quinta-feira, 18 de junho de 2026

Oliveiros Marques: De Ciro, o Grande, a Ciro Nogueira - quando a ascensão se transforma em armadilha

A história é repleta de personagens que construíram impérios, acumularam poder e passaram a acreditar que sua influência era permanente. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Ciro, o Grande, fundador do Império Persa. Visionário, estrategista e conquistador, ele transformou um reino periférico em uma potência que dominou vastas regiões da Ásia. Sua trajetória simboliza a ascensão de quem compreendeu as engrenagens do poder melhor do que seus adversários.

Mas a mesma história ensina que nenhum poder é eterno.

Ciro expandiu suas fronteiras, acumulou vitórias e construiu uma reputação quase mítica. Ainda assim, acabou encontrando seu limite. Morreu em campanha militar, longe do centro do império que havia criado. Seu legado permaneceu, mas o homem que parecia invencível descobriu que a força que o levou ao topo não era suficiente para protegê-lo para sempre.

Guardadas todas as proporções históricas, há algo de semelhante na trajetória política do senador Ciro Nogueira. Durante anos, ele foi um dos mais habilidosos operadores da política brasileira. Sobreviveu a diferentes governos, ampliou sua influência em Brasília e tornou-se uma das figuras centrais do chamado Centrão. Enquanto presidentes, ministros e partidos vinham e iam, Ciro permanecia.

Sua força nunca esteve na popularidade de massas. Estava na capacidade de articular, construir relações, ocupar espaços estratégicos e se posicionar próximo aos centros de decisão. Era o político que parecia inquebrantável.

Entretanto, os acontecimentos envolvendo o escândalo do Banco Master colocaram essa imagem sob forte pressão. A Polícia Federal encontrou nos celulares apreendidos de Vorcaro indícios de uma relação imprópria entre o senador e o banqueiro, controlador da instituição financeira e centro nervoso do escândalo BolsoMaster. As investigações apontam suspeitas de vantagens financeiras e atuação política em favor de interesses privados, acusações que Ciro Nogueira nega; defesa, contudo, que fica mais difícil a cada sigilo levantado pelo ministro André Mendonça. 

Independentemente do desfecho judicial, o dano político já é evidente. O senador que durante décadas cultivou a imagem de articulador eficiente passou a ser associado a um dos maiores escândalos financeiros e políticos do país. O personagem que parecia dominar o tabuleiro agora se vê obrigado a jogar na defensiva. Ciro, se transforma em pequeno.

É justamente aí que a comparação histórica se torna interessante. O problema de quem permanece muito tempo próximo ao poder é começar a acreditar que controla todas as variáveis. A proximidade com empresários influentes, bancos poderosos e grupos econômicos costuma parecer uma demonstração de força. Muitas vezes, porém, transforma-se em dependência. E dependência é uma forma silenciosa de fragilidade.

Ciro, o Grande, descobriu que até os maiores impérios encontram fronteiras. Ciro Nogueira se vê apresentado à possibilidade de descobrir que a habilidade política também possui limites. A diferença é que, na democracia, as batalhas não são travadas em campos militares, mas nos tribunais, nas instituições e na opinião pública.

A história raramente se repete de forma literal. Mas frequentemente rima. E uma de suas rimas mais constantes é que a ascensão costuma ser construída pela inteligência; a queda, muitas vezes, nasce da convicção de que se está acima das consequências. Na política, a soberba é o atalho para a desgraça.

•        Familiares, servidores e dinheiro vivo ocultavam pagamentos de Vorcaro a Ciro Nogueira

A Polícia Federal aponta que uma estrutura empresarial ligada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria usado familiares, servidores públicos, beneficiários de programas sociais e movimentações em dinheiro vivo para ocultar recursos considerados ilícitos, parte deles supostamente relacionada ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a uma mesada paga ao parlamentar, informa a Folha de São Paulo.

A suspeita aparece em uma análise feita por investigadores a partir de Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Os documentos descrevem movimentações de um grupo vinculado ao clã de Ciro Nogueira, com atuação no Piauí e no Maranhão, e apontam a existência de um “circuito integrado” entre empresas das famílias Nogueira e Vorcaro.

No centro da apuração estão a CNLF, ligada ao senador, e a BRGD, controlada por Vorcaro e seus parentes. De acordo com a PF, esse fluxo financeiro teria viabilizado o pagamento de ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025, período que coincide com o agravamento da crise no Banco Master e com tentativas de preservar os negócios do ex-banqueiro.

A investigação aponta uma possível estratégia de lavagem de dinheiro estruturada por meio de empresas familiares, circulação de valores dentro do próprio grupo econômico, uso de numerário em espécie e interposição de terceiros. Para os investigadores, esses mecanismos teriam servido para ocultar, dissimular e reinserir valores de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos.

A PF afirma que as estruturas analisadas não funcionavam de maneira isolada. Segundo o relatório, elas operavam “de modo articulado, por meio de empresas do núcleo familiar, circulação intragrupo, uso intensivo de numerário [dinheiro] em espécie e interposição de terceiros, inclusive agentes públicos”. A conclusão dos investigadores é que Ciro Nogueira aparece como possível beneficiário final do esquema.

A Folha de São Paulo informa que procurou a assessoria de imprensa de Ciro Nogueira no fim da tarde de terça-feira (16), mas não recebeu resposta até a publicação do texto. A defesa de Daniel Vorcaro também foi contatada por e-mail e WhatsApp, sem retorno até aquele momento.

<><> Relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro é investigada

As investigações já teriam identificado diferentes indícios de proximidade entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro. Entre os elementos citados estão o pagamento de diárias em hotéis de luxo em Nova York e na Europa, viagens conjuntas e repasses em dinheiro vivo. Segundo a PF, Vorcaro também se referia ao senador como “grande amigo de vida”.

De acordo com os investigadores, os recursos chegariam ao grupo ligado a Ciro por meio da BRGD, administrada por Felipe Vorcaro, primo de Daniel. A movimentação teria ocorrido com o uso da fintech PJBank. No período analisado, entre 2020 e 2025, a fintech teria enviado R$ 3 milhões ao grupo do senador, embora, segundo a PF, não tivesse autorização do Banco Central para esse tipo de transação.

A Folha de São Paulo informou que também buscou a assessoria de imprensa da instituição financeira na noite de terça-feira (16), mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

<><> Empresas do clã Nogueira teriam recebido e redistribuído valores

Após a entrada dos recursos, a PF afirma que duas empresas da família Nogueira teriam papel central no suposto esquema: a CNLF e a CN Motos, que atua no comércio de motocicletas. A primeira tem como sócios o senador e quatro familiares. A segunda reúne Ciro Nogueira e mais dois sócios.

Na avaliação dos investigadores, essas empresas teriam recebido valores ilícitos, misturado os recursos a receitas consideradas legítimas e, posteriormente, redistribuído o dinheiro dentro da estrutura familiar e empresarial vinculada ao senador.

A PF destaca que relatórios do Coaf citam especificamente Ciro Nogueira e somam, segundo levantamento da reportagem, mais de R$ 13 milhões em movimentações financeiras suspeitas dentro da rede investigada.

“Em síntese”, afirma a PF, os dados indicariam um “circuito integrado” envolvendo aportes feitos pela BRGD, pagamentos via PJBank, dinheiro em espécie e posterior passagem dos valores pelas empresas ligadas ao clã do senador. A investigação sustenta que as companhias misturavam os recursos com dinheiro lícito e promoviam a “redistribuição de valores dentro do grupo familiar/econômico, tendo Ciro Nogueira como possível beneficiário final”.

<><> Depósitos em espécie e servidores públicos entram no foco da PF

No caso da CN Motos, os investigadores apontam que um funcionário chamado Bernardo realizou R$ 3,5 milhões em depósitos em espécie para a empresa. Segundo a PF, essas operações ocorreram em períodos próximos a transferências posteriores da companhia para a pessoa física do senador.

Os registros do Coaf também indicam que a empresa de venda de motocicletas recebeu ao menos R$ 1,2 milhão de servidores públicos com atuação no Piauí, no Maranhão e em estruturas da União.

Para a PF, esse tipo de movimentação sugere o uso de terceiros para reduzir a exposição direta do agente político investigado. “Esse padrão indica possível utilização de terceiros como instrumento de ocultação do real beneficiário das despesas e dos fluxos financeiros, reduzindo a exposição direta do agente político principal”, afirmam os investigadores.

A investigação também chama atenção para o perfil financeiro de algumas pessoas envolvidas nas transações. Parte delas teria baixa renda formal e, em determinados casos, teria recebido benefícios de programas sociais do governo federal, o que levou a PF a levantar a hipótese de uso de laranjas.

Um dos casos citados envolve uma pessoa que recebia R$ 2.000 por mês, mas transferiu R$ 90 mil para a CN Motos em um ano. Outro exemplo mencionado pela investigação é o de alguém que recebeu auxílio emergencial durante a pandemia de Covid-19 e, no mesmo intervalo de tempo, pagou R$ 143 mil à empresa.

<><> Transações com empresa de Teresina e deputado também são citadas

No sentido inverso do fluxo financeiro, a CN Motos repassou R$ 412 mil a uma pequena empresa localizada em Teresina, capital do Piauí. A companhia tem capital social de R$ 20 mil e uma única sócia, funcionária da Assembleia Legislativa do estado, com salário atualmente em torno de R$ 4.000.

A PF também identificou transações envolvendo parlamentares. Entre elas está um pagamento de R$ 357 mil feito pelo deputado federal Jadyel Alencar (Republicanos-PI) à CN Motos. Procurado pela reportagem, ele afirmou que o valor corresponde a parte da compra de um avião.

A apuração da PF, baseada nos relatórios do Coaf, sustenta que os indícios reunidos apontam para uma engrenagem financeira voltada à ocultação e circulação de recursos entre empresas, familiares e terceiros, tendo como possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira.

•        Mesadas de Vorcaro a Ciro Nogueira somam R$ 6 milhões, diz PF

As investigações da Polícia Federal (PF) sobre o escândalo do Banco Master apontam que uma empresa ligada ao senador e presidente nacional do Progressistas (PP), Ciro Nogueira (PI), recebeu ao menos R$ 6 milhões em repasses atribuídos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro dono da instituição financeira, entre junho de 2024 e agosto de 2025. As informações são do SBT News.

Segundo relatório da PF enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso na Corte, os pagamentos teriam ocorrido de forma periódica, variando entre R$ 300 mil e R$ 500 mil por mês. Os investigadores apuram se os repasses estavam relacionados a ações políticas e legislativas que poderiam beneficiar interesses do Banco Master no Congresso Nacional.

<><> Mensagens apontam relação próxima

De acordo com a investigação, mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro indicam uma relação próxima entre o empresário e o senador. Em uma das conversas, Ciro Nogueira afirma ser “um dos seus maiores” amigos e diz estar “com saudades” e “às ordens” do então controlador do Banco Master.

A PF destaca que diálogos trocados entre Daniel Vorcaro e seu primo Felipe Vorcaro apontam conhecimento e autorização dos pagamentos. Em trecho reproduzido no relatório, os investigadores afirmam que os registros demonstram “ciência, anuência e prioridade atribuída por Vorcaro à manutenção desses repasses, os quais, no intervalo temporal identificado, totalizam montante mínimo estimado em R$ 6.000.000,00”.

<><> Pagamento em espécie é citado pela investigação

Outro conjunto de mensagens analisado pela Polícia Federal envolve Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pelos investigadores como operador financeiro do esquema.

Em uma das conversas, Daniel Vorcaro escreve: “Resolve Ciro (...). Manda agora lá”. Na sequência, Zettel encaminha uma lista de pagamentos contendo a descrição: “Nota Ciro mais imposto 2. Espécie Ciro 350k”.

Segundo a PF, a anotação sugere que um pagamento de R$ 350 mil em dinheiro vivo teria como destinatário uma pessoa identificada como “Ciro”. Os investigadores consideram que o contexto da troca de mensagens reforça a suspeita de que a referência seja ao senador.

<><> Negócio empresarial também é alvo de apuração

A investigação também analisa a aquisição de 30% da Green Energia Fundo de Investimento por uma empresa ligada a Ciro Nogueira.

De acordo com a PF, a participação teria sido comprada por R$ 1 milhão, embora o valor de mercado estimado para a operação fosse de aproximadamente R$ 12 milhões. Os investigadores apuram ainda a utilização de um suposto “contrato de gaveta” para formalizar o negócio.

<><> Suposto favorecimento ao Banco Master

No relatório, a Polícia Federal aponta indícios de que os pagamentos teriam sido acompanhados de iniciativas legislativas favoráveis ao Banco Master. Entre os episódios citados está uma proposta que previa elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Conhecida nos bastidores como “Emenda Master”, a medida teria sido elaborada por um funcionário do banco, entregue na residência do senador em 13 de agosto de 2024 e protocolada horas depois, segundo os investigadores.

A PF também menciona outros projetos de lei que teriam sido encaminhados por representantes ligados a Vorcaro ao gabinete de Ciro Nogueira. Mensagens apreendidas mostram que o empresário teria solicitado a troca de um envelope identificado com a marca do Banco Master por outro sem identificação antes da entrega do material.

Segundo a reportagem, Ciro Nogueira não se manifestou sobre as acusações e os elementos apresentados pela investigação.

 

Fonte: Brasil 247

 

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