quinta-feira, 18 de junho de 2026

A eleição congelada e a juventude que ainda se move

A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana vai produzir, nas próximas horas, um conjunto previsível de leituras. Que Lula recuperou aprovação e abriu vantagem no segundo turno, que o caso Vorcaro corroeu a candidatura de Flávio Bolsonaro, que o tarifaço de Donald Trump devolveu ao campo progressista um vocabulário de soberania e de patriotismo que a direita tratava como propriedade sua. Essas leituras são corretas. Mas a pesquisa permite enxergar outro ponto, menos evidente e mais decisivo: o lugar exato em que uma eleição aparentemente congelada ainda pode se mover.

Trata-se de partir de um fato que os próprios números confirmam. Numa polarização aguda, com eleitorados consolidados em torno de dois polos, o escândalo deixou de operar como instrumento de queda e passou a operar como instrumento de atrito, consumindo o tempo, a atenção e o oxigênio narrativo do campo atingido sem converter automaticamente o eleitor do outro lado. Flávio Bolsonaro recuou de um empate técnico no segundo turno, em abril, para os atuais 38 por cento contra 44 de Lula, viu a própria rejeição subir ao teto do quadro e gastou a rodada inteira na defensiva, a julgar pela bateria de perguntas que a pesquisa reservou apenas a ele e ao banqueiro. Recuou sem cair, e segue com 29 por cento no primeiro turno, consolidado em segundo lugar, com a base preservada. O atrito impõe desgaste sem demolir.

O congelamento tem medida. A rejeição a Lula, de 53 por cento, e a de Flávio, de 56, prendem os dois ao teto de seus próprios campos. O medo, distribuído de forma quase simétrica, com 44 por cento temendo o retorno da família Bolsonaro e 40 temendo mais um mandato de Lula, mantém cada base atada ao seu polo pela repulsa ao outro. A própria bateria sobre Vorcaro reforça esse desenho: entre os que já não votariam em Flávio, o caso confirma a rejeição; entre os bolsonaristas, o efeito dominante é a defesa ou a neutralização do dano. Num quadro assim, a conversão é rara e a fixação é alta, de modo que o desfecho passa a depender de quem se desloca na franja.

É justamente daí que decorre o ponto decisivo. Se as bases estão consolidadas e o escândalo não as converte, o resultado de outubro não se definirá no núcleo de cada campo, que já está dado, mas na faixa que permanece fora dele, entre os indecisos, os que declaram voto branco ou nulo, os que afirmam que não vão votar, a zona cinzenta que nenhuma das duas candidaturas conseguiu fixar. A dianteira de Lula, de 39 a 29 no primeiro turno e de 44 a 38 no segundo, está erguida sobre blocos que mal se movem. O que ainda se move é a margem, e a pesquisa mostra, com nitidez incômoda, onde ela aparece com mais força.

A margem aparece com mais nitidez entre os jovens. Na faixa de 16 a 34 anos, Lula registra a menor vantagem entre todas as idades, 36 a 30, contra os 41 a 29 que mantém entre os eleitores de 60 anos ou mais. É também a faixa que mais desaprova o governo, com 50 por cento de desaprovação ante 43 de aprovação, ao passo que entre os mais velhos a relação se inverte e a aprovação alcança 51. E é a faixa mais dispersa, com indecisos e voto branco ou nulo somando perto de um quinto do eleitorado jovem, num patamar em que a nova direita de quadros recentes, como o nome ligado à Missão, exibe seu melhor desempenho. A leitura de atrito, levada às últimas consequências, desemboca neste ponto. A disputa de 2026 tende a se resolver no eleitorado que menos se fixou, e esse eleitorado tem idade.

Aqui começa o que a conjuntura, sozinha, não explica, porque essa mesma juventude, observada pela renda, devolve uma imagem oposta. Entre os eleitores de até dois salários mínimos, o coração social da periferia, Lula tem 50 por cento das intenções de voto contra 23 de Flávio, e aprovação de 59 contra 36, ao passo que, entre os de mais de cinco salários, a relação se inverte por inteiro, com Flávio à frente e a desaprovação do governo chegando a 60. O voto popular de baixa renda é, hoje, a base mais firme do campo progressista. A hipótese mais relevante está no cruzamento entre classe, geração e território: a juventude negra das periferias, que pela renda tende a se aproximar do governo, é também a juventude que pela experiência geracional, digital e cultural tende a se dispersar. É nesse atravessamento, entre uma força e outra, que a eleição pode de fato se mover.

A dispersão dessa juventude se explica menos pela economia isolada do que pela formação simbólica. A juventude brasileira, e em especial a periférica, organiza-se em torno de campos de pertencimento que a política institucional raramente compreende. O primeiro é o campo religioso de preponderância evangélica, um dos grandes agregadores juvenis nas periferias urbanas, com capilaridade territorial, infraestrutura de comunicação e capacidade cotidiana de mobilizar afeto, disciplina e interpretação do mundo. Nenhum partido reproduz essa oferta de pertencimento por meio de programa e panfleto. O segundo é o campo estudantil e das juventudes partidárias, com presença real nas universidades e em certas capitais, capaz de formar quadros e de consolidar quem já chegou, mas estruturalmente limitado a quem já partilha os códigos do campo. O terceiro é o dos coletivos culturais periféricos, com o hip-hop no eixo, ao lado do funk, do slam, do break e da batalha de rima, um dos fenômenos juvenis de massa de maior densidade política no país e, ao mesmo tempo, um dos mais subestimados pela esquerda que dele depende.

Posto o mapa, a contradição dos números ganha mecanismo. A juventude periférica tende a desaprovar mais e a se dispersar mais, inclusive onde a renda a aproximaria do governo, porque uma parte relevante de sua formação cotidiana passa por campos de pertencimento que não estão sob direção progressista. O campo evangélico, em larga medida, está alinhado contra o governo ou, no mínimo, fora da gramática da esquerda. E o campo capaz de carregar uma leitura de mundo alternativa, a cultura periférica, é exatamente aquele que a esquerda subfinancia, frequenta como plateia e raramente ocupa como política pública.

A esse desencontro acrescenta-se o terreno em que a direita disputa essa juventude com mais método, o da segurança. A maior preocupação dos brasileiros, na pesquisa, é a violência, à frente da corrupção e dos problemas sociais, e é justamente a periferia que a vive na carne. O discurso punitivista, reforçado pela nomeação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, oferece a essa juventude uma explicação simples, um inimigo já nomeado e uma promessa de ordem. A direita oferece proteção, ainda que essa proteção mire, na ponta, o corpo do jovem periférico que diz defender. A esquerda oferece diagnóstico, e diagnóstico sem proteção parece distância moral para quem vive a violência todos os dias. Ela chega tarde a esse debate, e quase sempre sem terreno próprio.

Resta a ponte. Se a juventude periférica aparece como a margem decisiva, e se ela se forma na cultura e circula no ambiente digital, um caminho decisivo até ela passa por ali, e a própria pesquisa registra a virada. Pela primeira vez na série histórica, as redes sociais superaram a televisão como principal fonte de informação política dos brasileiros, 36 por cento contra 34, com as curvas se cruzando no fim de 2025. O canal dominante da política deixou de ser o aparelho que o campo progressista aprendeu a operar ao longo de décadas e passou a ser a plataforma.

E a plataforma, convém lembrar, é infraestrutura estrangeira, governada por regras estrangeiras, na qual a soberania que Lula recuperou no plano simbólico, ao aparecer com 47 por cento contra 37 como o nome que melhor defende os interesses do Brasil, e ao ver 46 por cento dos brasileiros lerem o tarifaço como retaliação ao Pix, só desce ao território concreto se atravessar um meio que o campo não controla nem ocupa. A esquerda tem a periferia pela renda e corre o risco de perder a juventude pelo abandono do campo cultural. Enquanto tratar a cultura como vitrine de campanha, em vez de política de Estado capaz de sustentar quem produz sentido no território, seguirá disputando a margem decisiva com as mãos atadas. Disputar essa juventude exige ocupar o terreno cultural sem domesticar quem o habita, fomentar sem capturar, abrir a porta sem exigir que quem entra deixe de ser quem é.

A eleição está congelada no centro e quente nas bordas. Ela não se decidirá apenas no núcleo duro de cada campo, mas na margem que ainda se move: a juventude periférica que a esquerda conhece de longe e ocupa de menos, num terreno que é cultural e sobre uma infraestrutura que não é soberana.

 

Fonte: Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

 

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