A
eleição congelada e a juventude que ainda se move
A
pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana vai produzir, nas próximas horas,
um conjunto previsível de leituras. Que Lula recuperou aprovação e abriu
vantagem no segundo turno, que o caso Vorcaro corroeu a candidatura de Flávio
Bolsonaro, que o tarifaço de Donald Trump devolveu ao campo progressista um
vocabulário de soberania e de patriotismo que a direita tratava como
propriedade sua. Essas leituras são corretas. Mas a pesquisa permite enxergar
outro ponto, menos evidente e mais decisivo: o lugar exato em que uma eleição
aparentemente congelada ainda pode se mover.
Trata-se
de partir de um fato que os próprios números confirmam. Numa polarização aguda,
com eleitorados consolidados em torno de dois polos, o escândalo deixou de
operar como instrumento de queda e passou a operar como instrumento de atrito,
consumindo o tempo, a atenção e o oxigênio narrativo do campo atingido sem
converter automaticamente o eleitor do outro lado. Flávio Bolsonaro recuou de
um empate técnico no segundo turno, em abril, para os atuais 38 por cento
contra 44 de Lula, viu a própria rejeição subir ao teto do quadro e gastou a
rodada inteira na defensiva, a julgar pela bateria de perguntas que a pesquisa
reservou apenas a ele e ao banqueiro. Recuou sem cair, e segue com 29 por cento
no primeiro turno, consolidado em segundo lugar, com a base preservada. O
atrito impõe desgaste sem demolir.
O
congelamento tem medida. A rejeição a Lula, de 53 por cento, e a de Flávio, de
56, prendem os dois ao teto de seus próprios campos. O medo, distribuído de
forma quase simétrica, com 44 por cento temendo o retorno da família Bolsonaro
e 40 temendo mais um mandato de Lula, mantém cada base atada ao seu polo pela
repulsa ao outro. A própria bateria sobre Vorcaro reforça esse desenho: entre
os que já não votariam em Flávio, o caso confirma a rejeição; entre os
bolsonaristas, o efeito dominante é a defesa ou a neutralização do dano. Num
quadro assim, a conversão é rara e a fixação é alta, de modo que o desfecho
passa a depender de quem se desloca na franja.
É
justamente daí que decorre o ponto decisivo. Se as bases estão consolidadas e o
escândalo não as converte, o resultado de outubro não se definirá no núcleo de
cada campo, que já está dado, mas na faixa que permanece fora dele, entre os
indecisos, os que declaram voto branco ou nulo, os que afirmam que não vão
votar, a zona cinzenta que nenhuma das duas candidaturas conseguiu fixar. A
dianteira de Lula, de 39 a 29 no primeiro turno e de 44 a 38 no segundo, está
erguida sobre blocos que mal se movem. O que ainda se move é a margem, e a
pesquisa mostra, com nitidez incômoda, onde ela aparece com mais força.
A
margem aparece com mais nitidez entre os jovens. Na faixa de 16 a 34 anos, Lula
registra a menor vantagem entre todas as idades, 36 a 30, contra os 41 a 29 que
mantém entre os eleitores de 60 anos ou mais. É também a faixa que mais
desaprova o governo, com 50 por cento de desaprovação ante 43 de aprovação, ao
passo que entre os mais velhos a relação se inverte e a aprovação alcança 51. E
é a faixa mais dispersa, com indecisos e voto branco ou nulo somando perto de
um quinto do eleitorado jovem, num patamar em que a nova direita de quadros
recentes, como o nome ligado à Missão, exibe seu melhor desempenho. A leitura
de atrito, levada às últimas consequências, desemboca neste ponto. A disputa de
2026 tende a se resolver no eleitorado que menos se fixou, e esse eleitorado
tem idade.
Aqui
começa o que a conjuntura, sozinha, não explica, porque essa mesma juventude,
observada pela renda, devolve uma imagem oposta. Entre os eleitores de até dois
salários mínimos, o coração social da periferia, Lula tem 50 por cento das
intenções de voto contra 23 de Flávio, e aprovação de 59 contra 36, ao passo
que, entre os de mais de cinco salários, a relação se inverte por inteiro, com
Flávio à frente e a desaprovação do governo chegando a 60. O voto popular de
baixa renda é, hoje, a base mais firme do campo progressista. A hipótese mais
relevante está no cruzamento entre classe, geração e território: a juventude
negra das periferias, que pela renda tende a se aproximar do governo, é também
a juventude que pela experiência geracional, digital e cultural tende a se
dispersar. É nesse atravessamento, entre uma força e outra, que a eleição pode
de fato se mover.
A
dispersão dessa juventude se explica menos pela economia isolada do que pela
formação simbólica. A juventude brasileira, e em especial a periférica,
organiza-se em torno de campos de pertencimento que a política institucional
raramente compreende. O primeiro é o campo religioso de preponderância
evangélica, um dos grandes agregadores juvenis nas periferias urbanas, com
capilaridade territorial, infraestrutura de comunicação e capacidade cotidiana
de mobilizar afeto, disciplina e interpretação do mundo. Nenhum partido
reproduz essa oferta de pertencimento por meio de programa e panfleto. O
segundo é o campo estudantil e das juventudes partidárias, com presença real
nas universidades e em certas capitais, capaz de formar quadros e de consolidar
quem já chegou, mas estruturalmente limitado a quem já partilha os códigos do
campo. O terceiro é o dos coletivos culturais periféricos, com o hip-hop no
eixo, ao lado do funk, do slam, do break e da batalha de rima, um dos fenômenos
juvenis de massa de maior densidade política no país e, ao mesmo tempo, um dos
mais subestimados pela esquerda que dele depende.
Posto o
mapa, a contradição dos números ganha mecanismo. A juventude periférica tende a
desaprovar mais e a se dispersar mais, inclusive onde a renda a aproximaria do
governo, porque uma parte relevante de sua formação cotidiana passa por campos
de pertencimento que não estão sob direção progressista. O campo evangélico, em
larga medida, está alinhado contra o governo ou, no mínimo, fora da gramática
da esquerda. E o campo capaz de carregar uma leitura de mundo alternativa, a
cultura periférica, é exatamente aquele que a esquerda subfinancia, frequenta
como plateia e raramente ocupa como política pública.
A esse
desencontro acrescenta-se o terreno em que a direita disputa essa juventude com
mais método, o da segurança. A maior preocupação dos brasileiros, na pesquisa,
é a violência, à frente da corrupção e dos problemas sociais, e é justamente a
periferia que a vive na carne. O discurso punitivista, reforçado pela nomeação
do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, oferece a essa
juventude uma explicação simples, um inimigo já nomeado e uma promessa de
ordem. A direita oferece proteção, ainda que essa proteção mire, na ponta, o
corpo do jovem periférico que diz defender. A esquerda oferece diagnóstico, e
diagnóstico sem proteção parece distância moral para quem vive a violência
todos os dias. Ela chega tarde a esse debate, e quase sempre sem terreno
próprio.
Resta a
ponte. Se a juventude periférica aparece como a margem decisiva, e se ela se
forma na cultura e circula no ambiente digital, um caminho decisivo até ela
passa por ali, e a própria pesquisa registra a virada. Pela primeira vez na
série histórica, as redes sociais superaram a televisão como principal fonte de
informação política dos brasileiros, 36 por cento contra 34, com as curvas se
cruzando no fim de 2025. O canal dominante da política deixou de ser o aparelho
que o campo progressista aprendeu a operar ao longo de décadas e passou a ser a
plataforma.
E a
plataforma, convém lembrar, é infraestrutura estrangeira, governada por regras
estrangeiras, na qual a soberania que Lula recuperou no plano simbólico, ao
aparecer com 47 por cento contra 37 como o nome que melhor defende os
interesses do Brasil, e ao ver 46 por cento dos brasileiros lerem o tarifaço
como retaliação ao Pix, só desce ao território concreto se atravessar um meio
que o campo não controla nem ocupa. A esquerda tem a periferia pela renda e
corre o risco de perder a juventude pelo abandono do campo cultural. Enquanto
tratar a cultura como vitrine de campanha, em vez de política de Estado capaz
de sustentar quem produz sentido no território, seguirá disputando a margem
decisiva com as mãos atadas. Disputar essa juventude exige ocupar o terreno
cultural sem domesticar quem o habita, fomentar sem capturar, abrir a porta sem
exigir que quem entra deixe de ser quem é.
A
eleição está congelada no centro e quente nas bordas. Ela não se decidirá
apenas no núcleo duro de cada campo, mas na margem que ainda se move: a
juventude periférica que a esquerda conhece de longe e ocupa de menos, num
terreno que é cultural e sobre uma infraestrutura que não é soberana.
Fonte:
Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

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