sábado, 22 de março de 2025

Documento da CIA revela que presidente da Câmara falou com embaixador americano 6 meses antes do golpe de 1964

Um documento ultrassecreto de novembro de 1963 revela que o então presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, contou ao embaixador americano, Lincoln Gordon, estar "profundamente desconfiado" das intenções do presidente João Goulart em relação ao futuro do Brasil. O arquivo, que tinha censura no trecho da conversa entre o embaixador e Mazzilli, teve seu conteúdo totalmente liberado pela primeira vez em 62 anos na terça-feira (18). 

O diálogo entre o deputado brasileiro e o diplomata americano ocorreu seis meses antes do golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o governo Goulart. À época, o presidente da Câmara era o primeiro na linha sucessória da Presidência da República.

O arquivo está entre os mais de 2 mil documentos sobre a investigação do assassinato do presidente americano John F. Kennedy, publicados na terça-feira (18). O material inclui relatórios de diversos órgãos americanos, como a CIA e o FBI.

As informações constam no "Checklist de Inteligência do Presidente", um boletim ultrassecreto enviado ao então presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, em 26 de novembro de 1963 — quatro dias após o assassinato de Kennedy.

Esse documento foi liberado ao público pelo governo americano pela primeira vez em 2018, mas com vários trechos censurados, incluindo a conversa entre Mazzini e o embaixador Gordon. A versão divulgada na terça-feira traz o boletim na íntegra.

Segundo o arquivo, a CIA alertava que o Brasil vivia um cenário de instabilidade política e poderia passar por um golpe de Estado.

Os americanos temiam que Goulart instaurasse um regime autoritário e buscasse alianças com países comunistas, como Cuba e União Soviética. Outros arquivos sugerem que conselheiros norte-americanos pareciam preferir um golpe militar, já que Goulart se recusava a "limpar a casa" para se livrar de comunistas.

Segundo o relatório da CIA, Mazzilli relatou sua preocupação com a condução política do país durante a reunião com Gordon.

"Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados e próximo na linha sucessória para a presidência, disse ao embaixador Gordon no sábado que desconfia profundamente das intenções de Goulart", diz o documento.

Seis meses depois do encontro entre o embaixador Gordon e o presidente da Câmara, os militares derrubaram o governo Goulart. Mazzilli assumiu a presidência provisoriamente por duas semanas, até a posse do general Castelo Branco. Ele seguiu como deputado federal por São Paulo até 1967 e morreu em 1975.

Em entrevista ao Jornal Nacional em 2014, o historiador da UFRJ Carlos Fico afirmou que arquivos do governo americano revelados anteriormente mostram que Gordon conduziu esforços para derrubar o governo Goulart.

"Gordon teve uma importância muito grande no convencimento do Departamento de Estado [dos EUA] da tese segundo a qual João Goulart daria um golpe ou criaria uma República Sindicalista. E por ser um personagem politicamente frágil, os comunistas tomariam conta desta República Sindicalista", afirmou.

Felipe Loureiro, professor de Relações Internacionais da USP, explica que o principal objetivo dos Estados Unidos no Brasil, à época, era estratégico e voltado à segurança nacional norte-americana.

"Havia um temor por parte de Washington de que o governo Goulart pudesse criar condições para uma crescente esquerdização do país", diz o professor.

"Não se tratava, necessariamente, de uma transição imediata para o bloco comunista, mas sim de um processo gradual que, ao longo do tempo, poderia aproximar o Brasil de países comunistas ou, pelo menos, de nações neutras no contexto da Guerra Fria."

·        'Mundo da fantasia'

O documento ultrassecreto mostra que a CIA tinha uma base de operação no Brasil. Outros arquivos sugerem que funcionários da agência atuavam no Rio de Janeiro, além de São Paulo, Brasília, Recife e Porto Alegre.

Com base em informações sobre a política brasileira, a agência comunicou ao governo dos EUA que Goulart poderia estar planejando um golpe para assumir controle total do poder. No entanto, os agentes acreditavam que essa medida poderia fracassar.

"Nossa estação no Brasil acredita que Goulart está vivendo em um mundo de fantasia. Ele parece estar desconectado da realidade ou muito mal informado. A opinião pública não está com ele, e a tradição de que o poder político só deve ser transferido constitucionalmente é muito forte no exército", afirma o documento.

Ainda segundo o boletim, alguns opositores estavam conspirando para derrubar o governo Goulart. No entanto, o movimento perdeu força após não receber o apoio do general Pery Bevilacqua, que comandava o 2º Exército — atual Comando Militar do Sudeste.

Os americanos classificaram Bevilacqua como um "ponto de discórdia", afirmando que ele poderia perder o cargo. De fato, no fim de 1963, o general foi transferido para o comando do Estado-Maior das Forças Armadas.

Ao longo da história, Bevilacqua ficou conhecido por ser um militar legalista, já que se opôs ao golpe militar de 1964 e tentou convencer João Goulart a adotar uma postura diferente para garantir a continuidade da democracia no Brasil.

¨      Conselheiros de Kennedy pareciam preferir golpe militar no Brasil, aponta documento da CIA

Cerca de 1 ano antes do início da ditadura no Brasil, um documento da Agência Central de Inteligência americana (CIA, em inglês) apontava que conselheiros do presidente americano John F. Kennedy estavam preocupados com a situação do país durante o governo de João Goulart e pareciam preferir um golpe militar.

João Goulart, também conhecido como Jango, assumiu a Presidência no Brasil após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e teve seu governo interrompido pelo golpe de 1964.

O memorando, divulgado na terça-feira (18), faz parte de um conjunto de mais de dois mil documentos secretos relativos à investigação da morte do ex-presidente dos EUA, John F. Kennedy. A liberação dos arquivos foi autorizada pelo presidente Donald Trump em janeiro deste ano. Os documentos envolvem relatórios de diversos órgãos americanos, como a CIA.

O Brasil é mencionado em alguns arquivos no contexto da Guerra Fria e da influência de China e Cuba na América Latina. 

>>>>> Confira a seguir algumas menções:

<><> Brizola recusa de ajuda de China e Cuba

Um dos arquivos afirma que o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, negou apoio oferecido por Cuba e China em agosto de 1961.

  • O documento é um telegrama da CIA e cita que Brizola liderava os esforços para garantir que João Goulart assumisse a presidência após a renúncia de Jânio Quadros.
  • Segundo o telegrama, Fidel Castro e Mao Tse-Tung ofereceram apoio material, incluindo “voluntários”, a Brizola.
  • O governador negou a ajuda, temendo uma crise nas relações internacionais do Brasil e uma intervenção dos Estados Unidos. Brizola morreu em 2004, aos 82 anos.

<><> "Projeto Cuba"

Um arquivo de janeiro de 1962 detalha as ações da CIA para sabotar o governo cubano. 

  • Segundo o documento, em fevereiro daquele ano, os EUA iniciariam uma operação para dar largada a um movimento de resistência organizado em Cuba.
  • Ao mesmo tempo, a CIA afirma que tinha “em mãos” propaganda e ações políticas em andamento em países do Caribe e da América Latina.
  • As ações de propaganda foram feitas para dar apoio aos esforços da CIA em conter a influência de Cuba em países americanos.
  • Segundo o documento, “demonstrações em massa” foram feitas no Brasil, além de Argentina, Bolívia, Chile, Uruguai e outros países da região.

<><> Ações de Cuba no Brasil

Um relatório da CIA de julho de 1964, após o golpe militar no Brasil, afirma que os cubanos estavam tentando influenciar outros países da América Latina. 

  • O documento cita um discurso de Fidel Castro de 1963, no qual ele diz que Cuba era a maior fonte de inspiração para revoluções na América Latina.
  • No entanto, segundo a CIA, os esforços de Cuba falharam várias vezes, sendo a derrubada do governo de João Goulart no Brasil uma “dura derrota” para Havana.
  • Ainda assim, o relatório cita que o governo cubano continuou promovendo, financiando e dando apoio para grupos dentro de países latino-americanos, incluindo Brasil, Argentina e Chile.

<><> Diplomatas brasileiros

Um documento datado de novembro de 1962 sugere que a CIA usou dois diplomatas brasileiros para fazer comunicação entre dois agentes.

  • Segundo o documento, cartas eram enviadas em uma bolsa de Miami para Havana e vice-versa, com informações de inteligência.
  • As duas cidades, segundo o documento, tinham missões diplomáticas do Brasil.
  • O arquivo cita que os brasileiros provavelmente não enviavam informações de espionagem.
  • Por outro lado, os diplomatas poderiam contribuir transportando outros itens, como mapas e até dinheiro dentro de latas.

<><> Operações de propaganda

Um memorando de dezembro de 1963 revela que os Estados Unidos planejavam ações de influência na América Latina para conter o avanço de grupos alinhados a Cuba.

  • O documento cita uma reunião de um subcomitê do governo americano para discutir estratégias contra a presença comunista na região.
  • Entre as medidas mencionadas, está o uso de campanhas para influenciar a opinião pública em países latino-americanos, incluindo o Brasil.
  • Um dos focos era um encontro da Federação Sindical Unificada para a América Latina, previsto para 1964 no Rio de Janeiro. Segundo o documento, os EUA buscavam enfraquecer o evento, temendo que ele fortalecesse a atuação de sindicatos alinhados a Cuba e à China.
  • O relatório sugere que a CIA realizaria campanhas de propaganda no Brasil, espalhando informações sobre condições de trabalho na China e em Cuba para forçar o adiamento da reunião. Além disso, o embaixador dos EUA deveria avaliar possíveis ações de grupos locais contra o encontro.

<><> 'Golpe militar é preferível'

O texto relata uma reunião realizada em 15 de abril de 1963 sobre "operações eleitorais" em países da América Latina, entre o vice-diretor da CIA, Richard Helms, o diretor-executivo J. Patrick Coyne e os consultores de inteligência estrangeira do governo americano, Robert Murphy e Gordon Gray.

Segundo o documento da CIA, Murphy disse no encontro que estava particularmente preocupado com a situação do Brasil, e os conselheiros questionaram por que os EUA continuavam dando apoio financeiro ao país enquanto João Goulart se recusava a se livrar da presença de comunistas.

“Os conselheiros do presidente americano John Kennedy acharam difícil entender por que o Departamento de Estado continuava a fornecer assistência econômica em larga escala, quando Goulart, até o momento, havia se recusado a limpar a casa de comunistas”, diz o documento.

Murphy e Gray ainda se mostraram interessados em saber como estava o contato da CIA com lideranças militares brasileiras que faziam oposição a João Goulart e, segundo o relato do memorando, pareciam preferir um golpe no Brasil.

“[Conselheiros do presidente americano John Kennedy] pareciam considerar que um golpe militar, em algum momento, poderia ser preferível a permitir que um país tão grande e poderoso como o Brasil caísse nas mãos da oposição”, escreveu Helms.

João Goulart assumiu a Presidência do Brasil em agosto de 1961, após Jânio Quadros renunciar. Jango estava fora do país e tomou posse quando voltou da China, 13 dias depois, enfrentando forte resistência. Ele foi presidente até 31 de abril de 1964, quando foi derrubado pelo Golpe Militar.

<><> Brizola recusou ajuda de Cuba e China

Um outro trecho do arquivo afirma que o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, negou apoio oferecido por Cuba e China em agosto de 1961. .

O documento é um telegrama da CIA e cita que Brizola liderava os esforços para garantir que João Goulart assumisse a presidência após a renúncia de Jânio Quadros.

Segundo o telegrama, Fidel Castro e Mao Tse-Tung ofereceram apoio material, incluindo “voluntários”, a Brizola.

O governador negou a ajuda, temendo uma crise nas relações internacionais do Brasil e uma intervenção dos Estados Unidos.

<><> Assassinato de John Kennedy

Nesta terça, o governo dos Estados Unidos liberou uma série de documentos sobre o assassinato do ex-presidente John F. Kennedy. De acordo o presidente Donald Trump, mais de 60 mil páginas relacionadas ao caso se tornaram públicas.

Os documentos foram disponibilizados no site dos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos. Parte deles cita o Brasil.

Em janeiro, Trump anunciou que iria retirar o sigilo sobre as investigações do assassinato de Kennedy, que foi morto em 22 de novembro de 1963, enquanto ainda era presidente dos EUA. À época, ele foi baleado enquanto sua comitiva passava de carro pelo centro de Dallas, no Texas.

¨      FBI usava maridos de funcionárias do consulado como informantes

Documentos confidenciais do Departamento Federal de Investigação americano (FBI) mostram que, durante os anos 1960, os Estados Unidos mantiveram pelo menos três informantes dentro de escritórios da diplomacia brasileira.

Um memorando do FBI revela que o governo americano recrutava maridos de funcionárias estrangeiras como informantes. Entre eles, havia um esposo de uma funcionária do consulado brasileiro em Nova York.

O número de informantes aparece em uma tabela que está em um dos milhares de documentos que vieram a público nesta semana relativos à investigação da morte do ex-presidente dos EUA, John F. Kennedy. A liberação dos arquivos foi autorizada pelo presidente Donald Trump em janeiro deste ano. Os documentos envolvem relatórios de diversos órgãos americanos, como a CIA e o FBI.

Segundo o documento, um dos informantes atuava como intermediário entre agentes do FBI e a esposa, repassando informações para os agentes americanos e evitando que tivessem contato direto com a mulher.

Além dele, pelo menos dois outros informantes estavam ativos na Embaixada do Brasil em Washington, D.C, a capital americana. Nos relatórios do departamento, eles eram classificados como “fontes desenvolvidas”. O FBI também estava investigando e avaliando oito funcionários para decidir se tentaria cooptá-los.

A operação foi autorizada pelo Departamento de Estado, com o objetivo de monitorar os movimentos políticos do Brasil em um período de instabilidade política no país e no cenário internacional. A cada operação, o FBI produzia relatórios com justificativas e formalização do pedido para executar suas operações, já que temiam que a abordagem de funcionários da embaixada interferisse na política externa americana.

Os documentos analisados pelo g1 mostram que o programa de desenvolvimento de fontes em endereços ligados a “países aliados” dos EUA teria começado em 1954 e foi intensificado entre 1955 e 1958.

De acordo com documento de setembro de 1958, diretor do FBI pediu ao Departamento de Estado autorização para buscar informantes na diplomacia brasileira. No pedido, ele alega que há forte presença do Partido Comunista no Brasil e que relatórios apontavam um "forte sentimento a favor do aumento das atividades comerciais entre o Brasil e a Rússia”.

“Esta solicitação está sendo feita em vista da existência de um forte Partido Comunista no Brasil e da ausência de relações diplomáticas entre o Brasil e a URSS. Parece provável que a cidade de Nova York seja um local lógico para contatos entre brasileiros pró-comunistas e oficiais russos. Além disso, relatórios nos últimos meses indicaram que há um forte sentimento a favor do aumento das atividades comerciais entre o Brasil e a Rússia”, diz o documento.

Ainda de acordo com os arquivos, o Escritório de Campo de Washington do FBI (WFO, na sigla em inglês), o Brasil “poderia facilmente alinhar-se com o bloco de países soviéticos e, assim, criar uma situação internacional que afetasse os Estados Unidos”.

“Pelo exposto, parece que devemos tentar nos colocar em uma posição para obter dados de inteligência atualizados sobre o Brasil", diz um dos documentos.

 

Fonte: g1

 

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