Ecossocialismo
– participação e utopia
Vivemos
numa grave crise em relação ao futuro da natureza e da humanidade. A causa
disso não está nas pessoas, mas nas estruturas de poder. Na sociedade, o poder
está organizado na aliança entre a política e a economia, na forma da
democracia representativa e o capitalismo.
Esse
sistema provoca tanto a destruição da natureza como uma enorme desigualdade
entre as pessoas. A competição e o crescimento contínuo do consumo levam à
exploração da natureza além da sua capacidade de regeneração. Ao mesmo tempo, o
sistema demonstrou ser incapaz de corrigir suas próprias distorções. Como
afirmou Albert Einstein: “Os problemas do mundo não podem ser resolvidos pelos
mesmos métodos que os criaram”.
O
capitalismo e a democracia representativa impedem a mudança necessária. O ser
humano se cresce e desenvolve em interação com outras pessoas, com outras
espécies e com a natureza. A sociedade nos influencia de forma coletiva e
histórica. Aquilo que parece normal é facilmente considerado como obvio e
correto, portanto, é muito difícil pessoas perceberem na normalidade algo
destrutivo.
Quando
falamos de democracia, geralmente nos referimos à democracia representativa, na
qual o povo delega seu poder a um pequeno grupo de representantes partidários.
É amplamente reconhecido que a liderança econômica exerce grande poderosa
influência sobre a política e os meios de comunicação. Assim, a democracia
representativa passou a submeter-se as chamadas “realidades econômicas”, aos
valores.
Democracia
representativa contém um elemento que nos aliena como cidadãos. Ela nos impede
de participar diretamente das decisões importantes, por exemplo, nos privando
da realização prática dos valores de igualdade, solidariedade e ecologia. Além
disso, os partidos competem entre si de forma curto-prazista, dificultando e
até impedindo a cooperação em prol do bem comum. Isso desperta em cada um de
nós frustração e passividade.
Os
valores básicos do capitalismo são a maximização ilimitada dos lucros, o
crescimento acelerado do consumo e a competição entre as pessoas. Nós
internalizamos esses valores em nossos sentimentos, pensamentos e formas de
agir. Isto representa uma grande ameaça à natureza e à humanidade.
Consequências disto são, por exemplo, as mudanças climáticas, o aumento
constante da desigualdade econômica, a exclusão dos jovens e no crescente
mal-estar psíquico.
A
estrutura da nossa sociedade vive em crise global. Movimentos autoritários e
populistas estão se fortalecendo. Há uma percepção bastante difundida de que a
democracia atual está se deteriorando. Prevê-se que a aliança entre o
capitalismo e a democracia (representativa) termine no colapso devido ao seu
caráter (auto)destrutivo.
Como
provocar a mudança para desmontar esta crise? Quando reconhecemos que não
chegamos a essa situação de forma natural ou inevitável? Quando, em nós,
cidadãos, se desperte um sentimento tão forte de injustiça diante do sofrimento
da natureza e da humanidade que reagimos concretamente. Assim, podemos começar
a desfazer os elementos mais destrutivos das atuais estruturas de poder e
desenvolver um modelo de sociedade ecossocialista.
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Visão de uma sociedade baseada em valores socialistas e ecológicos
O
socialismo significa igualdade e cuidado mútuo incondicionais. Igualdade
significa poder igual para todos, o que é possível alcançar somente com a
participação direta das pessoas na tomada de decisões nas questões mais
importantes da sociedade.
Os
valores ecológicos significam respeitar e garantir o bem-estar da natureza.
Somos todos responsáveis uns pelos outros e pelo meio ambiente. Precisamos de
uma base de valores ecossocialistas e de mudanças correspondentes nas leis.
Os
valores e o propósito são a base do bom funcionamento de qualquer coletivo.
Quando nós, cidadãos, temos a oportunidade de discutir e decidir diretamente
sobre a base de valores da sociedade e acompanhar sua implementação prática,
nos tornamos verdadeiros detentores do poder. Como resultado deste processo de
democracia direta, os valores básicos poderiam muito bem ser igualdade,
solidariedade e sustentabilidade ecológica.
Participar
da escolha e implementação desses valores desperta em nós o sentimento de
sermos valorizados. Isso também desperta o interesse em compreender amplamente
as estruturas da sociedade e o desejo de participar do seu desenvolvimento. A
participação direta aumenta nosso senso de responsabilidade coletiva pela
qualidade de vida das futuras gerações.
Na
verdade, esses valores já fazem parte da base educacional das escolas na
Finlândia e na Suécia. Eles constam também nos programas de maioria dos
partidos políticos de alguma forma. No entanto, eles não podem ser aplicados na
prática, pois a sociedade opera segundo os valores do sistema econômico, como
competição e valorização baseada em desempenho. O “bom aluno” é elogiado,
enquanto quem tem dificuldades se sente desvalorizado.
Quando
a base de valores do Estado é decidida por nós, cidadãos, isso constitui um
forte mandato para modificar a Constituição nas partes em que ela entra em
conflito com os valores escolhidos. O próximo passo é ajustar a legislação
geral para corresponder à nova Constituição. Nesse processo, seriam aplicadas
tanto a democracia direta quanto a representativa, de modo que nós, cidadãos,
possamos garantir que a mudança avance na direção correta.
O
filósofo italiano Pietro Ubaldi resumiu sua visão de futuro da seguinte forma:
“O próximo grande passo de desenvolvimento da humanidade ocorrerá quando ela
perceber que a cooperação é melhor do que a competição”. Uma sociedade
igualitária – pessoas equilibradas.
É útil
visualizar um novo modelo de sociedade e praticá-lo, mesmo que em pequenos
passos, até porque, se o sistema atual realmente entrar em colapso, o início do
novo já estará em andamento.
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Os valores eco-socialistas provocam mudanças
O que
aconteceria se os valores básicos do Estado fossem igualdade, solidariedade e
sustentabilidade ecológica, e se eles fossem realmente implementados no
cotidiano? Isso levaria a profundas mudanças estruturais que hoje parecem
completamente impossíveis. Mas não limitemos nossa criatividade somente ao que
parece realista. Preservemos nossa liberdade de pensar além da normalidade.
As
empresas de produção e de serviços seriam organizadas de forma que a
responsabilidade fosse coletiva entre todos que neles trabalham. Isso
significaria que o trabalho seja organizado, por exemplo, pelas cooperativas de
trabalho ou empresas nas quais os trabalhadores são proprietários. Isso
ajudaria a desfazer a desigualdade econômica e a exploração da força de
trabalho. Isto aumentaria nossa consciência social e fortaleceria o senso de
igualdade, responsabilidade e pertencimento.
Para
investimentos úteis, seria criado um fundo público de empréstimos. Isso
permitiria desmontar a especulação nos mercados financeiros, que possibilita a
concentração de riqueza em poucas mãos. Atualmente a especulação com títulos
financeiros causa repetidas bolhas e crises econômicas, das quais a classe
média e as pessoas de mais baixa renda sofrem, enquanto os especuladores
enriquecem.
Assim,
a oferta e a demanda de bens e serviços se tornariam um mercado genuinamente
livre, sem poderes monopolistas dos donos de capital. O papel do Estado seria
apenas criar as leis necessárias. A aplicação das leis seria acompanhada por
uma representação eleita pelo povo.
A
tomada coletiva de decisões incluiria o que produzir e como. O alimento seria
produzido principalmente de forma orgânica e vegetal, garantindo a segurança
alimentar. A produção de bens e serviços seria planejada preferencialmente
localmente. A necessidade de transporte e deslocamento diminuiria, reduzindo
significativamente o impacto ambiental.
O
consumo diminuiria drasticamente quando reconhecêssemos seu efeito alienante em
relação a nós mesmos. O consumo ostentatório diminuiria automaticamente, já que
no espírito de igualdade não haveria necessidade de demonstrar superioridade em
relação a si mesmo.
Necessidades
básicas como moradia, educação infantil, escola, universidade, saúde e cuidado
com idosos seriam responsabilidade do Estado, e elas não poderiam ser
exploradas como fontes de lucro. A todos seria garantida uma vida econômica
digna por meio de uma renda de cidadão. Isso despertaria em nós dignidade e
confiança nas instituições.
Assim,
poderíamos viver em comunidades seguras, igualitárias e saudáveis, partindo de
pequenas unidades até o nível global. Nos sentiríamos valorizados e,
consequentemente, respeitaríamos uns aos outros e o meio ambiente.
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A utopia como uma das ferramentas de mudança
Na
parede de uma escola (Instituto Educar) estava escrito: “Um sonho coletivo é o
início de uma nova realidade”. Seja a realização do ecossocialismo o nosso
sonho coletivo, a nossa utopia.
Utilizamos
neste texto a abordagem da “utopia como método”. Ela libera nossa criatividade
para visualizar uma sociedade mais ideal imaginável, independentemente de
parecer realista ou não. A utopia nos ajuda a manter o rumo na direção correta,
sem a exigência de se chegar ao destino. Mesmo pequenas ações são importantes
catalisadores de mudança.
No
mundo, há uma grande necessidade de desenvolver ideias para um modelo de
sociedade ecossocialista. O esboço apresentado neste texto pode ser utilizado,
por exemplo, em fóruns de discussão, escolas e meios de comunicação. O objetivo
é despertar nas pessoas e nos movimentos populares o interesse em desenvolver e
aplicar o ecossocialismo, cada um à sua maneira, e unindo forças.
Quanto
mais prevalece na sociedade o senso de pertencimento e o respeito à natureza,
mais profundamente será realizado o sentido da vida.
Fonte:
Por Pertti Simula e Riitta Wahlström, em A Terra é Redonda

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