 – OEA, Rojae-CPLP e Uniore. A União Europeia será formalmente convidada, segundo o TSE. A participação do Carter Center e da Ifes ainda está indefinida

 

Fonte: Folhapress

 

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