Vômito
e mal-estar são rotina em escola cercada por bananal e agrotóxicos no CE
VÔMITO,
enxaqueca, ardência nos olhos e dores estomacais são queixas comuns entre
alunos e professores da escola municipal Joaquim Dino Gadelha, localizada na
comunidade Cabeça Preta, zona rural de Limoeiro do Norte (CE).
A
unidade educacional está cercada de plantações de banana. A paisagem da região
é dominada por grandes fazendas de frutas que compõem um dos principais polos
do setor no Brasil.
Desde
fevereiro do ano passado, quando surgiram os primeiros relatos sobre possíveis
contaminação pela pulverização aérea de agrotóxicos, os problemas escalaram a
ponto de o diretor da unidade “interromper as atividades escolares em diversas
ocasiões para evacuar estudantes e profissionais, diante da exposição aos
produtos químicos”.
A
informação consta de um relatório publicado pela Secretária da Saúde do Ceará e
outros órgãos do governo estadual em julho de 2025, após inspeção realizada na
Dino Gadelha, na plantação de bananas e no posto de saúde da comunidade.
A
principal suspeita da comunidade escolar é de que a pulverização de pesticidas
por meio de drones nas lavouras vizinhas à escola estaria contaminando os
membros da comunidade, que têm se mobilizado para denunciar os episódios.
O
problema vem de longa data em Limoeiro do Norte e já redundou em episódios de
extrema violência. Em 2010, o ativista conhecido como Zé Maria do Tomé foi
assassinado com 25 tiros após fazer uma série de denúncias sobre a poluição
gerada por agrotóxicos no município. Por medo, as fontes pediram para não serem
identificadas.
A
história ganhou um novo capítulo em fevereiro de 2025, quando um grupo de
crianças da escola apresentou sintomas como dor de cabeça, febre, vômito e
diarreia.
Fazia
apenas dois meses que a pulverização aérea de agrotóxicos por drones havia sido
liberada no Ceará por uma lei estadual. Em maio, a escola chegou a interromper
as aulas por causa de um “intenso odor que vinha do bananal ao lado”, segundo
fontes ouvidas pela Repórter Brasil.
O
episódio levou as mães e lideranças da comunidade a procurar a prefeita da
cidade, Dilmara Amaral (PRD), em busca de uma solução. Depois daquele dia, pais
e professores relataram à Repórter Brasil que algumas crianças e adolescentes
chegaram a frequentar as aulas fazendo uso de máscaras.
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Relatório aponta risco de contaminação por proximidade entre escola e lavoura
de banana
A
inspeção comandada pela Secretária da Saúde do Ceará no ano passado foi uma
resposta a um ofício encaminhado pela Assembleia Legislativa do Ceará, em
virtude de “relatos preocupantes” de possíveis impactos aos moradores “pelo uso
intensivo de drones” na pulverização de agrotóxicos.
O
documento aponta que, “devido à proximidade do bananal com as salas de aula e
refeitório, o deslocamento de resíduos por vento é uma hipótese plausível”.
Destaca também que as casas dos moradores ficam a “apenas 12 metros das
plantações, separadas apenas por uma via pública”, enquanto “a escola municipal
da comunidade está cercada pelas plantações de banana, o que a torna um dos
pontos mais críticos”.
A
inspeção resultou em uma análise da água ingerida pelos estudantes, fornecida
pela rede pública. Os testes identificaram o herbicida Atrazina na água
consumida por alunos e professores. A concentração do agrotóxico na água estava
dentro do limite considerado seguro no Brasil.
O
relatório ressalva que ainda não há evidências suficientes para fechar a
conexão entre a exposição a agrotóxicos e os afastamentos de alunos e
professores, mas recomenda “o monitoramento sistemático dos afastamentos por
motivo de saúde na escola”.
A
geógrafa Bernadete Freitas, pesquisadora da Uece (Universidade Estadual do
Ceará), pondera que o resultado de apenas uma amostra de água pode não retratar
fielmente a condição do produto. “Dependendo da metodologia, os resultados das
pesquisas podem mudar. Por isso, é importante adotar metodologias diversas na
análise da água”, defende.
A
fiscalização do governo estadual também traz avaliações sobre as condições de
trabalho dos funcionários da IMJ Agrícola, proprietária do bananal que cerca a
escola Dino Gadelha. O documento diz que, “embora a empresa tenha declarado
utilizar drones apenas para aplicação de fertilizantes, a inspeção revelou uso
de agroquímicos”.
A
Repórter Brasil tentou contato com representantes da IMJ Agrícola, mas não
recebeu resposta até o fechamento desta matéria.
Segundo
o relatório da Secretaria de Saúde, receitas agronômicas apresentadas pela
empresa indicam que os fungicidas Opera e Collis podem ter sido aplicados nas
lavouras por meio de drones — prática negada pela IMJ Agrícola.
De
acordo com o fabricante do Opera, os ingredientes ativos estão associados a
efeitos colaterais como náusea, vômitos e desconforto gastrointestinal, além de
irritação na garganta, olhos, tosse e dificuldade para respirar.
A ficha
de identificação do produto informa ainda que ele é “altamente persistente no
meio ambiente” e recomenda que não seja aplicado por via aérea em locais a
menos 500 metros de povoação e de mananciais de captação de água para
abastecimento público, nem a menos de 250 metros de mananciais de água,
moradias isoladas, agrupamentos de animais e vegetação suscetível a danos.
Um ano
e três meses após os estudantes da escola passarem a relatar dor de cabeça,
náusea e vômitos frequentes, foram realizadas as primeiras notificações de
intoxicação pela Secretaria Municipal de Saúde, passo que ainda depende de
outras etapas para estabelecer o possível nexo causal entre as queixas de
mal-estar e o contato com os agrotóxicos.
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‘Com o drone, o veneno ficou bem pior’
A
comunidade Cabeça Preta tem 2 mil habitantes, dos quais 345 crianças e
adolescentes estudam na escola Dino Gadelha.
Uma
dessas crianças é o filho de um agricultor da comunidade. “A minha criança
passa mais tempo em casa do que no colégio, porque ela adoece muito quando vai
para lá”, afirma o trabalhador rural. Segundo ele, os sintomas mais comuns são
“lábios e nariz ressecados, dor de cabeça e de garganta e vômito”.
Vivendo
há 18 anos na Cabeça Preta, ele relata que, antes da chegada da fruticultura à
região, então dominada por plantações de milho, não havia “mau cheiro”.
“Quando
eles plantaram, no início, não sentia [o odor] porque não usavam drone. Eles
usavam aquele trator com aquela máquina”, relembra o agricultor. “Hoje a gente
tem a comunidade todinha poluída, a gente sente a quilômetros o cheiro do
veneno. [Com o drone] o veneno ficou bem pior. Afasta [espalha] mais”,
completa.
Uma das
professoras da escola diz ter passado mal no início de maio por causa de um
forte odor que teria tomado a comunidade. Ela conta que, depois de procurar o
serviço de saúde, foi submetida a exames e recebeu um atestado de três dias por
cistite aguda.
A
docente suspeita que o problema tenha sido causado pelo consumo da água
fornecida na rede pública, potencialmente exposta à contaminação. “Eu não vou
dizer se foi realmente por isso, mas também foi muita coincidência na mesma
semana que estava esse mau cheiro eu ter pegado infecção”, afirma.
Segundo
a professora, o refeitório da escola é uma das áreas mais afetadas pelo odor
vindo das lavouras de frutas.
“De
umas 7h30 até umas 9h ou 10h, vem uma névoa de dentro das bananeiras. Até as
crianças relatam assim: ‘olha, tia, uma poeira saindo da banana’”, relata.
Agente
da Cáritas, organização não governamental que presta apoio às famílias, Aline
Maia compartilha da mesma percepção. “Todo o mês chega uma denúncia”, comenta,
referindo-se à lei que libera a pulverização de agrotóxicos por drones.
Segundo
ela, a nova legislação estadual que libera a prática tende a agravar o quadro
“porque os drones são difíceis de fiscalizar, de monitorar, de registrar, de
denunciar, diferentemente do avião, que era mais fácil”, avalia.
Autor
de uma lei estadual que proibia qualquer tipo de pulverização aérea de
agrotóxicos no Ceará, modificada no fim de 2024 para permitir a aplicação por
meio de drones, o deputado estadual do PSOL e presidente da Comissão de
Direitos Humanos na Assembleia Legislativa do Ceará, Renato Roseno, também
aponta dificuldades na fiscalização.
“Não há
registro de todos os equipamentos (drones). Portanto, você não sabe de fato
qual é a comercialização e a utilização deles”, afirma o parlamentar.
Em nota
à Repórter Brasil, a Superintendência Estadual de Meio Ambiente diz que, após a
liberação do uso de drones, “observou-se um aumento no número de denúncias
relacionadas à atividade, especialmente na região da Chapada do Apodi”.
Ainda
segundo a nota da Semace, “a comprovação de infrações relacionadas ao uso de
agrotóxicos representa um desafio técnico, uma vez que as equipes nem sempre
conseguem realizar vistorias no momento da aplicação dos produtos”.
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O que dizem a Prefeitura de Limoeiro do Norte e a Secretaria de Saúde do Estado
do Ceará
Em
nota, a Prefeitura de Limoeiro do Norte afirmou “que acompanha a situação da
comunidade Cabeça Preta por meio de seus órgãos competentes” e que “a unidade
escolar segue funcionando normalmente, sem interrupção das atividades letivas.”
Ainda
segundo o posicionamento, o Instituto Municipal de Meio Ambiente de Limoeiro do
Norte realizou diligências, mas “não foi possível comprovar tecnicamente que os
odores relatados tenham origem na aplicação de agrotóxicos.”
A
Prefeitura informa ainda que a Secretaria de educação “segue monitorando a
realidade da unidade e adotando as medidas pedagógicas necessárias para
garantir o acompanhamento e a aprendizagem dos estudantes”.
A
Secretaria de Saúde de Limoeiro do Norte informa que, “no ano de 2026, foram
registradas cinco notificações de intoxicação exógena relacionadas à localidade
de Cabeça Preta, oriundas da Unidade Básica de Saúde”.
Segundo
o posicionamento, as notificações estão sob “investigação epidemiológica, não
sendo possível, neste momento, estabelecer nexo causal [com a contaminação por
agrotóxicos] ”, diz outro trecho.
A
secretaria afirma ainda que, “como medida complementar para subsidiar a
investigação”, solicitou ao governo do estado a disponibilização de exames para
moradores da comunidade de Cabeça Preta, “visando contribuir para uma avaliação
mais objetiva da possível exposição a agrotóxicos”.
Em
nota, a Secretaria Estadual de Saúde do Ceará diz que “a inspeção realizada em
2025 identificou fatores ambientais que justificavam o acompanhamento pelos
órgãos competentes.”
O texto
afirma também que as “manifestações da comunidade e denúncias são importantes
para orientar as ações de vigilância, mas o ingresso de casos nos sistemas
oficiais depende da avaliação realizada pela rede de assistência”.
Por
fim, o posicionamento informa que está sendo avaliada “a pertinência da
realização de exames” entre a população da comunidade Cabeça Preta, cuja
indicação deve “observar critérios científicos para garantir resultados
confiáveis”.
Fonte:
Repórter Brasil

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