Oliveiros
Marques: De Ciro, o Grande, a Ciro Nogueira - quando a ascensão se transforma
em armadilha
A
história é repleta de personagens que construíram impérios, acumularam poder e
passaram a acreditar que sua influência era permanente. Um dos exemplos mais
conhecidos é o de Ciro, o Grande, fundador do Império Persa. Visionário,
estrategista e conquistador, ele transformou um reino periférico em uma
potência que dominou vastas regiões da Ásia. Sua trajetória simboliza a
ascensão de quem compreendeu as engrenagens do poder melhor do que seus
adversários.
Mas a
mesma história ensina que nenhum poder é eterno.
Ciro
expandiu suas fronteiras, acumulou vitórias e construiu uma reputação quase
mítica. Ainda assim, acabou encontrando seu limite. Morreu em campanha militar,
longe do centro do império que havia criado. Seu legado permaneceu, mas o homem
que parecia invencível descobriu que a força que o levou ao topo não era
suficiente para protegê-lo para sempre.
Guardadas
todas as proporções históricas, há algo de semelhante na trajetória política do
senador Ciro Nogueira. Durante anos, ele foi um dos mais habilidosos operadores
da política brasileira. Sobreviveu a diferentes governos, ampliou sua
influência em Brasília e tornou-se uma das figuras centrais do chamado Centrão.
Enquanto presidentes, ministros e partidos vinham e iam, Ciro permanecia.
Sua
força nunca esteve na popularidade de massas. Estava na capacidade de
articular, construir relações, ocupar espaços estratégicos e se posicionar
próximo aos centros de decisão. Era o político que parecia inquebrantável.
Entretanto,
os acontecimentos envolvendo o escândalo do Banco Master colocaram essa imagem
sob forte pressão. A Polícia Federal encontrou nos celulares apreendidos de
Vorcaro indícios de uma relação imprópria entre o senador e o banqueiro,
controlador da instituição financeira e centro nervoso do escândalo
BolsoMaster. As investigações apontam suspeitas de vantagens financeiras e
atuação política em favor de interesses privados, acusações que Ciro Nogueira
nega; defesa, contudo, que fica mais difícil a cada sigilo levantado pelo
ministro André Mendonça.
Independentemente
do desfecho judicial, o dano político já é evidente. O senador que durante
décadas cultivou a imagem de articulador eficiente passou a ser associado a um
dos maiores escândalos financeiros e políticos do país. O personagem que
parecia dominar o tabuleiro agora se vê obrigado a jogar na defensiva. Ciro, se
transforma em pequeno.
É
justamente aí que a comparação histórica se torna interessante. O problema de
quem permanece muito tempo próximo ao poder é começar a acreditar que controla
todas as variáveis. A proximidade com empresários influentes, bancos poderosos
e grupos econômicos costuma parecer uma demonstração de força. Muitas vezes,
porém, transforma-se em dependência. E dependência é uma forma silenciosa de
fragilidade.
Ciro, o
Grande, descobriu que até os maiores impérios encontram fronteiras. Ciro
Nogueira se vê apresentado à possibilidade de descobrir que a habilidade
política também possui limites. A diferença é que, na democracia, as batalhas
não são travadas em campos militares, mas nos tribunais, nas instituições e na
opinião pública.
A
história raramente se repete de forma literal. Mas frequentemente rima. E uma
de suas rimas mais constantes é que a ascensão costuma ser construída pela
inteligência; a queda, muitas vezes, nasce da convicção de que se está acima
das consequências. Na política, a soberba é o atalho para a desgraça.
• Familiares, servidores e dinheiro vivo
ocultavam pagamentos de Vorcaro a Ciro Nogueira
A
Polícia Federal aponta que uma estrutura empresarial ligada ao senador Ciro
Nogueira (PP-PI) teria usado familiares, servidores públicos, beneficiários de
programas sociais e movimentações em dinheiro vivo para ocultar recursos
considerados ilícitos, parte deles supostamente relacionada ao ex-dono do Banco
Master, Daniel Vorcaro, e a uma mesada paga ao parlamentar, informa a Folha de
São Paulo.
A
suspeita aparece em uma análise feita por investigadores a partir de Relatórios
de Inteligência Financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades
Financeiras). Os documentos descrevem movimentações de um grupo vinculado ao
clã de Ciro Nogueira, com atuação no Piauí e no Maranhão, e apontam a
existência de um “circuito integrado” entre empresas das famílias Nogueira e
Vorcaro.
No
centro da apuração estão a CNLF, ligada ao senador, e a BRGD, controlada por
Vorcaro e seus parentes. De acordo com a PF, esse fluxo financeiro teria
viabilizado o pagamento de ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025, período que
coincide com o agravamento da crise no Banco Master e com tentativas de
preservar os negócios do ex-banqueiro.
A
investigação aponta uma possível estratégia de lavagem de dinheiro estruturada
por meio de empresas familiares, circulação de valores dentro do próprio grupo
econômico, uso de numerário em espécie e interposição de terceiros. Para os
investigadores, esses mecanismos teriam servido para ocultar, dissimular e
reinserir valores de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira
formal dos envolvidos.
A PF
afirma que as estruturas analisadas não funcionavam de maneira isolada. Segundo
o relatório, elas operavam “de modo articulado, por meio de empresas do núcleo
familiar, circulação intragrupo, uso intensivo de numerário [dinheiro] em
espécie e interposição de terceiros, inclusive agentes públicos”. A conclusão
dos investigadores é que Ciro Nogueira aparece como possível beneficiário final
do esquema.
A Folha
de São Paulo informa que procurou a assessoria de imprensa de Ciro Nogueira no
fim da tarde de terça-feira (16), mas não recebeu resposta até a publicação do
texto. A defesa de Daniel Vorcaro também foi contatada por e-mail e WhatsApp,
sem retorno até aquele momento.
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Relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro é investigada
As
investigações já teriam identificado diferentes indícios de proximidade entre
Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro. Entre os elementos citados estão o pagamento de
diárias em hotéis de luxo em Nova York e na Europa, viagens conjuntas e
repasses em dinheiro vivo. Segundo a PF, Vorcaro também se referia ao senador
como “grande amigo de vida”.
De
acordo com os investigadores, os recursos chegariam ao grupo ligado a Ciro por
meio da BRGD, administrada por Felipe Vorcaro, primo de Daniel. A movimentação
teria ocorrido com o uso da fintech PJBank. No período analisado, entre 2020 e
2025, a fintech teria enviado R$ 3 milhões ao grupo do senador, embora, segundo
a PF, não tivesse autorização do Banco Central para esse tipo de transação.
A Folha
de São Paulo informou que também buscou a assessoria de imprensa da instituição
financeira na noite de terça-feira (16), mas não obteve resposta até a
publicação da reportagem.
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Empresas do clã Nogueira teriam recebido e redistribuído valores
Após a
entrada dos recursos, a PF afirma que duas empresas da família Nogueira teriam
papel central no suposto esquema: a CNLF e a CN Motos, que atua no comércio de
motocicletas. A primeira tem como sócios o senador e quatro familiares. A
segunda reúne Ciro Nogueira e mais dois sócios.
Na
avaliação dos investigadores, essas empresas teriam recebido valores ilícitos,
misturado os recursos a receitas consideradas legítimas e, posteriormente,
redistribuído o dinheiro dentro da estrutura familiar e empresarial vinculada
ao senador.
A PF
destaca que relatórios do Coaf citam especificamente Ciro Nogueira e somam,
segundo levantamento da reportagem, mais de R$ 13 milhões em movimentações
financeiras suspeitas dentro da rede investigada.
“Em
síntese”, afirma a PF, os dados indicariam um “circuito integrado” envolvendo
aportes feitos pela BRGD, pagamentos via PJBank, dinheiro em espécie e
posterior passagem dos valores pelas empresas ligadas ao clã do senador. A
investigação sustenta que as companhias misturavam os recursos com dinheiro
lícito e promoviam a “redistribuição de valores dentro do grupo
familiar/econômico, tendo Ciro Nogueira como possível beneficiário final”.
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Depósitos em espécie e servidores públicos entram no foco da PF
No caso
da CN Motos, os investigadores apontam que um funcionário chamado Bernardo
realizou R$ 3,5 milhões em depósitos em espécie para a empresa. Segundo a PF,
essas operações ocorreram em períodos próximos a transferências posteriores da
companhia para a pessoa física do senador.
Os
registros do Coaf também indicam que a empresa de venda de motocicletas recebeu
ao menos R$ 1,2 milhão de servidores públicos com atuação no Piauí, no Maranhão
e em estruturas da União.
Para a
PF, esse tipo de movimentação sugere o uso de terceiros para reduzir a
exposição direta do agente político investigado. “Esse padrão indica possível
utilização de terceiros como instrumento de ocultação do real beneficiário das
despesas e dos fluxos financeiros, reduzindo a exposição direta do agente
político principal”, afirmam os investigadores.
A
investigação também chama atenção para o perfil financeiro de algumas pessoas
envolvidas nas transações. Parte delas teria baixa renda formal e, em
determinados casos, teria recebido benefícios de programas sociais do governo
federal, o que levou a PF a levantar a hipótese de uso de laranjas.
Um dos
casos citados envolve uma pessoa que recebia R$ 2.000 por mês, mas transferiu
R$ 90 mil para a CN Motos em um ano. Outro exemplo mencionado pela investigação
é o de alguém que recebeu auxílio emergencial durante a pandemia de Covid-19 e,
no mesmo intervalo de tempo, pagou R$ 143 mil à empresa.
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Transações com empresa de Teresina e deputado também são citadas
No
sentido inverso do fluxo financeiro, a CN Motos repassou R$ 412 mil a uma
pequena empresa localizada em Teresina, capital do Piauí. A companhia tem
capital social de R$ 20 mil e uma única sócia, funcionária da Assembleia
Legislativa do estado, com salário atualmente em torno de R$ 4.000.
A PF
também identificou transações envolvendo parlamentares. Entre elas está um
pagamento de R$ 357 mil feito pelo deputado federal Jadyel Alencar
(Republicanos-PI) à CN Motos. Procurado pela reportagem, ele afirmou que o
valor corresponde a parte da compra de um avião.
A
apuração da PF, baseada nos relatórios do Coaf, sustenta que os indícios
reunidos apontam para uma engrenagem financeira voltada à ocultação e
circulação de recursos entre empresas, familiares e terceiros, tendo como
possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira.
• Mesadas de Vorcaro a Ciro Nogueira somam
R$ 6 milhões, diz PF
As
investigações da Polícia Federal (PF) sobre o escândalo do Banco Master apontam
que uma empresa ligada ao senador e presidente nacional do Progressistas (PP),
Ciro Nogueira (PI), recebeu ao menos R$ 6 milhões em repasses atribuídos ao
ex-banqueiro Daniel Vorcaro dono da instituição financeira, entre junho de 2024
e agosto de 2025. As informações são do SBT News.
Segundo
relatório da PF enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André
Mendonça, relator do caso na Corte, os pagamentos teriam ocorrido de forma
periódica, variando entre R$ 300 mil e R$ 500 mil por mês. Os investigadores
apuram se os repasses estavam relacionados a ações políticas e legislativas que
poderiam beneficiar interesses do Banco Master no Congresso Nacional.
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Mensagens apontam relação próxima
De
acordo com a investigação, mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro
indicam uma relação próxima entre o empresário e o senador. Em uma das
conversas, Ciro Nogueira afirma ser “um dos seus maiores” amigos e diz estar
“com saudades” e “às ordens” do então controlador do Banco Master.
A PF
destaca que diálogos trocados entre Daniel Vorcaro e seu primo Felipe Vorcaro
apontam conhecimento e autorização dos pagamentos. Em trecho reproduzido no
relatório, os investigadores afirmam que os registros demonstram “ciência,
anuência e prioridade atribuída por Vorcaro à manutenção desses repasses, os
quais, no intervalo temporal identificado, totalizam montante mínimo estimado
em R$ 6.000.000,00”.
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Pagamento em espécie é citado pela investigação
Outro
conjunto de mensagens analisado pela Polícia Federal envolve Fabiano Zettel,
cunhado de Vorcaro e apontado pelos investigadores como operador financeiro do
esquema.
Em uma
das conversas, Daniel Vorcaro escreve: “Resolve Ciro (...). Manda agora lá”. Na
sequência, Zettel encaminha uma lista de pagamentos contendo a descrição: “Nota
Ciro mais imposto 2. Espécie Ciro 350k”.
Segundo
a PF, a anotação sugere que um pagamento de R$ 350 mil em dinheiro vivo teria
como destinatário uma pessoa identificada como “Ciro”. Os investigadores
consideram que o contexto da troca de mensagens reforça a suspeita de que a
referência seja ao senador.
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Negócio empresarial também é alvo de apuração
A
investigação também analisa a aquisição de 30% da Green Energia Fundo de
Investimento por uma empresa ligada a Ciro Nogueira.
De
acordo com a PF, a participação teria sido comprada por R$ 1 milhão, embora o
valor de mercado estimado para a operação fosse de aproximadamente R$ 12
milhões. Os investigadores apuram ainda a utilização de um suposto “contrato de
gaveta” para formalizar o negócio.
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Suposto favorecimento ao Banco Master
No
relatório, a Polícia Federal aponta indícios de que os pagamentos teriam sido
acompanhados de iniciativas legislativas favoráveis ao Banco Master. Entre os
episódios citados está uma proposta que previa elevar a cobertura do Fundo
Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Conhecida
nos bastidores como “Emenda Master”, a medida teria sido elaborada por um
funcionário do banco, entregue na residência do senador em 13 de agosto de 2024
e protocolada horas depois, segundo os investigadores.
A PF
também menciona outros projetos de lei que teriam sido encaminhados por
representantes ligados a Vorcaro ao gabinete de Ciro Nogueira. Mensagens
apreendidas mostram que o empresário teria solicitado a troca de um envelope
identificado com a marca do Banco Master por outro sem identificação antes da
entrega do material.
Segundo
a reportagem, Ciro Nogueira não se manifestou sobre as acusações e os elementos
apresentados pela investigação.
Fonte:
Brasil 247

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