A Luta das Mulheres Brasileiras
pelo Direito ao Voto
A virada do século XIX para o XX representou um período
de profundas transformações na sociedade brasileira. O fim do regime monárquico
e o estabelecimento da república trouxeram consigo não apenas mudanças
institucionais, mas também significativas alterações nas relações sociais e de
trabalho. A industrialização nascente, ainda que incipiente, começava a
modificar a paisagem urbana, especialmente nas principais cidades do país. Este
processo, marcado por contradições e ambiguidades, criou novas dinâmicas
sociais nas quais as mulheres, gradualmente, passaram a ocupar espaços para
além da esfera doméstica, reivindicando não apenas melhores condições de
trabalho, mas também direitos políticos.
O processo de urbanização e industrialização trouxe
consigo novas formas de organização social e política. As mulheres, que
tradicionalmente ocupavam espaços domésticos, começaram a integrar de forma
mais expressiva o mercado de trabalho formal, principalmente nas indústrias
têxteis. Essa inserção no mundo do trabalho fabril representou não apenas uma
mudança econômica, mas também social e política. Nas fábricas, as mulheres
compartilhavam experiências de exploração e precariedade, desenvolvendo
gradualmente uma consciência coletiva que extrapolava as questões estritamente
trabalhistas, abarcando também demandas por reconhecimento e participação
política.
No contexto da Primeira República, o sistema político
brasileiro caracterizava-se por seu caráter excludente. A Constituição de 1891,
embora proclamasse princípios liberais, mantinha uma significativa parcela da
população à margem do processo político. As mulheres, mesmo aquelas que
contribuíam economicamente para a sociedade através de seu trabalho,
permaneciam privadas do direito ao voto. Este paradoxo refletia as contradições
de um regime que se pretendia democrático, mas que reproduzia estruturas
profundamente hierárquicas e excludentes, negando a cidadania plena a mais da
metade da população.
O início do século XX, testemunhou o surgimento de
diversos movimentos sociais que questionavam as estruturas políticas vigentes.
Entre estes, o movimento sufragista feminino começou a ganhar força,
inicialmente nos centros urbanos mais desenvolvidos, como Rio de Janeiro e São
Paulo. As primeiras manifestações organizadas datam da primeira década do século,
coincidindo com o período de intensificação da industrialização brasileira.
Esse não foi um movimento isolado, mas parte de um contexto mais amplo de
transformações sociais e econômicas que reconfiguravam as relações de classe e
gênero na sociedade brasileira.
As operárias das fábricas têxteis, que representavam
significativa parcela da força de trabalho feminina urbana, vivenciavam uma
dupla exclusão: além das precárias condições de trabalho, eram privadas de
direitos políticos fundamentais. Essa situação contribuiu para a formação de
uma consciência política entre as trabalhadoras, que começaram a se organizar
em associações e sindicatos. A experiência cotidiana nas fábricas, marcada pela
exploração e por jornadas extenuantes, fornecia o substrato material para o
questionamento da ordem vigente e para a reivindicação de direitos, incluindo o
direito ao voto.
O movimento pelo sufrágio feminino no Brasil,
diferentemente de outros países, não se caracterizou por manifestações
violentas ou confrontos diretos com as autoridades. A estratégia adotada
priorizou a argumentação jurídica e a pressão política institucional, embora
não descartasse manifestações públicas e ações de propaganda. Esta
característica refletia a composição social heterogênea do movimento, que
congregava desde operárias têxteis até mulheres da elite intelectual, cada
grupo trazendo suas experiências e perspectivas particulares para a luta comum
pelo reconhecimento político.
Como aponta a historiadora June E. Hahner em sua
obra A
Mulher Brasileira e suas Lutas Sociais e Políticas: 1850-1937, o movimento
sufragista no Brasil emergiu em um contexto de profundas desigualdades sociais,
apresentando características distintas dos movimentos europeu e
norte-americano. Segundo Hahner, “embora influenciado pelos movimentos
internacionais, o feminismo brasileiro desenvolveu características próprias,
resultantes das particularidades sociais, econômicas e culturais do país”
(Hahner 1981, p. 87). O movimento brasileiro teve que lidar com a intersecção
entre gênero e classe social, criando estratégias que pudessem conciliar as
demandas de grupos sociais diversos.
No contexto de lutas mais disruptivas pelo sufrágio
feminino, a professora Leolinda de Figueiredo Daltro representou uma vertente
mais radical do movimento sufragista brasileiro, destacando-se por suas
abordagens que desafiavam diretamente as convenções sociais da época.
Diferentemente de outras lideranças que privilegiavam estratégias mais
conciliatórias, Daltro não hesitava em organizar manifestações públicas,
marchas e demonstrações que conferiam visibilidade inédita à causa sufragista
nas ruas da capital federal. “Daltro adotou estratégias de visibilidade pública
que desafiavam as convenções de gênero da época, como a organização de marchas
e demonstrações públicas” (Besse 1996, p. 154-155), analisa Susan K. Besse em
seu estudo Restructuring
Patriarchy: The Modernization of Gender Inequality in Brazil, 1914-1940. A fundação do
Partido Republicano Feminino em 1910, marca um momento crucial na organização
política das mulheres brasileiras, demonstrando a determinação em ocupar
espaços tradicionalmente masculinos e estabelecendo um precedente significativo
para a participação feminina formal na política institucional, mesmo antes do
reconhecimento oficial do direito ao voto.
O deputado socialista Maurício de Lacerda emergiu como
figura crucial para o avanço da causa sufragista nos espaços formais da
política brasileira, representando uma importante ponte entre o movimento
social e o poder legislativo. Em um ambiente político exclusivamente masculino,
sua disposição para defender o direito de voto às mulheres adquiriu significado
especial, pois dava legitimidade institucional às demandas feministas. “A
presença de aliados masculinos nos espaços de poder formal foi essencial para
dar visibilidade às demandas femininas em um ambiente político exclusivamente
masculino” (Pinto 2003, p. 28), observa Céli Regina Jardim Pinto em sua
obra Uma
História do Feminismo no Brasil. O projeto de lei apresentado por Lacerda
em 1917, embora arquivado pela Comissão de Constituição e Justiça, representa
um marco simbólico na luta pelo sufrágio feminino, evidenciando as alianças
estratégicas entre o movimento feminista e os setores progressistas da política
institucional. Este episódio ilustra como a luta pelo voto feminino
frequentemente dependia da articulação entre a mobilização social das mulheres
e a atuação de representantes comprometidos com a causa no interior do sistema
político.
A atuação de Bertha Lutz à frente da Federação
Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) distinguiu-se por sua abordagem
estratégica cuidadosamente calculada, caracterizada por um “feminismo tático”,
que priorizava avanços graduais e negociados sobre confrontações diretas com a
ordem estabelecida. Em um contexto social marcado por fortes valores
conservadores, Lutz desenvolveu métodos sofisticados para promover a causa do
sufrágio feminino sem alienar setores influentes da sociedade brasileira,
construindo alianças com figuras políticas, utilizando argumentação jurídica
refinada e mobilizando apoio internacional para legitimar suas demandas. “Lutz
soube articular demandas feministas com valores sociais conservadores, evitando
antagonizar frontalmente setores tradicionais da sociedade brasileira” (Soihet
2006, p. 97), observa Rachel Soihet em sua obra O
Feminismo Tático de Bertha Lutz. Esta abordagem pragmática, embora
criticada por setores mais radicais do movimento que defendiam rupturas mais
profundas com a ordem patriarcal, mostrou-se eficaz no contexto brasileiro,
contribuindo significativamente para a conquista do direito ao voto. A
capacidade de Lutz de navegar habilmente entre diferentes espaços sociais e
políticos, adaptando seu discurso aos diversos interlocutores sem comprometer
os objetivos fundamentais do movimento, constituiu um exemplo notável de
agência política feminina em condições adversas.
O Primeiro Congresso Internacional Feminista de 1922,
realizado nos salões do Automóvel Club do Rio de Janeiro, representou um
momento decisivo na internacionalização da luta pelo sufrágio feminino no
Brasil. Este evento cuidadosamente orquestrado transcendeu o caráter de um
simples encontro acadêmico, constituindo uma sofisticada estratégia política
que buscava elevar o status e a credibilidade do movimento sufragista
brasileiro tanto no cenário doméstico quanto internacional. “O congresso
representou não apenas um momento de articulação internacional da causa
sufragista brasileira, mas também uma estratégia deliberada de conferir
legitimidade e visibilidade ao movimento” (Marques 2016, p. 121), analisa
Teresa Cristina de Novaes Marques em seu estudo “Bertha Lutz e a Construção da
Memória do Sufrágio Feminino no Brasil”. A presença emblemática da reconhecida
sufragista norte-americana Carrie Chapman Catt, que havia recentemente
conquistado o direito de voto para as mulheres nos Estados Unidos, forneceu uma
poderosa legitimação externa às reivindicações das brasileiras, demonstrando
que o movimento local participava de uma transformação política global em
curso.
As campanhas de pressão política organizadas pela
Federação Brasileira pelo Progresso Feminino representaram uma sofisticada
estratégia de atuação que demonstrou notável capacidade organizativa,
especialmente considerando as limitações impostas às mulheres no período. O
abaixo-assinado entregue ao Senado Federal em 1927, contendo aproximadamente 2
mil assinaturas em favor do projeto do senador Justo Chermont sobre o sufrágio
feminino, constituiu um dos momentos mais expressivos dessa mobilização. Tal
documento não apenas pressionava diretamente os parlamentares, mas também
evidenciava publicamente o crescente apoio à causa sufragista entre diversos
segmentos sociais. “Estas ações demonstram a capacidade de mobilização e
articulação política das mulheres brasileiras, mesmo em um contexto de exclusão
formal dos espaços decisórios” (Schpun 1997, p. 204), observa Mônica Raisa
Schpun em seu estudo “Federação Brasileira pelo Progresso Feminino: as
primeiras décadas”. O expressivo número de assinaturas coletadas indicava que o
movimento sufragista já não se restringia aos círculos da elite intelectual
feminina, mas encontrava ressonância em camadas mais amplas da população,
incluindo mulheres trabalhadoras urbanas que viam no direito ao voto uma
possibilidade de influenciar políticas públicas relacionadas a suas condições
de vida e trabalho.
A historiadora Margareth Rago, em Trabalho Feminino e
Sexualidade ,
analisa a importância das greves operárias entre 1917 e 1920 para a politização
das mulheres trabalhadoras. Conforme Rago, “essas mobilizações, embora
centradas em demandas trabalhistas, desenvolveram para a formação de uma
consciência política que incluiu a reivindicação por direitos civis e políticos”
(Rago, 2004, p. 583). A participação das operárias têxteis nessas greves
evidencia a articulação entre as questões de classe e gênero, demonstrando que
a luta pelo sufrágio feminino no Brasil não pode ser controlada de forma
dissociada das lutas trabalhistas.
Maria Lígia Coelho Prado, em seu estudo sobre O Código Eleitoral de
1932 e a Conquista do Voto Feminino, analisa as circunstâncias políticas que
culminaram na promulgação do novo Código Eleitoral pelo governo Vargas. De
acordo com Prado, “a inclusão das mulheres no eleitorado atendia a interesses
estratégicos do governo provisório, que buscava ampliar suas bases de apoio e
projetar uma imagem modernizadora” (Prado 2018, p. 137). Essa análise evidencia
a complexidade do processo histórico, no qual a conquista do sufrágio feminino
resultou não apenas da mobilização das mulheres, mas também de circunstâncias
políticas favoráveis no contexto da Revolução de 1930.
A Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao
poder representaram um momento de inflexão na luta pelo sufrágio feminino. O
novo governo mostrou-se mais receptivo às demandas das sufragistas, culminando
com a promulgação do Código Eleitoral de 1932. Este processo é analisado por
Angela de Castro Gomes em A
Invenção do Trabalhismo, que destaca como “o governo Vargas buscou incorporar
demandas sociais reprimidas durante a Primeira República como estratégia de
legitimação política” (Gomes 2005, p. 176). No caso específico do sufrágio
feminino, a concessão do direito de voto às mulheres alinhava-se ao projeto
varguista de modernização conservadora, que buscava promover mudanças
controladas na estrutura social brasileira.
O decreto do novo Código Eleitoral, publicado em 24 de
fevereiro de 1932, finalmente reconheceu o direito de voto às mulheres
brasileiras, sem restrições relacionadas ao estado civil ou renda. Essa
conquista representou o culminar de décadas de mobilização e luta. Como observa
José Murilo de Carvalho em Cidadania
no Brasil: o longo caminho, “a inclusão das mulheres no eleitorado
brasileiro duplicou, teoricamente, o número de cidadãos com direitos políticos,
representando a mais significativa ampliação do corpo eleitoral na história
republicana até então” (Carvalho 2001, p. 105). No entanto, o autor ressalta
que a conquista formal do direito ao voto não significou a imediata
incorporação massiva das mulheres ao processo político.
A primeira eleição com participação feminina ocorreu em
3 de maio de 1933, para a Assembleia Nacional Constituinte. Sete mulheres se
candidataram pelo Distrito Federal, demonstrando o imediato interesse em ocupar
espaços de representação política. Esse momento histórico é analisado por Dulce
Chaves Pandolfi em Os
Anos 1930: as incertezas do regime, que destaca como “a presença de
candidatas na disputa eleitoral representou uma ruptura simbólica com a
tradição política brasileira, mesmo que nenhuma delas tenha sido eleita”
(Pandolfi 2003, p. 36). Entre as candidatas, Bertha Lutz obteve a maior
votação, tornando-se a primeira suplente do Partido Autonomista, o que
evidencia o reconhecimento de sua liderança no movimento sufragista.
O processo de construção da cidadania feminina no
Brasil, materializado na conquista do direito ao voto, representou não apenas
uma vitória política, mas também uma transformação nas relações de gênero na
sociedade brasileira. Essa conquista não pode ser compreendida isoladamente,
mas como parte de um processo mais amplo de transformações sociais, econômicas
e culturais que caracterizaram o Brasil nas primeiras décadas do século XX. A
participação das mulheres trabalhadoras neste processo foi fundamental,
demonstrando que a luta no Brasil esteve intrinsecamente ligada às questões de
classe e trabalho.
O período entre 1891 e 1934 representa, portanto, um
momento crucial na história da cidadania no Brasil, marcado pela gradual, mas
consistente, ampliação dos direitos políticos. A experiência das mulheres
brasileiras na conquista do direito ao voto revela a complexidade dos processos
de construção da cidadania em sociedades marcadas por profundas desigualdades
sociais. Nesse contexto, a luta pelo sufrágio feminino articulou-se com outras
demandas sociais, como melhores condições de trabalho e acesso à educação,
evidenciando a indissociabilidade entre direitos civis, políticos e sociais.
A conquista do voto feminino em 1932, não representou o
fim da luta pela igualdade de gênero no Brasil, mas estabeleceu um marco
fundamental para o avanço dos direitos das mulheres no país. As desigualdades
de gênero persistiram em diversas esferas da vida social, econômica e política,
demonstrando que a igualdade formal nem sempre se traduz em igualdade
substantiva. No entanto, o reconhecimento do direito ao voto abriu caminho para
novas conquistas e para a crescente participação das mulheres na vida pública
brasileira.
As eleições de 1933 para a Assembleia Constituinte
demonstraram que, apesar da conquista formal do direito ao voto, ainda havia um
longo caminho a percorrer para a efetiva participação política das mulheres
brasileiras. A escassa representação feminina entre os constituintes eleitos
evidenciava os obstáculos estruturais à participação política das mulheres, que
extrapolavam as barreiras legais e incluíam fatores sociais, econômicos e
culturais. Estes desafios persistiriam nas décadas seguintes, moldando as lutas
feministas por representação e participação política.
A história do sufrágio feminino no Brasil revela não
apenas a luta pelo direito ao voto, mas também o processo mais amplo de
construção da cidadania feminina no país. Esse processo, marcado por avanços e
retrocessos, continuou a se desenvolver nas décadas seguintes, refletindo as
transformações da sociedade brasileira e as persistentes desigualdades de
gênero. O legado das pioneiras do movimento sufragista brasileiro continua
relevante para a compreensão dos desafios contemporâneos relacionados à
participação política das mulheres e à construção de uma sociedade
verdadeiramente democrática e igualitária.
Fonte: Por Erik Chiconelli Gomes, no Le Monde

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