Roberto Amaral: A ascensão fascista e o refluxo
das esquerdas
Qualquer leitura dos tempos atuais falará da
ascensão planetária de forças políticas que transitam do autoritarismo puro e
simples a engenhos fascistas, relembrando os processos sociopolíticos das
primeiras décadas do século passado, animados pelas brutais desigualdades
sociais.
Após conquistarem a Itália e a Alemanha,
essas forças engolfaram o mundo na Segunda Guerra Mundial, catástrofe
intermitente que chega aos nossos dias com um novo figurino, novos meios de
expressão e novas nomenclaturas, mas sempre aterrorizante e, mais que nunca,
apontando para desfechos de atrocidade inimaginável, na medida em que
inimaginável é o crescente poder suicida da sociedade humana, mais próxima de
Hobbes do que de Rousseau.
A catástrofe que se aproxima a olhos vistos
pode ser o preço cobrado pelo encontro da crise do capitalismo com a disputa
comercial-militar dos grandes blocos pela hegemonia planetária, presentemente
mais aguda, embora as opções que dividem o mundo não mais girem em torno de
utopias.
Hoje, como sempre, o belicismo é o segundo
momento das crises cíclicas do capitalismo, incapaz de superar os problemas
econômicos e sociais que ele próprio gera, e ainda incapaz de construir uma
alternativa à disputa intra-hegemônica.
O esvaziamento político-econômico da antiga
Europa Ocidental – e, no mesmo embalo, a falência das democracias ditas
liberais – associa-se à acelerada decadência dos EUA (a grande máquina
econômica, política e militar do capitalismo) vis-à-vis à ascensão econômica e
estratégica da Eurásia, sob a liderança de uma China que chega aos nossos dias
como potência econômica, militar e tecnológica.
O Ocidente e o capitalismo se abraçam em uma
crise comum sem retorno, e o caminho que constroem, hoje repetindo o passado, é
o da violência. A reassunção fascista é uma exigência do capitalismo em crise,
e a paranoia é uma necessidade do fascismo.
Se Hegel e Marx estiverem certos, devemos
olhar com muita atenção para a história das primeiras décadas do século
passado, pois, conhecendo bem a tessitura histórico-social do horror que foi a
emergência do fascismo na Europa, talvez possamos reencontrar engenho e arte
para que, não podendo impedir que a história se repita, ao menos possamos
evitar que, nessa segunda vez, ela não nos chegue como uma nova tragédia.
Embora nada nos estimule à crença de que algo que desponta à luz do sol sugira
uma farsa.
O fascismo, claro está, jamais foi um produto
de geração espontânea. Como fato histórico, é fruto do processo social.
Cuidemos dele.
O pano de fundo da ascensão do fascismo no
século passado foi a crise econômica que abalou essencialmente o capitalismo e
a Europa no pós-Primeira Guerra Mundial, cujo clímax se deu com a Grande
Depressão de 1929 e seu rasto de inflação, desindustrialização e desemprego – ingredientes
ativos das crises social e política nas quais se alimentam as propostas
autoritárias.
Na Alemanha, a tudo isso se somou o trauma da
derrota de 1918 e as pesadas penas impostas pelo leonino Tratado de Versalhes
(1919), preparando o terreno para a semeadura do ódio e do medo, insumos
essenciais do fascismo, ao lado da celebração da violência e da morte.
Mussolini e Hitler (deixando a lição para
seus cireneus) souberam explorar a insatisfação das massas diante da
precarização das condições de vida, agravadas pela conivência dos conservadores
e das forças militares, e gáudio da grande indústria bélica, que volta a ser
estimulada pelo trumpismo sem peias.
Breve, breve a União Europeia será um só e
caríssimo barril de pólvora.
A crise econômica pôs em evidência a
incapacidade dos governos sociais-democratas e liberais de enfrentarem o
desafio da crise social e política.
Essa incapacidade se conserva historicamente
e, ano após ano, pavimenta os caminhos por onde transitam as experiências
autoritárias.
Agora mesmo, na história presente da
Alemanha, o fragoroso fracasso do governo do SPD abriu caminho para a ascensão
da direita fascista (AfD). De resto, os governos ditos democráticos, repetindo
erros do passado, não estão conseguindo responder às expectativas das
populações, e o modelo de democracia liberal-ocidental padece seu esgotamento.
O resto não passa de consequência que a
nenhum observador pode surpreender.
Na Alemanha, derrete-se a República de Weimar
quando Hitler é nomeado chanceler pelo presidente Hindenburg, em 1933. De
recuo em recuo, e sempre com medo da reação das massas, o rei Emanuel III
termina por ceder o poder a Mussolini, nomeando-o primeiro-ministro em 1922.
A Itália, apesar de ser uma das potências
vencedoras da guerra, também enfrentava uma crise social e política, agravada
pelo fracasso da monarquia. Com ela sucumbiria a democracia liberal burguesa.
Morria a política, e essa morte, como sempre,
alimentaria os surtos fascistas, protofascistas e autoritários que percorreram
a Europa – Portugal e Espanha se somaram à Alemanha e à Itália na opção
autoritária – e se aninharam no Japão da dinastia Hirohito, nacionalista,
autoritária e militarista.
No Brasil, o autoritarismo chega em 1937 com
a ditadura varguista do Estado Novo, acusada de simpatias com o Reich e, de
início, apoiada pelos integralistas, até pelo menos a intentona de 1938.
O discurso, na Alemanha, na Itália e no Japão
de antanho (e nos EUA de hoje), é a promessa de reconstrução da “grandeza
nacional” e a restauração do poder militar, o que comove tanto as massas quanto
os grandes empresários, que anteveem negócios vultosos. Esses não perderão a
guerra que os EUA já perderam.
Jamais perdem com as guerras, e seus
interesses nunca se confundem com os interesses dos países nos quais atuam ou
dos quais são fornecedores.
A Fiat, como a Olivetti e a Piaggio (Vespa),
fundamentais no esforço de guerra 80 anos atrás, estão no mercado internacional
ao lado das alemãs Volkswagen, Mercedes-Benz, Siemens, BMW e Bayer, todas
presentes em nosso dia a dia.
Mussolini prometia restaurar a ordem,
combater o comunismo e recuperar a grandeza italiana. Hitler acenava com o
Terceiro Reich.
O leitmotiv que empolga a
todos é o retorno aos tempos de glória, que, passados cem anos, Trump
recuperará com o slogan Make America Great Again, o ímã de seu
retorno à presidência, pateticamente entoado pela extrema-direita brasileira,
insuperável em sua viralatice.
Afastando-se de suas fontes, o neofascismo
brasileiro, longe do nacionalismo entoado na Alemanha e na Itália, assumirá sem
receios um programa antinacionalista e de absoluta dependência dos interesses
econômicos, políticos e estratégicos de Washington. Mas retoma a tradição
fascista ao absorver a ideia de que a destruição deve preceder a reconstrução
da sociedade em novas bases.
Em Nova York, pouco antes de tomar posse na
presidência, o capitão declarou: “O Brasil não é um terreno aberto onde nós
pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir
muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer.”
Ou seja, tomar o poder para destruir o
sistema – o objetivo do bolsonarismo com a intentona frustrada de janeiro de
2023. Continuava seguindo os passos de seus epígonos.
Tanto Mussolini quanto Hitler chegaram ao
poder segundo as regras do sistema, que, na primeira oportunidade, destruíram
para construir sobre seus escombros o fascismo.
O fascismo (uma necessidade do capitalismo)
precisa de um grande inimigo, e o fascista precisa odiar e espalhar o medo.
Hitler investiu contra judeus, comunistas e ciganos. Mussolini proclamou os
comunistas inimigos do novo regime. Trump berra contra os imigrantes.
O hitlerismo, por alegadas razões racistas,
econômicas e estratégicas, levou a cabo o expansionismo territorial (Lebensraum) e,
em nome dele, anexou a Áustria, invadiu a Tchecoslováquia e ocupou a Polônia.
Trump – herdeiro ideológico-político do
autocrata que os Aliados lograram derrotar a um custo humano incalculável –
começa seu governo prometendo transformar o Canadá no 51º estado dos EUA e
anexar a Groenlândia, pertencente à Dinamarca.
A ascensão do trumpismo não se deve a um
surto patológico do eleitorado. Ele é o produto de um processo histórico e o
sinal mais evidente da crise política do grande império, finalmente consciente
de sua decadência.
Trump é política e ideologicamente tão
representativo da sociedade norte-americana quanto a apple pie. Como
seus modelos, ele se vê como um semideus e sonha com o trono, o cetro e a coroa
de Rei do Mundo.
Ainda não estamos vacinados contra a expansão
do extremismo de direita, e ela mal foi contida em janeiro de 2023 para, já nas
eleições de 2024, pôr a nu o enraizamento da direita e do neofascismo na
sociedade brasileira.
Não são de lago sereno as vagas que aguardam
a defesa da nossa frágil democracia.
Assustando-nos com as lembranças do passado,
o fato objetivo é que nossos governos, os governos que se colocam à esquerda da
ameaça fascista, a começar pelo governo federal, não estão conseguindo
responder ao desafio histórico, o que pode ajudar a explicar a crise política e
o crescente afastamento de suas bases populares.
A história antecipou no século passado o que
se pode esperar de tal cenário, principalmente quando consideramos as
dificuldades crescentes do governo Lula e o refluxo político e estratégico
daquelas antigas forças políticas identificadas como as esquerdas brasileiras.
¨ Lula manda recado ao
centrão, diz que vai ampliar reforma e que não mira 2026
O
presidente Lula (PT) usou uma reunião de sua nova ministra, Gleisi Hoffmann (PT), com os presidentes da Câmara e do
Senado para mandar um recado a partidos de centro e de centro-direita. O
petista não só avisou, na semana passada, que ampliará as mudanças no governo,
fazendo acenos a esses setores, mas também disse, textualmente, que não fará
trocas de olho na eleição de 2026. "O que eu quero é
governabilidade."
A
conversa foi relatada pelo deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente
da Câmara dos Deputados, e pelo senador Davi
Alcolumbre (União Brasil -AP) a dirigentes de quatro partidos políticos.
"Lula
foi textual, segundo me disseram", relata um presidente de partido da
centro-direita. "Gleisi, inclusive, fez uma intervenção. Disse que, por
ela, a construção de uma chapa eleitoral começaria agora. Mas o presidente foi
claro. Disse que não está pensando em 2026. Que quer governabilidade."
Repassado,
o recado foi assimilado pelo centrão, que respondeu mandando sinais de que não
agirá para atropelar projetos importantes para o governo. "Prejudicar, não
vamos", diz o presidente de um partido alinhado a Bolsonaro.
Lula
faz o gesto ao centrão num momento em que precisa do Congresso para efetivar
propostas importantes, como a que isenta brasileiros que ganham até R$ 5 mil de
pagar imposto de renda.
Fonte: Viomundo/g1
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