Luís
Nassif: O esquema de lavagem de dinheiro dos Bolsonaro e do PL
As
investigações sobre a tal produtora do filme “Dark Horse” têm se mostrado mais
perigosas para Flávio Bolsonaro do que a própria conversa com Daniel Vorcaro. A
produtora, Go Up Entertainment, cruza diretamente com o ecossistema
Vorcaro/Banco Master/PL.
Investigações
conduzidas especialmente pelo Intercept e pela Agência Pública mostram que a
tal produtora tornou-se um desaguadouro de lavagem de dinheiro, especialmente
de parlamentares do PL, além da família Bolsonaro.
A
deputada Tabata Amaral (PSB-SP), cuja petição abriu a apuração no STF, descreve
as entidades de Karina Ferreira da Gama como formalmente distintas, mas
funcionando como um único grupo, com comando comum, mesma estrutura e até
compartilhamento de endereço — desenho que sugere fragmentação dos repasses
para escapar do rastreio.
A Go Up
Entertainment é apresentada como uma produtora “brasilo-americana”, mas é de
fato uma empresa brasileira, que declara endereço nos EUA. Tem como única sócia
Karina Ferreira da Gama, jornalista que também aparece como produtora executiva
do filme. Karina se descreve como evangélica, nascida na Brasilândia, periferia
de São Paulo, e hoje atuando “nos Jardins e em Hollywood”. É também responsável
pela feira The Connect Faith, encontro de líderes cristãos e empresas com foco
em tecnologia para igrejas — o que a coloca exatamente no cruzamento
evangélico-fintech-poder.
A
empresa parece ter sido criada para o filme. Esse é o ponto mais revelador.
Segundo levantamento da Ancine a pedido de Malu Gaspar (O Globo), a Go Up teve
o registro confirmado em 9 de julho de 2025, está regular, mas nunca lançou
nenhum filme — no cinema, na TV aberta ou fechada. O contrato social na Junta
Comercial de SP mostra uma alteração do objeto e das atividades econômicas em
junho de 2025, ou seja, a empresa foi reposicionada às vésperas do projeto. As
outras duas empresas no nome de Karina na Ancine — a Go7 Assessoria e a ONG
Instituto Conhecer Brasil — também nunca registraram nem lançaram qualquer
produção.
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O ninho de pessoas jurídicas
Karina
opera uma constelação de CNPJs que recebem recursos públicos. O mais
escandaloso: a ONG Instituto Conhecer Brasil firmou contrato de R$ 108 milhões
com a Prefeitura de São Paulo para instalar 5 mil pontos de wi-fi na capital,
dos quais só cerca de 3,2 mil foram concluídos — acordo de junho de 2024 hoje
sob investigação da Polícia Civil e do MP-SP.
Há
ainda a ANC (Academia Nacional de Cultura), que recebeu R$ 2,6 milhões em
emendas “pix” de deputados do PL para produzir uma série sobre a colonização do
Brasil. Some-se a Go7 Assessoria e a Upcon Serviços Especializados — pelo menos
cinco empresas no nome dela.
Karina
chegou ao projeto pelas mãos do deputado federal e ex-secretário de Cultura
Mário Frias (PL-SP), que assina o roteiro. A relação é antiga e densa: Frias
destinou emendas às ONGs dela e contratou uma de suas empresas na campanha
eleitoral de 2022. A Agência Pública obteve uma minuta de cessão de direitos em
que Mário Frias e a Go Up aparecem como “produtores” e Bolsonaro como
“cedente”, com valores oferecidos ao ex-presidente pela sua história de vida.
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O dinheiro
O
financiamento é o coração da controvérsia. Karina admitiu em entrevista à
GloboNews que Daniel Vorcaro foi responsável por mais de 90% da verba do filme;
o orçamento já realizado seria de cerca de R$ 65,7 milhões (US$ 13 mi), dos
quais R$ 61 milhões pagos por Vorcaro, dentro de um total acordado com Flávio
Bolsonaro de R$ 134 milhões — o maior montante já destinado a uma única
produção na história do cinema brasileiro.
O
caminho do dinheiro não foi direto: o Banco Master nega ter repassado recursos
diretamente, alegando que o relacionamento foi com a Entre Investimentos,
pessoa jurídica distinta, e Karina diz que o dinheiro começou a entrar em março
de 2025 a partir de um fundo mantido pelo advogado Paulo Calixto, no Texas. O
nome que aparece na perícia é o fundo Havengate: a PF estuda formas de quebrar
o sigilo do Havengate, suspeito de ter sido o veículo usado por Vorcaro para
custear o “Dark Horse”, com aporte de US$ 13 milhões.
A
Ancine abriu investigação formal em maio de 2026 para apurar irregularidades;
vereadores de SP acionaram o Ministério Público pedindo a responsabilização do
prefeito Ricardo Nunes e a suspensão dos contratos. Há também ações de pelo
menos 14 figurantes alegando condições “humilhantes” e dizendo terem sido
surpreendidos pelo tema pró-Bolsonaro do filme.
Resumindo
o arco: a Go Up é uma produtora sem histórico, criada (ou reconfigurada) em
meados de 2025, sustentada por uma rede de ONGs que captam emenda e contrato
público, encaixada por Mário Frias e financiada — segundo a própria dona —
majoritariamente por Vorcaro via estruturas opacas (Entre Investimentos, fundo
do Texas, Havengate). É praticamente um estudo de caso da convergência entre
dinheiro do Master, capital evangélico-bolsonarista e captura de verba pública.
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Investigações do STF
Em 15
de maio de 2026, Flávio Dino abriu apuração preliminar no STF. Deputados e
vereadores de SP enviaram ao menos R$ 7,7 milhões em emendas para entidades
ligadas à Go Up, e somando os contratos públicos as entidades de Karina
acertaram o recebimento de pelo menos R$ 110,8 milhões em recursos públicos no
total.
A
apuração mira repasses de parlamentares do PL: os ex-deputados federais
Alexandre Ramagem (RJ) e Carla Zambelli (SP), e os deputados Marcos Pollon
(MS), Bia Kicis (DF) e Mário Frias (SP). O caso mais escandaloso é o do próprio
roteirista: Frias direcionou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer
Brasil — R$ 1 milhão para um projeto de “letramento digital” e R$ 1 milhão para
um projeto esportivo, sendo ele simultaneamente produtor executivo do filme — o
cruzamento direto entre verba pública e cadeia de produção. A Academia Nacional
de Cultura (ANC), por sua vez, recebeu cerca de R$ 2,6 milhões em emendas “Pix”
de deputados do PL. Pollon e Kicis negam ter destinado recursos diretamente à
produtora.
Levantamento
aponta que deputados estaduais de SP indicaram ao menos R$ 700 mil para
entidades ligadas a Karina, a maioria do PL: Valéria Bolsonaro, Lucas Bove e
Gil Diniz. Detalhando o que o Metrópoles e a ação no STF já especificaram:
Valéria Bolsonaro (PL) destinou R$ 100 mil ao Instituto Conhecer Brasil no fim
de 2023, para aquisição de equipamentos; Lucas Bove (PL) indicou R$ 213 mil ao
mesmo instituto para projetos esportivos, mas o repasse teria sido bloqueado
por razões técnicas. E Gil Diniz (PL-SP) destinou R$ 200 mil à ANC para a série
documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que Não se Rende” — projeto que
pode ter recebido novo nome.
Vale
registrar os “objetos” declarados, porque é onde mora o desvio de finalidade:
letramento digital, projetos esportivos, aquisição de equipamentos, e a série
documental “Heróis Nacionais”. A própria ANC, lembre-se, captou emendas “pix”
para uma série sobre a colonização do Brasil — sempre o mesmo padrão de projeto
cultural/educacional como invólucro.
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As quatro entidades alvo
O
conglomerado sob investigação é composto por Go Up Entertainment, Instituto
Conhecer Brasil (ICB), Academia Nacional de Cultura (ANC) e Conhecer Brasil
Assessoria. O JB sintetiza a tese da acusação: as quatro entidades atuariam de
maneira coordenada, como grupo econômico unificado sob comando único, desenhado
para pulverizar o trânsito de capital e camuflar o fluxo de caixa.
• Operação contra produtora revela
indícios de lavagem de dinheiro para o clã, avalia cientista político
Para o
cientista político Paulo Roberto de Souza, as diversas denúncias envolvendo a
produtora do filme de Bolsonaro, formam um conjunto de peças de um
grande esquema criminoso que envolve não apenas o senador Flávio Bolsonaro
(PL), como a família toda que, segundo evidências, se beneficiou das relações
com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. “O que temos, de acordo
com a reportagem do Intercept Brasil, é que parece que todos os contratos desse
filme superfaturado alimentaram alguns dutos de lavagem de dinheiro em
benefício da família Bolsonaro. Já tem o caso da casa comprada nos EUA e agora
tem esse caso de mais um desvio que pode ter rastros que cheguem a outras
pessoas”, afirma em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Souza
critica especialmente a cobertura da mídia comercial sobre o caso com o
decorrer dos dias. “A gente percebe que tiveram outros desdobramentos e isso
não vem sendo mais explorado na mídia tradicional. Meio que ficou muito
localizado temporalmente e a preocupação da mídia tradicional é só o que isso
reverberou na candidatura [de Flávio Bolsonaro]. É quase como se fosse um
boato. Mas estamos falando de uma questão criminal com potencial de ser um
grande escândalo politico e, me parece, está sendo pouco explorada.”
O
cientista político compara a conduta atual da imprensa diante da maior fraude
no sistema financeiro do país e a exploração midiática na época da operação
Lava Jato. “Está muito claro que não só o filme, como a produtora e algumas
ONGs ligadas a esse processo, junto com o Banco Master, criaram um ecossistema
de desvio e lavagem de dinheiro que já tem indícios de ter beneficiado
diretamente a família Bolsonaro. Sinto falta de uma maior exploração por parte
da mídia tradicional. Tem um repórter [do Intercept Brasil] que foi até a casa
do Eduardo. Isso não tem sido explorado. Me parece e me preocupa esse
desinteresse por parte da mídia tradicional em se aprofundar em um caso em que
a gente não está falando em pouco dinheiro. A gente está falando de um orçamento
quatro, cinco vezes maior do que filmes com notória qualidade, bilheteria e
premiação internacional do cinema”, pontua Paulo Roberto de Souza.
Fonte:
Jornal GGN/Brasil de Fato

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