A
guerra silenciosa pelas terras raras: quem disputa o subsolo brasileiro
Ao
longo dos dois dias do Seminário Internacional de Minerais Críticos e
Estratégicos, realizado em Brasília, uma percepção foi se tornando cada vez
mais evidente. Embora o evento estivesse formalmente dedicado à mineração, às
cadeias produtivas e às oportunidades econômicas associadas aos minerais
críticos, a discussão real acontecia em outro nível. O que estava sendo
debatido não era apenas a extração de recursos naturais, mas a reorganização de
uma parte fundamental da economia política global.
Isso
ocorre porque as terras raras ocupam hoje uma posição singular. Elas estão
presentes nos ímãs permanentes utilizados em veículos elétricos, turbinas
eólicas, sistemas de guiagem militar, radares, satélites, drones, equipamentos
médicos, robótica avançada e em diversas etapas da infraestrutura tecnológica
que sustenta a inteligência artificial contemporânea. O mesmo vale para
minerais como lítio, cobre, grafita, níquel e cobalto. Em diferentes graus,
todos eles passaram a integrar a base material das tecnologias que moldarão a
economia das próximas décadas.
Por
essa razão, a disputa internacional em torno desses recursos deixou de ser uma
questão restrita à mineração. Ela passou a envolver estratégias industriais,
segurança nacional, política tecnológica, defesa e planejamento econômico de
longo prazo. Não por acaso, governos de diferentes orientações ideológicas
passaram a tratar minerais críticos como tema de Estado. China, Estados Unidos
e União Europeia adotaram políticas específicas para garantir acesso,
processamento e controle dessas cadeias produtivas, reconhecendo que a disputa
não ocorre apenas sobre jazidas, mas sobre a capacidade de transformar recursos
naturais em poder econômico e tecnológico.
Foi
justamente nesse ponto que o seminário revelou sua dimensão mais interessante.
Por trás das apresentações sobre projetos minerais, investimentos e
oportunidades de mercado, emergia uma questão muito maior: por que o mundo
inteiro passou a olhar para esses minerais ao mesmo tempo? A resposta ajuda a
compreender não apenas o interesse crescente pelas reservas brasileiras, mas
também uma transformação histórica em curso. As terras raras tornaram-se a
expressão mineral de uma disputa muito mais ampla: a disputa pelo controle das
cadeias tecnológicas que sustentarão o poder no século XXI.
As
terras raras não são o novo petróleo. São algo mais complexo: a infraestrutura
material da era da inteligência artificial, da eletrificação, dos sistemas
autônomos e da defesa avançada. O petróleo moveu máquinas, fábricas, exércitos
e cidades no século XX. As terras raras movem sensores, chips, turbinas,
satélites, data centers, motores elétricos e sistemas inteligentes no século
XXI.
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A China não venceu por acaso
Durante
décadas, o debate econômico ocidental foi dominado pela ideia de que a
globalização permitiria a distribuição eficiente das cadeias produtivas pelo
planeta. Na prática, porém, a transição tecnológica do século XXI produziu um
resultado diferente. Enquanto boa parte das economias avançadas transferia
etapas industriais para o exterior em busca de menores custos, a China
utilizava esse período para construir, de forma paciente e coordenada, uma das
mais sofisticadas estruturas industriais do mundo.
As
terras raras talvez sejam o exemplo mais emblemático desse processo. Embora
existam reservas desses minerais em diversos países, a liderança chinesa não
foi construída apenas pela geologia. Ela foi construída por meio de
planejamento estratégico, investimentos de longo prazo, domínio tecnológico e
integração entre mineração, processamento, pesquisa científica e indústria. Ao
longo de décadas, Pequim não se limitou a extrair minerais. Construiu
refinarias, desenvolveu tecnologias de separação química, consolidou cadeias
industriais e tornou-se líder na produção de ímãs permanentes de alta
performance, componente essencial para veículos elétricos, turbinas eólicas,
sistemas militares avançados e diversas aplicações ligadas à inteligência
artificial.
O
resultado desse processo é que, atualmente, boa parte do poder chinês sobre as
terras raras não está nas minas, mas nas etapas posteriores da cadeia
produtiva. Em outras palavras, a vantagem estratégica chinesa não deriva apenas
do controle sobre recursos naturais, mas do controle sobre os processos que
transformam esses recursos em produtos industriais de alto valor agregado.
Esse
ponto é particularmente relevante porque desmonta uma interpretação simplista
que frequentemente aparece nos debates públicos. A disputa global pelas terras
raras não ocorre porque a China possui minerais e os demais países não possuem.
O que está em disputa é algo muito mais complexo: a capacidade de controlar as
etapas críticas que conectam a extração mineral à indústria avançada. Foi
exatamente essa capacidade que permitiu à China transformar uma vantagem
mineral em uma vantagem tecnológica, industrial e geopolítica.
Ao
observar os debates realizados em Brasília, tornou-se difícil ignorar esse
paralelo. Sempre que surgiam discussões sobre agregação de valor, produção de
ímãs permanentes, industrialização e desenvolvimento tecnológico nacional, a
experiência chinesa aparecia, ainda que muitas vezes de forma implícita, como
uma referência inevitável. Não como um modelo a ser copiado mecanicamente, mas
como uma demonstração concreta de que o verdadeiro poder não está apenas em
possuir recursos estratégicos. Está em construir as capacidades nacionais
necessárias para transformá-los em desenvolvimento, tecnologia e influência
internacional.
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O despertar tardio do Ocidente
Se a
ascensão chinesa foi resultado de décadas de planejamento industrial, a reação
dos Estados Unidos e da União Europeia nasceu de uma constatação
desconfortável: boa parte das cadeias produtivas consideradas essenciais para o
século XXI passou a depender de fornecedores localizados fora de seu controle
direto.
Essa
percepção ganhou força nos últimos anos à medida que aumentavam as tensões
comerciais, tecnológicas e geopolíticas entre Washington e Pequim. A disputa
pelos semicondutores, as restrições de exportação, as dificuldades logísticas
observadas durante a pandemia e a crescente competição em torno da inteligência
artificial transformaram os minerais críticos em tema de segurança nacional. O
que antes era tratado como uma questão econômica passou a ser visto como um
problema estratégico.
Foi
nesse contexto que Estados Unidos e União Europeia começaram a reconstruir
políticas industriais que, durante décadas, haviam sido deixadas em segundo
plano. Nos Estados Unidos, agências federais, fundos públicos e iniciativas
ligadas à defesa passaram a apoiar projetos voltados à mineração, ao
processamento e à fabricação de componentes estratégicos. Na Europa, o Critical
Raw Materials Act surgiu com um objetivo semelhante: reduzir dependências
externas e garantir acesso a recursos considerados fundamentais para a
competitividade industrial do bloco.
O
próprio G7 oferece uma demonstração clara dessa mudança de postura. Nos últimos
encontros, os países mais ricos do planeta passaram a tratar minerais críticos
com a mesma seriedade dedicada a temas como energia, defesa ou infraestrutura.
Não se trata apenas de garantir fornecimento. Trata-se de garantir autonomia
estratégica em setores considerados decisivos para a próxima etapa da economia
global.
O
aspecto mais interessante dessa transformação é que ela representa uma ruptura
importante com a lógica predominante das últimas décadas. Durante muito tempo,
prevaleceu a ideia de que as cadeias produtivas poderiam ser distribuídas
globalmente segundo critérios de eficiência econômica. Hoje, a realidade é
outra. Estados nacionais voltaram a discutir capacidade produtiva, segurança
industrial, controle tecnológico e resiliência de cadeias estratégicas. Em
outras palavras, a geopolítica voltou a ocupar o centro da economia.
Ao
observar os debates realizados em Brasília, essa mudança de cenário aparecia de
forma recorrente. Ainda que o foco imediato estivesse nos projetos brasileiros,
era impossível não perceber que a crescente atenção internacional dedicada aos
minerais críticos refletia uma transformação mais profunda. O mundo atravessa
uma nova corrida industrial. E as terras raras tornaram-se um dos seus
principais campos de disputa.
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O Brasil entra no tabuleiro
Se a
disputa global pelas terras raras se tornou uma prioridade para China, Estados
Unidos e União Europeia, a pergunta seguinte é inevitável: onde o Brasil se
encaixa nesse cenário?
A
resposta começa pelo subsolo. O país possui algumas das maiores reservas
conhecidas de minerais estratégicos do planeta, incluindo terras raras, nióbio,
grafita, níquel, cobre, lítio e outros recursos considerados essenciais para a
transição energética e para a nova economia digital. Mais importante do que
isso, porém, é o fato de que boa parte dessas reservas permanece relativamente
pouco explorada quando comparada aos grandes produtores globais, tornando o
Brasil uma das principais fronteiras minerais do século XXI.
Não por
acaso, diversos projetos brasileiros passaram a despertar crescente atenção
internacional. Casos como Serra Verde, em Goiás, ganharam relevância muito além
do setor mineral. O interesse demonstrado por empresas, investidores e governos
estrangeiros não decorre apenas da existência de reservas economicamente
viáveis. Ele reflete a tentativa de reorganizar cadeias globais de suprimento
em um momento em que Estados Unidos, Europa e seus aliados buscam reduzir sua
dependência em relação ao processamento concentrado na Ásia.
Essa
movimentação ajuda a compreender por que os debates realizados durante o
seminário frequentemente ultrapassavam a escala nacional. Em diversos momentos,
as discussões sobre investimentos, novas minas, beneficiamento e
industrialização revelavam uma percepção comum: o Brasil deixou de ser apenas
um país com recursos minerais abundantes. Passou a ser visto como uma peça
estratégica dentro de uma reorganização internacional muito mais ampla.
Mas
existe uma questão ainda mais importante. O interesse internacional pelas
reservas brasileiras não significa, necessariamente, interesse pelo
desenvolvimento brasileiro. A história econômica do Sul Global demonstra
exatamente o contrário. Grandes potências raramente disputam recursos
estratégicos por altruísmo. Elas disputam recursos porque recursos significam
poder, competitividade industrial, segurança nacional e vantagem tecnológica. A
questão decisiva, portanto, não é saber se o mundo tem interesse nos minerais
brasileiros. A questão é compreender em que condições esse interesse poderá
contribuir para o desenvolvimento nacional e em que condições ele poderá apenas
reproduzir relações históricas de dependência.
Foi
justamente essa reflexão que me acompanhou durante boa parte do seminário. Em
diferentes momentos, percebia-se uma preocupação legítima com investimentos,
competitividade e expansão da produção mineral. No entanto, a questão decisiva
permanece aberta: qual será a posição do Brasil dentro dessas novas cadeias
globais? Seremos apenas fornecedores de insumos estratégicos para indústrias
localizadas no exterior ou conseguiremos construir competências industriais,
científicas e tecnológicas capazes de capturar uma parcela maior da riqueza
gerada por esses recursos?
A
pergunta não é trivial. Porque, na prática, ela define se o país participará da
nova corrida industrial como território de extração ou como protagonista de uma
estratégia de desenvolvimento. E é justamente nesse ponto que a discussão sobre
minerais críticos deixa definitivamente de ser uma discussão sobre mineração
para se tornar uma discussão sobre projeto nacional.
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O que o seminário revelou — e o que evitou discutir
Um dos
aspectos mais interessantes do Seminário Internacional de Minerais Críticos e
Estratégicos não foi necessariamente aquilo que apareceu nas apresentações. Foi
aquilo que apareceu nas margens do debate.
Ao
longo dos dois dias de discussões, ouvi análises detalhadas sobre
investimentos, projetos minerais, gargalos regulatórios, financiamento,
industrialização, inovação tecnológica e oportunidades associadas à crescente
demanda global por minerais críticos. Eram temas importantes e, em muitos
casos, tratados com elevado nível técnico. No entanto, à medida que as
discussões avançavam, tornava-se perceptível um certo desconforto quando o
debate se aproximava de questões relacionadas ao papel do Estado na coordenação
estratégica dessas cadeias.
Não se
tratava de uma rejeição explícita. Tampouco de uma oposição aberta. O fenômeno
era mais sutil. Temas como empresas públicas, coordenação estatal de longo
prazo, mecanismos de planejamento estratégico ou iniciativas semelhantes à
proposta da Terrabras simplesmente não ocupavam posição central no debate. Em
um seminário dedicado a um setor que se tornou objeto de intensa competição
geopolítica internacional, essa ausência chamava atenção.
O
contraste se torna ainda mais evidente quando observamos a experiência das
principais potências envolvidas nessa disputa. A liderança chinesa nas terras
raras não surgiu espontaneamente a partir das forças de mercado. Foi resultado
de décadas de coordenação estatal, política industrial e investimentos
estratégicos. Nos Estados Unidos, o governo federal passou a mobilizar
instrumentos públicos para fortalecer cadeias consideradas essenciais à
segurança nacional. Na União Europeia, a discussão sobre autonomia estratégica
tornou-se parte central das políticas voltadas aos minerais críticos. Em todos
os casos, o Estado aparece como ator ativo na construção de capacidades
nacionais.
Por
essa razão, a relativa ausência desse debate em Brasília não deve ser
interpretada como um detalhe secundário. Talvez tenha sido, na verdade, um dos
fatos políticos mais reveladores de todo o seminário. O Brasil parece ter
alcançado um consenso crescente sobre a importância estratégica dos minerais
críticos. O que ainda permanece em disputa é algo muito mais sensível: qual
deve ser o papel do Estado na transformação dessa riqueza mineral em capacidade
industrial, tecnológica e geopolítica. Em outras palavras, existe acordo sobre
a existência da oportunidade. O desacordo surge quando a discussão avança para
a forma de aproveitá-la.
Essa
talvez seja a principal encruzilhada revelada pelo seminário. Existe amplo
acordo sobre a necessidade de ampliar investimentos, acelerar projetos e
fortalecer cadeias produtivas. Mas as divergências tornam-se mais visíveis
quando a discussão avança para temas como propriedade, coordenação estratégica,
financiamento público, compras governamentais, conteúdo local e instrumentos de
política industrial capazes de orientar o desenvolvimento dessas cadeias.
Não se
trata de defender soluções prontas ou modelos importados. Trata-se de
reconhecer uma realidade simples: nenhuma das grandes potências atualmente
envolvidas na disputa pelos minerais críticos delegou integralmente ao mercado
a tarefa de construir setores considerados estratégicos. Ignorar esse fato
significa correr o risco de discutir mineração sem discutir poder, discutir
investimentos sem discutir desenvolvimento e discutir recursos estratégicos sem
discutir soberania.
Talvez
tenha sido justamente nesse silêncio que o seminário revelou uma de suas
mensagens mais importantes. O Brasil parece cada vez mais consciente do valor
de suas riquezas minerais. A questão que permanece em aberto é se teremos a
mesma clareza quando o debate chegar ao tema mais sensível de todos: quem deve
conduzir a estratégia nacional capaz de transformar essas riquezas em
capacidade tecnológica, industrial e geopolítica.
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A verdadeira disputa não acontece na mina
Existe
uma tendência recorrente de imaginar que a riqueza mineral começa e termina no
subsolo. Durante séculos, essa percepção ajudou a moldar economias inteiras
baseadas na exportação de recursos naturais. O século XXI, porém, está
demonstrando que a geologia, sozinha, não explica mais a distribuição do poder.
As
tecnologias que estruturam a nova economia global dependem cada vez mais de
cadeias produtivas complexas e altamente integradas. Um único veículo elétrico,
um data center voltado à inteligência artificial ou um sistema avançado de
defesa reúne componentes produzidos em diferentes países, utilizando minerais
extraídos em uma região, processados em outra, transformados industrialmente em
uma terceira e incorporados a produtos finais em uma quarta. O valor econômico,
tecnológico e estratégico não se concentra em uma única etapa desse processo.
Ele está distribuído ao longo de toda a cadeia.
É
justamente por isso que a corrida global pelos minerais críticos não pode ser
compreendida apenas como uma disputa por recursos naturais. O que está em jogo
é o controle dos fluxos que conectam mineração, conhecimento científico,
capacidade industrial, infraestrutura tecnológica e poder econômico. Em outras
palavras, a questão central não é quem possui os minerais, mas quem controla os
caminhos percorridos por esses minerais até se transformarem em baterias,
semicondutores, satélites, sistemas de inteligência artificial, equipamentos
médicos, redes energéticas ou tecnologias de defesa.
Ao
longo do seminário, essa realidade aparecia de forma constante, mesmo quando
não era mencionada diretamente. As discussões sobre agregação de valor,
inovação, processamento, industrialização e desenvolvimento tecnológico
apontavam para uma mesma direção: o futuro da economia mineral será definido
cada vez menos pela extração e cada vez mais pela capacidade de transformar
recursos naturais em capacidades nacionais permanentes.
Essa é
uma questão particularmente importante para países do Sul Global. Durante
grande parte da história moderna, diversas nações participaram das cadeias
internacionais como fornecedoras de recursos estratégicos sem conseguir
capturar proporcionalmente a riqueza, a tecnologia e o poder gerados por esses
mesmos recursos. A emergência dos minerais críticos oferece uma nova
oportunidade, mas não garante automaticamente um resultado diferente. O
desfecho dependerá das escolhas políticas, industriais e tecnológicas
realizadas ao longo dos próximos anos.
Talvez
essa seja a principal lição deixada pelo Seminário Internacional de Minerais
Críticos e Estratégicos. A verdadeira disputa não acontece na mina. Ela
acontece nas cadeias produtivas, nos laboratórios, nas universidades, nos
centros de pesquisa, nas fábricas, nas infraestruturas digitais e nos espaços
onde são tomadas as decisões capazes de transformar riqueza mineral em
capacidade nacional.
Nos
próximos artigos desta série, aprofundaremos justamente essa etapa da
discussão. Porque possuir recursos estratégicos é apenas o início da história.
A questão decisiva é compreender onde a riqueza é efetivamente criada, quem a
captura e quais instrumentos podem permitir que ela permaneça a serviço do
desenvolvimento brasileiro.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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