Quem
são os brasileiros deportados dos EUA?
Aeroporto
Internacional de Confins, Minas Gerais, outubro de 2025. A convite do
Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), o Observatório das
Deportações teve a oportunidade inédita de acompanhar as operações humanitárias
do “Aqui é Brasil”. O programa foi criado em agosto de 2025, como resposta ao
episódio ocorrido em fevereiro do ano passado em Manaus, quando uma aeronave
que transportava brasileiros deportados dos Estados Unidos precisou realizar um
pouso emergencial por razões técnicas. O programa ganhou projeção nacional após
imagens dos deportados desembarcando algemados repercutirem amplamente na
imprensa.
Prestes
a completar um ano, o Aqui é Brasil recebe semanalmente os brasileiros
deportados dos EUA por meio de voos fretados pelo Immigration and Customs
Enforcement (ICE). A operação de acolhida e registro dos deportados é executada
pela Organização Internacional das Migrações (OIM), agência da ONU para as
migrações.
A
grande maioria desembarca em condições de muita fragilidade física e emocional,
incluindo privação de sono, higiene e situações de maus tratos. Em respeito à
dignidade, não julgamos ético fotografar os deportados recém-desembarcados,
algo que a imprensa brasileira tem feito exaustivamente sem o consentimento
desta população. Não devemos objetificá-los nem estigmatiza-los para narrar os
fatos. Recorremos então à descrição subjetiva da imagem a partir de nosso
acesso à área restrita do aeroporto de
A
seguir descrevemos nossa experiência como pesquisadores a partir de quatro
visitas à Operação, realizadas em outubro de 2025 e fevereiro de 2026, buscando
apresentar uma narrativa alternativa à que vem sendo frequentemente fornecida
por veículos de imprensa tradicionais brasileiros.
<><>
Para todos verem
Depois
de cerca de 1h de espera na área restrita do Aeroporto, as portas se abriram e
as equipes da OIM e MDHC entraram com os recém-chegados. O primeiro impacto é
de tristeza por vê-los tão fragilizados. Ninguém chora, há uma tristeza seca,
contida e compartilhada no ar que pesa. Cheira-se a necessidade física de
banho, não por falta de higiene, mas por falta de dignidade a estes corpos
enquanto esperaram no presídio de Alexandria, na Louisiana, até serem
retornados ao Brasil.
Logo o
silêncio que grita do primeiro encontro dá lugar à praticidade das vidas que
seguirão. Os funcionários da Operação Aqui é Brasil dividem os beneficiados
entre os que continuarão por conta própria a partir dali e os que pernoitarão
no hotel custeado pelo Governo Federal. Algumas famílias e amigos esperam do
lado de fora sem a confirmação segura de que de fato chegaram até o
desembarque. Acontece de passageiros na lista não serem embarcados nas
aeronaves por razões não totalmente esclarecidas por autoridades
norte-americanas.
Uma
fila de homens de diversas idades, em sua maioria pretos e pardos. Pais de
família, trabalhadores, homens de bem. Senhores, homens de meia idade e
garotos. Algumas poucas mulheres. A maioria veste conjuntos de moletom cinza e
seguram sacos de entulho onde carregam seus poucos pertences. Chama a atenção
que dentre tantos com sacos de entulho houvesse uma passageira carregando sua
mala. O que explicaria uma mala entre tantos sacos? A moça fora presa ao tentar
entrar em aeroporto nos EUA, mesmo tendo visto de trabalho, soubemos no dia
seguinte.
Há
poucos vestindo uniformes laranjas. Estes retornaram após cumprirem pena
criminal em presídios, a maioria por não pagamento de pensão alimentar ou
violência doméstica. Foragidos da Justiça brasileira não são atendidos pelo
programa Aqui é Brasil, sendo levados pela Polícia Federal ao desembarcarem da
aeronave. Há uma série de outros homens que vestiam calças manchadas de tinta.
Teriam sido presos indo trabalhar na construção civil? Uma funcionária da
operação confirma que sim. Foram raptados pelo ICE com a roupa do corpo a
caminho do trabalho.
Seguimos
com um grupo de passageiros no primeiro ônibus com destino ao hotel. No caminho
compartilhavam suas experiências nos presídios, tentavam trocar entre si
dólares por reais, perguntavam por carregadores de celular. Aqui o clima já era
mais leve, riam e brincavam mesmo esgotados depois de 30 horas algemados.
Roubos de agentes do ICE são prática comum, relatam vários passageiros. Lucas
foi um dos que tiveram seus documentos roubados e precisou realizar Boletim de
Ocorrência na manhã seguinte. A equipe do Aqui é Brasil leva todos nesta
situação para realização de BO na estação da Polícia Civil em Confins.
Wellington,
rapaz negro e natural de Ipatinga, cerca de 40 anos mostra sua canela ferida e
diz “Os agentes do ICE me bateram, aqui olha! ” Danilo também relatou em
conversa no corredor do hotel ter sido agredido fisicamente por agentes do ICE
enquanto esteve detido. Bruno diz “celular, cordão de ouro, aliança de
casamento, dinheiro! Eles pegam mesmo! Não tão nem aí! Se virem que é de ouro,
eles pegam na hora! ” Por precaução das autoridades brasileiras, os pertences
de cada deportado são entregues pela PF assim que desembarcam da aeronave. Os
roubos já acontecem nos EUA, muitas vezes quando são transferidos entre um
centro de detenção e outro durante o período de custódia.
Depois
de meses comendo mal, recebem uma refeição tipicamente brasileira, com arroz,
feijão, carne e batatas fritas. Em conversa no corredor Lucas[i] diz “quando eu
vi um prato de comida, eu fiquei tremendo. Foram seis meses comendo pão com
mortadela. Foi meu primeiro prato de comida! Ainda estou tremendo. ” Preso na
Flórida, Lucas tinha placas vermelhas no rosto e perdeu 15kg durante os 3 meses
que ficou sob custódia do ICE. Bruno complementa: “Eu só comia melhor no
presídio porque eu trabalhava na cozinha e conseguia roubar escondido comida
para mim. Tudo que sobrava eles jogavam fora e não distribuíam aos detentos,
não era permitido. Quem não trabalhava na cozinha como eu, comia muito mal”.
Já
alimentados, passam pela triagem da equipe da operação, onde respondem a um
formulário elaborado pelo MDHC. Enquanto aguardam sentados sua vez de serem
chamados, carregam celulares e recebem um kit higiene. Um rapaz nos pede
remédio de dor de cabeça. No retorno ao Brasil o ICE se recusou a lhe dar o
remédio, ele relata. Outro passageiro relata que também não recebeu remédio de
dor de garganta.
Depois
da triagem são direcionados aos quartos que compartilham com mais um ou dois
beneficiados. No dia seguinte de manhã recebem café da manhã e buffet livre de
almoço com comida de ótima qualidade. As equipes da OIM e MDHC fazem a refeição
no mesmo restaurante. A dignidade que faltava na chegada é recuperada no dia
seguinte, com higiene, repouso e alimentação. Ainda assim, muito não conseguem
dormir à noite devido à adrenalina.
Todos
com quem conversamos ficaram presos entre 3 e 6 meses, a maioria no Texas. O
voo tinha cerca de 200 passageiros, sendo 114 brasileiros e 80 colombianos.
Antes do desembarque em Confins pararam em Bogotá. Ficaram com pés e mãos
algemados e sem dormir por pelo menos 30 horas. Privação de sono, banho,
medicação. Práticas corriqueiras do tratamento do governo dos EUA a imigrantes,
nem todos indocumentados. Mas, afinal, qual o perfil destes brasileiros detidos
e deportados pelo ICE? Eram mesmo criminosos, como afirma o governo dos EUA?
<><>
O perfil dos brasileiros apreendidos e deportados
Para
responder à pergunta que dá título a esta coluna, em fevereiro de 2026
produzimos o relatório inédito “Por onde estão os brasileiros? ”, que conta com
dashboard interativo disponível no site oficial do Observatório das
Deportações. Utilizando dados oficiais do ICE, isolamos o número de
brasileiros, nos permitindo traçar um perfil nacional médio referente a 2025.
Os dados foram obtidos e disponibilizados pelo Deportation Data Project, um
projeto da Universidade da Califórnia que vem monitorando as políticas de
deportação nos EUA. Graças ao Observatório, o Brasil é o primeiro e,
possivelmente, o único país da América Latina a produzir uma radiografia de
seus cidadãos sob custódia do ICE em 2025.
Considerando
um total de três mil apreensões entre janeiro e outubro de 2025 (período com
dados disponíveis), os brasileiros tinham em média 35 anos (um terço do total
tinha entre 30 e 39 anos), com ampla maioria de homens (85%) e uma taxa média
de deportação de 53%. Considerando que 45% dos casos ainda aguardavam sentença,
podemos afirmar com segurança que praticamente todos os brasileiros apreendidos
pelo ICE em 2025 foram deportados ao Brasil, com baixíssimas chances de êxito
em pedidos de fiança para aguardar o processo em liberdade, ou ao recorrerem
das decisões judiciais.
Famoso
enclave de brasileiros nos EUA, o estado de Massachusetts apresentou, sozinho,
metade do total de apreensões (1462 registros). Maio e setembro foram os meses
com picos de apreensão de brasileiros (573 e 658, respectivamente). Não por
acaso, foi justamente nestes meses que o ICE promoveu as operações Patriota e
Patriota 2.0 no estado de Massachusetts. Na incursão de setembro, quase metade
dos 1400 imigrantes apreendidos no estado eram brasileiros, como pudemos
observar.
Enquanto
metade (1512) dos brasileiros havia sido apreendida por infrações de imigração
(consideradas contravenção), outros 465 tinham condenações criminais prévias.
Segundo informação exclusiva que obtivemos junto à Polícia Federal via Lei de
Acesso à Informação, 19 foragidos da Justiça brasileira foram retornados pelo
ICE ao país em 2025 para cumprimento de sentença. Concluímos, então, que os
demais 446 condenados respondiam por crimes cometidos nos EUA.
Portanto,
contradizendo a retórica populista de Donald Trump para justificar as operações
do ICE, apenas um sexto dos brasileiros apreendidos, eram criminosos de fato.
Ironicamente, Donald Trump é o primeiro presidente da história dos Estados
Unidos condenado pela justiça. Entretanto, sua condenação em 2024 não o impediu
de candidatar-se à presidência nem de ser empossado presidente no ano seguinte.
Como
observamos in loco no Aqui é Brasil e demonstramos quantitativamente com os
dados do ICE, a grande maioria dos brasileiros deportados são homens pretos e
pardos de classes baixas que trabalhavam na construção civil e viviam
honestamente nos EUA.
Migraram
em busca de uma vida melhor. Muitos dos deportados, inclusive, apoiavam Donald
Trump durante a disputa eleitoral de 2024 por acreditarem que somente os
migrantes criminosos seriam deportados. Essa contradição entre suas posições
políticas mais conservadoras e sua migração indocumentada gera ataques
xenófobos dos próprios brasileiros dos dois lados da atual polarização
política.
Brasileiros
identificados com ideologias de extrema direita os atacam sob a retórica de
“quem mandou entrar e permanecer lá de forma irregular? Lá não é bagunça como o
Brasil. ” Por outro lado, brasileiros que se enxergam como mais progressistas
também os atacam: “Quem mandou apoiar o Trump? Acharam que seriam poupados do
fascismo? ” Há, portanto, dois tipos de auto-xenofobia que são cometidas
atualmente contra os brasileiros deportados. Ora os culpabilizando por migrarem
de forma irregularizada, ora por apoiarem políticos com viés ideológico de
extrema-direita com discursos xenófobos que perseguem grupos vulneráveis para
emularem uma imagem de nação forte e soberana.
Fonte:
Por Júlio D’Angelo Davies e Gustavo Dias

Nenhum comentário:
Postar um comentário